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A música no andar superior do clube privado, um dos refúgios mais exclusivos da elite de Los Angeles, era um murmúrio grave e constante, projetado para preencher o silêncio sem interromper as negociações. O ambiente cheirava a couro escuro, uísque envelhecido e perfumes que custavam mais do que o aluguel de um apartamento na periferia da cidade.
Encostado no bar de mogno, Andy observava o salão. Ou melhor, Sun observava o salão.
Naquele mundo, Andy não existia. Ali, sob a luz âmbar e o olhar faminto de homens de negócios, a persona de Sun assumia o controle. A postura era impecável, os ombros relaxados em uma confiança rigorosamente calculada. Ele usava uma camisa de seda escura, desabotoada o suficiente para sugerir pele, mas fechada o bastante para manter o ar de exclusividade. Seu cabelo estava perfeitamente alinhado, e o sorriso de canto de boca que ele oferecia a quem cruzasse seu olhar era um convite silencioso, promissor e inatingível.
Sun sabia ler clientes. Ele sabia quais homens queriam ser ouvidos, quais queriam ser bajulados e quais precisavam apenas de uma presença bonita e silenciosa ao lado deles em um sofá de veludo. Era um jogo de espelhos, e ele dominava cada reflexo. A diferença entre o que ele demonstrava e o que realmente sentia era uma fronteira impenetrável.
Discretamente, ele baixou os olhos para o relógio prateado no pulso. Onze e quarenta e cinco da noite.
A mandíbula de Andy travou por uma fração de segundo antes que Sun retomasse a pose. Ele não estava ali porque gostava daquele mundo de luxo e frivolidade. Ele estava contando os minutos para ir embora. O ar condicionado estava no máximo, mas ele sentia um calor incômodo na base do pescoço, a urgência física de quem precisa estar em qualquer outro lugar.
Com um aceno educado para o bartender, ele se afastou do balcão e caminhou em direção ao corredor dos banheiros privativos, longe dos olhos dos clientes. Assim que a pesada porta de carvalho se fechou às suas costas, abafando o som do jazz contemporâneo, a máscara de Sun começou a ceder.
Andy enfiou a mão no bolso interno do paletó e puxou um envelope pardo. O cliente anterior havia sido generoso, ou pelo menos acreditava ter sido. Andy abriu a aba e passou os dedos pelas notas. Cinquenta, cem, cem, cinquenta. Ele não precisava tirar o dinheiro do envelope para calcular o valor. Sua mente já operava na matemática da sobrevivência.
Trezentos dólares para o hospital, cobrindo parte do tratamento da leucemia. Quatrocentos para a nova rodada de medicamentos. Cento e cinquenta para a parcela atrasada do aluguel. E o resto...
O resto era para abater a dívida com o agenciador de acompanhantes.
Andy separou uma pequena quantia, o mínimo necessário para comprar comida para os próximos dias, e guardou no próprio bolso. O envelope agora parecia leve demais. Ele apertou a ponta dos dedos contra a testa, sentindo a dor de cabeça familiar pulsar nas têmporas. O dinheiro era insuficiente. Novamente. E ele sabia que não podia falhar naquela semana. Não havia margem de erro quando a vida dependia de pagamentos em dia.
O celular vibrou na calça.
Ele o puxou rapidamente, os ombros tensos, temendo ser uma cobrança, mas o nome na tela fez o ar escapar de seus pulmões em um suspiro de alívio.
Ethan: Você vai demorar?
Pela primeira vez naquela noite, um sorriso real curvou os lábios de Andy. Não o sorriso ensaiado de Sun, mas algo genuíno, que alcançava os olhos e suavizava as linhas duras de seu rosto. O garoto de dezenove anos era sua única âncora. Ele se encostou na parede de azulejos escuros e digitou.
Andy: Já estou indo.
A resposta veio em segundos, como se Ethan estivesse segurando o aparelho no quarto do hospital, esperando.
Ethan: Você comeu?
Andy olhou para o próprio reflexo no espelho acima da pia. As olheiras estavam bem escondidas sob a iluminação baixa, mas ele sabia que estava pálido, o estômago roncando vazio há horas.
Andy: Já.
Ele guardou o celular, endireitou a postura e respirou fundo. Era hora de voltar, encontrar a saída de serviço e desaparecer nas ruas de Los Angeles.
Mas assim que Andy abriu a porta do banheiro e deu um passo para o corredor mal iluminado, seu peito gelou.
Marcus Vale estava encostado na parede, bloqueando a passagem.
Aos trinta e oito anos, o cafetão usava um terno de corte duvidoso e exalava um cheiro forte de cigarro que contrastava violentamente com a elegância do clube. Marcus não pertencia àquele andar, mas ele conhecia os atalhos.
— Saindo cedo, Sun? — A voz de Marcus era áspera, carregada de um sarcasmo territorial.
— Meu turno acabou. — Andy manteve a voz neutra. Ele não recuou. Recuar era mostrar fraqueza.
Andy tirou o envelope pardo do bolso e o estendeu. Marcus pegou o pacote, abrindo-o sem pressa. Ele passou o polegar grosso pelas notas, e o sorriso presunçoso que carregava desapareceu.
— Isso é uma piada? — Marcus ergueu os olhos escuros. — Falta metade do combinado.
— É o que eu tenho hoje. O cliente não quis estender o horário. — Andy manteve os braços ao longo do corpo. — Eu trago o resto na sexta-feira.
— A dívida tem juros, garoto. Você acha que eu aceito desculpas?
— Eu sei como funciona. Você vai ter o dinheiro, Marcus. Só preciso de mais dois dias.
Marcus deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Andy. O cheiro de tabaco ficou insuportável.
— Você está atrasado, e eu odeio atrasos. — Marcus inclinou a cabeça, os olhos brilhando com uma malícia calculada. — Seu irmão ainda está naquele hospital, não está?
A menção a Ethan desfez a postura profissional de Andy instantaneamente. A frieza de Sun sumiu, dando lugar ao pânico puro e instintivo de um irmão mais velho encurralado.
— Não fala dele — Andy rosnou, a voz baixa, mas trêmula de raiva.
— Ou o quê? — Marcus sorriu. — Você acha que está no controle aqui porque veste seda? Você é meu, Sun.
Marcus avançou de vez, perdendo a paciência. Ele agarrou o braço de Andy com força, os dedos cravando no bíceps através do tecido fino da camisa.
— Me solta! — Andy puxou o braço, tentando se desvencilhar sem levantar a voz. Um escândalo ali significaria ser expulso do clube, e ele não podia perder aquele ponto de trabalho.
Em resposta, Marcus o empurrou rudemente. As costas de Andy bateram com força contra a parede de madeira do corredor. O impacto roubou seu fôlego por um segundo. A dor irradiou pelas omoplatas, mas ele não revidou. Ele estava acostumado a engolir a humilhação.
Um garçom passou apressado pelo fim do corredor, segurando uma bandeja de bebidas. O homem desviou o olhar imediatamente, fingindo não ver a agressão, e desapareceu pelas portas duplas. Ninguém interferia.
Andy engoliu a seco, o rosto queimando pela exposição. A primeira coisa que fez foi levar as mãos à bochecha, apalpando a pele perto do maxilar, procurando qualquer sinal de inchaço. Ele precisava saber se havia ficado alguma marca visível. Se o seu rosto estivesse machucado, nenhum cliente pagaria por ele, e sem clientes, não haveria dinheiro. Sua segurança não importava; a continuidade de seu trabalho era a única coisa que importava.
Marcus riu, um som cruel e baixo. Ele levantou a mão novamente para agarrar o colarinho de Andy.
Mas o movimento parou no ar.
A alguns metros de distância, perto da tapeçaria escura que separava o corredor do salão principal, alguém observava a cena em silêncio absoluto.
Andy notou primeiro os sapatos de couro italiano perfeitamente polidos. Depois, o terno sob medida que caía com perfeição absoluta sobre ombros largos. Ele não fazia ideia de quem era aquele homem, mas a postura rígida e o corte impecável do tecido exalavam o tipo de autoridade silenciosa que apenas o poder inquestionável conseguia comprar.
O que prendeu a atenção de Andy, no entanto, foi o olhar do estranho. Os clientes daquele clube olhavam para Sun como se ele fosse um produto na vitrine, algo a ser consumido. O olhar desse homem não exibia luxúria ou condescendência. Era um olhar frio, analítico e irredutível. E os olhos escuros do desconhecido não estavam fixos em Andy.
Eles estavam cravados em Marcus.
O homem deu um passo à frente, sem pressa. Ele não assumiu uma postura defensiva, nem elevou o tom de voz para soar autoritário. Apenas parou a uma distância curta, com as mãos relaxadas, e disse:
— Solte-o.
A voz era controlada, segura e assustadoramente objetiva.
Marcus girou o corpo, fechando a expressão na tentativa inútil de intimidar o recém-chegado. A diferença entre os dois era palpável: Marcus era agressividade barata, o estranho era poder estruturado.
— Isso não é da sua conta, amigo — Marcus retrucou, mantendo a mão próxima à camisa de Andy. — Assunto particular.
O homem não piscou. O contraste ficou ainda mais evidente. Enquanto o agenciador parecia prestes a gritar, o homem de terno permanecia em um estado de calma absoluta. Marcus hesitou sob o peso daquele silêncio intransigente. Lentamente, a confiança do cafetão vacilou e ele soltou o tecido, dando um pequeno passo para trás, embora se mantivesse no corredor.
O desconhecido desviou os olhos do agenciador e olhou para Andy.
— Você está machucado? — perguntou ele.
— Estou bem — Andy respondeu automaticamente, erguendo o queixo.
Os olhos do homem desceram pelo pescoço de Andy, notando a respiração curta e o punho ainda cerrado contra a coxa. Ele percebeu a mentira imediatamente.
Andy forçou os músculos do rosto a relaxarem. Ele precisava retomar o controle da situação, voltar para um terreno que conhecia. Homens ricos queriam flerte, queriam ser recompensados pelo próprio ego. Ele ensaiou um sorriso calculadamente provocador, ajeitando a gola da camisa de seda, adotando a postura polida de Sun.
O estranho ignorou completamente a persona oferecida. Ele não devolveu o sorriso, não avaliou o corpo de Andy e não fez nenhum comentário sugestivo.
— Quanto ele quer? — o homem perguntou, o tom de voz idêntico ao de antes.
Andy piscou, o sorriso profissional vacilando no mesmo instante. Todo o seu ensaio evaporou.
— O quê? — Andy murmurou, desarmado. Ele esperava um convite para o quarto, não aquela pergunta.
O homem moveu os olhos, fixando-os no cafetão.
— Pela sua dívida.
Antes que Andy pudesse formular qualquer pensamento racional, o estranho se dirigiu diretamente a Marcus, a voz cortando o ar pesado do corredor sem a menor hesitação:
— Quanto você quer para deixá-lo em paz?
A luz pálida da manhã infiltra-se pelas persianas quebradas do apartamento, atingindo o rosto de Andy. Ele abriu os olhos, o corpo ainda pesado pelas poucas horas de sono, e a primeira coisa que sua mão buscou sobre o colchão foi o celular. A tela acendeu, exibindo a conversa que havia ficado aberta desde a madrugada.Alexander: Chegou?Andy: Sim.Alexander: Boa noite.Andy encarou as palavras curtas. O polegar pairou sobre o teclado. Ele pensou em digitar alguma coisa, qualquer coisa que retomasse o controle que havia perdido no banco de couro daquele sedã esportivo.“Você sempre manda boa noite depois de fazer alguém esquecer o próprio nome?”Ele escreveu, olhou para a frase piscando no visor e apagou imediatamente. Aquilo soava vulnerável demais. Não era paixão que apertava seu peito; era desejo, curiosidade cega e um orgulho ferido por ter se rendido com tanta facilidade.Andy sentou-se na beirada da cama e esfregou o rosto. As lembranças da noite o atingiram em cheio: o calor asf
O beijo recomeçou com uma urgência que pulverizou qualquer resquício de conversa racional. Andy puxou Alexander de volta pela gola da camisa desabotoada, chocando os lábios contra os dele com uma força cega. A tensão acumulada desde o estacionamento escuro, somada à revelação esmagadora da verdadeira identidade do executivo, encontrou uma saída física e violenta dentro do carro.O interior do sedã converteu-se em um espaço privado e improvisado. A cidade de Los Angeles continuava seu ritmo febril do lado de fora, com o trânsito da avenida principal ecoando à distância, mas os vidros grossos e escurecidos isolavam os dois em um vácuo de calor e respirações curtas.Alexander não avançou com pressa egoísta. Mesmo com a respiração descompassada e as mãos cravadas na cintura do garoto, ele mantinha a atenção focada em cada reação de Andy. Não o forçava contra o banco de couro, não tentava dominá-lo. Andy, por sua vez, continuava tomando a iniciativa, empurrando o peso do corpo contra o de
— E por que um homem como você se interessou por alguém como eu?A pergunta pairou no ar noturno, densa e cortante, logo após a porta do sedã esportivo ser aberta. Andy continuava do lado de fora, a mão agarrada à borda da porta, recusando-se a entrar antes de obter uma resposta. O choque de descobrir que estava lidando com o CEO da Blackwood Holdings ainda reverberava em suas veias, misturando-se com a adrenalina do confronto com Marcus.Alexander não respondeu imediatamente. Ele observou o rosto de Andy sob a luz difusa do poste de rua. O executivo não tentou transformar a pergunta em uma declaração melodramática. Não disse que Andy era especial, não usou adjetivos poéticos, nem tentou envolvê-lo em promessas sentimentais de proteção. Alexander respondeu de maneira honesta, simples e absurdamente direta:— Porque eu quis.Andy apertou os dedos contra o metal da porta. Ele não aceitou a resposta tão facilmente.— Porque você me viu trabalhando como Sun no clube? — Andy insistiu, a vo
Alexander manteve a mão próxima à porta metálica. O segurança continuava bloqueando a entrada com o próprio corpo, os ombros tensos diante da autoridade silenciosa que irradiava do homem de terno. Alexander não aumentou o volume da voz. Não adotou uma postura agressiva. Ele apenas sustentou o olhar e repetiu, frio e irredutível:— Abra.O segurança hesitou. Ele olhou por cima do ombro, através da fresta da porta, buscando os olhos de Marcus em busca de autorização. Marcus, do lado de dentro, percebeu que não podia simplesmente mandar seus homens atacarem aquele desconhecido no meio de um estacionamento sem saber quem ele era e qual peso ele carregava. Com um aceno tenso, Marcus mandou abrir.A porta metálica rangeu ao ser escancarada.Alexander entrou. A primeira coisa que seus olhos registraram foi Andy. O garoto estava preso pelos braços, imobilizado pelos dois seguranças, visivelmente assustado e ofegante. A poucos passos dele, Marcus segurava o cinto de couro dobrado na mão.Alexa
Andy saiu da agência e a porta de metal bateu às suas costas com um som surdo, isolando-o do prédio, mas não do perigo. Ele caminhava rapidamente pelas ruas de Los Angeles, o ar quente do final da tarde contrastando com o suor frio que começava a se formar na base do seu pescoço. A respiração estava curta, presa em algum lugar do peito. A ameaça de Marcus contra Ethan continuava martelando em sua cabeça em um ciclo vicioso e desesperador. Marcus havia usado o hospital, a vulnerabilidade do garoto de dezenove anos, como a arma definitiva.Andy sabia o que acabara de fazer. Havia cruzado uma linha sem volta. Pela primeira vez desde que se submeteu àquela vida, ele disse não e virou as costas para o homem que controlava seus horários e suas dívidas. Com as mãos tremendo levemente, ele conferiu o celular e encarou a tela iluminada. A mensagem que havia enviado a Alexander continuava lá: Não venha atrás de mim.Ele não havia explicado nada. Não queria envolver o executivo naquele abismo de
A tela do celular brilhava com uma nitidez cruel na escuridão da rua. Andy permaneceu imóvel na calçada, o vento frio de Los Angeles batendo contra a sua jaqueta, os olhos cravados na mensagem recém-chegada.“Acho que precisamos conversar sobre seu novo amigo.”A fotografia continuava aberta. Com o polegar ligeiramente trêmulo, Andy aumentou a imagem. O enquadramento era amador, mas capturava detalhes suficientes para destruir qualquer negação. O carro importado de Alexander perfeitamente focado. O próprio rosto de Andy, iluminado pelas luzes do painel no momento em que ele abria a porta do passageiro. O cenário indicava a rua tranquila de Beverly Hills, e a escuridão apontava o horário aproximado do fim do jantar.A primeira reação que atingiu Andy não foi o medo por si mesmo. O soco de Marcus no dia anterior já havia deixado claro do que o agenciador era capaz. O que gelou o sangue de Andy foi o pânico imediato por Ethan. Se Marcus havia colocado alguém para segui-lo durante a noite







