تسجيل الدخول(POV: Thomas)
A luz fria e implacável da manhã invade meu escritório pelas amplas janelas que vão do chão ao teto — um lembrete constante da minha posição elevada, literal e figurativamente, acima da cidade que pulsa lá embaixo. Mas hoje, o sol, geralmente bem-vindo por sua clareza, apenas acentua a desordem interna. Não dissipa a névoa persistente de irritação e... algo mais. Algo desconfortável, nauseante, irritantemente indefinido, que se instala desde o incidente da noite passada como um hóspede indesejado e silencioso.
O cheiro forte de café fresco paira no ar. É um expresso duplo, como todos os dias, deixado pontualmente às oito por Henderson, meu assistente discreto e eficiente. Um ritual que normalmente me ancora — previsível, metódico, controlado. Hoje, porém, o aroma apenas reforça o dissabor da manhã. Nada está no lugar. Nem mesmo eu.
Meus olhos desviam para o canto inferior da tela do notebook. Processos, relatórios, contratos. Tento me concentrar, mas a imagem daquele rosto sujo de lama e sangue invade minha mente como uma intrusão violenta. Os olhos dela, faiscando ódio, voltam a mim com uma clareza irritante. Mais nítidos do que qualquer cláusula que tento revisar.
Ao sair do elevador hoje cedo, o amassado no para-lama do meu sedã alemão foi o primeiro golpe no meu orgulho. Uma ferida exposta. O carro — símbolo da ordem, da previsibilidade, da autoridade — agora carrega uma cicatriz. Um lembrete de que perdi o controle, ainda que por um segundo.
Preciso de informações. Preciso retomar o domínio. Aquela mulher, com sua fúria desproporcional e ameaças vazias de processo — embora provavelmente infundadas, dada sua aparência e condição — ainda assim representa uma variável. E eu odeio variáveis. Elas são caos. Elas são ruído. São perigosas. E precisam ser neutralizadas.
Minha mão paira sobre o telefone de mesa. O design minimalista esconde o quanto essa linha representa: acesso direto, sem registros, sem rastros. Uma ligação que faço apenas quando as vias legais convencionais são... insuficientes.
Hesito. Orgulho. A mais estúpida das resistências. Recorrer a Ryan é admitir que não posso resolver tudo sozinho. Mas já não se trata mais disso. Trata-se de prever. Eliminar riscos. Gerenciar danos.
Disco o número. Ele atende no segundo toque, como sempre.
— Montenegro — diz, com a voz polida e controlada. Nenhuma inflexão. Apenas funcionalidade.
— Ryan. Sou eu. Preciso de um favor — respondo, direto. — Algo... delicado. E rápido.
Do outro lado da linha, silêncio. Imagino-o no próprio escritório envidraçado, ainda mais alto que o meu, cercado por uma equipe de bajuladores e secretárias que se movem como peças de um relógio suíço.
— Delicado? Vindo de você, Thomas, isso geralmente significa complicado. Ou potencialmente ilegal. Ou ambos — comenta, com um sarcasmo velado.
— Nada ilegal. Apenas... inconveniente — digo, pausando antes de continuar. — Preciso que descubra informações sobre uma mulher. Teve um acidente ontem à noite. Ela surgiu do nada, no meio da rua, debaixo de chuva. Eu... a atropelei.
— Atropelou uma mulher? — Ele ri, curto, incrédulo. — Você está me ligando porque atropelou uma civil em plena tempestade?
— Ela não parece exatamente uma civil comum. É difícil explicar. Tinha algo estranho nela. O olhar. A forma como me encarou. Como se me conhecesse. Como se me odiasse há muito tempo. Não era uma reação normal.
— E ela ameaçou te processar?
— Sim. Várias vezes. Disse que me arruinaria. Que pagaria por tudo. Tive a impressão de que aquilo era mais do que revolta. Era pessoal. Antigo.
Mais uma pausa. Posso quase ouvir os cálculos se formando do outro lado da linha.
— Uma moradora de rua com histórico de processos contra juízes milionários? — ele provoca. — Está com medo de que ela realmente tenha algo contra você?
— Quero saber com quem estou lidando, Ryan. Se ela tem histórico de processos, se é golpista, se há algo por trás daquela reação. Se ela está ligada a alguém. Quero nome, CPF, endereço, contatos, redes sociais, tudo. Preciso avaliar o risco antes de decidir o que fazer.
— Poderia simplesmente pagar para ela desaparecer — sugere, casual.
— Não. Ainda não. Não antes de entender com quem estou lidando.
Silêncio. Mais um. Esse é mais pesado.
— E o que eu ganho com isso, Thomas? — A voz de Ryan baixa um tom, agora mais cortante. — Você sabe que meu tempo custa caro. E investigar indigentes geralmente não traz retorno. A menos que ela seja herdeira de alguma fortuna perdida...
— Isso é só mais um favor. Como o que fiz por você no caso Drummond.
Ele solta um suspiro.
— Aquilo foi há sete anos. Você ainda vai cobrar essa fatura?
— Cobrança é só uma palavra feia para equilíbrio, Ryan. Você me deve uma. E isso... é uma questão de sobrevivência. Não minha. Da ordem.
— Deixa eu ver se entendi — diz, com uma risada abafada. — O grande juiz Montenegro, defensor da lógica e do sistema, está perturbado por uma mulher anônima atropelada na chuva. Você realmente acha que isso pode derrubar seu castelo de cartas?
Fecho os olhos por um segundo. A imagem dos olhos dela volta. Aquela dor, aquele ódio... aquele reconhecimento. A resposta escapa por entre os dentes.
— Acho que essa mulher já tentou derrubar meu castelo uma vez. E eu deixei.
Silêncio absoluto do outro lado. Até mesmo Ryan sabe quando é hora de levar algo a sério.
— Vou descobrir quem ela é — responde enfim. — Mas espero que valha a pena.
A menção ao dinheiro é apenas um ritual entre nós — um protocolo para iniciar a barganha. Sabemos, ambos, que a moeda real aqui é outra. Mais valiosa. Mais perigosa. Favores, segredos, intervenções sutis. E lembro, com precisão cirúrgica, de um deles.
Flora.
O julgamento dela e de Adam, os holofotes da imprensa, os interesses subterrâneos por trás de cada manchete. A minha atuação nos bastidores — invisível, mas decisiva. Um parecer estratégico, uma interpretação judicial flexível na hora certa, um “erro” de procedimento que nunca chegou a ser contestado. Tudo em nome de Ryan. Ou melhor, dos monstros corporativos que ele alimenta com seus argumentos de aço. Aquilo quase custou minha reputação. E ele sabe disso.
— Considere como um acerto parcial de contas pendentes, Ryan — digo, a voz tão controlada quanto uma sentença bem redigida. — Lembre-se de Flora. Lembre-se de como certas... flexibilidades jurídicas podem ser úteis. Elas têm preço. E você ainda me deve.
O silêncio do outro lado não é total. Há um ruído tênue. Um suspiro. Quase imperceptível. Mas para mim, soa como um baque. É a prova de que atingi um nervo exposto. A menção a Flora sempre o incomoda — um lembrete de um capítulo que ele preferiria enterrar, mas que permanece como nossa moeda de chantagem recíproca. O laço invisível, mas irrompível.
— Certo. Entendido — responde, ríspido. — Odeio quando você j**a essa carta, Montenegro. Mas justo é justo. Uma mão lava a outra, não é mesmo?
Ele não espera minha resposta.
— Me dê os detalhes. Local exato do acidente, hora aproximada, descrição dela — por mais... suja e ensanguentada que estivesse. Qual hospital a recebeu?
— Hospital St. Jude. Ambulância a levou por volta das dez da noite, ontem. Estava com roupas escuras, cabelo comprido, escuro também. Aparenta ter trinta e poucos anos, talvez até menos... mas é difícil saber. Estava coberta de lama e sangue. Magra. E com um temperamento... infernal. Boca suja. E os olhos... — Pauso, por um segundo. — Os olhos dela queimam.
— St. Jude... anotado — ele murmura, como quem já começa a montar as peças. — Uma lutadora, então? Com garras? Isso torna as coisas mais interessantes.
— Ela não é uma indigente comum — digo, seco. — Não é só o que ela disse. É o que ficou nos olhos. A maneira como me olhou... havia algo antigo ali. Familiar. Intenso demais para ser um mero desconhecido atropelando uma estranha.
— Você está dizendo que ela te reconheceu?
— Estou dizendo que, por um instante, eu também a reconheci. Mas não sei de onde.
Silêncio.
Desta vez, ele não brinca. Não ironiza. Quando Ryan Thompson abandona o sarcasmo, sei que ele está ouvindo com atenção real.
— Certo. Vou investigar. Se ela estiver viva — e meu tom gélido sugere que talvez eu não deseje que esteja —, minha equipe vai encontrá-la. Nome, sobrenome, histórico, CPF, redes sociais, processos, boletins de ocorrência, tudo.
— Preciso disso rápido.
— Você terá. E Thomas...
— Sim?
— Se essa mulher for mesmo quem você teme que seja... o que você vai fazer?
Olho para a cidade abaixo da janela. Milhares de vidas em movimento, ilusões de controle, de estabilidade. Mas tudo pode ruir por um único olhar, um nome esquecido, uma lembrança enterrada. E talvez seja isso que ela represente: o retorno de tudo que joguei para debaixo do tapete da minha consciência.
— Ainda não sei — respondo. — Mas, dessa vez, não pretendo ficar à mercê dos olhos dela.
— Acabo com a vida dela de uma vez? — Ryan novamente foi mais rápido do que eu.
Hesito por um momento. Deveria mencionar a sensação de reconhecimento? O ódio quase pessoal que senti emanando dela? Não. Seria revelar demais. Seria admitir uma vulnerabilidade que não posso me permitir — nem mesmo com Ryan.
— Não. Apenas descubra quem ela é, Ryan. A história dela. E o que ela pode querer de verdade — digo, mantendo a voz fria, neutra, como se tratasse de mais um item da pauta do dia. — Sinto que há mais nessa história do que um simples e infeliz acidente. A reação dela... não se encaixa. Quero saber o que está por trás antes que isso cresça e se torne um problema maior.
— Sempre há, Thomas. Sempre há — responde ele, com aquele tom irritantemente condescendente que mistura sarcasmo e uma sabedoria amarga. — O mundo é mais complicado e sujo do que parece nos seus códigos legais e nos seus tribunais assépticos.
Quase consigo vê-lo franzindo os lábios num meio sorriso, o tipo de expressão que usa quando sabe que está certo. E isso me incomoda mais do que deveria.
— Falamos depois. E tente não atropelar mais ninguém até lá. Sua sorte pode acabar.
A ligação termina com um estalo seco, quando coloco o telefone de volta no gancho — com mais força do que o necessário. O clique ecoa pelo escritório silencioso, misturando-se com o zumbido distante do ar-condicionado central. Meus dedos permanecem sobre o aparelho por um instante, rígidos, como se ainda houvesse algo a dizer... ou a controlar.
O orgulho lateja dentro de mim. Ter que recorrer a Ryan me fere mais do que quero admitir. Sei que ele é eficiente, brilhante até. Mas cada favor cobrado, cada informação obtida por ele, deixa uma marca. E essa marca está gravada agora na minha garganta como lixa grossa. Porque, pela primeira vez em muito tempo, me vejo à deriva.
Admito — ainda que apenas para mim mesmo — que o acidente me abalou mais do que deveria. Não pela culpa. Isso seria tolice. Acidentes acontecem. E, objetivamente, ela estava errada ao atravessar daquela forma, no meio da chuva, sem qualquer cuidado. Não. Não é culpa. É outra coisa.
É a perda de controle.
O instante em que tudo escorregou por entre meus dedos, como se o mundo pudesse desabar por uma simples freada. A imagem dela surgindo no meio da tempestade. O impacto. O sangue. O olhar. Aquele olhar.
Os olhos dela me atravessam até agora. Escuros, famintos. Como se me conhecessem. Como se me julgassem. Como se eu fosse, para ela, o monstro que ela esperava ver.
Ela guarda algo. Está claro. A intensidade com que me atacou, com que gritou, com que me olhou... não era apenas resultado da dor física. Havia ali uma raiva antiga. Um ressentimento encrostado. Uma história por trás daquela mulher que não combina com a imagem suja, ensanguentada e frágil em que ela se apresentava.
E eu preciso saber o que é.
Não por preocupação com ela. Que ideia ridícula. Isso seria sentimentalismo barato, indigno de mim. Não. Eu quero saber para me proteger. Para antecipar seus próximos passos. Para eliminar a imprevisibilidade. Para garantir que nada — nem ela — abale minha reputação, minha carreira, minha imagem imaculada. Para manter o que me define: o controle.
Volto-me para os processos sobre a mesa de mogno. Títulos em negrito, letras frias, números, datas, precedentes. Tento me forçar a entrar no modo juiz. O modo que me protege. O modo que me define. Frio. Lógico. Intocável.
Mas falho.
Ela continua ali, como um espectro à margem da minha visão. Caída na chuva, suja, mas desafiadora. Um enigma em forma de mulher. Uma ameaça camuflada em fragilidade. Uma peça solta, irritante, que destoa do tabuleiro perfeitamente alinhado da minha vida.
E eu odeio peças soltas.
(POV: Elena)Os dias no hospital se arrastam como uma penitência, uma monotonia cinzenta e claustrofóbica que parece não ter fim. Vivo num limbo estéril, onde tudo é marcado pela mesma rotina: as visitas apressadas da enfermeira com aquele sorriso automático e cansado, a comida insossa servida em bandejas de plástico que roubam qualquer resquício de dignidade e sabor, e a dor — sempre a dor — que insiste em pulsar sob os analgésicos, sussurrando que ainda estou viva... mas quebrada. O mundo lá fora se torna um eco distante, abafado por essas paredes brancas e impessoais que me cercam como um túmulo iluminado demais.Mas aqui dentro, nesse silêncio forçado, a verdadeira tortura começa: minha mente não me dá trégua. O passado invade sem bater, sem pedir licença. Ele se impõe. Toma forma em lembranças cortantes, cheias de fúria e frustração. É como reviver, repetidamente, o mesmo pesadelo, sem poder mudar de canal ou desviar o olhar.E lá estou eu de novo.Naquela sala de tribunal impone
(POV: Thomas)A luz fria e implacável da manhã invade meu escritório pelas amplas janelas que vão do chão ao teto — um lembrete constante da minha posição elevada, literal e figurativamente, acima da cidade que pulsa lá embaixo. Mas hoje, o sol, geralmente bem-vindo por sua clareza, apenas acentua a desordem interna. Não dissipa a névoa persistente de irritação e... algo mais. Algo desconfortável, nauseante, irritantemente indefinido, que se instala desde o incidente da noite passada como um hóspede indesejado e silencioso.O cheiro forte de café fresco paira no ar. É um expresso duplo, como todos os dias, deixado pontualmente às oito por Henderson, meu assistente discreto e eficiente. Um ritual que normalmente me ancora — previsível, metódico, controlado. Hoje, porém, o aroma apenas reforça o dissabor da manhã. Nada está no lugar. Nem mesmo eu.Meus olhos desviam para o canto inferior da tela do notebook. Processos, relatórios, contratos. Tento me concentrar, mas a imagem daquele ros
ElenaA dor. Primeiro, uma explosão branca e ofuscante atrás dos meus olhos. Um clarão que apaga o mundo por um instante eterno. Depois, a sinfonia dissonante e cruel de pontadas agudas que irradiam do meu ombro esquerdo, agora uma massa pulsante de agonia; do meu quadril machucado, que grita a cada micro movimento; da minha cabeça que lateja como um tambor de guerra tribal, um ritmo nauseante e incessante. O asfalto frio e áspero pressiona minha bochecha — uma lixa molhada pela chuva incessante que me encharca até os ossos. O frio penetra fundo, muito além da pele. Quer congelar minha alma.Cada respiração é um esforço rasgado, doloroso, o ar gelado da noite queima meus pulmões como ácido. Sinto o gosto metálico do sangue na boca, misturado ao sabor sujo da água da rua. Mas, mais forte que a dor lancinante que ameaça me fragmentar, mais penetrante que o frio que me treme os ossos, uma fúria quente e primitiva ferve nas minhas veias. É um magma borbulhante de raiva pura e visceral.Ra
ThomasO peso do martelo ainda pulsa em minha mão, mesmo horas depois. Um eco fantasma do poder que exerço, da ordem que imponho sobre o caos das vidas alheias. A audiência de Flora e Adam se arrastou como um pântano, um lodo denso de acusações veladas, defesas frágeis e aquela tensão quase insuportável que sempre acompanha os casos que tocam a elite da cidade. Saio do tribunal quase tropeçando no próprio cansaço, a mente um turbilhão de códigos legais, precedentes jurisprudenciais e, teimosa, a imagem do rosto devastado de Flora. Uma pontada incômoda aperta meu peito. Classifico como consequência do estresse. Só isso. Justiça. É o que sirvo. Fria, imparcial, desapaixonada.É o que sou. Não há espaço para a bagunça pegajosa das emoções humanas nesse cálculo preciso. O átrio do fórum está quase vazio, as luzes frias refletindo no mármore polido. O silêncio amplifica o zumbido em meus ouvidos. Pego minha pasta de couro, símbolo discreto de status, e caminho até a saída, passos ecoando n







