LOGINNa manhã seguinte, cheguei ao Solar do Farol decidida a me concentrar no trabalho.
Eu tinha um relatório técnico para preparar, documentos para analisar e um prazo de trinta dias para provar que meu escritório era capaz de entregar o maior projeto de sua história.
Não pretendia perder tempo pensando em Tomás Valença. Muito menos no sorriso que surgia em seu rosto quando eu o contrariava.
Abri meu caderno e revisei as prioridades do dia. A equipe de engenharia havia liberado parte da ala oeste para uma avaliação preliminar, enquanto o trecho próximo à porta dupla continuaria isolado até a conclusão dos testes de segurança.
Encontrei Marcos no corredor, conversando com o engenheiro André Menezes.
— Os primeiros levantamentos indicam problemas localizados — explicou André. — Precisamos examinar a cobertura e verificar a drenagem antes de estimar o custo de recuperação.
Tomás chegou enquanto analisávamos as fotografias.
— Existe algum risco imediato?
— Não identificamos indicação de colapso iminente nos trechos liberados. Algumas áreas, porém, precisam continuar isoladas até a conclusão dos testes.
— Mantenham o isolamento. Prefiro rever o cronograma a colocar alguém em risco.
Depois, ele voltou-se para mim.
— E sua avaliação?
Mostrei as fotografias no tablet.
— Acredito que podemos preservar boa parte dos elementos originais. Ainda é cedo para falar em custos finais, mas não encontrei justificativa técnica para substituir tudo o que está danificado.
— Então existe a possibilidade de recuperação.
— Existe. Mas recuperar não significa simplesmente remendar o que está velho. Precisaremos avaliar cada elemento e substituir apenas o que realmente não apresentar condições de segurança.
Tomás examinou as imagens.
— Quanto tempo isso acrescentaria ao cronograma?
Respirei fundo.
— Você realmente não consegue passar uma manhã sem perguntar sobre prazos?
Marcos abaixou a cabeça, fingindo conferir suas anotações. Tomás ergueu uma sobrancelha.
— Faz parte da minha personalidade.
— Talvez devesse desenvolver outra característica.
— Estou aberto a sugestões.
Balancei a cabeça.
— Você terá uma estimativa depois que os levantamentos forem concluídos. Antes disso, qualquer prazo seria um palpite.
— Certo. Aguardo a estimativa.
Ele não insistiu. A ausência de discussão me deixou mais desconcertada do que se tivesse começado outra disputa.
***
Depois de duas horas de inspeção, André precisou acompanhar uma equipe até a cobertura. Marcos foi organizar o acesso a outro ambiente, e eu permaneci no corredor, revisando as fotografias.
Tomás recebeu uma ligação.
— Qual é o valor da alteração? — perguntou, afastando-se alguns passos. — E quem aprovou essa mudança?
Escutou a resposta em silêncio.
— Não estou dizendo que o fornecedor está errado. Estou dizendo que preciso ver a justificativa antes de autorizar qualquer pagamento adicional. Se estiver tudo correto, o pagamento será liberado conforme o contrato.
Encerrou a ligação e guardou o telefone.
— Problemas? — perguntei.
— Fazem parte do trabalho.
— Uma resposta bastante esclarecedora.
Ele sorriu.
— Você perguntou se havia problemas, não se queria os detalhes.
— E eu pensando que estávamos desenvolvendo uma relação profissional baseada na transparência.
Tomás riu brevemente.
— Você é impossível.
A conversa me fez perceber que, por trás do executivo exigente, existia alguém tentando administrar uma empresa enorme, tomar decisões com informações incompletas e impedir que pequenos problemas se transformassem em grandes prejuízos.
Eu conhecia uma versão reduzida daquela pressão. Administrar meu escritório significava lidar com clientes, fornecedores, prazos e contas que precisavam ser pagas mesmo quando um projeto atrasava.
É claro que nossas realidades eram diferentes. Tomás tinha recursos que lhe permitiam absorver perdas que poderiam encerrar meu negócio. Mas ambos sabíamos o que significava responder pelas próprias decisões.
— Você gosta do que faz? — perguntei.
— Administrar o grupo?
Assenti. Tomás olhou pela janela.
— Na maior parte do tempo. Gosto de tomar decisões, resolver problemas e construir coisas que permaneçam depois que as pessoas envolvidas tiverem seguido em frente. O que não gosto é descobrir que alguém escondeu um problema porque acreditou que seria mais conveniente deixá-lo para depois.
Pensei nos registros incompletos da ala oeste.
— Imagino que esteja aprendendo bastante sobre isso nos últimos dias.
O olhar dele voltou para mim.
— Mais do que gostaria.
Não perguntei se estava falando apenas dos negócios.
***
Perto do meio-dia, concluímos a primeira etapa da avaliação preliminar. Aproveitei para conferir as construções externas previstas no projeto.
As antigas moradias dos funcionários ficavam na parte posterior da propriedade, depois do jardim de serviço. Eram casas pequenas, com paredes claras e telhados inclinados, construídas quando a família mantinha uma equipe residente para cuidar do Solar durante todo o ano.
Minha mãe continuava morando em uma delas.
Eu crescera naquela casa, fazendo os deveres da escola na mesa da cozinha enquanto esperava minha mãe terminar o expediente. Depois de adulta, mudei-me para meu próprio apartamento, mas aquele lugar continuava sendo parte importante da nossa história.
Segui pelo caminho lateral, analisando as fachadas.
Algumas casas pareciam em boas condições, embora precisassem de reparos na cobertura. Outra apresentava rachaduras que exigiriam uma avaliação mais detalhada.
Encontrei minha mãe conversando com dona Celina, antiga funcionária da lavanderia que continuava morando em uma das residências.
— Está trabalhando ou fiscalizando minhas plantas? — perguntou Rosa quando me viu.
— Depende do estado delas.
Dona Celina riu.
A conversa foi breve, até que ela mencionou a preocupação com o telhado de sua casa e a falta de informações sobre as obras.
— A manutenção disse que talvez venham avaliar — explicou. — Mas ninguém sabe o que pretendem fazer com as casas.
Meu sorriso desapareceu. Perguntei para minha mãe se alguém havia conversado com os moradores sobre o projeto.
— Não comigo — respondeu ela.
O projeto preliminar previa uma reorganização daquela área, mas ainda não havia um plano detalhado para as pessoas que viviam ali.
— Vou verificar isso — prometi.
Minha mãe tocou discretamente meu braço.
— Não compre uma briga que ainda não precisa comprar, Lara.
— Não estou procurando uma briga. Só acho que as pessoas precisam saber o que pode acontecer com suas casas.
Ela suspirou, mas não discutiu.
Eu não queria impedir o progresso. Queria garantir que as pessoas diretamente afetadas fossem consideradas antes de uma decisão definitiva.
***
Encontrei Tomás perto da entrada de serviço, conversando com Marcos.
Quando terminaram, aproximei-me.
— Preciso discutir uma questão com você.
Ele se virou.
— Diga.
— As antigas moradias dos funcionários precisam ser incluídas no levantamento técnico. Algumas continuam ocupadas, mas ninguém parece saber o que acontecerá com os moradores durante as obras.
Tomás cruzou os braços.
— A área está incluída no estudo de reorganização do terreno. O projeto preliminar considera a possibilidade de substituir algumas construções por novas instalações de apoio.
— Então precisamos avaliar as casas antes de decidir o que será feito.
— O empreendimento exige áreas de serviço adequadas, circulação de fornecedores e infraestrutura compatível com a operação de um hotel desse porte.
— Concordo. Não estou propondo que o hotel funcione sem infraestrutura. Estou dizendo que precisamos avaliar cada casa e compreender as consequências para quem mora ali.
Tomás observou as construções por alguns segundos.
— Você está propondo preservar todas?
— Estou propondo avaliar cada uma antes de decidir que devem desaparecer. Algumas podem exigir reparos significativos. Outras talvez possam ser adaptadas. Se alguma não oferecer condições de recuperação, precisaremos entender por quê e discutir alternativas para os moradores.
Ele permaneceu em silêncio.
— Muito bem. Inclua as moradias na sua avaliação. Quero as condições de cada construção, estimativas preliminares de recuperação e uma análise das possibilidades de uso.
— Obrigada.
— Não me agradeça ainda. Você terá bastante trabalho pela frente.
— Eu já tinha bastante trabalho antes de conhecer você.
— Imagino que tenha aumentado desde então.
Quase sorri. Mas voltei a ficar séria.
— Tomás, não vou recomendar uma solução apenas porque torna o projeto mais barato.
— E eu não vou aprovar uma solução apenas porque parece mais humana. Preciso saber se pode ser executada com segurança e se o empreendimento continuará financeiramente viável.
Sustentei seu olhar.
— Então teremos de encontrar uma alternativa que respeite as duas coisas.
Ele assentiu.
— Exatamente.
Pela primeira vez, senti que não estávamos tentando vencer uma discussão. Estávamos começando a trabalhar na mesma direção.
***
Naquela tarde, organizei as observações sobre as antigas moradias e recebi um e-mail de Tomás solicitando que as alternativas para a ala oeste e para as residências fossem apresentadas na próxima reunião de avaliação.
Ele me concederia autonomia para recomendar a solução tecnicamente mais adequada, desde que os custos e os prazos fossem discutidos antes de qualquer decisão final.
Era uma solicitação profissional, objetiva e razoável.
Ainda assim, percebi que ele estava me dando espaço para defender uma proposta que poderia contrariar os planos iniciais da empresa.
Não sabia se aquilo significava que confiava em meu trabalho ou se apenas queria conhecer todas as alternativas antes de decidir. Talvez fossem as duas coisas.
Quando estava saindo, encontrei Tomás perto do portão.
— Conversei com Henrique sobre a revisão do projeto — informou. — Ele não está convencido de que preservar as estruturas antigas seja a melhor decisão. Você precisará apresentar uma alternativa bem fundamentada.
— Não tenho medo de perguntas.
— Percebi isso na nossa primeira reunião. Você não tenta agradar para ser aceita. Prefere correr o risco de desagradar a apresentar algo em que não acredita.
A sinceridade inesperada me deixou sem resposta por um instante.
— E você está disposto a reconhecer quando estiver errado? — perguntei.
Tomás sorriu discretamente.
— Estou tentando.
A resposta pareceu mais honesta do que qualquer promessa grandiosa.
— Então talvez consigamos fazer um bom trabalho juntos.
— Talvez.
O vento soprou entre nós, trazendo o cheiro do mar. Uma mecha do meu cabelo escapou atrás da orelha, e eu a prendi novamente.
Tomás acompanhou o movimento por um instante antes de voltar a olhar para mim.
O silêncio que se instalou não tinha nada de profissional. Não houve toque nem declaração, mas fiquei excessivamente consciente da presença dele.
Fui a primeira a desviar os olhos.
— Preciso ir. Tenho um relatório para preparar.
— Claro.
Comecei a caminhar, mas ouvi sua voz novamente.
— Não trabalhe até tarde demais. Você precisará estar descansada para a próxima reunião.
Ri.
— Isso é uma recomendação profissional ou você está tentando administrar meus horários também?
— Ainda estou decidindo.
Revirei os olhos e segui até o carro. Não significava nada. Era apenas uma conversa entre duas pessoas que começavam a compreender como trabalhar juntas.
Era o que eu pretendia continuar acreditando.
Eu tinha uma carreira a construir, uma mãe cuja tranquilidade queria preservar e um projeto que exigiria toda a minha atenção.
Tomás Valença podia ser inteligente, interessante e surpreendentemente humano. Mas também era o homem que representava um mundo de dinheiro e influência do qual eu sempre procurara manter distância.
Eu não queria pertencer àquele mundo. Queria apenas fazer meu trabalho e sair dali com a certeza de que havia defendido aquilo em que acreditava.
O problema era que, pela primeira vez em muito tempo, eu estava começando a querer conhecer melhor alguém que deveria manter à distância. E eu não tinha a menor intenção de admitir isso tão cedo.
Na quinta-feira, passei boa parte do dia tentando convencer a mim mesma de que aceitar o convite de Tomás Valença para tomar um café havia sido uma decisão perfeitamente normal. Era apenas um café.Duas pessoas adultas, conversando depois do expediente. Nada que justificasse as borboletas inconvenientes que pareciam surgir no meu estômago sempre que eu me lembrava do sorriso dele ao ouvir minha resposta.O problema era que Tomás não era exatamente alguém com quem eu costumava tomar café.Era o CEO de um dos maiores grupos hoteleiros do país, um homem acostumado a ter as decisões tomadas de acordo com sua vontade e que, nos últimos dias, vinha demonstrando um interesse por mim que ultrapassava os limites profissionais.E eu estava curiosa. Muito mais do que deveria.Naquela manhã, Bia havia aproveitado nossa conversa por telefone para me lembrar de que homens ricos também eram homens e que eu não deveria permitir que o sobrenome de alguém determinasse a maneira como me comportava.— Só
Eu estava começando a entender que trabalhar no Solar do Farol exigia mais do que conhecimento técnico e paciência com construções antigas. Também exigia saber lidar com pessoas.E, aparentemente, algumas delas acreditavam que ocupar um cargo importante lhes dava o direito de tratar os outros como se fossem inferiores.Descobri isso naquela manhã, quando cheguei à sala técnica e encontrei uma funcionária sendo repreendida por Henrique Bastos.— Eu pedi esses documentos ontem. Não é possível que ninguém consiga cumprir uma solicitação simples nesta propriedade.A mulher segurava uma pasta contra o corpo. Reconheci seu rosto, embora ainda não soubesse seu nome. Ela trabalhava na administração do Solar e já havia me ajudado a localizar alguns registros nos primeiros dias do projeto.— Senhor Bastos, eu recebi a solicitação apenas no final da tarde — explicou, visivelmente constrangida. — E os documentos estavam no arquivo físico. Precisei localizar as caixas.Henrique soltou um suspiro i
TOMÁSEu estava começando a entender por que Lara Sampaio conseguia irritar tantas pessoas em tão pouco tempo.Não era exatamente sua teimosia, embora ela tivesse bastante. Tampouco sua maneira direta de responder a qualquer questionamento, mesmo quando a pessoa diante dela ocupava uma posição hierárquica superior. Era a convicção.Lara não precisava elevar a voz para contrariar alguém. Não tentava impressionar com palavras difíceis, não procurava aprovação e, principalmente, não demonstrava qualquer intenção de facilitar uma decisão apenas para agradar.Ela acreditava no próprio trabalho. E esperava que os outros tivessem argumentos tão sólidos quanto os dela. Eu deveria considerar isso uma qualidade exclusivamente profissional.O problema era que, nos últimos dias, vinha percebendo muito mais do que deveria sobre aquela mulher.Naquela manhã, estava no escritório do grupo, no centro do Rio de Janeiro, tentando concluir uma reunião por videoconferência enquanto examinava o relatório
Havia uma diferença enorme entre conquistar um projeto e começar a executá-lo.Eu descobrira isso antes mesmo das nove da manhã.Desde que meu escritório havia sido escolhido, minha rotina se transformara em uma sequência de reuniões, ligações, documentos e decisões que precisavam ser tomadas praticamente ao mesmo tempo. O contrato estava assinado, a equipe havia sido oficialmente apresentada à administração do Grupo Valença e, finalmente, tínhamos autorização para iniciar a primeira etapa dos trabalhos.Era exatamente o que eu queria. Mas também era muito mais trabalhoso do que havia imaginado.— Lara, precisamos confirmar a entrega dos equipamentos de medição até amanhã — avisou um dos profissionais do meu escritório, aproximando-se da mesa onde eu organizava as plantas.— Confirme com o fornecedor e me encaminhe o horário. Quero acompanhar a instalação.— E a equipe de levantamento?— Pode começar pela ala leste. André já confirmou que o acesso está liberado.Ele anotou as orientaç
Quatro dias depois da apresentação das alternativas, eu estava começando a acreditar que o Solar do Farol havia se tornado uma extensão do meu escritório.Havia plantas sobre a mesa da sala técnica, fotografias presas a um painel e uma lista de pendências que parecia se multiplicar sempre que eu eliminava um item. André havia concluído a primeira etapa da avaliação estrutural, e os resultados permitiam avançar no planejamento da restauração sem comprometer a segurança das áreas ainda restritas.A ala oeste continuava exigindo atenção, mas não havia indicação de que todo o conjunto precisasse ser substituído. A recomendação era prosseguir por etapas, aprofundando os levantamentos nos pontos comprometidos.Era exatamente o que eu vinha defendendo.Naquela manhã, eu terminava de revisar o relatório quando Marcos apareceu à porta.— A reunião da comissão foi confirmada para as dez. O senhor Valença pediu que você participe.Levantei os olhos do computador.— Hoje?— Hoje.Olhei para o rel
Às sete e vinte da manhã, eu já estava no meu escritório havia quase uma hora.Espalhadas sobre a mesa, as plantas do Solar do Farol dividiam espaço com fotografias, planilhas e anotações que eu havia revisado tantas vezes que começava a reconhecer cada número antes mesmo de olhar para a página.Eu precisava apresentar três alternativas para a restauração da ala oeste e para o futuro das antigas moradias dos funcionários.A primeira previa a substituição das estruturas mais antigas, com menor custo inicial, mas maior perda de elementos históricos.A segunda preservava praticamente tudo, exigindo um investimento mais elevado e um cronograma de execução mais longo.A terceira era a que eu realmente defendia: uma restauração seletiva, baseada na avaliação de cada construção, com intervenções por etapas e manutenção dos elementos que apresentassem condições adequadas de recuperação.Era a alternativa mais complexa de explicar. Também era a única que não tratava o projeto como uma escolha







