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Capítulo 2

Author: Anônimo
Procurei minha amiga Antônia Carvalho para redigir o acordo de divórcio e apresentei meus pedidos.

Lembro-me de quando Antônia conheceu Fidel pela primeira vez e brincou com ele:

— Se você ousar tratar a Ângela mal, eu, como advogada, não terei piedade.

Fidel respondeu seriamente que jamais daria essa oportunidade a ela.

Naquela época, eu também achava que esse dia nunca chegaria.

Mas agora, o tempo nos empurrou até este ponto.

Segurando o acordo de divórcio e abraçada à urna com as cinzas do meu filho, voltei para casa.

Ao abrir a porta, vi os sapatinhos do meu filho, os brinquedos espalhados pelo chão, o álbum de fotos do seu primeiro ano sobre a mesa...

Estava tudo do mesmo jeito, como se a qualquer instante ele fosse correr até mim, chamando "mamãe" do jeito dele.

Mas o peso daquela urna nos meus braços me lembrava, sem piedade, que ele não voltaria.

Morreu no dia do aniversário que tanto esperava.

Acariciando a foto do meu filho, liguei novamente para Fidel. Quem atendeu, mais uma vez, foi Flávia.

— O Fidel ainda não acordou. Ele não dormiu a noite toda, não seria bom acordá-lo agora, né? Se tiver algo, pode me falar, dá no mesmo.

Antes, ele chegava do trabalho e apagava na cama de tão cansado.

Eu sentia pena do cansaço dele, então sempre entrava e saía na ponta dos pés, até o ajudava a tirar a roupa com todo o cuidado, tudo para não incomodá-lo e deixá-lo dormir melhor.

Mas agora, não havia mais necessidade.

— Acorde-o agora mesmo. Tenho algo que preciso dizer a ele pessoalmente.

Flávia passou o telefone para Fidel a contragosto. Do outro lado da linha, ouvi o rugido irritado dele.

— Ângela, você tem algum problema? Não sabe que eu não dormi ontem à noite? Será que não pode ter um pouco de bom senso? Já estou exausto, não tenho tempo para lidar com esse seu mau humor!

Bom senso?

Meu filho morreu, e ele ainda quer que eu tenha bom senso? Será que eu deveria falar baixo e suavemente para ele descansar bem na casa da Flávia?

Ou eu devia até pedir desculpa pela morte do cachorro?

— Fidel, já assinei o acordo de divórcio. Quando você voltar, assine também.

Houve um silêncio de alguns segundos do outro lado. Fidel suspirou pesadamente, com uma impaciência reprimida na voz.

— Ângela, ontem o cachorro da Flávia morreu, ela estava muito triste. Fiquei com medo de que algo acontecesse com ela, por isso saí. Só fiquei conversando com ela a noite toda, não fizemos nada.

Desde que a empresa de Fidel cresceu, não me lembro de quando foi a última vez que tivemos uma conversa decente.

Sempre que ele chegava em casa, parecia exausto, comia e ia dormir, mal trocando meia dúzia de palavras.

Até quando o filho queria brincar com ele, ele se esquivava dizendo que estava cansado demais.

Agora entendo que não era falta de energia, apenas dependia da pessoa.

Se fosse antes, eu teria me sentido amarga e faria um escândalo.

Mas agora, meu coração estava estranhamente calmo. Eu só queria me divorciar dele.

Repeti, pausadamente:

— Fidel, eu quero o divórcio.

Fidel se irritou de vez, e sua voz aumentou o tom.

— Eu já expliquei, o que mais você quer?! Não foi só uma chuva de meteoros de aniversário? Grande coisa, eu arranjo um tempo e levo o Bryan de novo. Precisa fazer esse drama todo sem motivo?

Ao ouvir o nome do meu filho, uma tristeza infinita invadiu meu peito.

Não haveria outra oportunidade.

Desliguei o telefone diretamente. Já que não dava para conversar com Fidel, quando ele voltasse e visse o acordo de divórcio, saberia que eu estava falando sério.
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