LOGINClara despertou com os primeiros raios de sol entrando pela janela da casa. Olhou para Katiany, que dormia profundamente, abraçada ao travesseiro. A menina parecia pequena demais para o turbilhão de emoções que estava vivendo. Clara passou a mão pela testa, aliviada por finalmente estarem longe de Joseph mas a saudade do antigo emprego e das pessoas que deixara sem se despedir causava uma sensação estranha — como se estivesse em dois lugares ao mesmo tempo: no presente e no passado.
A paz que sentia ali, no campo, parecia contraditória dentro do peito. Enquanto preparava o café, ao abrir uma gaveta por acaso, seus olhos se fixaram em um porta-retratos. Era uma foto dela, do ex-marido e de Katiany. Certamente, a filha a trouxera. Clara compreendia aquele gesto — por mais que o pai a tivesse decepcionado, o amor de filha não desaparece de uma hora para outra. Um nó formou-se em sua garganta. Era curioso como as lembranças podiam ser assim: uma mistura de dor e nostalgia.
Com um suspiro, Clara guardou a foto e se dirigiu à janela. O dia clareava. O campo, ainda banhado pela luz suave da manhã, parecia sereno, tão distante da antiga vida. Era como se, ao atravessar aquelas montanhas, ela estivesse fugindo da própria história.
A campainha tocou. Clara se virou, surpresa. Imaginou que fosse algum vizinho querendo se apresentar, mas era Enéas. Ele estava com um sorriso largo e segurava uma sacola com frutas e verduras. Também trazia uma garrafa de café fresquinho.
— Olá, jovem senhora! — disse ele, animado. — Trouxe umas coisinhas para vocês. E pensei que podia me dar uma mãozinha... apesar da aposentadoria, não consigo ficar parado. Mas não se preocupe, não estou roubando seus clientes! — acrescentou, soltando uma gargalhada.
Clara sorriu, agradecida, e fez um gesto para que ele entrasse.
— Como está o trabalho por aqui? Está precisando de ajuda com alguma coisa? — perguntou ele. — Posso te ajudar nas visitas depois. Minha mulher já não me aguenta em casa... e olha que nem faz um mês que me aposentei! — falou, coçando a cabeça.
— Na verdade, sim... vou precisar de um bom par de mãos. A casa ainda precisa de reparos. O que foi feito não vai durar muito. E hoje só tenho uma visita à tarde...
— Ah, sinto muito. Minhas mãos não seguram mais um martelo, e se eu me curvar além do permitido, minhas costas nunca mais voltarão ao lugar — respondeu ele, piscando com um sorriso travesso.
Antes de sair, Enéas comentou: — Ah, e não se esqueça do Noah. Pode chamá-lo novamente. Ele gosta de ajudar.
Clara balançou a cabeça, relutante. — Sim...
— Exato. Ele tem suas manias, mas é confiável. Só não esqueça de pagar o justo, ou ele vai te lembrar disso daquele jeitinho dele.
Clara assentiu, pensativa. Talvez fosse hora de lidar com aquele faz-tudo, se quisesse mesmo transformar a casa.
Após a saída de Enéas, Katiany desceu já pronta para ir à escola. Olhou ressabiada para a gaveta semiaberta e depois encarou a mãe, que fingiu não perceber. Clara, no entanto, ficou satisfeita ao notar que a filha não usava os fones de ouvido.
— Hoje começam as atividades equestres na escola... não tenho certeza se vou participar — disse a menina, hesitante.
— Filha, lembre-se de que Leo e Tyler estão ajudando você. Eles contam com você na equipe.
— É por isso mesmo, mãe. E se eu decepcioná-los? Vão ficar chateados e talvez parem de falar comigo...
— Tenho certeza de que você não vai decepcionar. Eles sabem que você não é uma amazona. Então, fique tranquila. Tome seu café, o ônibus não deve demorar.
Clara estava na pequena mercearia da cidade quando Roxane entrou. Assim que a viu, se aproximou apressadamente.
— Doutora Clara, como tem passado? Soube por uma das minhas afilhadas que sua filha vai competir nas atividades da escola. Espero que ela não se machuque montando... montar a cavalo não é o mesmo que andar de patins!
— Agradeço sua preocupação, senhora Roxane. Mas minha filha está bem amparada por Leo e Tyler. Confio neles.
— Tyler? O filho do Noah? Não acredito! Aquele garoto é mais arisco que um touro bravo. Não deixa ninguém se aproximar muito...
— Pois é... estou muito feliz, a amizade dos dois parece crescer rapidamente. É um alívio ver minha filha confiando em mais alguém.
Antes que Roxane pudesse responder, uma figura alta entrou na mercearia, interrompendo a conversa. Era Noah. O olhar dele era sério, como se carregasse o peso do mundo nos ombros. Não parecia ter paciência para cumprimentos. Clara tentou desviar o olhar, mas ele a viu e veio em sua direção.
— Enéas me ligou. Disse que você quer retomar os reparos da casa — disse ele, ajeitando o chapéu na cabeça. — Tô com uns dias livres. A gente pode combinar um preço que seja justo para os dois. As calhas ainda não estão do jeito que eu queria.
“Cidade de gente intrometida...” — pensou Clara, irritada. Ela o encarou de frente, sem rodeios:
— Olha, Noah... você fez o trabalho, mas não me convenceu de que valeu o que cobrou. Aquele primeiro serviço foi malfeito.
A tensão subiu entre os dois como fumaça. Noah soltou uma risada curta, quase sem humor, e balançou a cabeça.
— Pode achar o que quiser. Mas se acha que não cobrei o justo, então nunca vai entender o que é trabalhar de verdade, Clara.
Ela sentiu o peito apertar. O tom dele a cortava, mas não se intimidou. — Eu pago o que acho que devo. E isso é o que importa.
Noah ajeitou o boné na cabeça, o olhar sério, direto.
— Enéas me ligou. Disse que você quer retomar os reparos da casa. Tô com uns dias livres. A gente pode combinar um preço justo — para os dois. As calhas ainda não estão do jeito que eu queria.Clara cruzou os braços, firme.
— Olha, Noah, você fez o trabalho... mas, sinceramente? Não achei que valeu o que cobrou. Não estava do jeito que eu esperava.Ele soltou uma risada seca, balançando a cabeça como quem já ouviu esse tipo de crítica antes. — É mesmo? Porque, para mim, ficou claro que você queria pagar pelo que achava justo, não pelo que o serviço realmente custava.
— Eu pago pelo que entregam, não por promessas ou simpatia — respondeu ela, seca.
Noah se inclinou ligeiramente para a frente, sem perder a calma, mas com o tom mais cortante: — Então é isso. Você tem sua régua. Eu tenho a minha. Só não me peça milagre por trocado, Clara.
Os dois se encararam por um segundo longo, como se estivessem medindo forças em silêncio. Sem esperar resposta, ele deu meia-volta e saiu da mercearia. As botas batendo no piso pareciam um recado.
Clara permaneceu imóvel. As palavras dele rodavam dentro dela como pedras atiradas na água. Machucavam mais do que ela gostaria de admitir.
Foi quando notou Roxane, parada perto da prateleira de condimentos. A mulher a encarava com um olhar vitorioso. Não disse nada. Apenas ergueu o queixo com aquele ar superior e satisfeito, como se dissesse: "é assim que se fala com gente como você".
Com um sorrisinho enviesado, passou por Clara e saiu, indo atrás de Noah com passos leves, quase elegantes.
Clara não disse nada. Apenas respirou fundo. Ela sabia, no fundo, que aquele homem estava mais próximo do que gostaria. E não estava falando apenas de telhados ou calhas.
O sol do Texas ardia lá fora. Mas, de algum modo, o chão sob seus pés ainda a mantinha firme. Debaixo desse céu... a gente vai conseguir.
08
Era quase final da tarde quando Clara se sentou no degrau da escada que dava acesso à recepção da clínica veterinária, tomando café em uma caneca grande, envolta em seus próprios pensamentos.Mais adiante, Katiany e Leo escovavam um cavalo no pasto em frente. Quando Clara avistou a caminhonete de Noah se aproximando pela estrada de terra, seu coração saltou no peito e sua respiração acelerou. Chegava a doer a saudade que sentia dele. Clara recompôs-se rapidamente antes que ele parasse o veículo próximo ao cercado.Noah cumpriu as crianças com um aceno breve e, com passos firmes, porém inseguros, aproximou-se dela.— Posso? — disse ele, parado a poucos metros, com o chapéu nas mãos e o olhar sincero, mas hesitante.Ela assentiu em silêncio, apontando o degrau ao lado.Um silêncio pesado instalou-se entre os dois por alguns segundos.— Clara, eu... — começou Noah.— Você me magoou, Noah... — cortou ela, suavemente.Ele baixou o olhar, passou a mão pelos cabelos e soltou um longo
Noah nunca foi de se entregar fácil às mudanças. Ele era o tipo de homem que preferia a solidão do campo, o barulho dos cavalos e a rotina pesada do trabalho duro. Mas algo tinha mudado nos últimos dias. Algo que ele simplesmente não conseguia ignorar.Desde a discussão com Clara, não tinham mais se falado. Ele sentia a falta dela — do som de sua risada, do calor do seu corpo colado ao seu, de sua boca percorrendo sua pele. Noah soltou um gemido baixo ao recordar-se dos dois fazendo amor.Uma gargalhada forte vinda da porta do estábulo interrompeu seus pensamentos. Virando a cabeça, deu de cara com o olhar divertido de seu compadre Ramirez, o pai de Leo. Rapido, Noah deu um passo para o fundo da baia, tentando disfarçar a reação do seu corpo.— O que é que está doendo aí, além do seu bolso? — provocou Ramirez, encostando-se no batente.— Se veio rir dos meus problemas, pode dar meia-volta e retornar pelo mesmo caminho por onde veio — resmungou Noah, ajeitando a postura. — E vo
O sol do fim de tarde dourava a poeira que subia na entrada da fazenda de Noah, mas o clima dentro do galpão de leilões tinha sido frio e desolador. O leilão de gado — sua última cartada para levantar a quantia necessária e quitar as dívidas acumuladas com o banco — fora um fracasso. Os lances ficaram muito abaixo da avaliação, e o dinheiro arrecadado mal cobriria os juros da dívida. Noah desceu da caminhonete e bateu a porta com força. Entrou em casa jogando o chapéu sobre a mesa da cozinha, os ombros pesados pelo cansaço e pela frustração. Pouco tempo depois, Clara cruzou a porta. Ela trazia um sorriso leve, ansiosa para saber o resultado, mas a expressão sombria no rosto dele a fez parar a poucos passos.— Como foi no leilão, Noah? — perguntou ela, com a voz suave.Noah nem sequer olhou para ela. Pegou um copo, serviu-se de água e respondeu com um tom ríspido, sem esconder o mau humor:— Um desastre. Não deu nem para metade do que eu precisava. A única solução agora é vender a fazen
O bar estava iluminado por luzes âmbar e envolto em um aroma de uísque barato, madeira envelhecida e fritura. Joseph sentou-se em um banco alto, o casaco jogado no encosto, os olhos varrendo o ambiente com certa impaciência. A música country tocava em volume baixo, abafada pelas conversas e gargalhadas de quem tentava esquecer o peso da semana.Ele olhou o relógio. Roxane estava atrasada.— Uísque duplo — pediu ao barman com um gesto breve.Enquanto a bebida era servida, uma mulher surgiu ao lado dele, vestida com uma jaqueta de couro marrom e jeans justos, o cabelo preso em um coque desleixado, o olhar afiado. Ela parecia deslocada ali — ou talvez propositalmente deslocada. Do tipo que sabe ser notada.— Esperando alguém? — perguntou ele, sorrindo de canto, enquanto encostava o cotovelo no balcão.Ela ergueu uma sobrancelha, achando curioso o tom da pergunta.— Depende...Ela riu baixo, pegando a bebida que o barman lhe entregou sem que ela precisasse pedir. Estava cl
"Algumas sementes não precisam de solo fértil para florescer — basta o tempo certo, uma faísca de lembrança… e tudo volta a crescer." O cheiro de pão torrado e café passado na hora pairava no ar. Roxane estava à mesa com suas afilhadas, como fazia religiosamente aos domingos. As meninas riam, discutindo sobre roupas e namorados, enquanto ela folheava distraidamente o jornal. Foi então que algo lhe chamou a atenção.Uma pequena nota no canto da página de obituários. Uma foto em preto e branco, envelhecida, e um nome que a fez empalidecer de imediato: Fredrick L. Campbell.O jornal escorregou de seus dedos por um instante, mas ela o agarrou a tempo. Seus olhos fixaram-se naquela imagem como se fosse um fantasma do passado.— Fred... — sussurrou, o nome escapando entre os lábios trêmulos.Um turbilhão de lembranças a invadiu: noites abafadas no celeiro antigo, juras sussurradas ao pé do ouvido e, depois, o silêncio. O abandono.Fazia tantos anos que ela não ouvia falar dele. Est
Clara arrumava as bolsas com cuidado, separando as roupas dela e de Katiany para a viagem de volta na manhã seguinte. O coração apertava no peito. Por mais que quisesse voltar para casa, a ideia de se afastar de Noah fazia doer cada pedacinho seu.Ela amava as conversas que tinham pela manhã, os momentos roubados em que se amavam como dois adolescentes escondidos do mundo. O cheiro dele ainda parecia impregnado em sua pele, suave e viciante, como um sussurro que ela não queria esquecer.Katiany entrou no quarto, interrompendo seus pensamentos. Observou as bolsas sobre a cama por um momento, depois se jogou ao lado delas com um suspiro preguiçoso. — Mãe... — chamou Katiany, com a voz baixa.Clara interrompeu o que estava fazendo e sentou-se ao lado da filha na cama.— Sim, filha — respondeu com um leve suspiro, já imaginando o que viria.— A gente tem mesmo que ir embora? Eu estou gostando daqui... A fazenda é muito legal.Clara sorriu com ternura, emocionada







