Share

Capítulo 6

Author: Fernanda Passos
O tom de Caio era gentil, como se estivesse pensando nela em todos os detalhes. Mas Elena o conhecia muito bem. Aquelas palavras não passavam de uma forma de aliviar a pequena culpa que ele carregava. Ele tinha certeza de que, como sempre, ela seria sensata e recusaria.

— Tudo bem. — Elena sorriu. — Eu vou.

— Hã? — Caio ficou surpreso. — O que você disse?

— Eu disse que vou. — Ela sorriu tranquilamente. — Já estou praticamente recuperada. Acho que será bom conhecer seus amigos.

Afinal, provavelmente não teria outra oportunidade de encontrá-los no futuro.

Na noite seguinte, num clube privado. O amplo salão, luxuosamente decorado, era aberto apenas aos associados. A iluminação discreta fazia as fileiras de garrafas expostas nas paredes refletirem um brilho dourado.

Mais ao fundo ficavam as salas VIP.

Elena entrou ao lado de Caio. Ela vestia um simples vestido de tricô bege e uma maquiagem natural.

Assim que a porta da sala foi aberta, um burburinho animado tomou conta do ambiente.

— O presidente Caio chegou! Hoje resolveu trazer companhia?

— Então esta é a esposa? — Alguém reconheceu Elena.

— Boa noite. — Ela sorriu educadamente e fez um leve aceno.

— Você é muito mais bonita pessoalmente do que nas fotos. — A pessoa a observou por alguns segundos antes de acrescentar. — Mas realmente, a semelhança é inegável.

O ambiente mergulhou em um breve silêncio após esse comentário.

Caio franziu discretamente a testa e lançou um olhar para quem havia feito o comentário.

O homem já havia bebido bastante, percebendo a própria gafe, soltou uma risada constrangida.

— Estou elogiando sua esposa, Sr. Caio. Você tem bom gosto.

Outro homem entrou na conversa, sorrindo.

— Pensando bem, assim que Mirela foi para o exterior, você apareceu casado. Durante esses três anos, escondeu tão bem sua esposa que todos nós imaginávamos que você... — Ele interrompeu a frase, depois sorriu de forma sugestiva. — Melhor deixar para lá.

As risadas voltaram, misturadas à curiosidade típica de quem adorava uma fofoca.

Elena ouviu cada palavra, mas não deixou transparecer nenhuma emoção. Apenas abaixou os olhos, pegou um copo e serviu para si mesma um pouco de água com limão.

Caio não negou nenhuma daquelas insinuações. Apenas franziu a testa e limitou-se a dizer:

— Bebam com moderação.

— Sra. Elena, com o que você trabalha? — Uma das mulheres presentes olhou para Elena, inclinando levemente o queixo. — Ouvi dizer que estudou artes.

— Estudei. — Elena respondeu naturalmente. — Mas atualmente fico em casa.

— Cuidar da casa também dá trabalho. — Alguém tentou aliviar o clima. — Principalmente cuidando de um viciado em trabalho como o Sr. Caio. Todo mundo sabe o quanto ele é exigente com as pessoas ao redor.

— Isso é verdade! — Outro riu. — Todo mundo sabe como o Caio só tinha olhos para a empresa e para a Mirela.

— Nunca imaginei que uma fosse para o exterior e o outro acabasse se casando de repente.

Enquanto faziam piadas, todos olhavam para Elena, como se esperassem encontrar nela algum sinal de constrangimento.

Mas ela sustentou o olhar de todos com absoluta tranquilidade. Chegou até a demonstrar curiosidade, como se quisesse ouvir mais. Discretamente, escondido sob a manga do vestido, seu celular já estava gravando toda a conversa.

"Continuem. Quanto mais falarem, melhor."

Ao vê-la reagir daquela forma, Caio imaginou que ela apenas estivesse fingindo maturidade. Pareceu querer explicar alguma coisa, seus lábios chegaram a se mover. Mas, antes que pudesse falar, a porta da sala tornou a se abrir.

— Olha só quem chegou! — Alguém se levantou imediatamente. — A estrela da noite finalmente apareceu!

Mirela entrou vestindo roupas de tons claros e um xale de cashmere sobre os ombros. Os cabelos levemente ondulados estavam presos em um coque despojado, revelando o pescoço delicado.

Ela cumprimentou todos com naturalidade, como alguém perfeitamente à vontade naquele círculo.

Logo foi puxada por um dos amigos para se sentar à direita de Caio.

Elena permanecia à esquerda dele.

Alguém sugeriu um brinde.

— Eu não bebo. — Mirela sorriu, um pouco sem jeito.

— Qual é, Mirela! — Um dos amigos riu. — Antigamente você bebia muito bem.

— Depois que fui para o exterior, parei completamente. Agora já não aguento mais.

A pessoa tentou insistir outra vez, mas Caio pegou imediatamente a taça das mãos dela.

— Ela não vai beber. — Sua voz não admitia contestação. — Eu bebo por ela.

— Olha só! O Sr. Caio é um homem de verdade! Se vai beber no lugar dela, tem que tomar em dobro!

— Então beba um pouco também. — Outra pessoa olhou para Elena. — Não é sempre que temos a chance de vê-la.

Elena permaneceu em silêncio.

— Leninha, por que você não bebe com eles? — Caio falou naturalmente. — É a primeira vez que conhece todo mundo. Não estrague o clima.

— Isso mesmo! Toma uma taça! — Todos começaram a incentivá-la.

— Sinto muito. — Elena sorriu educadamente e empurrou delicadamente o copo para a frente. — Peguei uma gripe nos últimos dias e tomei remédio antes de sair de casa. Podem beber sem mim. — Em seguida, levantou-se com tranquilidade. — Vou ao banheiro por um instante.

Virou-se, saiu da sala e fechou a porta. No mesmo instante, o barulho das conversas e da música ficou para trás. O corredor estava silencioso.

Parada diante do espelho do banheiro, viu seu sorriso desaparecer, restava apenas um rosto calmo. Tão calmo que parecia pertencer a outra pessoa.

De repente, seu celular vibrou. Era uma mensagem de Vivian.

[Os documentos estão praticamente organizados. Está tudo pronto, podemos iniciar o processo judicial a qualquer momento.]

Elena permaneceu olhando para aquelas palavras, seus dedos tocaram lentamente a tela.

Quando voltou para a porta da sala, ouviu gritos animados do lado de dentro:

— Beija!

— Beija!

— Caio, dá um beijo nela!

Sem entrar imediatamente, Elena respondeu à mensagem da advogada:

[Perfeito. Eu também estou pronta.]

Caio já havia bebido bastante no lugar de Mirela, e o álcool começava a fazer efeito. Ele estava recostado no sofá, apoiando a testa com uma das mãos.

Elena já havia conseguido tudo o que precisava, então aproveitou a oportunidade para ir embora.

Ela caminhou até ele, passou o braço em torno de sua cintura com naturalidade, fingindo preocupação.

— Amor, você bebeu demais. Está tudo bem? — Depois levantou a cabeça e sorriu para todos na sala. — Nós precisamos ir. Ainda vamos visitar a avó dele. Divirtam-se.

Todos trocaram olhares. Ninguém tentou impedi-los.

Aquela atitude impediu que Mirela encontrasse uma desculpa para se reaproximar de Caio.

Já meio embriagado, Caio ouviu Elena chamá-lo de amor.

Desde o início do casamento, ela nunca mais o tratou daquela forma. Por um instante, ele ficou atordoado. Sem pensar, levantou-se, apoiando-se nela. E permitiu que Elena praticamente o arrastasse para fora da sala.

Assim que o colocou dentro do carro, ela simplesmente o largou no banco traseiro.

Com o motorista na frente, os dois sentaram-se nas extremidades opostas do banco traseiro, com um abismo intransponível entre eles.

O motorista abaixou um pouco a janela. O vento frio entrou no veículo e ajudou Caio a recuperar parte da lucidez. Depois de um longo silêncio, falou:

— O clima estava meio agitado hoje. Não leve aquilo para o lado pessoal.

— O quê? — Elena virou o rosto para ele.

— Eles beberam demais. Não mediram as palavras. — Caio franziu levemente a testa. — Você sabe, todos nós crescemos juntos. Eles sempre gostam de ficar provocando a gente.

— Entendo. — Ela respondeu de maneira indiferente. — Afinal, eles acompanharam toda a sua trajetória.

Caio ficou em silêncio por alguns segundos, depois comentou:

— Você anda mais quieta do que antes.

— Eu sempre fui quieta. — Um sorriso discreto surgiu nos lábios de Elena. — Não é justamente isso que você mais gosta em mim?

Caio ficou sem palavras.

— Leninha... — Após uma longa pausa, o tom dele suavizou-se. — Eles realmente não sabem falar. Eu nunca quis te levar para conhecer eles justamente porque tinha medo de que você não se sentisse à vontade. Não voltaremos mais.

— Não faz diferença. — Elena respondeu. — De qualquer forma, não será mais necessário.

— O que quer dizer com isso? — Caio virou-se para ela.

— Nada. — Ela apenas sorriu.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • O Peso do Arrependimento   Capítulo 30

    — O quê?! — Mirela gritou sem conseguir se conter.Embora fosse Caio quem estivesse pagando, quando ela se casasse com ele, todo aquele dinheiro também seria dela!— Cinco milhões? — Caio soltou uma risada fria, claramente incrédulo. — Ela é só uma artista em ascensão. Como pode pedir um preço desses?— Se vocês realmente querem a obra, então ela vale esse preço. Ou o quê? Será que o casal não tem cinco milhões? — Elena respondeu com tranquilidade.Ela tinha ouvido. Desde o instante em que os dois entraram, percebeu cada vez que as pessoas chamavam Mirela de "Sra. Albuquerque". E também percebeu que Caio não corrigiu ninguém.Em três anos de casamento, tirando o círculo mais próximo de amigos, Caio praticamente nunca a levou para nenhum evento público. Não era de admirar que ninguém soubesse quem era a sua verdadeira esposa.Um lampejo de culpa cruzou o rosto de Caio.— Leninha... — Ele falou por impulso, baixando um pouco a voz. — Me escuta.— Elena. — Mirela aproveitou a oportunidade

  • O Peso do Arrependimento   Capítulo 29

    Elena seguiu o olhar de Mirela. Então, de repente, sorriu. Era uma pintura de tamanho modesto, com um preço aparentemente nada chamativo. Mas ela conhecia aquela obra melhor do que ninguém.Ao lado da moldura, a placa identificava o nome da artista: Flora.— Essa? — Disse Elena com calma. — Sinto muito, mas não acho que seja uma boa escolha.— Por quê? — Mirela ficou surpresa.— Porque a autora não pretende vender essa obra para vocês.— Não pretende vender? — O sorriso em seu rosto vacilou. — Isto não é um leilão? Desde quando um artista escolhe o comprador?— Vocês entenderam errado. A autora quer vender, sim. — Fez uma breve pausa. — Só não quer vender para vocês. — Depois acrescentou, enfatizando cada palavra. — Apenas para vocês.O sorriso de Mirela finalmente começou a ruir.— Elena, com que direito você fala em nome da artista? Você nem entrou em contato com ela. Como pode afirmar que ela não quer vender? — Ela mordeu levemente os lábios, assumindo uma expressão cada vez mais ma

  • O Peso do Arrependimento   Capítulo 28

    Seu tom era repleto de falsa gentileza.— Elena, estou com um pouco de sede. Já que você trabalha aqui, será que poderia me fazer o favor de trazer um copo de água? — Ela fez uma breve pausa, como se só então tivesse se lembrado de outra coisa. Apontou casualmente para alguns copos vazios sobre a mesa de centro ao lado. — Ah, e já que vai até lá, pode levar esses copos também? Estou um pouco cansada e queria me sentar aqui para descansar.Elena mal teve tempo de responder e uma voz surgiu ao lado.— Mestre Elena. — Quem falava era um dos curadores responsáveis pela exposição. Ele se aproximou apressadamente, demonstrando um respeito evidente. — O diretor Mateus estava procurando pela senhora agora há pouco. Há alguns detalhes da programação do leilão que ele gostaria de confirmar com a senhora.A forma como ele a chamou fez todos ao redor ficarem surpresos. O sorriso de Mirela congelou no rosto. Caio também ficou imóvel por um instante e perguntou, sem conseguir esconder o espanto:— C

  • O Peso do Arrependimento   Capítulo 27

    Elena.Ela vestia uma simples camisa branca com uma saia escura na altura dos joelhos. Os cabelos estavam presos em um coque elegante enquanto conversava em voz baixa com alguns membros da equipe. Parecia concentrada, tranquila e completamente à vontade. Nem de longe lembrava uma mulher abandonada.O sorriso nos olhos de Mirela foi desaparecendo aos poucos. Ela jamais imaginou encontrar Elena ali. Muito menos que ela parecesse tão bem.Mirela sempre desprezou Elena.Uma garota de origem comum que, graças a uma leve semelhança física com ela, havia sido levada por Caio para o círculo da alta sociedade.Na visão de Mirela, Elena nunca passou de uma substituta quando ela não estava por perto. Agora que a verdadeira dona daquele lugar havia retornado, a substituta deveria desaparecer.Uma parasita como Elena, que só sabia viver apoiada na família Albuquerque e girar em torno de um homem, deveria estar completamente arrasada, chorando dia e noite, sem sequer ter coragem de sair de casa. Mas

  • O Peso do Arrependimento   Capítulo 26

    — Justamente por isso vale a pena tentar. — Respondeu Caio.— Concordo. — Ravi assentiu.Os dois pensavam da mesma forma. Se conseguissem estabelecer uma ligação com Artur, o retorno seria muito maior do que apenas um único projeto.Como se tivesse se lembrado de algo, Ravi comentou casualmente:— Ah, é verdade. Leve Mirela também. Afinal, ela estudou Artes no exterior. Uma ocasião como essa é perfeita para ela aparecer um pouco.Caio fez uma breve pausa.— Você sabia que ela está ficando comigo ultimamente? — Claro que sabia. — Ravi soltou um leve resmungo. — Ela não tem coragem de voltar para casa e foi procurar você. Espero que não tenha te causado muitos problemas.— Ela está sofrendo bastante com os enjoos da gravidez. O médico recomendou repouso absoluto.— Essa menina... — Ravi permaneceu em silêncio por alguns instantes antes de suspirar. — Foi mimada desde pequena. Sempre age sem pensar nas consequências. — Depois de uma pausa, seu tom suavizou visivelmente. — Enquanto esteve

  • O Peso do Arrependimento   Capítulo 25

    Na cabeça de Caio, bastava Elena ver o presente. Depois disso, ela deixaria de fazer birra.— Caio? — A voz de Mirela o trouxe de volta de seu devaneio.— Não vai acontecer nada. — Caio recuperou a expressão habitual e respondeu com tranquilidade. — Ela sempre foi sensata. Não pense demais nisso.— Entendi... — Mirela abaixou o olhar. Enquanto respondia baixinho, seus dedos apertaram discretamente o lençol. — Ainda bem. — Ela ergueu novamente a cabeça e forçou um leve sorriso, mas seus olhos permaneciam frios. — Eu estava com medo de que ela entendesse tudo errado.— Mais tarde vou passar em casa para trocar de roupa. Depois vou encontrar seu irmão.Ao ouvir a palavra "irmão", Mirela encolheu involuntariamente os ombros.— Eu não vou.— Vocês são da mesma família. — Caio suspirou, falando com a mesma paciência de sempre. — Não existe briga que dure para sempre. — Seu tom era gentil, mas carregava certa impotência. — Você não pode continuar morando em hotel pelo resto da vida.Ravi não

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status