LOGINDois dias se passaram desde a conversa dolorosa com Talita. A madrugada estava fria e silenciosa quando uma dor aguda e profunda me fez despertar no meio da noite. A contração puxou minha barriga para baixo com uma intensidade que me tirou o ar. Respirei fundo, esperei a dor aliviar e me levantei devagar. Quando senti o líquido morno escorrer pelas minhas pernas, soube na hora: Eric estava chegando.Chamei meus pais no corredor. Meu pai pegou as bolsas no impulso e minha mãe me ajudou a vestir um casaco. Em questão de minutos, fomos em velocidade constante para a maternidade. O trajeto foi um misto de ansiedade e dor, mas eu mantinha a mão firme na barriga, pedindo em silêncio que o meu filho viesse com saúde.Assim que chegamos, fui atendida rapidamente pela equipe de plantão. A médica me examinou com agilidade e sorriu para me acalmar:— Está tudo ok com sua pressão, você vai para a sala de parto.Fui levada para a sala de cirurgia e preparação. O trabalho de parto avançava ráp
Edu continuava preso naquela escuridão densa e sufocante, tentando enxergar qualquer feixe de luz. O silêncio era esmagador, até que uma voz ecoou ao seu redor, banhada em pura ironia:— Parece que descobriu o preço que se paga por entrar nos sonhos da sua amada!— Quem está aí?! — Edu esbravejou, olhando para todos os lados. — Por favor, me tire daqui!— Não lembra da minha voz? Ah, que pena... Sou a Betina, querido.Edu respirou fundo, reconhecendo o tom da sereia.— Ah, claro... Betina. Por que estou aqui?!— Bom, acho que usou energia demais... Se esgotou e está na escuridão dos mortos, mas não se preocupe, logo você poderá voltar!— Por favor, me tire daqui! — implorou Edu, sentindo o desespero de estar longe de mim e do nosso filho.— Você irá sair em breve, já disse!Enquanto Edu permanecia retido naquele limbo, o tempo no mundo dos vivos continuava a correr inexoravelmente. Semanas se passaram. Três longos meses de uma ausência dolorosa e inexplicável.Eu já estava
A noite avançou devagar sobre a cidade, cobrindo o quarto com um silêncio denso e acolhedor. Edu permaneceu de pé ao lado da cama, observando o meu rosto cansado até ver minha respiração finalmente se acalmar e se tornar pesada. Eu havia adormecido.Lembrando-se das instruções de Betina, Edu fechou os olhos translúcidos e buscou no fundo da sua alma a memória mais viva da nossa juventude: o corredor movimentado da escola, os armários alinhados e a luz do sol da tarde entrando pelas janelas. Ele concentrou toda a sua energia espiritual e canalizou essa lembrança diretamente para a minha mente.Para a sua surpresa, o véu entre os nossos mundos cedeu. A projeção não foi tão difícil quanto ele imaginava; o amor e a saudade que nos ligavam serviram como a ponte perfeita.De repente, encontrei-me no corredor da antiga escola. Minha aparência era a de uma garota de dezessete anos, mas a minha barriga de seis meses continuava ali, firme e redonda sob o uniforme. Olhei em volta, assustada
Seis meses de gestação. Minha barriga já estava visivelmente redonda, abrigando o pequeno Eric que se mexia com frequência. Mas, por dentro, eu me sentia cada vez mais vazia. A dor de ter o Edu diante dos meus olhos todos os dias sem poder sentir o calor da sua pele, sem poder abraçá-lo ou receber um beijo seu, estava me corroendo. Eu passava os dias trancada no quarto, no escuro, afundada em uma tristeza cinzenta.O quarto estava em silêncio quando a luz suave do espírito de Edu se aproximou da beira da cama. O olhar dele transbordava uma dor profunda ao me ver jogada ali, encarando o teto.— Karen, meu amor, você tem que levantar dessa cama... Poxa, você não quer ver sua família, sua amiga... Se afastou de todos. Eu não quero ver você assim.— Eu não quero ver ninguém! — respondi sem me mexer, com a voz embargada e seca. — Tô de saco cheio das pessoas me olhando com dó!— Ficar aqui sozinha não está lhe fazendo bem — insistiu ele, dando um passo em minha direção, com a mão este
Os meses seguintes passaram como um sopro lento e silencioso. A barriga já ostentava a curvatura evidente do avanço da gestação, firme e redonda sob as minhas roupas confortáveis. Quando chegou o dia de realizar o ultrassom para descobrir o sexo do bebê, Talita e minha mãe insistiram em me acompanhar, mas pedi carinhosamente para ir sozinha.Eu precisava daquele momento. Queria compartilhar cada segundo daquela descoberta com o Edu. Mesmo sabendo que ele não poderia estar ali do meu lado de forma carnal, segurando minha mão ou me dando um beijo na testa, ver a luz suave do seu espírito no banco do carona me trazia uma paz inexplicável. Eu me sentia imensamente feliz por saber que uma parte dele continuava ali, observando e vivendo tudo comigo.Dentro do consultório gelado, deitei-me na maca. O médico espalhou o gel frio sobre a minha barriga e encostou o transdutor, fazendo o som alto e compassado do coraçãozinho ecoar pela sala inteira.— Vamos lá... — disse o médico, sorrindo en
A viagem até o sítio no interior era longa, e eu não me sentia com forças físicas ou psicológicas para encarar a estrada. Por isso, sentada na mesa da sala do meu apartamento, encarei o celular na minha mão por longos minutos. Talita estava ao meu lado, segurando uma xícara de chá e me transmitindo firmeza com o olhar. Ao fundo, perto da estante, o espírito de Edu acompanhava meus movimentos com uma expressão serena, porém preocupada.Disquei o número da casa dos pais dele. A ligação chamou quatro vezes até que a voz trêmula de Dona Carmem atendeu:— Alô?— Dona Carmem? É a Karen... — engoli em seco, tentando manter a voz estável. — Como a senhora e o Seu Roberto estão?— Estamos vivendo um dia de cada vez, Karen... ainda esta muito dificil lidar com a tragédia que caiu sob nossa família — a voz dela soava fria, distante. — Aconteceu alguma coisa?Respirei fundo, busquei o olhar de Edu e fui direta, movida pela honestidade e pelo amor que sentia:— Dona Carmem, eu liguei porque







