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مؤلف: sLunny
last update تاريخ النشر: 2026-09-21 20:04:22

(POV: Elena)

Os dias no hospital se arrastam como uma penitência, uma monotonia cinzenta e claustrofóbica que parece não ter fim. Vivo num limbo estéril, onde tudo é marcado pela mesma rotina: as visitas apressadas da enfermeira com aquele sorriso automático e cansado, a comida insossa servida em bandejas de plástico que roubam qualquer resquício de dignidade e sabor, e a dor — sempre a dor — que insiste em pulsar sob os analgésicos, sussurrando que ainda estou viva... mas quebrada. O mundo lá fora se torna um eco distante, abafado por essas paredes brancas e impessoais que me cercam como um túmulo iluminado demais.

Mas aqui dentro, nesse silêncio forçado, a verdadeira tortura começa: minha mente não me dá trégua. O passado invade sem bater, sem pedir licença. Ele se impõe. Toma forma em lembranças cortantes, cheias de fúria e frustração. É como reviver, repetidamente, o mesmo pesadelo, sem poder mudar de canal ou desviar o olhar.

E lá estou eu de novo.

Naquela sala de tribunal imponente, envolta em madeira escura, pesada, sufocante — como se as paredes tivessem sido construídas para sugar toda esperança. O cenário de uma execução pública travestida de justiça. Só que eu não era a algoz. Eu era a sacrificada. Não essa mulher dilacerada de agora, estirada numa cama de hospital, com um braço imobilizado e a testa costurada com pontos. Mas Elena Vidal. A jornalista. A investigadora determinada, cheia de fé — tola, ingênua — na ideia de que a verdade, por si só, bastava.

— A verdade liberta, Elena — eu repetia como um mantra. — A verdade transforma.

Mentira. A verdade destrói. Principalmente quando se está sozinha.

Lembro da adrenalina em cada célula, do coração batendo como um tambor de guerra, quando publiquei a matéria sobre a Vecta Corp. Lembro da certeza arrogante — hoje percebo — de que havia feito a coisa certa. Expus esquemas sujos de corrupção, documentos vazados, testemunhos reais, gente disposta a falar sob risco de morte. Achava que a justiça viria logo depois. Que os nomes cairiam, que os rostos corruptos seriam envergonhados em público.

Mas a vitória foi um sopro. Um lampejo.

E então... ele apareceu.

Juiz Thomas Montenegro.

Sentado naquela cadeira de madeira polida como se fosse um trono, acima de todos nós, o rosto impassível, sem cor, sem alma. A toga escura lhe dava uma aura quase divina. Inatingível. A encarnação do sistema. E não demorou para que a farsa começasse.

Não foram os corruptos da Vecta que sentaram no banco dos réus. Fui eu.

Transformada de denunciante em criminosa. Uma reviravolta absurda, kafkiana, que fez da minha integridade uma piada de tribunal. A acusação: difamação. Manipulação. Conduta antiética. Disseram que publiquei por vingança pessoal — uma mentira plantada pelos advogados deles, baseada em um envolvimento casual e infeliz com um dos diretores. Uma invenção. Mas Montenegro… ele deixou que aquilo crescesse. Regou aquela mentira com sua frieza processual até virar um enredo “plausível” aos olhos da corte.

— Senhorita Vidal, se recusar a revelar suas fontes, seu conteúdo perde valor probatório — ele disse, os olhos fixos nos meus, como se estivesse dissecando um cadáver.

— Juiz, o sigilo da fonte é constitucional — eu argumentei, trêmula, mas firme. — Se eu expuser essas pessoas, elas serão destruídas.

— E como posso garantir que não inventou as informações, se não temos como verificar sua origem?

Aquela pergunta foi como um tiro. Senti na espinha. Ele sabia o que estava fazendo. Ele sabia que aquela exigência era uma sentença de morte para minha carreira. Mas não recuou. Fez questão de me forçar a um dilema impossível: trair meus princípios ou ser devorada viva.

E fui devorada.

Cada palavra dele era meticulosamente pensada. Uma faca afiada. Cortava minha reputação com precisão. Fez parecer que minha matéria era sensacionalista. Que eu agia por emoção. Que estava instável. Frágil. Quase patética.

— A senhorita Vidal parece mais movida por mágoa do que por responsabilidade jornalística — ele concluiu, o tom perfeitamente medido, sem levantar a voz, mas com um peso que me esmagou.

Ali, minha vida virou poeira.

O jornal lavou as mãos. Meus colegas silenciaram. Os portões se fecharam. Os convites sumiram. E minha fé, aquela fé infantil na justiça, morreu ali, naquele tribunal, enquanto o martelo dele batia pela última vez.

Agora estou aqui. Com o corpo quebrado. Mas pior: com a alma rachada em mil fragmentos.

E ele teve a audácia de me atropelar. Literalmente. Como se o destino não estivesse satisfeito em me destruir uma vez.

Mas não dessa vez.

Dessa vez, não vou ser a vítima que ele pode pisotear e descartar.

Dessa vez, ele vai me ouvir.

Não há a menor sombra de dúvida em minha mente — nem naquela noite chuvosa, nem agora, na clareza dolorosa que me invade entre as paredes geladas deste hospital. Era ele.

O homem que me atropelou naquela rua escura e esquecida pelo GPS, com seu carro caro, potente e impiedoso, é o mesmo homem que, anos atrás, presidiu a execução pública da minha carreira, da minha reputação, da minha vida. Juiz Thomas Montenegro. O mesmo olhar frio. A mesma postura altiva. A coincidência é tão grotescamente irônica que quase rio. Quase. Uma risada histérica borbulha em meu peito, amarga, prestes a romper. Mas morre antes de nascer, sufocada por um nó de ressentimento — denso, pegajoso — e por um medo paralisante que se espalha pelas minhas veias como veneno.

O medo. Ah, ele está de volta.

Velho conhecido. Fiel e indesejado companheiro. Um parasita que sobrevive dos meus fracassos, das minhas fugas, da minha eterna vulnerabilidade. Ele sabe onde me encontrar — sempre soube. Nunca importa o quanto eu me esconda, quantas vezes mude de nome, de cidade, de corte de cabelo ou de sotaque. Ele me acha. Sempre.

Tenho medo. Medo das consequências que os poderosos lançam como dardos certeiros contra quem ousa desafiar seus reinos. Medo de ser reconhecida. De ter minha nova vida — essa sobrevida precária — esmagada como uma formiga sob a sola lustrosa dos sapatos de Montenegro.

— E se ele já me reconheceu? — sussurro, apenas para mim, para o teto mofado que não responde.

Se descobrir quem realmente sou... Elena Vidal, ex-jornalista, ex-tudo... O que um homem como ele, com seu império de conexões e sua arrogância de deus togado, faria com isso? O que faria se soubesse que a mulher que quase matou — ou será que foi de propósito? — é a mesma que tentou derrubar seu castelo de cartas anos atrás?

Meu corpo treme sob o lençol áspero. A ideia de mais perseguição, mais humilhação pública, mais portas se fechando, me congela até os ossos.

Decido ali, sozinha, naquela cama de hospital com cheiro de desinfetante e solidão, que jamais — em hipótese alguma — poderei revelar minha verdadeira identidade. Não a ele. Não agora. Talvez nunca. Tenho que manter a fachada: moradora de rua, sem documentos, vítima anônima de um acidente infeliz. Um erro banal. Um tropeço da sorte. Nada mais.

— Se eu for apenas mais uma na estatística... ele não vai se importar. Vai seguir em frente, como sempre fez — cochicho para mim mesma, com a voz quebrada pela dor e pela certeza.

É meu único escudo. Frágil, mas necessário.

No entanto, como uma maldição cruel, junto ao medo que me paralisa, vem outra sensação — igualmente perigosa.

Curiosidade.

Quase masoquista. Quase doentia. Um desejo de entender. Saber.

— Por que ele estava lá? — murmuro. — O que fazia Montenegro em uma rua secundária, em plena noite de tempestade, tão longe das avenidas polidas da elite?

Algo não encaixa.

E mais: por que está tentando encobrir isso?

Ouvi. Com meus próprios ouvidos. Achei que ele tinha ido embora, mas sua voz surgiu do corredor, baixa, controlada, falando com a enfermeira-chefe. A mulher respondeu com um aceno respeitoso, sem me notar.

— "Um associado do Sr. Montenegro arcará com todas as despesas. Não se preocupe com a burocracia agora. Apenas garanta que ela receba o melhor tratamento." — ela disse, com aquela voz mecânica de quem não questiona ordens.

Associado?

Ou o próprio Montenegro tentando limpar discretamente a bagunça?

E por que chamar logo Ryan Thompson? Eu conheço o nome. Sei do que aquele empresário é capaz — o que faz quando não está nas suas grandes redes de joalheria. O que esconde por trás dos ternos italianos e das cláusulas jurídicas. Ryan é o tipo de homem que resolve os problemas que não podem ser registrados em ata.

Montenegro tem medo. Está tentando me identificar. E rápido.

Mas por quê?

— O que você teme tanto, juiz? — pergunto em silêncio, encarando o teto como se ele tivesse olhos.

Por trás da fachada de retidão, da toga imaculada, da autoridade gélida… o que esconde, Thomas? Que esqueletos jazem trancados no armário onde você se tranca à noite? Será que, no fundo, você também teme ser exposto?

Uma parte de mim — aquela parte que ainda pulsa, que ainda resiste — quer saber.

Quer arrancar sua máscara.

Porque se eu descobrir... talvez, só talvez, eu possa virar o jogo.

E desta vez, não será você quem julgará.

Serei eu.

Ele é o juiz arrogante. O homem que simboliza a destruição da minha vida. O rosto implacável de um sistema que me esmagou sem hesitar, que rasgou minha dignidade em público, que me empurrou para a margem — sem um pedido de desculpas, sem sequer uma hesitação.

Mas ele também... parou o carro.

Poderia ter fugido. Muitos fariam isso. Não ele.

Foi ele quem chamou a ambulância. Quem me tirou da chuva, mesmo me encarando como se eu fosse um incômodo. E é ele — embora me irrite profundamente admitir — quem está pagando por este quarto de hospital, por este tratamento, por cada exame, por cada soro pendurado. Um tratamento que jamais, nem em meus dias mais estáveis, eu teria como custear.

Essa contradição me confunde. Me perturba.

É mais fácil odiar um monstro completo, preto no branco. Uma figura sem nuances, desumana e previsível. Mas Thomas Montenegro não se encaixa tão bem nessa narrativa. Há rachaduras na sua máscara. Gestos que não combinam com o vilão que me esforço para ver. E isso... me tira o chão.

Quando a alta médica finalmente chega — dias depois, longos e indistintos —, sinto uma mistura de alívio e pavor. Meu braço esquerdo ainda está preso à tipóia, inútil e pesado. A cabeça lateja menos, mas ainda carrega uma dor constante, como um lembrete sádico de tudo o que aconteceu. Recebo uma lista de recomendações médicas: repouso, fisioterapia, medicamentos com nomes complicados e preços ofensivos. Leio tudo aquilo com um sorriso amargo nos lábios.

— Isso aqui é piada, né? — murmuro para mim mesma, dobrando a folha com esforço. — “Repouso”? Como, se a vida lá fora não espera?

Assim que piso fora do hospital, o vento me golpeia com uma frieza que nada tem a ver com o clima. A cidade me engole novamente. Volto ao meu quarto — o cubículo nos fundos de uma pensão esquecida por Deus e pela prefeitura. O cheiro de mofo e desinfetante barato me recebe como um velho conhecido.

— Lar, doce lar — ironizo, enquanto empurro a porta capenga e encaro as paredes descascadas.

Logo o alívio dá lugar ao desespero silencioso. Não consigo trabalhar com o braço desse jeito. Sem os bicos que me sustentavam — faxinas, panfletagem, turnos exaustivos como garçonete — não consigo nem pagar o aluguel que vence em uma semana.

E como se tudo isso não bastasse, ele permanece. Um fantasma real. Thomas Montenegro.

Ele não só invade minhas lembranças. Ele ocupa minha mente com uma presença constante, como um peso entre as costelas. E pior: agora está associado a um gesto quase... humano. Quase.

***

Duas semanas se passaram desde o acidente, tento afastá-lo da mente diariamente. Tento. Mas sou falha e não consigo.

Mas a curiosidade cresce. E logo se transforma em algo mais intenso. Mais sombrio. Uma obsessão discreta e perigosa.

A jornalista em mim ainda respira. Enferrujada, desacreditada, quebrada... mas viva. A necessidade de entender volta como um vício antigo.

Abro o notebook velho com a tela trincada, e começo a caçar.

Colunas sociais. Sites de notícias. Blogs de fofoca da alta sociedade — todos os lugares onde alguém como Montenegro inevitavelmente aparece, mesmo sem querer. Ele vive entre os poderosos. Entre os “intocáveis”.

E lá está ele. Sempre impecável. Sempre sozinho. Juiz Thomas Montenegro, conhecido pela rigidez ética e postura inflexível. A imprensa o adora — ou teme. Sua rotina é quase monástica, previsível até nos detalhes: o mesmo restaurante três vezes por semana, o mesmo clube privado onde advogados e empresários tomam whisky enquanto selam acordos que jamais serão documentados. E, claro, o tribunal. Seu verdadeiro templo.

Leio. Anoto. Organizo.

Não sei exatamente o que procuro. Uma fraqueza, talvez. Uma mancha no paletó. Uma rachadura no verniz de perfeição.

Ou talvez... talvez eu só queira entender.

— Porque se eu entender — sussurro, encostando a cabeça no travesseiro fino — posso odiá-lo com mais precisão.

Humanizar um monstro torna tudo mais difícil, sim. Mas também mais eficaz. Se eu descobrir o que o move, o que o incomoda, o que o assombra... então posso feri-lo. Como ele me feriu. Não com violência. Com verdade.

Ou, quem sabe, me firo ainda mais no processo.

Mas já é tarde. O instinto voltou.

E eu não vou parar até descobrir tudo. Porque, desta vez, é ele quem vai olhar por cima do ombro.

Algumas vezes — e não sei dizer se movida por masoquismo, desespero ou uma ânsia inconsciente de confronto — vou até as proximidades do tribunal na hora do almoço. Misturo-me aos advogados apressados, aos funcionários públicos com seus crachás pendendo do pescoço e passos metódicos, como se eu ainda pertencesse àquele mundo do qual fui expulsa. Ou então passo pelas redondezas do prédio onde ele mora, um edifício de fachada espelhada, imponente como uma fortaleza, que vigia a cidade de cima como se fosse seu dono.

— Isso não é normal — sussurro para mim mesma, escondida atrás de uma banca de jornal ou sentada em um banco de praça com um café barato nas mãos trêmulas. — Isso já passou dos limites da curiosidade.

Mas continuo indo. Continuo observando.

É fácil saber onde ele mora. Informações públicas, básicas. Para quem já foi uma jornalista investigativa, a internet ainda é uma aliada poderosa. Uma combinação de base de dados, boletins antigos da imprensa, registros cartoriais e... o faro. Aquele instinto que não me abandonou, mesmo com o resto da minha vida virando escombros.

Vejo-o sair do carro com motorista — sim, ele voltou a usar motorista desde o acidente. Um modelo alemão, escuro, polido, que brilha como uma joia sobre rodas. O tipo de veículo que vale mais do que tudo o que terei em toda a minha existência. Ele caminha com passos firmes, confiantes. Sempre de terno escuro, sempre alinhado, sempre com aquele ar de quem nasceu para comandar e foi ensinado, desde o berço, a jamais vacilar.

Seu rosto... é o mesmo da minha ruína. Sério, contido, quase esculpido. Sem pressa. Sem desvios. Intocável.

Ele passa por garis, camelôs, mães com crianças no colo — sem vê-los. Ou talvez veja, mas não se importe. Sua indiferença é tão estudada que parece natural. Natural demais. Como se a vida ao redor fosse apenas ruído, ruído fora da bolha de perfeição onde ele respira.

E a cada vez que o observo, mesmo de longe, mesmo em silêncio... algo em mim se contorce.

É como se ele puxasse um fio invisível dentro do meu peito. Um fio feito de raiva, medo e... algo mais. Algo que não gosto de nomear.

— Ele destruiu sua vida — repito como um mantra. — Ele é o inimigo. Ele é o rosto da sua humilhação.

Mas há outra voz. Mais baixa. Mais traiçoeira.

— Então por que você volta aqui? Por que continua observando? Por que sua respiração muda quando ele aparece?

Sinto ódio. Claro que sinto. Ódio pelas palavras que ele disse no tribunal com tanta frieza. Pelas decisões que tomou que custaram minha carreira, meu nome, minha dignidade. Mas também... também há uma espécie de fascínio doentio. Uma atração sombria pelo que ele representa.

Poder.

Não aquele poder vulgar, de quem grita mais alto ou tem mais dinheiro. O poder dele é silencioso. Preciso. Como uma lâmina.

Ele exala autoridade como quem veste um perfume caro, inatingível. E por mais que isso me irrite... não consigo ignorar.

— É só curiosidade. Profissional. Instinto antigo. Você está estudando o inimigo, só isso — tento me convencer.

Mas não é só isso.

É o jeito como ele move os ombros ao descer do carro. Como corrige a gravata com um gesto automático. Como não olha ninguém nos olhos, porque não precisa. Como paira acima do mundo, enquanto eu rastejo por ele.

É fácil odiar um monstro completo, feito de sombra e maldade. É mais difícil encarar um homem real, complexo, contraditório. Um homem que já me destruiu... e agora paga pelas minhas dores. Um homem que não fugiu. Que ficou.

— Talvez ele só queira apagar a culpa. Fazer parecer que está acima disso tudo.

— Ou talvez... talvez ele me tenha em mente mais do que demonstra.

Não quero pensar nisso. Não posso. É perigoso. É como cutucar uma ferida aberta com unhas sujas.

Mas eu volto. Dia após dia. Sentada em algum canto onde ele não pode me ver, mas onde eu o enxergo perfeitamente.

E a cada vez, a cada passo dele, a cada olhar distante... a pergunta cresce como uma erva daninha dentro de mim:

— Quem é, de verdade, Thomas Montenegro?

Porque talvez... só, talvez... descobrir isso seja a única forma de me libertar.

Ou de cair de vez.

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