Mag-log inMatias Cruz A reunião da cooperativa começou com trinta e uma cadeiras, quarenta e três pessoas e nenhuma confiança sobrando. Produtor não precisava de convite para discutir água. Alguns ficaram de pé no fundo do galpão. Outros trouxeram pastas, contas e fotografias de reservatórios baixos. Bianca montou a apresentação sem equipe de filmagem ou logomarca maior do que o assunto. Ela sabia entrar num lugar. Estela sentou ao lado de Clara na última fileira. Tinha pedido para assistir porque a campanha citava a cooperativa. Perguntou antes. Eu disse sim. Bianca mostrou projeções de chuva, vazão e custo. A captação do rio exigia licença, tubulação e uma estação de tratamento pequena. Sozinhos, levaríamos dois anos para juntar o dinheiro. A AgroVale prometia concluir em seis meses. — E em troca? — Davi perguntou. — Gestão técnica da distribuição por dez anos, preferência de compra sobre a produção e servidão de passagem nas propriedades participantes. O galpão encheu de vozes. — Ser
Estela Camacho O lado vazio da cama conseguiu dizer cinco coisas antes que eu me sentasse. Arrependimento. Erro. Pressa. São Paulo. Trinta dias. Meu corpo ainda guardava o peso de Matias, mas a cabeça já produzia uma versão em que ele vestira a roupa no escuro para não precisar me encarar. Encontrei minha camiseta no chão e o jeans dobrado sobre uma cadeira. Dobrado. Aquilo piorava tudo. Homem que dobrava roupa depois do sexo era capaz de organizar uma fuga em planilha. Vesti-me, lavei o rosto na pia estreita e abri a porta. O celeiro estava vazio. Do lado de fora, o trabalho seguia sem respeitar crise emocional: motor ligado, homens descarregando ração, uma caminhonete entrando pela porteira. Voltei para a casa de hóspedes sem perguntar por ele. Clara ligou assim que fechei a porta. — Heitor está furioso. — Entre na fila. — A equipe confirmou que você mandou desligar. Beatriz diz que vocês estavam dentro do acordo. — Milagre jurídico. — Aconteceu mais alguma coisa? Olhei
Matias CruzEstela disse que me queria, disse que queria aquilo e disse que avisaria se mudasse de ideia. Ouvi as três frases do jeito que eu ouvia previsão de chuva: inteiras, sem pular a parte que diz quando parar.Só então abri o botão do jeans.Ela levantou o quadril para me ajudar. Tirei a calça e a calcinha juntas e fiquei um segundo parado, de joelhos na beirada da cama estreita, só olhando. Fazia uma semana que eu desviava do cheiro de erva-doce que o sabonete da casa de hóspedes deixava nela quando passava pelo corredor da sede. Ali não havia corredor.Beijei a parte de dentro do joelho, a coxa, esperando qualquer sinal de recuo. O sinal que veio foi a mão no meu cabelo, as pontas dos dedos duras de corda de guitarra, empurrando para baixo.A boceta dela estava molhada e quente. Na primeira passada de língua, Estela arqueou as costas e agarrou o lençol com as duas mãos.Fui com calma. Usei o mesmo tempo que tinha marcado na coxa para a música dela no celeiro: mais lento do que
Estela CamachoAbri a porta ainda usando a camiseta suja da madrugada.— Quem autorizou vocês?Mauro correu até mim com uma prancheta.— Mandamos a agenda ontem. Cotidiano do casal, café da manhã e depoimentos sobre a adaptação rural.— Mandar não é receber consentimento.Caio mantinha a câmera baixa. Os outros dois operadores não. Uma lente apontou para minhas pernas, para a porta aberta, para o interior da casa.Entrei na frente.— Desliga.O homem olhou para Heitor.— Ela mandou desligar — Matias falou atrás deles.A câmera baixou.Heitor atravessou o terreiro com aquela calma treinada que fazia ameaça parecer reunião.— Estamos perdendo a melhor janela de interesse. As imagens de ontem superaram todas as projeções.— Então publique as autorizadas.— O público quer intimidade.— O público também quer que eu caia de um palco. Nem por isso entrego.— Seu contrato prevê registros de bastidores.— O acordo com Matias prevê autorização de lugar e horário. Você não tem nenhum dos dois.H
Matias CruzA novilha estava deitada no barro, exausta, com o bezerro atravessado.Joel segurava a lanterna enquanto eu calçava as luvas. O veterinário dava instruções por chamada, mas a conexão caía sempre que o vento apertava. Tínhamos feito aquilo antes. O problema era o tamanho do animal, a posição da cabeça e o tempo perdido esperando a chuva diminuir.— Corrente — pedi.Joel prendeu a primeira. Eu alcancei a segunda enquanto o veterinário explicava o ângulo. A chuva batia no telhado de metal e engolia metade das palavras. Pedi que repetisse. O sinal caiu.— Temos poucos minutos antes que ela perca força — falei.Joel assentiu. Nenhum dos dois precisava dizer o resto. Se errássemos o movimento, perderíamos a cria e talvez a mãe.Trabalho bruto não aceitava pose. Só preparo, decisão e a humildade de pedir outra mão quando duas não bastavam.Um relâmpago iluminou o curral inteiro.Estela apareceu do outro lado da cerca usando capa amarela e as botas cobertas de lama.— O que está f
Estela CamachoA chuva chegou dois dias depois com o barulho de uma plateia correndo.Eu estava na casa de hóspedes gravando a nova frase quando o telhado começou a estalar. O céu escureceu antes das cinco. O vento empurrou poeira pelas frestas e derrubou um vaso da varanda.Helena ligou mandando que eu fosse para a sede.— A casa é segura — falei.— É. Mas o caminho alaga, e não vou deixar você isolada.Peguei o caderno, o telefone e uma lanterna. A Laurão ficou no estojo, longe das janelas. Corri entre as mangueiras, molhada antes de alcançar a metade. Matias apareceu vindo do terreiro e tirou o próprio chapéu para cobrir minha cabeça.— Isso não funciona — gritei sobre a chuva.— Você fala demais para alguém sendo ajudada.— E você ajuda reclamando.Entramos pela cozinha. Helena tinha ido ficar com uma funcionária cujo marido estava preso na estrada. A casa principal estava vazia.Meu telefone perdeu sinal antes que eu avisasse Clara. A última mensagem enviada foi uma fotografia bo







