Share

NOITE RUIM

last update publish date: 2022-08-23 04:35:40

Ana 

Enquanto passo pela cidade fico dando voltas a fim de não voltar pra casa, afinal, Nicolas disse que passaria lá. Então sigo por um caminho diferente, quase nunca passo por aqui. Ainda estou refletindo acerca da droga que minha vida se tormou. Trabalho a cinco anos no jornal, sou bem sucedida em minha carreira profissional, mas não tenho muitos amigos, e nem tempo pra fazer novos. Tenho pouco mais de vinte cinco anos, não tenho filhos, nem um relacionamento estável, talvez um cachorro tenha mais vida social do que eu.

Já é tarde, confesso que estou exausta, preciso de um bom banho e comer algo. Vejo que há pouco movimento na rua. Está muito frio e me arrependo pela segunda vez por não ter trazido uma blusa mais grossa.

Meu carro para de repente.

— Droga! Era só o que me faltava.

Desço e abraço meu próprio corpo por causa do ar gélido. Na semana passada tive problemas com a parte elétrica, talvez seja o mesmo problema, não pude deixar o carro na oficina, o mecânico me avisou que faria um reparo paliativo, mas eu precisaria deixar o carro lá na próxima vez.

Saio e bufo.

A rua está deserta, tem poucas casas por perto. Me lembro de ter passado por alguns moradores de rua a um quarteirão atrás, apenas.

— Moça, precisa de ajuda?— Ouço uma voz a me chamar do outro lado da rua.

 De repente o homem atravessa a rua e fica perto demais.

— Oi, não precisa, está tudo bem — falo insegura.

Por algum motivo estou com medo. Não senti confiança nesse homem.

Ele continua se aproximando e meu coração se acelera, então ele me olha e conheço bem esse olhar, tem maldade e malícia.

— Não parece que está tudo bem. Deixa-me te ajudar, gracinha — ele insiste.

Sinto medo e penso em entrar no carro e fechar a porta para me proteger, aos poucos dou alguns passos até que me encorajo e me apresso. O tal homem percebe meu temor e minhas intenções, rapidamente me segura já com o corpo quase dentro do carro. Sinto ele me jogar no estofado, meu corpo b**e contra o câmbio de macha com violência.

— Eu quero seu celular e dinheiro! — ouço-o dizer enquanto procura os itens.

Uma de suas mãos segura meu braço com força.

Cenas do maldito Zeca me invadem a mente…

" Eu tinha apenas onze anos, minha mãe não estava em casa, e desta vez eu não consegui fugir como das outras, ele me encontrou escondida bem na casinha do jardim. Estou sentada com as costas na parede de madeira, as mãos abraçadas nos joelhos dobrados, estou em pânico, assustada, temendo o que ele possa me fazer. De repente ele me encontra, seu corpo não é tão alto, por isso consegue entrar dentro da casinha, sua cabeça quase toca o teto. Ele está irritado por notar que eu estou me escondendo. 

— Ah Jullynha, você está aí…

Então tento recuar mas não tenho mais pra onde ir, tomada pelo desespero fecho os olhos e choro. De repente sua mão enorme toca meu braço me obrigando a me levantar, rude e com força…"

— Rápido sua vadia, o celular!— volto ao presente e noto que não tenho mais onze anos e que a mão que aperta meu braço não é a de Zeca. 

Ainda estou paralisada e em choque, quando começo a reagir entendo que se trata de um assalto, então, de repente sinto um alívio, o corpo imundo dele é lançado de cima de mim. Ouço uma voz masculina vindo do lado de fora e gritar:

— Solta ela!  — O desconhecido fala com fúria em sua voz.

Levanto-me ainda assustada, então, noto que estou livre. Ao lado de fora assisto o assaltante partir para cima do homem que o chamou, ele se parece com um morador de rua, assim como àqueles que vi a pouco. Veste roupas sujas e rasgadas, sua barba e cabelos são longos e claros, seus olhos também parecem serem claros num tom quase azul, não consigo identificar direito, e também usa uma touca na cabeça.

— Quem você pensa que é seu mendigo imbecil, ela é só uma vadia qualquer!

Engulo seco temendo a situação.

O assaltante vai pra cima do homem que está tentando me ajudar. Ele se esquiva, porém na segunda tentativa é acertado em cheio.

Estou muito nervosa, olho para os lados a fim de conseguir ajuda, mas está tudo deserto e escuro.

Ainda estou apavorada ao ver os dois em luta corporal, mas o assaltante é bem mais forte e grande, na verdade o rapaz que me ajudou foi muito corajoso em enfrentá-lo. Começo a me desesperar quando vejo que ele está recebendo uma surra daquelas, a angústia me invade, aflita grito por ajuda, mas ninguém aparece.

— Pelo amor de Deus, alguém me ajude! — peço andando de um lado para o outro.

A briga fica pior. O rapaz parece desmaiar, e o bandido monta por cima dele e o agride várias vezes no chão. 

Então decido sair e tentar conseguir socorro.

Vou até a rua principal, fico aliviada ao ver um carro de polícia passando na avenida, começo a pular no meio da rua feito uma louca, faço gestos e eles vem em minha direção.

— Ali, tem um homem que tentou me atacar! — começo a dizer trêmula enquanto eles se aproximam.

Eles nem param o carro e seguem até o local que indiquei. Em meus pensamentos peço a Deus que o rapaz que me ajudou não esteja morto.

Chego quase sem fôlego, os policiais estão socorrendo o homem e o agressor não está, certamente fugiu. Maldito!

Mas o rapaz está desacordado no chão, bem machucado.

— Meu Deus! Ele morreu? — pergunto ao ver o seu estado.

O policial tenta fazer os primeiros socorros.

— Não, ele só desmaiou.

Sinto muita raiva que o maldito tenha fugido, mas concentro minhas energias no homem ao chão, desejo que ele não esteja em estado grave.

Os policiais colocam o homem na viatura e me avisam que vão levar ele para um hospital que fica ali próximo. Dou minha versão dos fatos e depois volto para meu carro. Faço todas as preces existentes pedindo que ele funcione e felizmente sou atendida.

Sigo o carro da polícia, preciso dar suporte ao rapaz que me ajudou, não sei quem ele é, mas se sacrificou por mim, não posso deixá-lo sozinho.

Em meio a uma angústia terrível, meu coração se aperta. Reflito novamente sobre todo caos que está minha vida, bufo, eu sabia que meu dia poderia piorar.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • O INVERNO ME TROUXE VOCÊ   FIM

    AnaJamais imaginei que duas crianças fossem capaz de fazer tanta bagunça. Minha rotina não é nada fácil, manter a casa em ordem, cuidar das crianças e ainda auxiliar na administração do restaurante e nas doações aos moradores de rua. Há dias em que acho que vou enlouquecer, mas confesso que nunca fui tão feliz em toda minha vida. Há dois anos larguei meu trabalho como editora no jornal, então resolvi que ficar em casa para me dedicar a minha família, seria uma boa ideia. Gosto do que faço, por isso criei coragem e me aventurei como colunista, assim não fico totalmente longe do que sempre gostei de fazer.O FontanniDuo se tornou um dos pontos forte da nossa cidade, Marco nunca esteve tão bem. Fico feliz pois conseguiu superar de vez todos seus traumas e dores do passado, nem de longe ele é aquele Marco que conheci, primitivo, arisco, mergulhado em sofrimento. Ele também me ajudou a curar algumas feridas, infelizmente adquiri uma ansiedade, por causa de tudo o que aconteceu quando per

  • O INVERNO ME TROUXE VOCÊ   VISITA INESPERADA

    AnaCinco meses...Desde o descobrimento da minha gravidez, precisei me afastar do trabalho presencial. Marco e eu decidimos que eu faria repouso e me cuidaria ao máximo. Então comecei a trabalhar em home office, de casa. A gestação não é de risco, porém achamos melhor nos cuidarmos, principalmente depois que a ultrassom mostrou nossos dois bebês. Marco e eu, não acreditamos quando a doutora nos disse que batiam dois corações. Ele não se conteve de emoção, chorou muito. Afinal esperou muito para ser pai novamente e agora teve esta grande surpresa. Decidimos que ele escolheria o nome da nossa bonequinha, Marco queria algo que remetesse a Melissa, então escolhemos Melina, e é claro eu não apenas aceitei como amei. Escolhi o nome de Marcio para meu menino, queria algo que homenageie minha mãe, sinto tanto sua falta, e me recordo do último sonho que tive com ela, mamãe me disse que viriam mais pessoas para eu amar e cuidar, acho que ela quis dizer sobre meus filhos. Por isso eu precisava

  • O INVERNO ME TROUXE VOCÊ   ENFIM

    AnaDois meses depois...Depois da nossa última briga, Marco e eu conversamos bastante. Decidimos confiar um no outro e prometi nunca mais esconder nada dele. Ele compreendeu meus medos e não me pressionou com a gravidez tão desejada. Continuo tomando meu anticoncepcional até decidir que é o meu melhor momento. Já retirei a tipóia e estou fazendo muitas seções de fisioterapias. Felizmente estou praticamente recuperada.É feriado, e por isso Marco resolveu tirar uma folga para visitar os pais. Claudio está na churrasqueira, há também alguns parentes, entre eles Bruno e sua família. Estou com Helena, ajudando com um molho especial quando de repente sinto muito mal estar, esta e a segunda vez que me sinto mal hoje, conversamos sobre o quanto fiquei enjoada no vôo, mas isso e normal, sempre passo mal ao viajar de avião, isso não muda.Helena me encara com um brilho nos olhos.— Ana, você pode estar grávida novamente! — fala empolgada.Reviro os olhos, meus sogros ao contrário de Marco não

  • O INVERNO ME TROUXE VOCÊ   AMOR QUE CURA DORES

    AnaSaio da sala de Nicolas ainda um pouco surpresa com sua atitude. Pelo menos sinto que ele não se tornará mais um problema entre mim e Marco. Passo rapidinho na sala de minha amiga e lhe conto sobre minha conversa com ele. Lili fica tão surpreendida quanto eu. Depois da nossa conversa, ela me mostra um vídeo da pequena Lígia que já está ficando de pé sozinha, juntas rimos e babamos da fofura que ela é. Depois minha amiga insiste que eu devo ir atrás do meu marido e acertar as coisas. Por mais que eu saiba que Lili tem razão, sinto muito medo, pois nossa briga da noite anterior foi feia e as lembranças de Marco, completamente apagado de bêbado não foi nada bom de se ver. Minha amiga me dá um forte abraço. Não sei o que seria de mim sem ela. Nos conhecemos a pouco mais de cinco anos, mas Liliane tem se tornado como uma irmã.— Tudo irá se resolver, basta ter paciência. Vocês se amam, e o amor sempre vence! — Lili fala em meu ouvido enquanto me abraça. Me surpreendo ouvir minha ami

  • O INVERNO ME TROUXE VOCÊ   AMADURECIMENTO

    AnaAcordo e ouço batidas de leve na porta, na sequência vejo a figura de Mara, uma senhora baixinha de cabelos escuros presos em um coque, ela tem me ajudado com a casa alguns dias da semana e até havia me esquecido que hoje ela vinha.- Senhora, Ana. Fiquei sabendo o que houve. Como está? - ela pergunta preocupada.Mesmo decepcionada por não ser o meu marido na porta, tento ser o mais gentil possível com ela, Mara é uma pessoa muito agradável.- Estou bem melhor, obrigada por se importar.Ela não parece muito convencida.Na verdade, meu braço está ótimo de verdade, mas meu coração está destroçado. Acordei com uma forte angustia no peito, dormi longe de Marco não foi nada bom.- Humm, vai precisar de algo?Faço gesto de cabeça de que no vou precisar de nada. Tento me levantar e ela se aproxima para me ajudar.- Mara, você sabe se meu marido já acordou? - pergunto temerosa em saber sua resposta.Fico imaginando se ela presenciou a mesma cena que eu vi ontem a noite, pelo menos me liv

  • O INVERNO ME TROUXE VOCÊ   FERIDAS

    AnaAcordo me sentido fraca, tento me lembrar do que aconteceu. Aos poucos me recordo da queda. Olho para os lados e parece que estou em um hospital, em uma enfermaria, meu braço esquerdo está imobilizado por uma tipóia e ainda dói um pouco.— Você rompeu os ligamentos do ombro. Precisará de bastante repouso para não fazer uma cirurgia. — Esta voz me é familiar, olho rapidamente e vejo a figura de Nicolas ao meu lado. Bufo:— Droga!Ele continua:— Precisou levar pontos no braço, mas seu tornozelo está bom, não houve torção.Aos poucos tudo fica nítido em minha mente, e a única coisa em que penso é em Marco, e se ele soube da minha queda, afinal ele já teve muito problema por hoje.— Avisaram meu marido?Quando termino a frase, Liliane entra no quarto, minha amiga parece preocupada comigo.— Ana, pelo amor de Deus como você está?Ela se aproxima e com seu jeito bronco me abraça. E é claro que dói. Eu gemo.— Vou ficar bem, eu acho.Somente neste momento minha amiga nota a presença d

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status