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O despertador tocou às cinco e quarenta, mas foi o peso quente de vinte quilos de gato se acomodando em cima do peito que realmente acordou Anne.
— Bom dia para você também, Oliveira — ela resmungou, ainda de olhos fechados, a mão subindo automaticamente para afagar o pelo laranja bagunçado.
O gato ronronou alto, satisfeito, e esfregou a cabeça no queixo dela antes de pular da cama e sentar-se ao lado da porta, esperando com aquela paciência felina que não durava mais do que trinta segundos.
— Já vou, seu chato.
Anne se levantou, esticou os braços até os ombros estalarem, e seguiu para a cozinha minúscula do apartamento com o gato trotando atrás dela, a cauda espetada e satisfeita no ar.
Encheu o potinho de ração, trocou a água, e ficou ali por um instante, encostada no balcão, olhando pela janela a luz ainda fraca da manhã se espalhando sobre os telhados vizinhos.
Era nesses minutos, antes de qualquer coisa acontecer, que ela mais gostava do próprio dia.
Tomou banho, fez o café, separou o uniforme — calça preta, camisa branca, o avental do Raiz dobrado com cuidado dentro da bolsa — e, quando já estava pronta, se agachou para dar um último carinho no Oliveira, que a observava do sofá com aquele ar de quem sabia perfeitamente que ela ia embora e não fazia questão nenhuma de disfarçar o desagrado.
— Se comporta — ela disse, rindo baixinho, e saiu.
O apartamento de Anne ficava a só dois quarteirões do restaurante, e ela fazia questão de ir a pé sempre que o tempo ajudava. Era o tipo de caminho que não cansava nunca, por mais vezes que ela repetisse, a rua era cheia de lojinhas que abriam devagar àquela hora, donos erguendo as portas de metal, vitrines sendo organizadas, o cheiro de pão quente escapando pela porta da padaria da esquina.
Ela gostava especialmente da floricultura que ficava em frente ao Raiz, do outro lado da rua. Baldes repletos de flores coloridas ocupavam a calçada, organizados de maneira diferente a cada manhã, como se a dona sempre encontrasse uma nova forma de arrumá-los. Anne nunca soubera o nome da mulher, mas, havia dois anos, as duas compartilhavam o mesmo cumprimento silencioso — um aceno de cabeça, às vezes acompanhado por um sorriso.
Naquela manhã, Anne acenou, recebeu o cumprimento de volta e atravessou a rua em direção ao restaurante.
O Raiz não tentava chamar atenção com luzes ou letreiros grandes. A fachada era de madeira escura, quase rústica, com uma marquise estreita de lona verde-musgo protegendo a entrada. O nome do restaurante estava gravado em letras de latão simples acima da porta, sem brilho excessivo, só o suficiente para refletir a luz da manhã. Duas floreiras de ferro ladeavam a porta dupla de vidro, cheias de ervas que a própria cozinha usava — alecrim, manjericão, um pé de hortelã que insistia em crescer mais rápido que os outros. Um quadro-negro pendurado ao lado da entrada trazia, escrito à mão, o prato do dia.
Era simples. Era dela. E, mesmo depois de dois anos, Anne ainda sentia um aperto bom no peito toda vez que via aquela fachada.
Respirou fundo e entrou.
O salão ainda estava sendo preparado para o almoço — cadeiras sendo ajeitadas, talheres alinhados, a luz da manhã entrando forte pelas janelas grandes.
Anne cumprimentou a equipe com um bom dia geral, recebendo de volta um coro de vozes e um ou outro comentário sobre o tempo. Passou entre as mesas conferindo detalhes: um guardanapo mal dobrado aqui, uma cadeira fora do lugar ali, o vidro de uma taça que precisava de mais polimento.
Da cozinha, o barulho já familiar de facas contra tábuas e água fervendo a chamava. Ela entrou, cumprimentou Raffine e o resto da equipe com o mesmo carinho de sempre — um tapinha no ombro aqui, uma pergunta sobre o fim de semana de alguém ali —, provou um caldo que estava sendo preparado, aprovou com um aceno, e seguiu para o escritório no andar de cima do restaurante.
Camila já estava lá, os papéis do dia organizados sobre a mesa dela.
— Bom dia, chef — disse, sem tirar os olhos da tela do computador. — Antes de qualquer coisa: a secretária da rede Borges Hotéis ligou bem cedo. Disse que eles estão organizando a inauguração de um hotel novo aqui na cidade e queriam conversar com você sobre o evento.
Anne parou no meio do caminho até a própria sala.
— Borges Hotéis?
— Isso. Deixei o contato em cima da sua mesa — Camila respondeu, agora sim olhando para ela. — Ela pediu para você retornar assim que possível.
— Tudo bem. Eu ligo.
Anne entrou na própria sala, fechou a porta com cuidado, e ficou parada por um segundo olhando o pedacinho de papel em cima da mesa: um nome — Patrícia — e um número de telefone anotado com letra bonita e organizada.
Não devia significar nada. Redes de hotéis contratavam restaurantes para eventos o tempo todo, e o Raiz já tinha reputação suficiente na cidade para esse tipo de convite não ser incomum. Ainda assim, ela ficou parada mais tempo do que gostaria de admitir, o telefone na mão, o polegar pairando sobre o número antes de finalmente apertar discar.
Atendeu no segundo toque.
— Bom dia — a voz de Anne era profissional. — Aqui é a Anne, do restaurante Raiz. Recebi seu recado.
— Ah, chef Anne! Que bom que retornou tão rápido. — A voz do outro lado era simpática. — Falo da Borges Hotéis & Resorts. Estamos expandindo a nossa rede e esta será a primeira unidade na cidade. Durante a procura por um restaurante para cuidar da inauguração, seu nome foi citado diversas vezes. Todos falaram do Raiz e da forma como vocês transformam eventos em experiências. Gostaríamos muito de conversar sobre a possibilidade de o restaurante assinar o menu da noite. Se for possível, poderíamos nos encontrar hoje no nosso novo escritório?
Anne olhou rapidamente para a agenda aberta na tela do computador, mesmo já sabendo que ia dizer sim.
— Consigo sim. Que horas?
— Que tal às três? Mando o endereço por mensagem.
— Perfeito. Nos vemos as 15h.
Desligou o telefone e ficou parada por mais um instante, sem saber ao certo por que aquilo tinha mexido tanto com ela — talvez só fosse o tamanho da oportunidade, talvez fosse simplesmente o jeito como o nome "Borges" continuava soando familiar demais, de um jeito que ela preferia não examinar de perto agora.
Balançou a cabeça, guardou o pensamento numa gaveta mental qualquer, e voltou ao trabalho.
O movimento do almoço tomou conta do restaurante e fez o restante da manhã passar quase sem que Anne percebesse. Ela transitava entre a cozinha e o salão, resolvendo o que aparecia pela frente: conferia o ponto de um risoto, ajudava a organizar uma reserva que havia sido duplicada e experimentava um molho novo que Raffine insistia para que ela provasse.
Só percebeu a hora quando Camila apareceu na porta da cozinha.
— Chef, falta uma hora e meia para o seu compromisso.
— Já? — Anne olhou em volta, surpresa com o tempo que tinha passado. Limpou as mãos no pano preso à cintura. — Tá bom, já vou me arrumar.
Um coro de reclamações se ergueu da equipe assim que ela anunciou que precisava sair.
— De novo, chef? — Raffine provocou, sem tirar os olhos da panela. — A gente nem trabalha direito sem você aqui.
— Vocês trabalham melhor sem mim aqui, você sabe disso — ela respondeu, rindo, enquanto tirava o avental.
— Mentira, é só para você não desconfiar — brincou outro cozinheiro, arrancando risadas do resto da equipe.
Anne se despediu de todo mundo com um aceno e seguiu para o pequeno banheiro anexo ao escritório — instalado ali justamente para esses momentos, quando ela precisava sair do restaurante vestida como dona do negócio.
Trocou de roupa, ajeitou o cabelo, conferiu o próprio reflexo no espelho por um segundo a mais do que era estritamente necessário.
De volta à mesa, abriu o aplicativo no celular e digitou o endereço que Patrícia tinha acabado de mandar por mensagem. Confirmou a corrida, pegou a bolsa, e saiu do escritório em direção à entrada do restaurante, sem imaginar exatamente o que a esperava naquele endereço.
— Pode avisar que vou descer — respondeu Anne. Ela devolveu o interfone ao suporte e olhou para Olivia. A amiga continuava adormecida no sofá, protegida pela manta, sem demonstrar que havia escutado o toque ou a breve conversa. Anne pegou as chaves e deixou o apartamento em silêncio, cuidando para fechar a porta sem fazer qualquer barulho. Durante a descida, tentou imaginar o que Oliver pretendia ao aparecer ali depois de ignorar todas as ligações e mensagens. Se havia lido o aviso que ela enviara, poderia simplesmente ter respondido que estava bem. Duas palavras seriam suficientes para tranquilizar Olivia e impedir que a irmã passasse parte da noite dirigindo pela cidade à sua procura. As portas do elevador se abriram, e Anne atravessou o saguão em direção à portaria. Oliver estava próximo à entrada do condomínio, esperando do outro lado das portas de vidro. A imagem diante dela era muito diferente do homem que costumava encontrar nas reuniões do hotel. A gravata estava frouxa ao
A sinceridade da resposta afastou qualquer tentativa de tranquilizá-la com explicações que nenhuma das duas poderia confirmar. Anne pegou o próprio celular e abriu a conversa com Oliver. A última mensagem continuava sendo a atualização enviada depois do jantar, ainda sem resposta. Seus dedos permaneceram sobre a tela enquanto considerava se deveria escrever. Não queria que ele interpretasse aquilo como uma tentativa de retomar o assunto entre os dois, porém a preocupação de Olivia era mais importante do que qualquer conclusão equivocada. Escreveu antes que mudasse de ideia. “A Olivia está comigo, no meu apartamento. Ela vai passar a noite aqui. Quando puder, avise que está bem.” A mensagem foi enviada, mas nenhum sinal indicou que Oliver havia lido. — Pronto — disse Anne, colocando o aparelho sobre a mesa. — Agora ele sabe onde você está. — Você não precisava mandar uma mensagem por minha causa. — Precisava, sim. Se Oliver chegar em casa enquanto você está aqui, vai começar a p
O ponto que indicava a localização de Olivia avançou pelas últimas ruas antes de se aproximar do condomínio. Anne calçou os sapatos, pegou as chaves e desceu para encontrá-la, mantendo o celular nas mãos durante todo o caminho. Quando chegou à portaria, o carro já diminuía a velocidade diante da entrada. Olivia apresentou os dados ao porteiro, recebeu a autorização para entrar e estacionou na vaga indicada. Anne esperou próxima ao acesso do prédio. Assim que saiu do veículo, Olivia olhou ao redor como se ainda acreditasse que poderia encontrar o irmão em algum lugar daquele estacionamento. O cabelo estava desalinhado, e ela segurava o celular com tanta força que parecia temer perder uma ligação caso afastasse o aparelho por alguns segundos. — Obrigada por me deixar vir — disse ao se aproximar. — Eu sei que está tarde e que não deveria ter colocado você no meio disso. — Você já se desculpou pelo telefone. — E continuo achando que deveria pedir desculpas novamente. — Então faça iss
Não sabia se falava sobre a ausência da resposta ou sobre a preocupação que carregava desde que o vira sair do hotel. Qualquer que fosse o motivo, Anne não pretendia continuar esperando por alguém que decidira tratá-la apenas como uma profissional. Permaneceu na cozinha até ter certeza de que tudo estava preparado para a manhã seguinte. Quando deixou o hotel, a noite já havia avançado e o cansaço pesava em todo o seu corpo. Dirigiu para casa tentando pensar apenas no serviço que conseguira concluir, mas a lembrança de Oliver surgia sempre que o trânsito diminuía e o silêncio preenchia o carro. Ao chegar, A ausência de Oliveira tornou o apartamento ainda mais quieto, porém Anne não se arrependeu de tê-lo deixado com Anna. Não teria tempo para cuidar dele como deveria enquanto permanecesse tantas horas no hotel, tomou banho e vestiu uma roupa confortável. Deitou-se e apagou a luz, esperando que o cansaço fosse suficiente para fazê-la dormir, mas o celular tocou antes que conseguisse
Anne retornou à cozinha sabendo que não poderia continuar pensando na forma como Oliver havia encerrado a conversa. A saída de Joaquim deixara a equipe sem alguém para comandar o próximo turno, e o jantar se aproximava com o mesmo número de reservas e nenhuma possibilidade de suspender o serviço enquanto procuravam um substituto. Ela não precisava perguntar aos funcionários o que cada um sabia fazer. Durante os dias em que acompanhara o funcionamento da cozinha, já havia observado a técnica, a agilidade e as dificuldades de cada estação. Conhecia aqueles que conseguiam manter o controle durante o movimento, os que possuíam mais facilidade para corrigir uma preparação e aqueles que precisavam de orientações mais diretas. Anne reuniu a equipe ao redor da bancada central e distribuiu as responsabilidades de acordo com tudo o que havia acompanhado. — A saída de Joaquim não muda o que vocês sabem fazer. O que muda hoje é a forma como as decisões serão tomadas. — avisou. Indicou quem re
Anne permaneceu esperando que Oliver dissesse alguma coisa. Depois de tudo o que haviam conversado na casa de Anna, encontrar Gean dentro do hotel deveria provocar ao menos uma pergunta. Ela se preparou para ouvi-lo questionar por que continuava tratando Gean daquela maneira depois de descobrir as mentiras que os haviam mantido separados. Oliver, entretanto, não pronunciou o nome dele. — Patrícia me contou o que aconteceu com Joaquim. Anne levou alguns segundos para compreender que aquele seria o início da conversa. Nenhuma cobrança, nenhum comentário sobre Gean nem qualquer tentativa de retomar o assunto que os afastara. Oliver olhava para ela com a mesma seriedade que usava nas reuniões do hotel, como se os dois não tivessem compartilhado nada além de um contrato. — Ela foi rápida — respondeu, recuperando a postura. — Precisava ser. O hotel está sem alguém responsável pelo comando da cozinha, e ainda teremos o serviço do jantar. Quero saber se a equipe consegue trabalhar se







