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O Castigo Sempre Vem
O Castigo Sempre Vem
Author: Susana

Capítulo 1

Author: Susana
— Eunice, quem dera que, aos nove anos, você não tivesse sobrevivido. Deveria ter morrido de uma vez.

Assim que Guilherme terminou a frase, o camarote explodiu.

— Caramba, Guilherme, você é demais!

— Da próxima vez, quando a surdez da Eunice estiver curada, fala isso direto no ouvido dela. Quero ver se ela chora. Aquele jeitinho submisso dela é engraçado demais.

— E o que ela poderia fazer se ouvisse? Quem vai querer uma deficiente? Só o Guilherme mesmo pra ter a "bondade" de mimar ela.

Eu congelei onde estava.

Apertei com força o relatório médico dentro da bolsa, sem saber o que fazer.

Depois das provas, meus pais me levaram para outra cidade em busca de tratamento. Minha audição tinha voltado. Eu já não precisava mais do aparelho.

Hoje era a minha festa de aniversário.

Eu queria fazer uma surpresa para o Guilherme. Queria contar que meus ouvidos estavam curados e que, dali em diante, eu não seria mais um fardo para ele.

Mas eu jamais imaginei que a surpresa que preparei com tanto cuidado me faria ouvir, pelas minhas próprias costas, a verdade mais cruel.

As palavras dele foram como uma lâmina afiada, cravada direto no meu coração, sufocando-me a ponto de eu mal conseguir respirar.

Minhas unhas afundaram na palma da mão, trazendo ondas de dor.

Mordi o lábio inferior e levantei a cabeça para olhar para ele, querendo perguntar por quê.

Mas Guilherme parecia nem notar minha presença.

De cabeça baixa, ele girava entre os dedos aquele aparelho auditivo branco, com um sorriso debochado e distraído no rosto.

— Já chega.

— Afinal, a Eunice salvou minha vida quando éramos crianças. Cuidado com o que vocês falam, não façam escândalo na frente dela.

Todo mundo entendeu o recado na mesma hora.

— Pode deixar, a gente sabe guardar segredo.

— A Eunice fisgou o Guilherme, valeu a pena ser surda a vida toda.

Outra onda de risadas tomou conta do lugar.

— Tudo bem, gente. A Eunice é frágil, né? Não é como eu, que aguento as brincadeiras de vocês. Peguem leve.

Cecília se aproximou sorrindo e declarou, solene:

— Guilherme, você passou no meu teste.

— Agora eu acredito que você não gosta da Eunice. Então, amanhã a gente pode sair junto.

As sobrancelhas dele se arquearam, formando um sorriso satisfeito. A ternura em seus olhos parecia prestes a transbordar quando respondeu, com a voz rouca:

— Combinado.

Eu observava tudo, atônita, com a mente completamente em branco.

Era como se o mundo tivesse parado.

As risadas, os gritos animados e os brindes foram entrando pelos meus ouvidos e, aos poucos, se transformaram num zumbido agudo.

— Ei, querida, no que você está pensando?

Quando me dei conta, Guilherme já tinha recolocado o aparelho no meu ouvido. Um sorriso curvava seus lábios.

— Ficou boba de tanta felicidade?

Eu devia estar feliz.

Na minha festa de dezoito anos, sendo pedida em namoro pelo garoto de quem eu gostava, diante de todos os amigos.

Parecia cena de novela.

Mas, naquele momento, abri a boca e senti a garganta tão seca que nenhuma palavra saiu.

Os outros começaram a falar por mim:

— Agora há pouco, depois que o Guilherme tirou seu aparelho, ele falou um monte de coisas românticas. A gente até se arrepiou.

— Quem me dera ter um amigo de infância assim.

— Mandou bem, Guilherme! — Cecília passou o braço pelos ombros dele e deu um soquinho risonho no peito dele. — Quantas vidas de sorte você precisou ter pra conquistar essa dama delicada?

Eu não disse nada.

Meu olhar passou pelo rosto de cada pessoa ali no camarote.

Alguns sorriam, dando parabéns. Outros levantavam o polegar. Teve até quem dissesse que já estava esperando o convite para o casamento.

Ninguém deixava escapar a menor falha.

As expressões eram assustadoramente naturais.
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