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Capítulo 6

Autor: K. F. Moura
last update Fecha de publicación: 2026-10-22 10:42:34

Isabella estava em seu pequeno apartamento quando recebeu a notificação bancária.

Olhou para a tela do celular, confusa.

A transferência havia sido identificada como uma ajuda de custo extraordinária da Dorman Media Group, destinada a despesas iniciais. Não havia nenhum nome de remetente, apenas a identificação da empresa.

Ela conferiu o valor.

Três mil dólares.

Por um instante, não conseguiu respirar direito.

Abriu o aplicativo novamente, como se o número pudesse desaparecer.

— Não acredito… — murmurou.

Sentou-se na beirada da cama e levou as mãos ao rosto. A ordem de despejo continuava sobre a pequena mesa, lembrando-a de que o prazo estava se aproximando. Agora, porém, ela poderia pagar o aluguel e recuperar um pouco de tranquilidade.

As lágrimas vieram antes que pudesse contê-las.

Não eram lágrimas de tristeza.

Pela primeira vez em meses, ela sentia que conseguiria respirar sem carregar o medo de perder o próprio teto.

No dia seguinte, pagou o aluguel atrasado e regularizou a situação com o proprietário. Depois, foi ao supermercado.

Caminhou pelos corredores com o carrinho nas mãos, escolhendo frutas, legumes, arroz, feijão, ovos, leite, pão e outros itens básicos. Não comprou nada extravagante, mas, quando chegou ao caixa, percebeu que estava sorrindo.

Poder encher a geladeira sem calcular cada centavo era uma sensação que quase havia esquecido.

Ao chegar em casa, guardou as compras e ligou para os pais no Brasil.

A mãe atendeu primeiro.

— Filha! Como você está? Estávamos pensando em você.

— Estou bem, mãe. Na verdade… estou muito feliz.

Contou sobre a apresentação na universidade, a entrevista, a contratação e o novo horário da faculdade. Falou sobre o prédio imenso, a equipe, as campanhas e as possibilidades que aquela oportunidade poderia trazer.

— É uma empresa enorme — explicou, empolgada. — Eles trabalham com publicidade, televisão, produção audiovisual, campanhas internacionais… Mãe, eu tenho tanto para aprender!

O pai apareceu na chamada, curioso.

— E você está conseguindo se manter, minha filha?

Isabella olhou para a geladeira cheia e respirou fundo.

— Estou conseguindo me organizar. Recebi uma ajuda de custo da empresa e pude pagar o aluguel. Agora consigo me concentrar no trabalho e nos estudos.

Ela não mencionou o medo que sentira nas últimas semanas. Não queria preocupar os pais, que já enfrentavam dificuldades com o negócio no Brasil.

— Tenho muito orgulho de você — disse a mãe, com os olhos marejados. — Só queremos que você esteja bem.

— Eu vou ficar bem. Prometo.

Quando desligou, Isabella permaneceu alguns segundos segurando o celular contra o peito.

Talvez a vida estivesse, finalmente, começando a melhorar.

Naquela noite, mandou mensagens para Valentina, Sophie e Daniel.

Isabella: Sexta-feira. Todos vocês. Vamos comemorar meu primeiro emprego de verdade!

Valentina: Finalmente! Quero detalhes, fofocas e comida.

Daniel: Estou dentro!

Sophie: Conheço um café com música ao vivo. Não é caro e os doces são maravilhosos.

Isabella: Perfeito. Preciso comemorar antes que alguém descubra que eu ainda não sei usar metade dos equipamentos do escritório.

As respostas vieram acompanhadas de risadas e provocações.

Isabella deixou o celular de lado, deitou-se e observou o teto do apartamento.

Ainda havia desafios pela frente. Precisaria aprender, provar seu valor e lidar com pessoas que talvez não desejassem vê-la crescer. Mas agora tinha um emprego, colegas com quem começava a se identificar e amigos com quem poderia dividir a alegria.

O que ela não sabia era que os três mil dólares que haviam mudado sua semana tinham partido de um escritório a poucos andares de distância do setor dela.

E que o homem responsável por aquele gesto já começava a prestar atenção nela de uma maneira que nem ele próprio compreendia.

-------

Na sexta-feira, Isabella passou boa parte do expediente olhando discretamente para o relógio.

A semana havia sido intensa. Entre conhecer os procedimentos da empresa, aprender a utilizar os programas de criação e acompanhar as primeiras reuniões, ela mal tivera tempo para respirar. Ainda assim, estava determinada a demonstrar que merecia a oportunidade que recebera.

Camila, por sua vez, parecia cada vez menos satisfeita.

Naquela manhã, Isabella havia sugerido uma pequena alteração em uma peça publicitária que estava sendo desenvolvida pela equipe. A ideia era simples: substituir um texto excessivamente formal por uma abordagem mais próxima do público-alvo.

A supervisora gostou da sugestão e pediu que Isabella preparasse uma versão alternativa para avaliação.

Camila acompanhou a conversa em silêncio.

Não era a primeira vez que alguém recebia elogios por uma ideia. O problema, em sua opinião, era que Isabella estava ali havia poucos dias e já parecia conquistar uma atenção que ela levara meses tentando conseguir.

Quando a novata saiu para uma reunião com a equipe de produção, Camila aproximou-se da mesa dela.

Na tela do computador, o arquivo da campanha continuava aberto.

Camila olhou rapidamente para os lados antes de se sentar.

Não pretendia fazer nada que pudesse ser associado diretamente a ela. Bastava uma alteração pequena, algo que pudesse ser confundido com um erro de iniciante.

Mudou uma informação na versão preliminar do documento e fechou o arquivo.

Depois, voltou ao próprio lugar como se nada tivesse acontecido.

Na cabeça de Camila, era apenas uma maneira de lembrar à recém-chegada que ninguém conquistava espaço naquela empresa sem enfrentar alguma resistência.

O que ela ainda não sabia era que Isabella não costumava desistir diante do primeiro obstáculo.

---

A noite, após a faculdade, Isabella chegou ao restaurante escolhido por Sophie.

O lugar era pequeno e acolhedor, com mesas de madeira, luminárias amareladas e fotografias antigas de Los Angeles nas paredes. Um músico tocava violão perto da janela, criando um ambiente descontraído que parecia perfeito para encerrar uma semana cansativa.

Valentina foi a primeira a avistá-la.

Levantou-se imediatamente e abriu os braços.

— Finalmente! A estrela da Dorman Media Group chegou!

Isabella riu enquanto a abraçava.

— Por favor, fale mais alto. Acho que o gerente ainda não sabe que sou uma celebridade.

— Dê mais alguns dias — respondeu Valentina. — Logo você estará dando entrevistas e esquecendo os amigos pobres.

— Nesse caso, vou precisar de uma assessora de imprensa. Você está contratada.

— Aceito pagamento em sobremesas.

As duas se sentaram, ainda rindo.

Valentina era uma jovem de vinte e nove anos, de cabelos castanhos escuros que chegavam pouco abaixo dos ombros, olhos cor de mel e pele dourada. Tinha um estilo descontraído, gostava de brincos grandes e estampas coloridas, e sua expressão mudava constantemente conforme as ideias engraçadas surgiam em sua cabeça.

Era a pessoa que mais conhecia Isabella em Los Angeles. Sabia dos problemas financeiros, das noites em que a amiga estudava até tarde e das vezes em que ela fingia estar bem para não preocupar ninguém.

Por isso, quando percebeu o brilho diferente nos olhos de Isabella, seu sorriso se tornou mais suave.

— Você parece mais leve — comentou.

Isabella baixou os olhos por um instante.

— Acho que estou começando a acreditar que as coisas podem dar certo.

— Elas vão dar. E, quando você estiver rica, quero deixar registrado que sempre fui sua amiga.

— Você acabou de pedir pagamento em sobremesas.

— Exatamente. Meu contrato já está assinado.

Sophie chegou logo depois, acompanhada de Daniel.

Naquela noite, Sophie usava uma blusa verde-escura, calças pretas e brincos prateados que combinavam com seu sorriso. Seus cabelos negros e cacheados estavam presos em um coque alto, deixando alguns cachos soltos ao redor do rosto.

Daniel, como sempre, usava óculos de armação fina e uma camisa azul com as mangas dobradas até os cotovelos. Tinha o hábito de observar as pessoas por alguns segundos antes de fazer um comentário irônico, o que frequentemente tornava suas piadas ainda mais engraçadas.

— Trouxe uma pessoa que pode confirmar que a impressora da empresa é uma ameaça à humanidade — anunciou Sophie, apontando para Daniel.

Ele puxou uma cadeira.

— Não sou especialista em impressoras, mas tenho experiência com máquinas temperamentais. Minha antiga cafeteira tentou me matar durante três meses.

— Como uma cafeteira tentaria matar alguém? — perguntou Isabella.

— Café frio. Todos os dias.

Valentina colocou a mão no peito.

— Isso não é uma cafeteira. É uma inimiga declarada.

As risadas se espalharam pela mesa.

Durante o jantar, Isabella contou histórias sobre os primeiros dias de trabalho, evitando mencionar a sabotagem que ainda desconhecia. Sophie explicou as particularidades de outros departamentos, enquanto Daniel compartilhou algumas das situações mais absurdas que já presenciara em reuniões com clientes.

— Um homem passou quarenta minutos discutindo a cor de um botão — contou ele. — Quarenta minutos. No final, escolheu a cor original.

— Talvez o botão tivesse uma história emocional profunda — sugeriu Isabella.

— Claro. Um botão incompreendido, lutando para encontrar seu lugar no mundo.

— Parece um ótimo conceito para uma campanha — acrescentou Sophie.

Valentina levantou o copo.

— Um brinde aos botões incompreendidos e às jovens que vão dominar o mundo!

Os quatro brindaram.

Por algumas horas, Isabella se permitiu esquecer as contas, as preocupações e o medo de não ser boa o suficiente. Sentia-se acolhida. Pela primeira vez desde que chegara a Los Angeles, começava a formar um círculo de pessoas com quem poderia compartilhar não apenas as dificuldades, mas também as pequenas vitórias.

Quando a noite terminou, ela voltou para casa com um sorriso no rosto e a sensação de que estava construindo algo maior do que uma carreira.

Estava construindo uma vida.

-------

Do outro lado da cidade, Helena Dorman observava as luzes de seu apartamento através das janelas.

Tinha acabado de retornar de um jantar beneficente, onde sorrira para fotógrafos, cumprimentara empresários e posara ao lado de pessoas influentes. O evento fora um sucesso, mas ela mal prestara atenção às conversas.

Seu pensamento estava em Justin.

Nos últimos meses, o marido parecia cada vez mais distante. Não atendia às ligações imediatamente, recusava convites e demonstrava cada vez menos disposição para manter as aparências.

Helena não estava disposta a perder a posição que conquistara.

O casamento com Justin lhe proporcionava acesso aos círculos mais exclusivos, influência social e uma segurança financeira que ela não pretendia abandonar. O amor nunca fora o fundamento daquela relação, mas, enquanto o acordo funcionasse a seu favor, ela não via motivos para mudar a situação.

Pegou o celular e abriu uma mensagem recebida naquela tarde.

Uma conhecida havia comentado sobre a contratação de uma nova assistente de criação na Dorman Media Group. O nome de Isabella Castillos aparecia no texto, acompanhado de uma observação sobre a boa impressão que a jovem causara durante o processo seletivo.

Helena leu a mensagem sem demonstrar interesse.

Uma funcionária recém-contratada não representava uma ameaça.

Pelo menos, ainda não.

Guardou o telefone e caminhou até o espelho. Ajustou os cabelos, observou o próprio reflexo e ensaiou o sorriso que usaria na próxima aparição pública.

Helena Dorman sabia conquistar a atenção de uma sala inteira.

E não pretendia permitir que alguém, fosse quem fosse, ocupasse o lugar que acreditava ser seu.

O jogo estava apenas começando. Justin seria inteiramente dela.

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