MasukA semana voou entre a rotina barulhenta e afetuosa com as crianças no trabalho e as mensagens diárias com o Edu. A cada conversa, a familiaridade do passado ganhava uma cara nova e instigante. Até que aceitei o convite dele para sairmos na sexta-feira à noite.
Na sexta as sete como combinado ouvi o barulho de buzina vindo da rua. Quando desci, lá estava ele. Encostado em uma moto preta, trajando uma jaqueta de couro e segurando um capacete extra. O sorriso contido de dez anos atrás continuava o mesmo, mas o charme maduro de homem feito me deixou por um segundo sem ar. — Pronto para a aventura, Karen? — ele perguntou, entregando-me o capacete. Sair da cidade sobre duas rodas sentindo o vento da noite foi libertador. Eu segurava firme em sua cintura enquanto ele pilotava com facilidade até pararmos em um mirante tranquilo, de frente para o mar. As ondas quebravam suavemente na areia, refletindo a iluminação fraca da lua. O ar marinho era frio, mas a presença do Edu ao meu lado tornava tudo aquecido. Ele tirou o capacete, bagunçou o cabelo escuro e se sentou em uma mureta de pedra, chamando-me para sentar ao seu lado. Edu continuava o mesmo rapaz engraçado e tranquilo que guardei na memória: fazia piadas leves, tirava sarro de si mesmo e mantinha aquele ar descontraído que afastava qualquer timidez entre nós. — E então, como está a vida de 'gente grande'? — ele brincou, me olhando nos olhos. — Corrida, mas boa — sorri, ajeitando uma mecha do meu cabelo— Trabalho como auxiliar em uma escola infantil. Amo o que faço, as crianças são incríveis. E sobre vida pessoal... bom, não me casei e não tenho filhos. Tive um relacionamento que acabou recentemente, mas página virada. E você? Edu soltou uma risada fraca, encarando o mar por um instante antes de voltar o olhar para mim. — Eu faço faculdade e trabalho na parte de logística de uma empresa e também passei longe de me casar. Durante meus vinte e sete anos de vida tive uns relacionamentos, mas nenhum deu muito certo. Sempre parecia faltar alguma coisa... uma conexão de verdade, sabe? Fiquei encarando o perfil dele, sentindo a brisa da praia afagar meu rosto. A dúvida que martelava na minha cabeça desde o primeiro clique na rede social finalmente saiu. — Edu... por que você reapareceu agora? Depois de dez anos? Ele deu um sorriso de canto, encarando o horizonte antes de me responder. A brincadeira habitual deu lugar a uma expressão serena e honesta. — Para falar a verdade, Karen... eu estava pensando na época do ensino médio esses dias. Do nada, me veio à cabeça aquele dia no pátio, quando você tomou coragem e me falou do seu sentimento. Lembrei do seu olhar, da sua maturidade até para aceitar a minha resposta. Pensei: "Como será que a Karen está hoje?". Curiosidade pura. Resolvi te procurar na rede social e te mandar mensagem. Ele se virou um pouco mais para mim, encurtando o espaço entre nós. O contraste dos seus olhos verdes sob a luz do luar era de tirar o fôlego. — E quer saber de uma coisa? Acho que essa foi a melhor decisão que tomei em muito tempo. Meu coração errou uma batida. A garota de quatorze anos dentro de mim deu lugar à mulher de vinte e quatro que sabia exatamente o que estava sentindo ali. O som das ondas virou apenas uma trilha sonora distante. Edu aproximou a mão devagar, tocando meu rosto com delicadeza, os dedos quentes deslizando pela minha bochecha. Ele não hesitou. Inclinou-se devagar, e quando nossos lábios se tocaram, o tempo simplesmente parou. Era um beijo calmo, profundo, cheio de uma vontade acumulada que nenhum dos dois sabia que carregava por tanto tempo. Tudo o que eu havia sonhado no pátio da escola dez anos atrás finalmente se tornava realidade ali, de frente para o mar, no abraço perfeito da pessoa certa, no momento certo.A noite avançou devagar sobre a cidade, cobrindo o quarto com um silêncio denso e acolhedor. Edu permaneceu de pé ao lado da cama, observando o meu rosto cansado até ver minha respiração finalmente se acalmar e se tornar pesada. Eu havia adormecido.Lembrando-se das instruções de Betina, Edu fechou os olhos translúcidos e buscou no fundo da sua alma a memória mais viva da nossa juventude: o corredor movimentado da escola, os armários alinhados e a luz do sol da tarde entrando pelas janelas. Ele concentrou toda a sua energia espiritual e canalizou essa lembrança diretamente para a minha mente.Para a sua surpresa, o véu entre os nossos mundos cedeu. A projeção não foi tão difícil quanto ele imaginava; o amor e a saudade que nos ligavam serviram como a ponte perfeita.De repente, encontrei-me no corredor da antiga escola. Minha aparência era a de uma garota de dezessete anos, mas a minha barriga de seis meses continuava ali, firme e redonda sob o uniforme. Olhei em volta, assustada
Seis meses de gestação. Minha barriga já estava visivelmente redonda, abrigando o pequeno Eric que se mexia com frequência. Mas, por dentro, eu me sentia cada vez mais vazia. A dor de ter o Edu diante dos meus olhos todos os dias sem poder sentir o calor da sua pele, sem poder abraçá-lo ou receber um beijo seu, estava me corroendo. Eu passava os dias trancada no quarto, no escuro, afundada em uma tristeza cinzenta.O quarto estava em silêncio quando a luz suave do espírito de Edu se aproximou da beira da cama. O olhar dele transbordava uma dor profunda ao me ver jogada ali, encarando o teto.— Karen, meu amor, você tem que levantar dessa cama... Poxa, você não quer ver sua família, sua amiga... Se afastou de todos. Eu não quero ver você assim.— Eu não quero ver ninguém! — respondi sem me mexer, com a voz embargada e seca. — Tô de saco cheio das pessoas me olhando com dó!— Ficar aqui sozinha não está lhe fazendo bem — insistiu ele, dando um passo em minha direção, com a mão este
Os meses seguintes passaram como um sopro lento e silencioso. A barriga já ostentava a curvatura evidente do avanço da gestação, firme e redonda sob as minhas roupas confortáveis. Quando chegou o dia de realizar o ultrassom para descobrir o sexo do bebê, Talita e minha mãe insistiram em me acompanhar, mas pedi carinhosamente para ir sozinha.Eu precisava daquele momento. Queria compartilhar cada segundo daquela descoberta com o Edu. Mesmo sabendo que ele não poderia estar ali do meu lado de forma carnal, segurando minha mão ou me dando um beijo na testa, ver a luz suave do seu espírito no banco do carona me trazia uma paz inexplicável. Eu me sentia imensamente feliz por saber que uma parte dele continuava ali, observando e vivendo tudo comigo.Dentro do consultório gelado, deitei-me na maca. O médico espalhou o gel frio sobre a minha barriga e encostou o transdutor, fazendo o som alto e compassado do coraçãozinho ecoar pela sala inteira.— Vamos lá... — disse o médico, sorrindo en
A viagem até o sítio no interior era longa, e eu não me sentia com forças físicas ou psicológicas para encarar a estrada. Por isso, sentada na mesa da sala do meu apartamento, encarei o celular na minha mão por longos minutos. Talita estava ao meu lado, segurando uma xícara de chá e me transmitindo firmeza com o olhar. Ao fundo, perto da estante, o espírito de Edu acompanhava meus movimentos com uma expressão serena, porém preocupada.Disquei o número da casa dos pais dele. A ligação chamou quatro vezes até que a voz trêmula de Dona Carmem atendeu:— Alô?— Dona Carmem? É a Karen... — engoli em seco, tentando manter a voz estável. — Como a senhora e o Seu Roberto estão?— Estamos vivendo um dia de cada vez, Karen... ainda esta muito dificil lidar com a tragédia que caiu sob nossa família — a voz dela soava fria, distante. — Aconteceu alguma coisa?Respirei fundo, busquei o olhar de Edu e fui direta, movida pela honestidade e pelo amor que sentia:— Dona Carmem, eu liguei porque
O toque da campainha ecoou pelo apartamento por volta das dez da manhã. Eu ainda estava sentada no sofá, encarando a pequena caixinha plástica sobre a mesa de centro. Ao meu lado, de pé perto da janela, o espírito de Edu permanecia em silêncio, envolto em sua luz suave. A presença dele me transmitia calma.Criei coragem e abri a porta. Era a Talita. Ela trazia uma sacola com pães frescos e um sorriso acolhedor no rosto, mas a expressão dela mudou no mesmo instante em que olhou nos meus olhos. Ela não viu o semblante derrotado de sempre; viu algo diferente.— Karen? O que aconteceu? Você tá com uma cara... — ela entrou, colocando as coisas na cozinha. — Aconteceu alguma coisa?Caminhei até a mesa da sala sem dizer uma palavra. Peguei o teste de gravidez e estendi na direção dela. Talita pegou o pequeno objeto, e o olhar dela passeou rapidamente pelo visor. Quando ela identificou os dois riscos vermelhos, a boca dela se abriu em um choque absoluto.— Karen... isso é... — ela me enc
As palavras de Edu ecoavam no ar, misturando-se ao barulho ritmado das ondas. Permaneci paralisada na areia fria, encarando a imagem translúcida e serena do meu noivo. A brisa da tarde parecia congelar em volta de nós dois enquanto ele olhava para o horizonte oceânico e começava a contar exatamente o que havia acontecido naquela fatídica madrugada:— Quando entrei na água às quatro e cinquenta e nove, o mar parecia calmo. Dei um mergulho raso, mas, no segundo em que tentei voltar para a superfície, senti uma força me puxando pelas pernas. Eu bati os braços, tentei lutar, gritei por socorro... mas quanto mais eu lutava, mais fundo eu ia. O ar sumiu dos meus pulmões e, quando desfaleci, tudo escureceu.Mas não acabou ali. Quando abri os olhos novamente, eu já não estava sufocando. Eu estava no fundo do oceano, em uma espécie de sala monumental feita de rochas e corais, ornamentada por uma luz azulada e misteriosa. À minha frente, elevados em uma plataforma, havia três tronos majestoso







