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4. Uma Dança

Author: Ana Fischer
last update publish date: 2026-10-14 01:14:53

Com a câmera pendurada no pescoço e as duas mãos segurando uma taça de champanhe, Claire sorria para o homem que pensava se chamar Alexander. Apesar de se sentir tímida, não queria desviar o olhar. Poderia passar a noite inteira mergulhada naqueles olhos azuis.

E nem sequer se cansaria.

Estavam sentados em uma mesa no canto do salão, longe da agitação dos convidados.

— Então você costuma chamar fotógrafas desconhecidas para beber?

— Não tenho esse hábito — respondeu, bebericando o uísque sem quebrar o contato visual.

— Você não me diria se tivesse.

— Essa é a impressão que causo?

Claire balançou a cabeça em negativa, tentando não sorrir muito.

— Não — disse ela.

— Que bom. Quase fiquei ofendido.

Ela riu.

E sentiu o rosto esquentar ao perceber que ele estava contendo o riso.

— Você parece muito sério para alguém que está em uma festa.

— Sou assim. Você não gosta?

— Ainda preciso pensar sobre isso.

— Você é um pouco indecisa, não é?

Claire franziu o cenho.

— Por que acha isso?

— Você não sabe qual lembrança vai guardar com minha foto e não sabe se gosta do fato de eu ser sério.

— Bom… — Ela refletiu por alguns segundos. — A lembrança que vou guardar depende do que vai acontecer no resto da noite.

— Justo.

Conversar com ele era fácil. Leve. Claire não costumava se sentir tão à vontade perto de homens atraentes. Na realidade, tinha a tendência de se fechar no próprio mundo. Só se soltava quando percebia que estava segura. E Alexander, por algum motivo que ela não sabia explicar, transmitia segurança. Talvez fosse a postura autoconfiante ou a forma como falava, como se cada palavra fosse calculada.

Fazia anos que Claire não se interessava tanto por alguém que tinha acabado de conhecer.

Muito menos se lembrava da última vez que havia considerado a possibilidade de perder a virgindade.

— Com o que você trabalha? — Ela perguntou.

Pela primeira vez na noite, Alexander pareceu hesitar.

— Sou administrador.

— Isso foi vago.

— Digamos que trabalho com investimentos.

— Continua vago. — Sorriu. — Você gosta do que faz?

— Não tanto quanto você gosta de fotografar.

— Isso eu pude deduzir.

Claire tomou mais um gole de champanhe. Devagar. Não queria ficar bêbada, e não apenas porque estava trabalhando, mas também porque gostaria muito de se lembrar de cada detalhe daquela noite. A foto não seria suficiente. Precisava gravar Alexander na memória como uma tatuagem, para nunca esquecer.

Já que talvez nunca mais o visse.

Pensar naquilo a fez sentir uma pontada de melancolia.

Ele colocou o copo de uísque sobre a mesa e se levantou da cadeira, estendendo a mão para ela.

— Dance comigo.

— Eu… — hesitou. — Estou em horário de trabalho, Alexander.

— Com uma taça de champanhe nas mãos?

— Ainda tenho isso aqui comigo. — Olhou para a câmera. — Posso começar a fotografar a qualquer momento.

— Vamos. — Ele abriu um sorriso discreto que a desmontou. — Ninguém vai perceber.

Claire pensou em negar, mas acabou cedendo. Colocou a taça e a câmera na mesa, segurou a mão de Alexander e se levantou sorrindo.

A pele dele era quente. Firme.

Ela sentiu um arrepio percorrer a espinha no instante em que percebeu o cheiro do perfume amadeirado. O coração errou uma batida. Estava perdida. Teria que dar um jeito de ir para a cama com ele.

De preferência, logo.

— Não danço bem — ela avisou.

— Duvido — respondeu no tom sério habitual. — Mas se for mesmo verdade, não me importo.

Pararam na borda da pista, não muito perto dos outros casais.

Claire apoiou as mãos nos ombros de Alexander, e ele enlaçou sua cintura. O contato visual intenso a fez enrubescer. A verdade era que talvez nunca tivesse se sentido tão atraída por alguém antes. Gostaria de experimentar o gosto daqueles lábios. Mais do que havia desejado qualquer coisa naquela noite.

A música pareceu lenta demais.

Eles começaram a se mover.

— Você está me encarando — murmurou ela.

— Estou.

— Por quê?

— Porque acho que nunca vi uma mulher mais bonita.

Alexander pareceu tão sincero que Claire engoliu em seco.

— Te deixei sem graça?

— Não.

— Deixei, sim.

— Um pouco.

Ele aproximou o rosto. Não o bastante para beijá-la.

Mas o suficiente para que ela percebesse a intenção.

Claire não recuou. Apenas respirou fundo e continuou se movendo no ritmo da música, os olhos castanhos fixos nos azuis. Naquele silêncio havia milhões de palavras não ditas, mas perfeitamente entendidas. E o resto da festa pareceu simplesmente desaparecer. Foi como se não existissem mais convidados, noivos, luzes ou decorações.

Só sobraram a música, Claire e Alexander.

E a sensação de que aquilo estava ficando perigoso.

— Está nervosa?

— Por que estaria?

— Então está tremendo de frio? Em pleno verão? — Riu discretamente.

— Em minha defesa, é quase outono.

Continuaram dançando por quase um minuto inteiro.

Até alguém esbarrar em Claire, murmurar um pedido de desculpas e se afastar às pressas.

E foi como se o feitiço tivesse sido quebrado. Ela se lembrou de onde estava. Lembrou que havia sido contratada para fotografar a festa. Não deveria estar dançando com um convidado. Não era uma atitude profissional.

— Preciso voltar ao trabalho — disse em voz baixa, como se pedisse desculpa.

Ele não insistiu para que ela ficasse. Apenas assentiu e perguntou:

— Você vai continuar na festa? 

— Até o fim.

Os olhos de Alexander brilharam.

— Ótimo.

Ela se afastou devagar. Sem olhar para trás. O coração ainda disparado e os pensamentos em turbilhão.

Quando pegou a câmera na mesa, notou que estava sorrindo. 

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