Se connecterO ar abafado do fim de tarde no Rio de Janeiro pedia algo refrescante. Dentro do supermercado em Botafogo, empurrei o carrinho pelo corredor de bebidas enquanto pegava meu celular do bolso para enviar uma mensagem para Laura. > Valentina: Laura, vai passar lá em casa mais tarde? Tô no mercado agora. Se você for, já levo aquela água saborizada de limão siciliano que você gosta. Não demorou nem dois minutos para a tela acender com a resposta. > Laura: Vou sim, Tina! Amiga, faz um favorzão? Meu carro tá na oficina desde ontem. Consegue passar aqui em casa pra me buscar na saída do mercado? A gente já vai juntas pra lá! Eu pediria pro meu pai tá arrumando as malas pra viajar a trabalho, então ele não pode me levar. Ao ler a última frase, meu coração deu um salto involuntário contra o peito. A simples menção ao nome de Henrique ainda tinha o poder de causar aquele arrepio discreto na espinha, uma mistura de surpresa e memória. Respirei fundo para acalmar o pulso acelerado e dig
Capítulo 227: Seis meses se passaram desde que a batida final do martelo no tribunal da 2ª Vara Criminal encerrou o capítulo mais sombrio da minha vida. A condenação de Lucas Alencar e a sua transferência para o sistema penitenciário haviam deixado de ser manchete nos portais de notícias; para mim, tornaram-se apenas uma página virada no livro da minha história. O outono no Rio de Janeiro trazia manhãs mais amenas. Às sete horas, a luz suave do sol filtrava-se pelas folhas dos jacarandás e invadia a cozinha da nossa casa. Sentada à mesa de madeira de demolição, eu tomava uma xícara de café preto enquanto lia um artigo sobre Direitos Fundamentais e Processo Penal para a minha iniciação científica. Ao meu lado, dona Helena regava as orquídeas que começavam a florir na varanda dos fundos, cantarolando uma canção antiga do interior. — O pão tá quentinho, Tina — disse minha mãe, colocando a cesta na mesa e beijando o topo da minha cabeça. — Você vai passar o dia todo na faculdade
Os vinte minutos de intervalo pareceram se arrastar no ritmo arrastado dos ponteiros do relógio de parede do quarto andar. O ar na sala da 2ª Vara Criminal, ao ser reaberta pelo oficial de justiça, parecia ainda mais denso do que no início da manhã. A umidade da chuva que continuava a cair lá fora infiltrava-se no ambiente, trazendo um arrefecimento que arrepiava a pele. Acomodei-me novamente ao lado da Dra. Beatriz na mesa da acusação. Minhas mãos estavam calmas, repousadas sobre o colo. Ao meu lado, minha mãe segurava o rosário de madeira entre os dedos, num murmúrio silencioso de orações. Do outro lado do corredor, Henrique e Laura mantinham a presença sóbria e vigilante, enquanto Lucas Alencar reocupava sua cadeira com os ombros curvados e o olhar fixo na madeira escura da mesa da defesa. O som do martelo do juiz ecoou pelo recinto, exigindo silêncio absoluto. — Retomamos a sessão de instrução e julgamento do processo crime em epígrafe — declarou o magistrado, ajustando os ócu
(Henrique) O ar condicionado da 2ª Vara Criminal parecia incapaz de amenizar a tensão sufocante que pairava sobre a sala. Ajeitei a postura no banco de madeira ao fundo do recinto, mantendo as mãos cruzadas sobre os joelhos. Ao meu lado, Laura mantinha os dedos entrelaçados aos meus, a respiração presa a cada palavra que ecoava pelo microfone do tribunal. Eu passei a vida inteira controlando variáveis, prevendo cenários e gerenciando crises no mundo corporativo. Mas estar ali, impotente, assistindo a Valentina sentada no centro daquela arena, era o teste mais difícil que eu já enfrentara. A voz dela ressoava com uma firmeza que cortava o silêncio da sala como uma lâmina afiada. Não havia o menor vestígio de hesitação nas suas palavras. Quando ela narrou a arquitetura do isolamento, as ameaças veladas e a maneira como Lucas Alencar tentou transformar a vida dela em uma gaiola de vidro, senti meu maxilar travar. Olhei de relance para a mesa da defesa. Lucas parecia encolher a cada f
O silêncio na sala da 2ª Vara Criminal era denso, quase palpável. O único som constante vinha do zumbido discreto do ar-condicionado central e das gotas de chuva que batiam contra os vitrais altos do Palácio da Justiça. Sentada no assento reservado às testemunhas e vítimas, ajusteiquei o microfone de haste flexível à minha frente. Sentia o peso do olhar de cada pessoa presente naquele recinto: o juiz de rosto austero ao fundo, o promotor de justiça atento à sua esquerda, a equipe de advogados de defesa e, principalmente, Lucas Alencar, posicionado a poucos metros de mim. Lucas mantinha os braços cruzados sobre a mesa de madeira nobre, os nós dos seus dedos esbranquiçados pela pressão que exercia sobre os próprios pulsos. A postura ereta e a elegância impecável do terno cinza-chumbo já não conseguiam mascarar a rigidez de um homem acostumado a comandar impérios, mas que agora se via acorrentado pela própria arrogância. Ele me encarava sem piscar, tentando invocar através do olhar
A chuva fina que caía sobre o Centro do Rio de Janeiro no início da manhã deixava o piso de pedra do Palácio da Justiça escorregadio e espelhado. As colunas imponentes do fórum erguiam-se como sentinelas frias, testemunhas de dores, crimes e acertos de contas acumulados ao longo de décadas. Ajustei a gola do meu casaco escuro ao sair do carro. Dona Helena segurava meu braço esquerdo com a firmeza de quem não me soltaria por nada neste mundo, enquanto Dra. Beatriz caminhava ao meu lado direito com a pasta vermelha sob o braço. Henrique estava alguns passos atrás, acompanhado por Marcos e por dois advogados de sua equipe, mantendo a presença sóbria e vigilante que não invadia o meu espaço. Ao cruzarmos a porta rotativa do fórum e passarmos pelo detector de metais, o burburinho ecoou pelo hall de pé-direito alto. O julgamento de um dos nomes mais influentes do mercado financeiro carioca atraíra jornalistas e curiosos, que se espremiam atrás do cordão de isolamento da imprensa. — Vale







