Se connecterNa quinta-feira, passei boa parte do dia tentando convencer a mim mesma de que aceitar o convite de Tomás Valença para tomar um café havia sido uma decisão perfeitamente normal. Era apenas um café.Duas pessoas adultas, conversando depois do expediente. Nada que justificasse as borboletas inconvenientes que pareciam surgir no meu estômago sempre que eu me lembrava do sorriso dele ao ouvir minha resposta.O problema era que Tomás não era exatamente alguém com quem eu costumava tomar café.Era o CEO de um dos maiores grupos hoteleiros do país, um homem acostumado a ter as decisões tomadas de acordo com sua vontade e que, nos últimos dias, vinha demonstrando um interesse por mim que ultrapassava os limites profissionais.E eu estava curiosa. Muito mais do que deveria.Naquela manhã, Bia havia aproveitado nossa conversa por telefone para me lembrar de que homens ricos também eram homens e que eu não deveria permitir que o sobrenome de alguém determinasse a maneira como me comportava.— Só
Eu estava começando a entender que trabalhar no Solar do Farol exigia mais do que conhecimento técnico e paciência com construções antigas. Também exigia saber lidar com pessoas.E, aparentemente, algumas delas acreditavam que ocupar um cargo importante lhes dava o direito de tratar os outros como se fossem inferiores.Descobri isso naquela manhã, quando cheguei à sala técnica e encontrei uma funcionária sendo repreendida por Henrique Bastos.— Eu pedi esses documentos ontem. Não é possível que ninguém consiga cumprir uma solicitação simples nesta propriedade.A mulher segurava uma pasta contra o corpo. Reconheci seu rosto, embora ainda não soubesse seu nome. Ela trabalhava na administração do Solar e já havia me ajudado a localizar alguns registros nos primeiros dias do projeto.— Senhor Bastos, eu recebi a solicitação apenas no final da tarde — explicou, visivelmente constrangida. — E os documentos estavam no arquivo físico. Precisei localizar as caixas.Henrique soltou um suspiro i
TOMÁSEu estava começando a entender por que Lara Sampaio conseguia irritar tantas pessoas em tão pouco tempo.Não era exatamente sua teimosia, embora ela tivesse bastante. Tampouco sua maneira direta de responder a qualquer questionamento, mesmo quando a pessoa diante dela ocupava uma posição hierárquica superior. Era a convicção.Lara não precisava elevar a voz para contrariar alguém. Não tentava impressionar com palavras difíceis, não procurava aprovação e, principalmente, não demonstrava qualquer intenção de facilitar uma decisão apenas para agradar.Ela acreditava no próprio trabalho. E esperava que os outros tivessem argumentos tão sólidos quanto os dela. Eu deveria considerar isso uma qualidade exclusivamente profissional.O problema era que, nos últimos dias, vinha percebendo muito mais do que deveria sobre aquela mulher.Naquela manhã, estava no escritório do grupo, no centro do Rio de Janeiro, tentando concluir uma reunião por videoconferência enquanto examinava o relatório
Havia uma diferença enorme entre conquistar um projeto e começar a executá-lo.Eu descobrira isso antes mesmo das nove da manhã.Desde que meu escritório havia sido escolhido, minha rotina se transformara em uma sequência de reuniões, ligações, documentos e decisões que precisavam ser tomadas praticamente ao mesmo tempo. O contrato estava assinado, a equipe havia sido oficialmente apresentada à administração do Grupo Valença e, finalmente, tínhamos autorização para iniciar a primeira etapa dos trabalhos.Era exatamente o que eu queria. Mas também era muito mais trabalhoso do que havia imaginado.— Lara, precisamos confirmar a entrega dos equipamentos de medição até amanhã — avisou um dos profissionais do meu escritório, aproximando-se da mesa onde eu organizava as plantas.— Confirme com o fornecedor e me encaminhe o horário. Quero acompanhar a instalação.— E a equipe de levantamento?— Pode começar pela ala leste. André já confirmou que o acesso está liberado.Ele anotou as orientaç
Quatro dias depois da apresentação das alternativas, eu estava começando a acreditar que o Solar do Farol havia se tornado uma extensão do meu escritório.Havia plantas sobre a mesa da sala técnica, fotografias presas a um painel e uma lista de pendências que parecia se multiplicar sempre que eu eliminava um item. André havia concluído a primeira etapa da avaliação estrutural, e os resultados permitiam avançar no planejamento da restauração sem comprometer a segurança das áreas ainda restritas.A ala oeste continuava exigindo atenção, mas não havia indicação de que todo o conjunto precisasse ser substituído. A recomendação era prosseguir por etapas, aprofundando os levantamentos nos pontos comprometidos.Era exatamente o que eu vinha defendendo.Naquela manhã, eu terminava de revisar o relatório quando Marcos apareceu à porta.— A reunião da comissão foi confirmada para as dez. O senhor Valença pediu que você participe.Levantei os olhos do computador.— Hoje?— Hoje.Olhei para o rel
Às sete e vinte da manhã, eu já estava no meu escritório havia quase uma hora.Espalhadas sobre a mesa, as plantas do Solar do Farol dividiam espaço com fotografias, planilhas e anotações que eu havia revisado tantas vezes que começava a reconhecer cada número antes mesmo de olhar para a página.Eu precisava apresentar três alternativas para a restauração da ala oeste e para o futuro das antigas moradias dos funcionários.A primeira previa a substituição das estruturas mais antigas, com menor custo inicial, mas maior perda de elementos históricos.A segunda preservava praticamente tudo, exigindo um investimento mais elevado e um cronograma de execução mais longo.A terceira era a que eu realmente defendia: uma restauração seletiva, baseada na avaliação de cada construção, com intervenções por etapas e manutenção dos elementos que apresentassem condições adequadas de recuperação.Era a alternativa mais complexa de explicar. Também era a única que não tratava o projeto como uma escolha







