LOGIN— Preciso conversar com você.
Sophia prendeu o ar. Nenhuma notícia boa vinha depois daquela frase.
Encarou Ava com um sorriso forçado. A adolescente era a aluna mais talentosa da turma avançada. Se resolvesse se dedicar ao ballet de verdade e fazer aulas extras, poderia ir muito longe na carreira. Sophia planejava dar a ela um solo importante na apresentação de fim de semestre. E talvez o papel principal.
Mas o olhar triste de Ava indicava que os planos seriam frustrados.
— Resolvi sair do ballet depois deste mês.
— Lamento ouvir isso. — Sophia tentou soar compreensiva, mantendo a voz baixa e controlada. — Aconteceu algo que te desagradou?
— Não, pelo contrário, eu adoro as aulas e o estúdio. Não foi uma decisão fácil, mas estou no penúltimo ano do ensino médio e quero me dedicar aos estudos. Meu sonho é ser médica e só vou conseguir entrar em uma universidade de prestígio se tiver um boletim impecável.
— Entendo completamente — assentiu, sorrindo de modo genuíno. — Vamos sentir sua falta por aqui. Você é uma bailarina incrível, Ava, mas está certa em seguir seu sonho.
— Obrigada pela compreensão. Posso te dar um abraço?
— Claro! — Aceitou o abraço já sentindo uma espécie de saudade antecipada.
Quando Ava saiu e a recepção ficou vazia, a professora fechou os olhos e soltou um suspiro frustrado. Agora só restavam três alunas avançadas. O ideal seriam doze, no mínimo. Como organizaria uma boa apresentação de fim de semestre com tão poucas garotas?
Eram sete e cinco da noite. Sophia foi até a porta e virou a placa para FECHADO antes de trancar. Caminhou de forma automática em direção ao vestiário, seus pensamentos agitados, tentando encontrar uma solução para o problema financeiro. Mas, mesmo que, por um milagre, conseguisse salvar o estúdio da falência, precisaria dar um jeito de captar novas alunas.
Como?
Após trocar de roupa e voltar à recepção de mochila nas costas, viu o celular vibrar no balcão.
Uma notificação de Hannah.
“Droga”, pensou. Tinha esquecido que havia marcado de jantar com a amiga. Ao menos, a cafeteria era bem perto e ficava no caminho de seu apartamento.
Mandou uma resposta rápida para confirmar o encontro e saiu.
— — —
O cheiro de café e canela fez Sophia salivar.
Hannah ocupava um lugar ao lado da janela, longe dos outros clientes. Seu cabelo castanho estava preso em um elegante rabo de cavalo, e duas mechas cacheadas emolduravam o rosto corado. A blusa folgada, a legging e os sapatos de corrida denunciavam que ela havia acabado de se exercitar.
Quando viu Sophia, cruzou os braços.
— Vou cobrar multa por atraso.
— Você não faria isso.
— Claro que não. — Sorriu.
Hannah era amiga de Sophia desde os doze anos, quando ainda moravam em Nova Jersey e sonhavam em conquistar o mundo. Não perderam contato nem depois que Sophia se mudou para Paris e Hannah foi fazer faculdade na Califórnia. A vida deu um jeito de reuni-las de novo em Nova York.
— Como está a floricultura? — Sophia perguntou, sentando-se em frente à amiga. — As vendas continuam a todo vapor?
— Vai bem. Felizmente, os nova iorquinos são muito românticos. — Riu. — Como vai o estúdio?
— Na mesma.
— Ainda com poucas alunas? — Seu olhar entristeceu.
— E hoje perdi mais uma.
O garçom se aproximou. Hannah pediu um croissant e café puro enquanto Sophia optou por uma fatia de bolo e cappuccino.
— Mas você está conseguindo manter as contas em dia? — Hannah arqueou a sobrancelha.
— Recebi uma notificação extrajudicial. Se eu não der um jeito de pagar os aluguéis atrasados, vou ser despejada.
Os olhos de Hannah se arregalaram.
— Meu Deus, Sophia…
— O prazo é a próxima quinta.
— Você devia ter me contado antes. Por que não falou nada?
— Você sabe que gosto de resolver tudo sozinha. Não queria te preocupar.
Hannah encostou o corpo na cadeira e fechou os olhos por um instante, como se estivesse assimilando o que tinha acabado de ouvir. Após conferir o celular rapidamente, voltou a encarar a amiga.
— Você não pode ser teimosa nessas horas.
— Pelo menos, tenho uma nova aluna. — Sophia deu de ombros. — Isso me deu esperança de mais meninas se matricularem. O nome dela é Emma.
Hannah balançou a cabeça em afirmativo. Sophia continuou:
— Hoje foi a primeira aula dela, depois da experimental. Começou muito tímida, mas no final já estava entrosada.
— Não me surpreende. Você tem o dom de transformar crianças assustadas em crianças confiantes.
O rosto de Sophia corou de leve. Tinha certa dificuldade de aceitar elogios.
— O pai dela também é legal — comentou.
— Ah… Você mencionou o pai. — Hannah abriu um sorriso sugestivo.
— Claro! — Sophia exclamou, surpresa. — Ele levou a filha…
— Estou apenas fazendo uma observação.
— Besta, não tem nada a ver. — Sorriu, envergonhada. — Ele deve ser casado.
— Que homem casado leva a filha ao ballet? Geralmente são as mães que fazem isso.
— Talvez a mãe não tenha tempo.
— Não sei não… — Hannah riu. — Aliás, faz quantos séculos que você está solteira?
— Dois anos nem é tanto tempo assim — argumentou.
— Por que não baixa um aplicativo de namoro? Você merece se distrair.
O garçom trouxe os pedidos e se afastou.
Sophia percebeu que estava faminta ao dar o primeiro gole no cappuccino. Deixou o silêncio preencher a mesa por um momento, enquanto comia um pouco de bolo. Precisaria de no mínimo mais uma fatia para ficar satisfeita.
— Não estou com cabeça para encontros, sinceramente.
— Acho que você deveria tentar. Uns beijinhos nunca fizeram mal a ninguém.
O coração de Sophia pulou uma batida quando um homem e uma menina passaram por ela, dirigindo-se à mesa ao lado.
Nathan e Emma.
Nathan entrou no carro, mas não girou a ignição.Observou o prédio da escola de ballet por um momento, sorrindo sozinho. O que Sophia estava fazendo com ele? Não era um homem melancólico, mas também não costumava sorrir tanto assim. E, honestamente, estava gostando muito de se sentir mais leve depois de dois anos enfrentando um luto que parecia não ter fim. Era como se pudesse finalmente tentar viver de novo.Nunca ia desrespeitar ou apagar a memória de Georgia.Mas começava a entender que merecia ser feliz ao lado de alguém especial.E talvez essa pessoa pudesse ser Sophia.No entanto, tentou deixar o pensamento de lado. Não podia prever o futuro, por mais que tivesse suas intuições. Queria mesmo ir com calma. Tinha medo de se machucar e mais medo ainda de acabar machucando Sophia. Não se perdoaria se a fizesse chorar.Sentiu que precisava de ajuda. Ainda não conhecia Sophia tanto quanto gostaria, mas queria, mais que tudo, acertar na surpresa de domingo.Pegou o celular, entrou no I*
Sophia observou o papel sobre a mesa. Poderia simplesmente rasgá-lo e nunca mais pensar no assunto.Mas, no fundo, sabia que não conseguiria.Com os dedos trêmulos, porém ágeis, pegou o papel, dobrou duas vezes e enfiou de qualquer jeito na bolsa. Apenas uma precaução inocente. Não ia realmente precisar entrar em contato com Louise. Óbvio que não.— Com licença. Posso anotar seu pedido?Sobressaltou-se ao ouvir a voz do garçom. Não tinha percebido a aproximação. — Sanduíche número quatro e uma raspadinha de Coca-cola, por favor — pediu com a voz fraca.— Certo. — Ele fez uma anotação rápida no bloquinho e acrescentou: — Desculpe, moça, mas está tudo bem? Posso ajudar de alguma forma? — Pareceu preocupado.— Está tudo bem, obrigada — respondeu, tentando manter o tom controlado.— Qualquer coisa, estou à disposição.Sophia assentiu, sem conseguir falar.O coração estava tão dolorido que parecia haver uma mão fechada ao seu redor, apertando o músculo sem piedade. O ar se recusava a cheg
Eram exatamente nove horas da manhã quando Sophia se sentou à mesa para a primeira refeição do dia: uma tigela generosa de sucrilhos ao leite e uma xícara de café forte. Ainda usava sua velha camisola de seda preta e se sentia bastante sonolenta, apesar de ter dormido como uma pedra. Tirando a preocupação com a situação do estúdio, estava de bom humor.Assim que terminasse de comer, gravaria um vídeo para postar nas redes sociais. E mandaria uma mensagem para Nathan. Precisava, com urgência, voltar a conversar sobre marketing.Sorriu quando o celular vibrou inesperadamente sobre a mesa.Uma notificação dele.“Bom dia. Dormiu bem?”Ela respondeu no mesmo instante:“Sim, e você?”“Também, o que já é uma vitória, considerando que tenho uma terça-feira agitada pela frente.”Dois segundos depois, mais uma mensagem chegou:“Tenho outra pergunta importante: você está maratonando alguma série?”Sophia riu e bebericou o café antes de responder:“Não gosto tanto de séries, prefiro filmes.“Send
As borboletas no estômago de Sophia pareciam ter virado águias.Com o rosto levemente corado, ela observou Nathan se afastar, passar pela porta de vidro e caminhar sem pressa até o carro estacionado em frente ao estabelecimento. Sentia um alívio inusitado, como se um peso tivesse sido arrancado de suas costas. Por um instante, quase esqueceu que havia uma mãe e uma criança na recepção.Desculpar alguém nunca tinha sido tão fácil.Mas não podia baixar a guarda.Nathan havia dito com todas as letras que sentiu medo e que queria ir com calma. Ele não parecia totalmente pronto para sair com uma mulher. Ao menos, não com pretensões mais sérias. Talvez o mais sensato fosse não criar expectativas e não pensar tanto no futuro. E proteger o coração de todas as maneiras necessárias. Sophia não podia se envolver. De jeito nenhum.O problema era que já estava se envolvendo.— Moça? Eu gostaria de matricular minha filha. — A mulher repetiu, o cenho franzido.— Desculpe. — Sophia se apressou em diz
Nathan estacionou o carro em frente ao estúdio.Sentiu um incômodo esquisito no peito ao observar a fachada. Tudo continuava exatamente igual: os dois vasos com flores de lavanda junto à porta, as janelas longas de vidro fumê, o letreiro discreto, a parede de tijolos claros... Mas, por alguma razão, parecia que tudo estava diferente.Naquele dia, havia assinado documentos que movimentariam milhões de dólares, participado de longas reuniões e discutido números que tirariam o sono de qualquer pessoa.Ainda assim, não tinha sido capaz de parar de pensar em Sophia.Aquilo era loucura.Fazia duas semanas que a conhecia.E já gostava dela.Por que continuar negando?Sophia não recuou na cozinha. E depois, ao fim da noite, perguntou se Nathan queria que ela voltasse. Nenhuma mulher agiria daquela forma se não estivesse, no mínimo, atraída. Por que ele demorou tanto tempo para entender?Desceu do carro, respirando devagar e lutando para manter os nervos controlados.Mas lembrar que nem Georgi
Nathan acordou sentindo alguém balançar seu ombro.Ainda exausto, precisou de alguns segundos para entender o que estava acontecendo.Não tinha dormido bem. Durante a madrugada, acordou duas vezes e teve dificuldade para adormecer de novo. Não conseguia ficar parado na cama ou manter os olhos fechados por tempo suficiente para o sono chegar. Sentia uma dor leve, mas bastante incômoda no peito.Pensava em Sophia.E na expressão de decepção em seu rosto.— Papai, acorda — murmurou Emma.Nathan esfregou os olhos, ainda um tanto confuso pelo sono interrompido.Mas sorriu.— Bom dia, princesinha. Por que acordou tão cedo?— Não sei, eu só acordei.O alarme sempre tocava às seis da manhã em dias úteis. Era estranho que Emma já estivesse de pé.— Martha já chegou? — perguntou Nathan, sentando na cama.— Já.— Fique um pouco com ela. Papai precisa resolver uma coisa antes de tomar café com você.— O que você precisa resolver? — Fez bico.— Assunto de adulto.— Você pode chamar Sophia para tom







