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Capítulo 6

Author: Anônimo
A tristeza e a dor dos últimos dias finalmente transbordaram naquele momento.

Eu sentia, acima de tudo, que a morte do meu filho tinha sido em vão.

Quando meu filho morreu, seu próprio pai estava consolando outra mulher pela morte de um cachorro.

Que coisa ridícula.

Flávia, não suportando me ver acusar Fidel daquela maneira, colocou-se na frente dele e falou.

— O Fidel não sabia que o acidente de ontem à noite era com o Bryan. Ele já está sofrendo muito como pai, por que você ainda precisa acusá
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    Depois, peguei um avião e fui até um deserto, longe de tudo, pra ver a Via Láctea e o céu carregado de estrelas.Esse era o sonho do meu filho, ele amava astronomia desde pequeno.No aniversário dele, foi a primeira vez que ele viu uma chuva de meteoros ao ar livre, mas eu nunca imaginei que aquele lugar se tornaria também o seu túmulo.Eu precisava realizar esse sonho por ele.O acordo de divórcio assinado por Fidel também foi enviado para mim.Provavelmente por culpa, ele redigiu um novo acordo, deixando a maior parte dos bens para mim.Eu aceitei sem pensar duas vezes.No momento em que assinei, senti uma leveza interior, uma verdadeira sensação de libertação.Era hora de voltar.Eu contaria ao meu filho tudo o que vi pelo caminho, para que ele soubesse que a mamãe realizou o sonho dele.Assim que desembarquei, recebi uma ligação do assistente de Fidel.— Ângela, venha rápido para o hospital, aconteceu algo com o Diretor Lemos.O assistente explicou pelo telefone que, desde a minha

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    A tristeza e a dor dos últimos dias finalmente transbordaram naquele momento.Eu sentia, acima de tudo, que a morte do meu filho tinha sido em vão.Quando meu filho morreu, seu próprio pai estava consolando outra mulher pela morte de um cachorro.Que coisa ridícula.Flávia, não suportando me ver acusar Fidel daquela maneira, colocou-se na frente dele e falou.— O Fidel não sabia que o acidente de ontem à noite era com o Bryan. Ele já está sofrendo muito como pai, por que você ainda precisa acusá-lo?Flávia queria continuar, mas foi empurrada bruscamente por Fidel.— Chega! Não diga mais nada!Flávia quase caiu, com uma expressão de mágoa no rosto.— Fidel, eu só não aguento ver a Ângela falar assim com você, ela...Pela primeira vez, Fidel não desviou o olhar para Flávia. Ele fixou os olhos nos meus e disse, com dor na voz.— Desculpe-me. Eu não sabia que a asma do nosso filho tinha atacado. Eu sempre achei que ele ainda era pequeno e que teríamos muito tempo para ficar juntos no futur

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    — O que você disse? A lápide de quem?Fidel congelou no lugar, olhando incrédulo para o funcionário.O funcionário ficou confuso.— Do filho da Sra. Guedes, Bryan Lemos. Vocês são amigos da Sra. Guedes?Fidel cambaleou alguns passos, os olhos fixos no nome gravado na lápide, como se tentasse encontrar alguma falha.Mas ele se decepcionou.A lápide trazia claramente dois nomes gravados: Bryan Lemos.Era exatamente o nome do nosso filho.Naquele momento, eu já havia recolhido todo o pó do chão, misturado com a terra, de volta para a urna. Com as mãos cobertas de sangue, abracei a caixa com força contra o peito, não deixando ninguém tocar.Fidel, com os olhos vermelhos, gritou comigo:— Ângela, por que você não me disse que algo aconteceu com o nosso filho? Por quê?!Ao lado, um brilho de pânico passou pelos olhos de Flávia, que correu para segurar a mão dele.— Fidel, sobre isso...Mas desta vez, Fidel nem sequer olhou para ela. Ele sacudiu a mão dela com força, afastando-a.— Eu sou o p

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    Minha frieza continuou a irritá-lo profundamente.— Por que você está fazendo essa birra toda? Quantas vezes já expliquei? A Flávia voltou ao país e não conhece ninguém, só tem a mim para pedir ajuda. Se ela não me procurar, vai procurar quem?— O Bryan é criança, é normal fazer birra, mas você já é adulta e continua sendo tão irracional?— O que você quer, afinal?Eu só achava aquelas palavras ridículas.Flávia, como uma mulher adulta, não tinha o mínimo de habilidade social? Não havia um único colega na empresa que ela conhecesse?Dizer que só podia contatar Fidel era pura má intenção, tudo para ficar a sós com ele num quarto.Quanto a Fidel, se ele estava se fazendo de bobo ou se realmente não via, só ele sabia.— Eu só quero me divorciar de você. Agora, completamente, imediatamente.Respondi com calma.Fidel ficou tão irritado que perdeu a fala.Nesse momento, Flávia olhou para a urna que eu havia colocado sobre o túmulo, ainda não enterrada, e a pegou.— Fidel, eu quero enterrar a

  • O Cachorro ou o Nosso Filho?   Capítulo 3

    No dia seguinte, levei a urna do meu filho ao cemitério escolhido para o sepultamento.Não avisei Fidel.Pra mim, ele tinha culpa na morte do meu filho, e eu não queria a presença dele nem perto do adeus do meu menino.Mas eu não esperava tamanha coincidência: encontrei Fidel e Flávia no cemitério.— Fidel, onde vamos enterrar a Fofa? Ouvi dizer que enterrar o cachorrinho como se fosse uma pessoa ajuda ele a reencarnar como humano na próxima vida. A gente tem que escolher um lugar bonito, tranquilo.Flávia segurava uma urna nos braços e tagarelava com Fidel.Eu não queria dar atenção a eles, mas Fidel me viu.Ele franziu a testa e me olhou com uma irritação seca, como se eu fosse um incômodo que não acabava nunca.— O que você está fazendo aqui?Como Fidel havia me contado ontem que o cachorro de Flávia morrera, ele naturalmente presumiu que eu estava ali para segui-lo.Eu não queria falar com ele, virei-me para ir embora.Flávia, no entanto, assumiu uma expressão digna de pena e me bl

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    Procurei minha amiga Antônia Carvalho para redigir o acordo de divórcio e apresentei meus pedidos.Lembro-me de quando Antônia conheceu Fidel pela primeira vez e brincou com ele:— Se você ousar tratar a Ângela mal, eu, como advogada, não terei piedade.Fidel respondeu seriamente que jamais daria essa oportunidade a ela.Naquela época, eu também achava que esse dia nunca chegaria.Mas agora, o tempo nos empurrou até este ponto.Segurando o acordo de divórcio e abraçada à urna com as cinzas do meu filho, voltei para casa.Ao abrir a porta, vi os sapatinhos do meu filho, os brinquedos espalhados pelo chão, o álbum de fotos do seu primeiro ano sobre a mesa...Estava tudo do mesmo jeito, como se a qualquer instante ele fosse correr até mim, chamando "mamãe" do jeito dele.Mas o peso daquela urna nos meus braços me lembrava, sem piedade, que ele não voltaria.Morreu no dia do aniversário que tanto esperava.Acariciando a foto do meu filho, liguei novamente para Fidel. Quem atendeu, mais uma

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