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مؤلف: sLunny
last update تاريخ النشر: 2026-09-21 20:02:48

Elena

A dor. Primeiro, uma explosão branca e ofuscante atrás dos meus olhos. Um clarão que apaga o mundo por um instante eterno. Depois, a sinfonia dissonante e cruel de pontadas agudas que irradiam do meu ombro esquerdo, agora uma massa pulsante de agonia; do meu quadril machucado, que grita a cada micro movimento; da minha cabeça que lateja como um tambor de guerra tribal, um ritmo nauseante e incessante. O asfalto frio e áspero pressiona minha bochecha — uma lixa molhada pela chuva incessante que me encharca até os ossos. O frio penetra fundo, muito além da pele. Quer congelar minha alma.

Cada respiração é um esforço rasgado, doloroso, o ar gelado da noite queima meus pulmões como ácido. Sinto o gosto metálico do sangue na boca, misturado ao sabor sujo da água da rua. Mas, mais forte que a dor lancinante que ameaça me fragmentar, mais penetrante que o frio que me treme os ossos, uma fúria quente e primitiva ferve nas minhas veias. É um magma borbulhante de raiva pura e visceral.

Raiva. Ah, sim. A velha amiga. Raiva do carro que surgiu do nada — um monstro metálico e indiferente na escuridão. Da imprudência cega e arrogante do motorista. Do impacto brutal que me jogou como uma boneca de pano velha, meus membros torcendo em ângulos grotescos, minha dignidade estilhaçada junto com, provavelmente, alguns ossos. Raiva da minha própria estupidez por estar ali, vulnerável, exposta, correndo no meio da tempestade como uma fugitiva desesperada. Fugindo de sombras e fantasmas que me perseguem há tanto tempo que já fazem parte de mim.

Por que eu estava correndo? Ah, sim... O beco escuro, a sensação de ser seguida de novo, o pânico antigo ressurgindo. Que estupidez. Corri de uma sombra para cair nas garras de um monstro real.

E então, ele aparece. Recortado contra a luz amarelada do poste, como um presságio sombrio. Alto. Imponente. Um monólito de terno caro e indiferença. O rosto é uma máscara de irritação contida, quase desdém. Os traços, duros e aristocráticos. Mas familiares demais. Os olhos — frios como o aço polido de uma lâmina — me avaliam com uma distância quase forense. Meu estômago revira, e o sangue ferve ainda mais, transformando a raiva em ódio puro.

— Não... — murmuro, a palavra saindo como um sussurro engasgado. — Não pode ser...

O reconhecimento é um raio. Uma descarga elétrica que me atravessa com mais violência que o carro. Mais devastadora que qualquer fratura. Thomas Montenegro. O Juiz. O arquiteto implacável da minha ruína. O homem cujo martelo selou o fim da minha carreira, da minha reputação, dos meus sonhos. Ele está ali, parado sobre mim, exalando a mesma arrogância gélida de quando destruiu minha vida no tribunal, com a precisão de um cirurgião sádico.

Uma mistura de pânico e raiva se forma no meu peito, uma combinação tóxica que ameaça me sufocar. Ele não pode me reconhecer. Não assim. Não nesse estado deplorável, jogada na sarjeta como lixo humano. Ensanguentada. Quebrada. Uma jornalista destruída — uma pária social. Engulo em seco. Minha garganta arranha como cacos de vidro. Desvio o olhar e o fixo em sua gravata de seda escura, perfeita, mesmo sob a chuva torrencial. Um detalhe ridiculamente limpo numa cena de caos.

— Você está bem? — ele pergunta, como se estivesse pedindo informações a um desconhecido. A voz é formal, distante, quase entediada. Como se não fosse comigo. Como se não fosse ele o responsável por isso.

“Bem?” A palavra ecoa na minha mente como uma afronta. Um insulto. Uma bofetada.

— Bem? — repito, num tom rouco, trêmulo. A dor e a fúria se misturam. — Você me atropela como se eu fosse um saco de lixo e tem a audácia de perguntar se estou bem? Seu imbecil arrogante! Desgraçado!

Ele pisca. Um breve reflexo de surpresa atravessa seus olhos — ou talvez só irritação — antes que a máscara volte. A voz dele se ergue num tom controlado, mecânico, racional.

— Senhora, eu entendo que esteja assustada, mas estava no meio da via. A visibilidade era mínima. O acidente foi inevitável dadas as circunstâncias...

— Inevitável? — corto, minha voz ganhando força. — Ou você estava ocupado demais sendo... você? Contemplando sua própria grandeza enquanto quase me mata? Mexendo no celular? Pensando em como destruir a próxima vida? — cuspo, com um ódio que me fortalece. — Não pense que vai sair dessa impune, Juiz. Eu sei quem você é. E agora você sabe quem eu sou! Vou processar você. Vou garantir que pague por cada osso quebrado, por cada gota de sangue que deixei nesse asfalto. Eu vou tirar até o último centavo escondido nas suas contas sujas! E vou gritar para o mundo inteiro o tipo de monstro hipócrita que você é por trás dessa sua toga e dessa fachada de retidão!

A ameaça parece insana, considerando minha condição atual — caída, miserável. Mas ver um vinco de incômodo em sua testa perfeita me dá uma pequena e sombria satisfação. Um minúsculo alívio para uma alma ferida.

— Faça o que achar que deve — ele responde, impassível. — Mas, talvez, devesse primeiro cuidar desses seus ferimentos. Ou prefere continuar aí, na sarjeta molhada, ruminando vingança enquanto arrisca uma hipotermia?

O mundo gira. As luzes dos postes se arrastam numa dança nauseante. Sirenes rompem o som da chuva. Piscam azul e vermelho, cortando a escuridão. Alguém — provavelmente ele, sempre eficiente — ligou. Mãos me tocam. Profissionais. Frias. Paramédicos. Falam, me examinam, mas as palavras flutuam no ar. Estou sendo colocada numa maca. Sinto a dor voltar com fúria. Um gemido escapa da minha garganta.

Fecho os olhos com força. Tento me agarrar à raiva como um salva-vidas. Mas a escuridão me envolve, densa, pesada. E, por um momento, deixo que ela me leve.

***

Desperto com o cheiro. Aquele cheiro asséptico, químico, inconfundível de hospital. É ele quem me arranca do torpor. Um som agudo me acompanha — um bip constante, irritante, monótono — como se marcasse o ritmo lento da minha sobrevivência forçada. A luz fluorescente, fria e impiedosa, derrama-se sobre o quarto estéril, revelando paredes beges sem alma, o teto manchado de infiltrações e uma janela que só mostra um céu cinzento, pesado de chuva.

Meu corpo inteiro dói. Não é mais a dor aguda do acidente, mas uma dor surda, funda, domesticada por analgésicos que me mantêm flutuando entre o torpor e a consciência. Meu braço esquerdo está imobilizado por uma tipóia, pesado e inútil, um lembrete do quão quebrada eu realmente estou. Os pontos na testa repuxam dolorosamente cada vez que franzo o cenho, lembrando-me, com precisão cruel, do impacto.

Estou sozinha.

— Onde está Montenegro? — murmuro, a voz seca e falha, como se cada palavra arranhasse minha garganta por dentro.

Talvez ele tenha ido embora. Fugido como o covarde arrogante que é. Deixado a bagunça para outros limparem, como os da laia dele sempre fazem.

Típico.

Imagino-o chegando em casa, tirando o terno caro e servindo um uísque importado, como se nada tivesse acontecido. Como se atropelar alguém fosse só mais um contratempo menor em sua agenda de homem intocável.

A porta se abre com um estalo discreto. Uma enfermeira entra — rosto cansado, mas com um sorriso treinado nos lábios. Os olhos são gentis, ainda que abatidos. Ela verifica meus sinais vitais, ajusta o soro com mãos eficientes e fala em tom suave:

— Como está a dor, senhora? De zero a dez?

— Sete... talvez oito — murmuro, quase engasgando com a secura da garganta.

— Alguma alergia a medicamentos?

— Não...

— Certo. Vamos precisar preencher os papéis da internação, e também das informações do seu seguro de saúde, tudo bem?

Seguro de saúde?

A palavra me atinge como um tapa. Seguro é um conceito distante da minha realidade. Não tenho seguro há anos. Desde que perdi o emprego no jornal. Desde que minha reputação foi esmagada no tribunal. Desde que minha vida virou um rascunho mal apagado. Vivo de bicos e favores, da generosidade da Maya — a única amiga verdadeira que me resta — e da caridade do abrigo onde trabalho como voluntária.

Não tenho pai. Ele morreu. Minha mãe vive em outra cidade e, depois do escândalo... bem, o silêncio entre nós diz tudo. Não tenho poupança. Não tenho nem dignidade o suficiente para pedir ajuda sem tremer de vergonha.

Sou um corpo quebrado numa cama de hospital. Um caso clínico sem plano de saúde. Uma estatística.

A enfermeira me observa com uma expressão ligeiramente apreensiva, como se já tivesse visto esse olhar antes. O olhar de quem está sendo esmagado lentamente por algo maior do que a dor física.

— Podemos conversar depois sobre os custos, tudo bem? — ela diz, tentando suavizar a notícia.

Assinto, porque não consigo fazer mais nada.

Assim que a porta se fecha, o pânico me sufoca. Como vou pagar por isso? Emergência, internação, exames, remédios, fisioterapia... Como vou trabalhar com o braço assim? Como vou pagar o aluguel? Viver?

Uma raiva quente me arranca da beira do abismo.

Thomas Montenegro.

O nome ressoa como um trovão em minha mente. Ele me colocou aqui. Ele me jogou no asfalto e agora, quem sabe, está em seu escritório seco e limpo, sem um arranhão. Ele vai pagar. Pelos custos médicos, claro. Mas por tudo também. Pela humilhação. Pelas noites insones. Por cada pedaço da minha carreira que ele esmagou com a ponta da caneta e o peso da toga.

A dor cede lugar à determinação. Uma força de aço se ergue dentro de mim, forjada no calor corrosivo da minha fúria. Preciso vê-lo. Preciso enfrentá-lo. Não como vítima. Não como a mulher caída na sarjeta. Mas como quem sobreviveu à destruição.

Fecho os olhos. E a lembrança me atinge.

Estou no tribunal. Anos atrás. Jovem, ingênua, ainda acreditando que a verdade bastava. Assisto, impotente, ao juiz Montenegro destroçar minha matéria investigativa com a frieza de um carniceiro. A reportagem que me custou tanto — e que expunha a corrupção da Vecta Corp — é transformada em arma contra mim. Eu, a jornalista investigativa, passo a ser difamadora em um piscar de olhos.

Ele me olha com desdém. Com indiferença. Como se eu fosse só mais um detalhe técnico. Nada de pessoal. Só um processo.

O mesmo olhar que vi hoje, na rua, antes de a inconsciência me levar.

Uma chama se acende em meu peito. Justiça? Talvez. Vingança? Muito mais provável. E, sinceramente, já não vejo mais diferença entre uma coisa e outra.

— Você vai me ouvir, Thomas — murmuro para o teto manchado. — Dessa vez, vai me ouvir.

E, enquanto o soro pinga no silêncio, eu não rezo por cura. Eu planejo guerra.

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