Se connecterDepois daquela noite na praia, a nossa história simplesmente não desacelerou. O que parecia um reencontro despretensioso virou uma presença constante. Em poucas semanas, o capacete extra da moto do Edu já tinha lugar fixo no meu armário, e o sorriso dele virou minha paisagem favorita ao fim de cada dia.
Oficializar o namoro foi o passo mais natural do mundo, mas o grande teste do Edu ainda estava por vir: o bendito almoço de domingo na casa dos meus pais, dona Ana e seu Marcelo, onde ele finalmente encararia os quatro motivos pelos quais alegou ter me dado um fora dez anos atrás. Talita, é claro, fez questão de se convidar para assistir ao espetáculo. — Se algum dos seus irmãos partir para cima dele, eu gravo — brincou ela, ajeitando a almofada no sofá da minha mãe antes de o Edu chegar. Quando a campainha tocou, foi como se o tempo tivesse voltado, mas de um jeito muito mais leve. Edu entrou segurando uma garrafa de vinho para o meu pai, cumprimentou a dona Ana com um abraço carinhoso e encarou a fileira formada na sala: Brendo, o mais velho e sempre protetor, seguido por Lúcio, Jeferson e Samuel. Brendo cruzou os braços e tentou fazer uma cara séria de irmão mais velho, mas a pose não durou dois minutos. — Então você é o famoso Edu que fez a minha irmãzinha chorar no ensino médio? — provocou Lúcio, segurando o riso, enquanto Jeferson e Samuel já trocavam piadas ao lado. — Em minha defesa — Edu respondeu no mesmo tom descontraído. — eu só estava tentando sobreviver. Olha o tamanho de vocês quatro! Eu já tinha dezessete anos e estava no final do ensino médio, mas o Brendo parecia um segurança e vocês três pareciam prontos para expulsar da cidade qualquer pretendente da Karen. A sala inteira caiu na gargalhada. Meu pai balançou a cabeça rindo e minha mãe logo chamou todos para a mesa. Ao longo da tarde, Edu conquistou minha família inteira com uma facilidade impressionante: conversou sobre futebol com o meu pai, elogiou o almoço da minha mãe e engatou conversas sobre carros e trabalho com meus irmãos. Ver o homem que eu estava começando a amar integrado à minha família, rindo com os meus irmãos e trocando olhares cúmplices comigo por cima da mesa, me trouxe uma sensação de paz que eu nunca tinha experimentado antes. Mais tarde, quando a noite caiu e ficamos a sós no meu apartamento, com o vento frio nos envolvendo, Edu me abraçou por trás, descansando o queixo no meu ombro. — Viu só? Sobrevivi aos quatro guardiões, ao seu Marcelo e à dona Ana — ele sussurrou no meu ouvido, me fazendo rir. — Você se saiu muito bem, Edu — me virei no abraço dele, entrelaçando os braços no seu pescoço e olhando dentro daqueles olhos verdes que agora eram o meu lar. — Acho que o Brendo até gostou de você. — Que bom — ele disse, com o tom de voz ficando mais suave e profundo. — Porque eu não pretendo ir a lugar nenhum, Karen. Esperei dez anos para te encontrar de verdade. Agora que tenho você, é para a vida toda. Ali, selando aquela promessa com um beijo calmo e cheio de certezas, eu tive a convicção absoluta de que estava vivendo a fase mais feliz e completa da minha história.A noite avançou devagar sobre a cidade, cobrindo o quarto com um silêncio denso e acolhedor. Edu permaneceu de pé ao lado da cama, observando o meu rosto cansado até ver minha respiração finalmente se acalmar e se tornar pesada. Eu havia adormecido.Lembrando-se das instruções de Betina, Edu fechou os olhos translúcidos e buscou no fundo da sua alma a memória mais viva da nossa juventude: o corredor movimentado da escola, os armários alinhados e a luz do sol da tarde entrando pelas janelas. Ele concentrou toda a sua energia espiritual e canalizou essa lembrança diretamente para a minha mente.Para a sua surpresa, o véu entre os nossos mundos cedeu. A projeção não foi tão difícil quanto ele imaginava; o amor e a saudade que nos ligavam serviram como a ponte perfeita.De repente, encontrei-me no corredor da antiga escola. Minha aparência era a de uma garota de dezessete anos, mas a minha barriga de seis meses continuava ali, firme e redonda sob o uniforme. Olhei em volta, assustada
Seis meses de gestação. Minha barriga já estava visivelmente redonda, abrigando o pequeno Eric que se mexia com frequência. Mas, por dentro, eu me sentia cada vez mais vazia. A dor de ter o Edu diante dos meus olhos todos os dias sem poder sentir o calor da sua pele, sem poder abraçá-lo ou receber um beijo seu, estava me corroendo. Eu passava os dias trancada no quarto, no escuro, afundada em uma tristeza cinzenta.O quarto estava em silêncio quando a luz suave do espírito de Edu se aproximou da beira da cama. O olhar dele transbordava uma dor profunda ao me ver jogada ali, encarando o teto.— Karen, meu amor, você tem que levantar dessa cama... Poxa, você não quer ver sua família, sua amiga... Se afastou de todos. Eu não quero ver você assim.— Eu não quero ver ninguém! — respondi sem me mexer, com a voz embargada e seca. — Tô de saco cheio das pessoas me olhando com dó!— Ficar aqui sozinha não está lhe fazendo bem — insistiu ele, dando um passo em minha direção, com a mão este
Os meses seguintes passaram como um sopro lento e silencioso. A barriga já ostentava a curvatura evidente do avanço da gestação, firme e redonda sob as minhas roupas confortáveis. Quando chegou o dia de realizar o ultrassom para descobrir o sexo do bebê, Talita e minha mãe insistiram em me acompanhar, mas pedi carinhosamente para ir sozinha.Eu precisava daquele momento. Queria compartilhar cada segundo daquela descoberta com o Edu. Mesmo sabendo que ele não poderia estar ali do meu lado de forma carnal, segurando minha mão ou me dando um beijo na testa, ver a luz suave do seu espírito no banco do carona me trazia uma paz inexplicável. Eu me sentia imensamente feliz por saber que uma parte dele continuava ali, observando e vivendo tudo comigo.Dentro do consultório gelado, deitei-me na maca. O médico espalhou o gel frio sobre a minha barriga e encostou o transdutor, fazendo o som alto e compassado do coraçãozinho ecoar pela sala inteira.— Vamos lá... — disse o médico, sorrindo en
A viagem até o sítio no interior era longa, e eu não me sentia com forças físicas ou psicológicas para encarar a estrada. Por isso, sentada na mesa da sala do meu apartamento, encarei o celular na minha mão por longos minutos. Talita estava ao meu lado, segurando uma xícara de chá e me transmitindo firmeza com o olhar. Ao fundo, perto da estante, o espírito de Edu acompanhava meus movimentos com uma expressão serena, porém preocupada.Disquei o número da casa dos pais dele. A ligação chamou quatro vezes até que a voz trêmula de Dona Carmem atendeu:— Alô?— Dona Carmem? É a Karen... — engoli em seco, tentando manter a voz estável. — Como a senhora e o Seu Roberto estão?— Estamos vivendo um dia de cada vez, Karen... ainda esta muito dificil lidar com a tragédia que caiu sob nossa família — a voz dela soava fria, distante. — Aconteceu alguma coisa?Respirei fundo, busquei o olhar de Edu e fui direta, movida pela honestidade e pelo amor que sentia:— Dona Carmem, eu liguei porque
O toque da campainha ecoou pelo apartamento por volta das dez da manhã. Eu ainda estava sentada no sofá, encarando a pequena caixinha plástica sobre a mesa de centro. Ao meu lado, de pé perto da janela, o espírito de Edu permanecia em silêncio, envolto em sua luz suave. A presença dele me transmitia calma.Criei coragem e abri a porta. Era a Talita. Ela trazia uma sacola com pães frescos e um sorriso acolhedor no rosto, mas a expressão dela mudou no mesmo instante em que olhou nos meus olhos. Ela não viu o semblante derrotado de sempre; viu algo diferente.— Karen? O que aconteceu? Você tá com uma cara... — ela entrou, colocando as coisas na cozinha. — Aconteceu alguma coisa?Caminhei até a mesa da sala sem dizer uma palavra. Peguei o teste de gravidez e estendi na direção dela. Talita pegou o pequeno objeto, e o olhar dela passeou rapidamente pelo visor. Quando ela identificou os dois riscos vermelhos, a boca dela se abriu em um choque absoluto.— Karen... isso é... — ela me enc
As palavras de Edu ecoavam no ar, misturando-se ao barulho ritmado das ondas. Permaneci paralisada na areia fria, encarando a imagem translúcida e serena do meu noivo. A brisa da tarde parecia congelar em volta de nós dois enquanto ele olhava para o horizonte oceânico e começava a contar exatamente o que havia acontecido naquela fatídica madrugada:— Quando entrei na água às quatro e cinquenta e nove, o mar parecia calmo. Dei um mergulho raso, mas, no segundo em que tentei voltar para a superfície, senti uma força me puxando pelas pernas. Eu bati os braços, tentei lutar, gritei por socorro... mas quanto mais eu lutava, mais fundo eu ia. O ar sumiu dos meus pulmões e, quando desfaleci, tudo escureceu.Mas não acabou ali. Quando abri os olhos novamente, eu já não estava sufocando. Eu estava no fundo do oceano, em uma espécie de sala monumental feita de rochas e corais, ornamentada por uma luz azulada e misteriosa. À minha frente, elevados em uma plataforma, havia três tronos majestoso







