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Capítulo 2

Author: Susana
De repente, vários momentos das festas — grandes e pequenas — ao longo daquele ano me vieram à cabeça.

Guilherme sempre tirava meu aparelho auditivo, com aquele olhar suave, e dizia coisas que eu nunca ouvia. Depois colocava de volta.

E todo mundo dizia que ele estava se declarando, fazendo promessas, jurando que jamais me magoaria.

Se eu não tivesse recuperado a audição…

Se eu não tivesse ouvido, por trás das palavras doces, os cacos de vidro misturados às ofensas cruéis…

Eu provavelmente nunca saberia a verdade.

Cecília soltou um grado de repente.

Tirou o braço dos ombros de Guilherme e se desculpou de forma exagerada:

— Foi mal, Eunice! A gente já tá acostumado a brincar assim, não fica com ciúmes, tá?

Guilherme riu e a repreendeu:

— Para com isso. Você vive agindo como um moleque. Que mulher é essa?

Assim que terminou de falar, os dois começaram a correr e brincar um com o outro, como se não houvesse mais ninguém ali.

E ninguém estranhou.

Fechei os olhos por um instante e me virei para sair, mas a mão rápida de Cecília me segurou.

O olhar dela já não tinha sorriso nenhum.

— Todo mundo veio no seu aniversário por sua causa, e você vai embora assim, do nada?

Guilherme afagou minha cabeça, como se estivesse tentando me consolar, com um ar falso de paciência.

— Você nem abriu os presentes que o pessoal trouxe. Não vai dar uma de princesa agora, vai?

Franzi a testa e me afastei por instinto.

Ignorei a expressão dele, que escureceu de repente, e falei devagar, encarando-o:

— Vamos terminar. Não me procure mais.

E saí do camarote sem olhar para trás.

No caminho para casa, meu celular não parava de vibrar.

Guilherme mandava mensagem sem parar:

[Qual é o seu problema agora? O pessoal veio de longe pra comemorar com você, trouxe presente, e você simplesmente some?]

[A Cecília só tava animada. Ela é assim mesmo, direta, sem frescura, diferente de vocês, outras garotas. Por isso abraçou meu ombro. Ela não soltou logo e ainda pediu desculpas?]

Outros amigos também começaram a me marcar no grupo da turma:

[Eunice, você não acha que exagerou?]

[Sair daquele jeito, de cara fechada, sem motivo nenhum… Onde foi que a gente errou com você?]

Eu quase ri.

Respondi friamente:

[Quem foi que exagerou, afinal?]

Em seguida, bloqueei todos, um por um, e saí do grupo.

Quando cheguei em casa, contei o que tinha acontecido, de forma resumida, aos meus pais.

Apertei os lábios e, ao ver os rostos preocupados de papai e mamãe, senti uma dor amarga subir pelo peito. Minha voz falhou sem controle:

— Eu não gosto mais dele… Não quero ir para a mesma universidade que ele. Não quero ficar com ele. Muito menos casar…

Mamãe enxugou minhas lágrimas, aflita:

— Minha filha, isso não é o fim do mundo. Amanhã mesmo nós vamos cancelar o noivado. Você pode escolher qualquer universidade, a gente apoia. Estamos do seu lado.

Papai me levou até a sala e colocou a espátula de bolo na minha mão.

— Você voltou antes mesmo da gente mandar o bolo pra lá. Melhor assim. Nós três vamos comemorar seu aniversário aqui, tranquilos, em família.

Ele sorriu para mim.

— Dezoito anos atrás, quando você nasceu, eu fiquei tão feliz… Não chora. Vamos cortar o bolo e fazer um pedido, tá bem?

Sorri entre as lágrimas, fiz meu pedido sob o olhar carinhoso dos dois e apaguei as velas.

Quando me preparava para cortar o bolo, a campainha tocou de repente.

Respirei fundo, me recompus e fui abrir a porta.

Era Guilherme.

Lá fora, uma chuva fina caía.

Trovões ecoavam de vez em quando, riscados por relâmpagos brancos no céu.

Guilherme estava encharcado. A água escorria do cabelo, mas ele parecia nem perceber.

Sorriu e estendeu para mim uma caixinha elegante.

— Olha. O presente de aniversário que eu escolhi com todo cuidado pra você.

Ele aproximou um pouco mais a caixa.

— Para de birra. O pessoal ainda tá te esperando no camarote. E para de falar em terminar, tá bom?

Olhei para a pulseira de diamantes dentro da caixa.

Ela me pareceu estranhamente familiar.

O colar que Cecília estava usando naquela noite… parecia ser da mesma marca.

Fiquei parada.

E não peguei o presente.
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