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Capítulo 7

Author: Fernanda Passos
O aniversário de Elena era no fim do outono. Quando seu pai era vivo, ele fazia questão de preparar um café da manhã especial no dia do seu aniversário e lhe entregar uma carta longa, cheia de bênçãos e conselhos que só um pai poderia dar.

Depois que se casou, Caio passou a perder seu aniversário todos os anos. Sua agenda estava sempre cheia de reuniões, viagens de negócios e compromissos sociais.

Na manhã do aniversário, ela foi ao ateliê como de costume.

— Estamos organizando uma grande exposição nacional de arte. — Augusto lhe jogou uma pilha de documentos. — A primeira parada será na cidade vizinha, Costa Branca. Na próxima semana, você vai para lá com o aluno mais antigo do ateliê para supervisionar tudo.

— Tudo bem. — Elena folheou as imagens das obras que seriam expostas e assentiu.

Em seguida, Augusto lhe lançou uma caixa longa revestida de brocado.

— Presente de aniversário.

Depois disso, voltou a baixar a cabeça para examinar a pintura que tinha nas mãos.

— Obrigada, mestre. — O coração de Elena se aqueceu.

Ao abrir a caixa, encontrou uma paleta de pintura antiga, esculpida em madeira nobre. Era um dos maiores tesouros do mestre. Quando era criança, ela o havia importunado inúmeras vezes para ganhá-la, mas ele jamais cedeu.

Naquela noite, Elena voltou cedo para casa.

Não pediu que Maria preparasse nada especial. Ela mesma passou no supermercado e comprou creme de leite fresco e uma pequena caixa de morangos.

Logo, a cozinha ficou tomada pelo aroma delicioso do bolo assando. Ela retirou o bolo do forno com todo cuidado, esperou esfriar, bateu o creme até ficar sedoso, espalhou-o delicadamente pela superfície e, por fim, decorou tudo com os morangos.

De repente, a tela do seu celular acendeu.

Caio: [Leninha, feliz aniversário. Tenho um compromisso de trabalho hoje. Não precisa me esperar. Quando eu voltar, entrego seu presente.]

Ela respondeu apenas: [Tudo bem.]

Depois virou o celular de cabeça para baixo sobre a mesa.

Já eram nove da noite. Sem ter o que fazer, ela se distraiu rolando as redes sociais. Logo apareceu uma nova publicação.

Mirela: [Um dia comum. ❤️]

A foto mostrava um prato refinado de um restaurante francês de luxo. No canto da imagem, uma mão masculina segurava talheres. A manga do terno deixava à mostra uma abotoadura prateada.

Ela reconheceu imediatamente. Era a mão de Caio.

Alguém comentou: [Que dia especial é esse?]

Mirela respondeu: [O dia em que fui aprovada na defesa da minha dissertação.]

Elena baixou os olhos para o bolo, ela havia comido apenas uma fatia. Sem hesitar, pegou o restante e o jogou inteiro no lixo.

Às dez e meia da noite, ouviu-se o som da fechadura. Assim que entrou, Caio encontrou Elena sentada na sala.

— Ainda não foi dormir? — Enquanto afrouxava a gravata, sua expressão revelava cansaço.

— Só estou terminando de arrumar algumas coisas. Como foi seu compromisso?

— Foi tranquilo. — Ele deu alguns passos e lhe entregou uma caixa quadrada. — Seu presente de aniversário.

Elena a recebeu.

O logotipo estampado na embalagem era de uma marca de luxo, a mesma que ela tinha acabado de ver na publicação de Mirela.

Naquela foto, Mirela usava um colar em forma de borboleta com um enorme rubi cercado de diamantes, com uma legenda agradecendo a alguém pelo presente atencioso.

Elena abriu sua caixa, dentro havia um colar de pérolas. Ela o observou por dois segundos antes de dizer suavemente:

— Obrigada. Gostei muito.

Pelo menos houve progresso, desta vez ele não comprou brincos.

O olhar de Caio caiu sobre a lixeira ao lado, onde um pedaço de bolo, com apenas uma ponta comida, repousava silenciosamente.

— Você não terminou o bolo?

— Não. — Ela assentiu tranquilamente. — Calculei mal a quantidade. Não consegui comer tudo sozinha.

Caio ficou em silêncio por um instante.

— Da próxima vez, se fizer demais, pode deixar para mim.

— Eu não quero. — A resposta veio baixa.

— O quê? — Ele franziu a testa, como se não tivesse ouvido direito.

— Eu disse... — Elena ergueu os olhos e repetiu, desta vez mais alto. — Que eu não quero.

— Elena, você tem noção do que está dizendo? — Caio franziu a testa.

— Tenho. — Ela deu um passo à frente. — Caio, vamos nos divorciar.

O ar ainda conservava o aroma doce do chantili e das velas apagadas. A luz amarelada da sala iluminava parcialmente o perfil frio do homem. Era impossível decifrar sua expressão.

— Repita. — Após um breve silêncio, Caio disse em voz baixa.

Elena empurrou delicadamente a caixa do colar para longe.

— Divórcio. — Seu tom era tão tranquilo quanto se estivesse comentando o clima. — Quero colocar um ponto final nisso.

Caio ficou imóvel por alguns segundos.

— Está emburrada de novo? — Olhou para ela como quem observa uma criança fazendo birra.

— Não. — Ela afastou ainda mais a caixa.

— Não gostou do colar? — Ele afrouxou o colarinho da camisa, mantendo um ar despreocupado. — Ou ficou chateada porque não comi o bolo com você?

Elena apenas arqueou levemente os lábios. Nem mesmo o trabalho de demonstrar emoções ela queria ter.

Vendo aquela reação, Caio simplesmente pegou o celular e transferiu dois milhões para a conta dela.

— Compre alguma coisa. Vá relaxar. Quando a raiva passar, pare de falar esse tipo de bobagem.

A notificação da transferência ecoou pelo ambiente.

Elena lançou um breve olhar para a tela, depois respondeu calmamente:

— O dinheiro eu aceito. Mas continuo querendo o divórcio.

— O que você quer, afinal? — A expressão dele finalmente endureceu e sua voz ganhou um tom de impaciência. — É por causa da Mirela? Está com tanto ciúme que quer se divorciar?

— Sim. — Ela soltou uma risada baixa. — É justamente por causa dela.

Caio franziu a testa.

— Naquele dia eu não sabia que você também estava doente. Depois eu não voltei para ficar com você? — Ele falava como se tivesse toda a razão. — Mirela sempre foi frágil. Diferente de você, que sempre foi saudável. Em três anos de casamento, nunca vi você ficar doente. Seja mais compreensiva.

Elena apenas o encarou.

Durante aqueles três anos, sempre que adoecia, ela tomava remédios e aguentava firme. Caio nunca cuidou dela. Na maioria das vezes, ele sequer percebia que ela estava doente.

E, naquele instante, ela compreendeu que já nem fazia sentido permitir que ele soubesse.

— Sinceramente, acho que nunca tratei você mal. — Achando que finalmente a havia convencido, Caio suavizou novamente a voz. — Quer mesmo se divorciar por causa de uma coisa tão pequena? — Então começou a enumerar. — Dei uma casa para você morar, cartões para gastar. Você quis voltar a trabalhar e eu nem impedi. Com o que você pode estar insatisfeita?

— Já cansei dessa vida boa. — Elena ergueu os olhos, sua voz era tão leve que parecia um suspiro. — Pode ser?

Caio ficou sem palavras.

É claro que não era apenas por isso. O tratamento que poderia salvar seu pai tinha sido entregue por ele a outra pessoa. Três anos de casamento jamais foram suficientes para superar o lugar que outra mulher ocupava em seu coração. Todos os aniversários, datas comemorativas e momentos importantes, ele sempre esteve ausente.

Sem explicar mais nada, Elena abriu a gaveta da mesa de centro e retirou um envelope de papel.

— O acordo de divórcio. — Colocou-o diante dele. — Minha advogada já revisou tudo.

— Elena, você está exagerando hoje. — Caio sequer demonstrou interesse em abrir o envelope. — Guarde isso. Vou fingir que nada aconteceu esta noite.

Ao vê-lo agir assim, Elena abriu ela mesma o envelope, retirou os documentos, depois lhe entregou uma caneta.

— Presidente Caio, você tem bastante experiência assinando contratos. Aproveite e assine este também. — Ela abriu o documento sobre a mesa. O dedo percorreu cada cláusula, principalmente a referente à divisão dos bens. — Dez imóveis de alto padrão em Altamira. Dez por cento das ações das empresas em seu nome. E uma compensação de vinte milhões pelos três anos de casamento.

— Vejo que conhece muito bem meu patrimônio. — Caio soltou um longo suspiro e massageou as têmporas. — Dinheiro é o único motivo para este divórcio?

Elena balançou a cabeça lentamente.

— É assim que você me vê?

Naquele instante, lembrou-se de como havia se casado com ele três anos antes.

Sua mãe já havia falecido, seu pai lutava contra um câncer em estágio avançado. Ela era a única que mantinha a família, conciliando os estudos com os cuidados médicos dele. O peso da vida a sufocava.

Naquele dia, sentada sozinha sob um poste de luz, completamente perdida, ela acreditava que já não conseguiria seguir em frente. Foi então que Caio apareceu diante dela. E, sem a menor hesitação, ela se agarrou a ele como se tivesse encontrado um ombro onde finalmente pudesse descansar.

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