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Isabella Andrade
O ar dentro da mansão Andrade sempre teve um gosto de lavanda e hipocrisia. Mas hoje, o cheiro estava insuportável. Eu estava sentada diante da penteadeira do meu quarto, encarando o reflexo de uma mulher que eu mal reconhecia. Meus olhos azuis, que costumavam brilhar com uma curiosidade boba sobre o mundo, pareciam duas pedras de gelo cravadas em um rosto pálido. Eu ouvia o tilintar de taças de cristal vindo do andar de baixo. O som das risadas de Clarice, minha madrasta, subia pelas escadas como veneno destilado. Ela tinha o dom de transformar qualquer tragédia em um evento social digno de nota. E para ela, o fato de minha irmã mais nova, Luiza, estar noiva do meu ex-namorado não era uma traição — era "uma feliz coincidência do destino". Rodrigo. Só de pensar no nome dele, meu estômago dava voltas. Passamos três anos juntos. Planejamos nomes de filhos, escolhemos a cor das cortinas de um apartamento que nunca chegamos a mobiliar. E então, ele terminou comigo sob o pretexto de que "precisava de espaço". O espaço, pelo visto, tinha exatamente o tamanho do quarto da minha irmã. Uma batida suave na porta interrompeu meu tormento interno. — Bella? — Era a voz do meu pai. O tom era aquele que ele usava quando estava prestes a pedir um sacrifício em nome da "paz familiar". — Entra, pai. — Respondi, sem desviar os olhos do espelho. Arthur Andrade entrou, fechando a porta com cuidado, como se temesse que o barulho pudesse quebrar o verniz de civilidade que ele tanto lutava para manter. Ele se aproximou e colocou a mão no meu ombro. Eu senti o peso daquela mão. Era o peso de anos de expectativas não atendidas. — Você está linda, querida. Mas os convidados já chegaram. Os pais do Rodrigo estão na sala, e Luiza está... bem, você sabe como ela fica quando não tem a atenção de todos. — Ela está radiante, eu imagino. — Minha voz saiu mais rouca do que eu pretendia. — Afinal, ela conseguiu o troféu final. O namorado que pertencia à irmã mais velha. Meu pai suspirou, sentando-se na beira da minha cama. — Isabella, eu sei que dói. Eu não sou cego. Mas Rodrigo e Luiza se apaixonaram. Coisas assim acontecem. Não podemos parar a vida deles por causa de um ressentimento. Clarice organizou esse jantar de noivado com tanto carinho... ela quer que você seja a madrinha. É um gesto de união, filha. — União? — Eu me virei para ele, sentindo a primeira onda de fúria genuína quebrar a barreira do meu entorpecimento. — Pai, você tem noção do que está me pedindo? Você quer que eu segure o buquê da mulher que roubou o meu futuro e ainda se diz minha irmã? Que eu assine um documento testemunhando que o homem que eu amava agora pertence a ela? Isso não é união. É sadismo. — Não seja dramática! — A voz não era do meu pai. Clarice entrou no quarto como se fosse a dona do mundo. Vestia um conjunto de seda creme que gritava elegância e frieza. Ela cruzou os braços, me analisando com aquele olhar de desaprovação que eu conhecia desde os meus doze anos. — Isabella, já chega desse luto ridículo. O namoro com o Rodrigo acabou há meses. Se ele encontrou a felicidade com a Luiza, você deveria ser a primeira a comemorar. O que as pessoas vão dizer se a irmã mais velha se recusar a participar do casamento? Que você é amargurada? Invejosa? — Eu não me importo com o que as pessoas dizem, Clarice. Eu me importo com o que eu sinto. — Pois comece a se importar com o nome desta família! — Ela deu um passo à frente, a voz baixando para um sussurro sibilante. — Sua irmã é sensível. Ela chorou a manhã inteira com medo de que você estragasse tudo com a sua cara de enterro. Seu pai e eu decidimos: você vai descer, vai cumprimentar o Rodrigo, vai abraçar sua irmã e vai aceitar o convite para ser madrinha. É uma ordem, não uma sugestão. Olhei para o meu pai, buscando um aliado. Ele apenas olhou para o chão, ajustando o relógio de pulso. A covardia dele era o que mais me machucava. Ele preferia me ver sangrar emocionalmente a ter que discutir com a esposa. Naquele momento, algo dentro de mim quebrou. Não foi uma quebra ruidosa, mas o silêncio absoluto de uma corda que estica até não poder mais. — Tudo bem. — Eu disse, minha voz subitamente calma. — Vocês têm razão. A "família perfeita" não pode ter manchas. Clarice sorriu, um brilho de triunfo nos olhos. — Que bom que você recobrou o juízo. Desça em cinco minutos. Eles saíram. Fiquei sozinha no silêncio do quarto, mas agora o ar parecia ainda mais pesado. Eu me levantei e caminhei até o closet. Meus olhos caíram sobre uma mala de couro pequena, escondida no fundo. Eu não pensei. Se eu pensasse, eu morreria naquela casa. Com movimentos frenéticos, comecei a jogar roupas lá dentro. Não escolhi as melhores, apenas as que estavam mais perto. Meus documentos estavam na gaveta da escrivaninha, junto com um fundo de reserva em dinheiro que eu vinha guardando para um curso de fotografia que nunca tive coragem de começar. Enfiei tudo na bolsa. Peguei meu celular e vi uma notificação de grupo de família. Uma foto de Luiza e Rodrigo, brindando com champanhe na sala de estar. A legenda de Clarice dizia: "O amor sempre vence". — Não desta vez, não vou ficar para participar deste show de horrores. — Sussurrei. Saí do quarto e caminhei pelo corredor dos fundos, a escada de serviço que os empregados usavam. Eu conhecia cada tábua que rangia naquela casa. Desci as escadas, o coração martelando contra as costelas como um pássaro enjaulado. A cozinha estava vazia; todos estavam ocupados servindo os "nobres" na sala de jantar. Saí pela porta dos fundos. O ar frio da noite atingiu meu rosto, e pela primeira vez em semanas, eu consegui respirar. Não parei para olhar para trás. Corri até o portão lateral, onde os táxis costumavam entregar encomendas. A sorte, pela primeira vez, estava ao meu lado. Um táxi estava deixando um vizinho alguns metros adiante. Corri até ele, quase tropeçando nos meus próprios pés. — Para onde, moça? — O motorista perguntou, notando meu estado ofegante e o pânico em meus olhos. — Aeroporto. Agora. Por favor. Enquanto o carro se afastava, olhei pelo vidro traseiro. A mansão Andrade estava toda iluminada, imponente e bela por fora, mas apodrecida por dentro. Eu via as sombras das pessoas se movendo através das janelas da sala de jantar. Eles estavam brindando à minha custa. Peguei meu celular. Meus dedos tremiam. Eu precisava sumir. Não apenas sair de casa, mas sair daquele raio de existência. Abri o aplicativo de voos. Eu não queria saber o destino. Eu só queria o próximo avião que cruzasse a fronteira. "para qualquer lugar", digitei mentalmente. Havia um voo internacional saindo em duas horas. Destino: algum lugar que eu nunca havia visitado. Comprei a passagem com um clique, sentindo um choque de adrenalina percorrer minha espinha. Ao chegar no aeroporto, o caos ao meu redor era um reflexo perfeito do que eu sentia por dentro. Milhares de pessoas indo e vindo, cada uma com sua própria história, seu próprio drama. Ali, eu não era a Isabella Andrade, a irmã preterida ou a filha de um empresário omisso. Eu era apenas uma passageira sem rumo. Passei pelo check-in como se estivesse em um sonho. Meus pés pareciam flutuar. Quando cheguei à área de embarque, a exaustão começou a tomar conta. Eu não comia há horas. Meus olhos azuis estavam vermelhos de cansaço e das lágrimas que eu me recusava a derramar. Foi então que vi o letreiro de uma Sala VIP. Eu tinha um cartão de crédito de alta categoria que meu pai insistia que eu mantivesse para "emergências". Bem, se ser traída pela família e fugir do país não era uma emergência, eu não sabia o que era. Entrei na sala. O ambiente era silencioso, luxuoso, com poltronas de couro profundo e uma luz âmbar acolhedora. Era um mundo à parte do barulho lá fora. Caminhei até o bar e pedi um vinho tinto. Sentei-me em uma mesa afastada, observando a pista de decolagem através do vidro imenso. As luzes dos aviões pareciam estrelas caídas. Eu estava sozinha. Totalmente sozinha. E, pela primeira vez, isso não me assustou. — À sua liberdade, Bella. — Brindei baixinho, o cristal da taça gelado contra meus dedos. Eu só sabia que a Isabella que saiu de casa naquela noite nunca mais voltaria.Milena— Estão aqui, Bella, as suas roupas. Pelo menos você consegue tomar um banho digno já que se recusa a pisar em casa.Pousei a bolsa de viagem sobre o sofá do quarto de hospital, soltando um suspiro longo enquanto me aproximava da cama. Ajeitei meu casaco nos ombros, olhando feio para a minha melhor amiga, que continuava sentada na poltrona ao lado de Rafael como se tivesse sido colada ali. Ela exibia olheiras fundas, mas a teimosia nos olhos azuis permanecia intocada.Rafael, recostado sobre os travesseiros com o curativo espesso no peito e o semblante cansado, olhou para mim e depois para ela.— Eu já disse para ela ir para casa descansar, Milena — a voz dele saiu baixa, rouca, mas carregada daquela autoridade natural que ele achava que ainda podia exercer. — Mas a sua amiga não me ouve.— Eu só saio daqui quando você sair, Rafael — Bella respondeu no mesmo segundo, sem nem piscar, cruzando os braços com um queixo erguido que não dava margem para discussões. — Já avisei e vou
Milena— Vai ficar aí até fechar? — perguntei, o tom de voz carregado de um sarcasmo afiado que fez o bartender ao meu lado olhar de relance.Davi ergueu os olhos do copo de uísque com uma lentidão exasperante. Ele olhou para a esquerda, para a direita, e depois apontou para o próprio peito com um semblante de genuína surpresa, como se não soubesse que era com ele que eu estava falando. Aquela cara de tonto, aquele teatro disfarçado de inocência, fez o meu sangue ferver na hora.— Eu? — ele perguntou, com a voz grave e o olhar divertido.— Sim, você! — apoiei os cotovelos no balcão de madeira escura, me aproximando o suficiente para que apenas ele me ouvisse. — Quem mais seria? Você está me encarando há quase uma hora. Perdeu alguma coisa na minha cara ou o seu escritório não tem trabalho pra fazer?Davi deu um gole calmo no uísque, saboreando o líquido antes de pousar o copo de volta no descanso de papel. A postura dele continuava impecável, relaxada no banco alto, contrastando terri
Davi Esses dias com o Rafael no hospital estavam uma loucura. A rotina virara um caos absoluto de ligações sem fim, reuniões de emergência, visitas rápidas ao quarto dele para garantir que o "Tubarão" não inventasse de tentar assinar relatórios com o braço cheio de acessos e a escolta ostensiva que nos cercava a cada segundo. O delegado Gabriel, nosso amigo de longa data, não deixou nada ao acaso. Colocou homens armados de prontidão logo na entrada do quarto de Rafael e manteve uma equipe discreta, de olho na casa e na pequena Sofia. A sensação era de estar vivendo em um campo de minado que só agora começava a ser desarmado. Clarice tinha morrido naquela noite podre na zona portuária, mas todos nós sabíamos que ela era apenas a ponta do iceberg. Ela era a face visível de uma engrenagem corrupta muito maior, financiada por figuras influentes, nomes do alto escalão e esquemas de lavagem de dinheiro que se arrastavam há anos nas sombras do judiciário. Eu estava na minha sala no escritó
IsabellaNa manhã seguinte, acordei aos poucos com o som ritmo e persistente daquele bip constante — o único ruído que quebrava o silêncio denso do quarto de hospital.Minha cabeça ainda repousava na beirada do colchão, ao lado da mão de Rafael, e meu corpo cobrava o preço do cansaço e do pavor da noite anterior. Minhas costas doíam, mas a primeira coisa que fiz ao abrir os olhos foi olhar para cima. O peito dele subia e descia devagar, em um ritmo calmo e abençoado. Ele ainda dormia o sono profundo induzido pelos sedativos.Não demorou muito para que o médico da UTI entrasse no quarto, acompanhado por duas enfermeiras. Ele passou logo pela manhã para examinar o quadro clínico de Rafael, checando os sinais vitais no monitor, a ausculta pulmonar e o estado do curativo no peito. Para o meu imenso alívio, a evolução era excelente. Diante da estabilidade e da ausência de complicações, Rafael recebeu alta da Unidade Intensiva e foi liberado para o quarto particular.A transferência foi ráp
Isabella — A cirurgia foi um sucesso. Ele está fora de perigo.As palavras do médico caíram sobre o corredor como uma benção há muito esperada. Senti minhas pernas fraquejarem instantaneamente, e se não fosse pelo braço firme de Davi me amparando e o abraço apertado de Milena, eu teria ido direto ao chão.— A bala atingiu o peito, mas por uma fração de milímetros atravessou o corpo sem perfurar nenhum órgão vital — o cirurgião continuou, limpando o suor da testa e nos oferecendo um sorriso cansado, porém humano. — Ele perdeu muito sangue e o trauma foi severo, mas o quadro é estável. O senhor Mendes é um homem forte.— Eu posso ver ele? Por favor... — perguntei antes mesmo que o médico terminasse de falar, com a voz embargada e as mãos trêmulas agarradas ao meu próprio ventre.— Ele ainda está sob o efeito da anestesia e precisa de repouso absoluto, mas... sim, você pode — o médico concordou, sensibilizado pela minha aflição. — Podem entrar por alguns instantes, mas em absoluto silên
Isabella Eu já estava esperando pelo tiro. Tinha fechado os olhos, encolhido os ombros e entregado a minha alma a Deus, rezando apenas para que o meu bebê sobrevivesse. Mas quando o estrondo avassalador rasgou o ar e senti o corpo de Clarice vacilar sobre mim, o peso do aço desapareceu da minha nuca.Abri os olhos em choque e vi a minha madrasta dar dois passos cambaleantes para trás, a expressão de choque gravada no rosto antes de tombar pesadamente contra o concreto frio. Um dos snipers da polícia, tinha agido no segundo exato em que ela apertou a mandíbula para apertar o gatilho.Senti um misto de alívio brutal e desespero puro encher os meus pulmões. Não me importava com Clarice, não me importava com o império destruído nem com as promessas de vingança. Minha mente só conseguia registrar uma única imagem: Rafael ensanguentado a um metro de mim.— Rafael! — me arrastei pelo chão de concreto, ignorando os arranhões nos joelhos e nas mãos, até alcançar o corpo dele. — Rafael, por fa







