Mag-log inEstela CamachoAbri a porta ainda usando a camiseta suja da madrugada.— Quem autorizou vocês?Mauro correu até mim com uma prancheta.— Mandamos a agenda ontem. Cotidiano do casal, café da manhã e depoimentos sobre a adaptação rural.— Mandar não é receber consentimento.Caio mantinha a câmera baixa. Os outros dois operadores não. Uma lente apontou para minhas pernas, para a porta aberta, para o interior da casa.Entrei na frente.— Desliga.O homem olhou para Heitor.— Ela mandou desligar — Matias falou atrás deles.A câmera baixou.Heitor atravessou o terreiro com aquela calma treinada que fazia ameaça parecer reunião.— Estamos perdendo a melhor janela de interesse. As imagens de ontem superaram todas as projeções.— Então publique as autorizadas.— O público quer intimidade.— O público também quer que eu caia de um palco. Nem por isso entrego.— Seu contrato prevê registros de bastidores.— O acordo com Matias prevê autorização de lugar e horário. Você não tem nenhum dos dois.H
Matias CruzA novilha estava deitada no barro, exausta, com o bezerro atravessado.Joel segurava a lanterna enquanto eu calçava as luvas. O veterinário dava instruções por chamada, mas a conexão caía sempre que o vento apertava. Tínhamos feito aquilo antes. O problema era o tamanho do animal, a posição da cabeça e o tempo perdido esperando a chuva diminuir.— Corrente — pedi.Joel prendeu a primeira. Eu alcancei a segunda enquanto o veterinário explicava o ângulo. A chuva batia no telhado de metal e engolia metade das palavras. Pedi que repetisse. O sinal caiu.— Temos poucos minutos antes que ela perca força — falei.Joel assentiu. Nenhum dos dois precisava dizer o resto. Se errássemos o movimento, perderíamos a cria e talvez a mãe.Trabalho bruto não aceitava pose. Só preparo, decisão e a humildade de pedir outra mão quando duas não bastavam.Um relâmpago iluminou o curral inteiro.Estela apareceu do outro lado da cerca usando capa amarela e as botas cobertas de lama.— O que está f
Estela CamachoA chuva chegou dois dias depois com o barulho de uma plateia correndo.Eu estava na casa de hóspedes gravando a nova frase quando o telhado começou a estalar. O céu escureceu antes das cinco. O vento empurrou poeira pelas frestas e derrubou um vaso da varanda.Helena ligou mandando que eu fosse para a sede.— A casa é segura — falei.— É. Mas o caminho alaga, e não vou deixar você isolada.Peguei o caderno, o telefone e uma lanterna. A Laurão ficou no estojo, longe das janelas. Corri entre as mangueiras, molhada antes de alcançar a metade. Matias apareceu vindo do terreiro e tirou o próprio chapéu para cobrir minha cabeça.— Isso não funciona — gritei sobre a chuva.— Você fala demais para alguém sendo ajudada.— E você ajuda reclamando.Entramos pela cozinha. Helena tinha ido ficar com uma funcionária cujo marido estava preso na estrada. A casa principal estava vazia.Meu telefone perdeu sinal antes que eu avisasse Clara. A última mensagem enviada foi uma fotografia bo
Estela CamachoTirei os fones.— Você acabou de cantar a terça?Matias parou na entrada do celeiro como se tivesse sido pego roubando.— Não sei o nome.— Mas acertou.Toquei a sequência novamente e esperei. Ele cantarolou a nota no lugar em que eu sempre caía na solução óbvia. Funcionava porque não resolvia. Deixava o acorde aberto, esperando uma coisa que ainda não chegara.— Faça de novo.— Não.— Você invadiu meu ensaio. Agora tem responsabilidade artística.— Vim ver se estava bem.— E decidiu corrigir minha música.— Decidi nada. Só ouvi.Apontei para uma caixa vazia. Matias se sentou, mantendo distância da Laurão.— Onde aprendeu?— Meu primo tinha banda. Eu ajudava a carregar equipamento.— O fazendeiro bruto foi roadie.— Eu tinha dezessete anos e uma caminhonete.— É assim que todos começam.— Eles tocavam mal.— Isso também.Toquei a sequência pela terceira vez. Matias bateu os dedos na coxa, marcando um tempo diferente do meu.Parei no meio.— Onde?Ele cantou o trecho usa
Matias CruzEu tinha feito a pergunta diante de duas câmeras, vinte produtores e a mulher com quem quase me casei.Não era meu melhor momento de prudência.Estela demorou um segundo para responder. Depois sorriu para os fotógrafos, afastou-se e limpou o batom borrado com a ponta do dedo.— A programação — disse. — Temos discurso em cinco minutos.Foi embora antes que eu pudesse decidir se agradecia ou puxava de volta.Passei o resto do evento sentindo o gosto dela e tentando discutir armazenamento de leite como se minha mão não soubesse exatamente a curva de suas costas. Davi Moreira, vice-presidente da cooperativa, apresentou contas, prazos e a queda das vendas. Dois compradores ainda mantinham contratos suspensos. A campanha melhorara minha imagem, mas curtida não transportava produção.Um produtor chamado Geraldo pediu a palavra para dizer que a filha tinha encontrado três lojas de Goiânia interessadas no queijo depois da transmissão de Estela. Outro respondeu que nenhuma loja comp
Estela CamachoDescobrir que Bianca fora noiva de Matias não deveria ter mudado a maneira como eu passava batom.Mudou.Escolhi um vermelho que sobreviveria a café, calor e um evento inteiro da cooperativa. Depois retirei com papel. Escolhi nude. Odiei. Voltei ao vermelho.— Você está se arrumando para pequenos produtores ou para uma mulher específica? — Clara perguntou da porta.— Para as câmeras.— A câmera da Bianca tem olhos verdes?Joguei a tampa do batom nela.O evento acontecia num galpão comunitário, com barracas de queijo, doce, café e produtos das fazendas da região. A Aurora levara quatro fotógrafos. Matias limitara a dois. Venceu porque era dono do estacionamento e ameaçou deixar os outros carros do lado de fora.Cheguei com ele, como combinado. Matias usava camisa branca, jeans escuro e a expressão de quem preferia estar vacinando gado.— Sorria — murmurei quando as câmeras começaram.— Estou sorrindo.— Isso é você evitando homicídio.— Meu sorriso é discreto.Passei a m







