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Capítulo 2

Author: Washing Wheat
Sem ter para onde ir, fugi para as montanhas com Buddy.

Ele era um vira-lata amarelo. Depois que meus pais morreram, ele era tudo o que eu tinha.

Mesmo assim, a cidade nos encontrou.

Eles me imobilizaram e mataram Buddy na minha frente. Depois, arrancaram sua pele, cozinharam seu corpo e riram enquanto a panela fervia.

Agarrei um de seus ossos e gritei até perder a voz.

Naquele ano, eu tinha dezesseis anos.

Na plataforma, Claire observou meu rosto adolescente, marcado pelas lágrimas, na tela e zombou.

— Rachel, depois do que você fez, esperava o quê?

— Se você não tivesse protegido aquele homem, as pessoas teriam tratado você daquela maneira? Você não tem o direito de se sentir injustiçada. Foi você quem atraiu tudo isso sobre si mesma.

A multidão concordou imediatamente.

— Sem vergonha. Ela está tentando fazer a gente sentir pena dela.

— Proteger um estuprador não a faz melhor do que ele. Ela merecia o inferno.

— A família de Lily foi destruída. Lily morreu, e a mãe dela perdeu a sanidade. Rachel não tem o direito de se fazer de vítima.

Então uma risada alegre ecoou pela tela.

— Lily, devagar!

A Lily mais jovem apareceu em meio à neve. Ela corria em minha direção por uma encosta coberta de branco, com as bochechas coradas e os olhos curvados pelo riso.

— Lá vai! — Gritou ela, lançando uma bola de neve em mim.

— Minha filha! — Soluçou o Sr. Warren, desabando em direção à tela.

Ele encarou o rosto sorridente de Lily e caiu em lágrimas.

Depois da morte de Lily, aquele homem que antes era tão alegre havia ficado grisalho praticamente da noite para o dia. Durante dez anos, ele voltou repetidas vezes à delegacia, fazendo sempre a mesma pergunta: eles já tinham encontrado o assassino?

E, todas as vezes, a resposta era não.

Naquela época, não havia câmeras em nossa cidade rural. Minha casa ficava isolada perto da floresta. Ninguém sabia quem havia seguido Lily naquela noite.

Ninguém além de mim.

A memória mudou. Depois da guerra de bolas de neve, ajoelhei-me diante de um desgastado anjo de pedra no mirante e juntei as mãos.

— Por favor, mantenha minhas amigas saudáveis e felizes. — Sussurrou minha versão mais jovem. — Que a nossa amizade dure para sempre.

Claire não conseguiu se conter.

— Rachel Vale, sua mentirosa hipócrita!

Ela avançou furiosa, apontando para mim com a mão trêmula.

— Como você ousa nos mostrar nossa infância? Quem você está tentando enojar?

— Dez anos. Durante dez anos, você nunca contou a verdade. Que direito você tem de se lembrar de nós como suas amigas?

Como se respondesse a ela, a imagem seguinte mostrou-me jogando fora discretamente uma manga que Lily havia me dado.

A multidão explodiu.

— Olhem só. Fazendo cara de agradecida na frente dela e jogando fora pelas costas.

— Claire e Lily foram tão boas para ela, e foi assim que ela as tratou? Sangue-frio desde o começo.

Claire sabia que eu tinha uma alergia grave a manga.

Mas não disse nada.

Ela permitiu que zombassem de mim.

— Aposto que ela nunca imaginou que Claire se tornaria uma das mulheres mais ricas do país e voltaria para acertar as contas.

— Claire, continue. Queremos ver o rosto do agressor.

A multidão gritava para que a máquina continuasse.

Então a tela mudou mais uma vez.

A voz mais jovem de Claire rasgou a praça.

— Lily! Não se vá!

Era o dia em que o corpo de Lily foi retirado do rio.

Uma chuva fina caía em cortinas cinzentas. Claire e eu desabamos ao lado do corpo de Lily, chorando até mal conseguirmos respirar.

A água havia inchado seu corpo. Sua pele estava fria e pálida. Ela não se parecia em nada com a garota bonita e sorridente das minhas memórias.

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