MasukO som da voz de Rogério foi como um balde de água suja jogado no meio do salão de baile. Alguns convidados próximos pararam suas conversas, virando-se para ver quem era o homem malvestido que ousava bloquear o caminho de Gabriel Montiel.
Senti o sangue drenar do meu rosto. Rogério não era apenas um agiota; ele era um predador. Ele sabia onde minha mãe morava. Ele sabia meus horários. E agora, ele estava ali, com aquele sorriso oleoso, prestes a destruir a farsa que eu tinha acabado de construir.
— O gato comeu sua língua, Elisa? — Rogério deu um passo à frente, ignorando completamente a presença de Gabriel. Ele estendeu a mão suja para tocar meu braço nu. — Achei que fôssemos amigos. Você me deve três parcelas, lembra?
Antes que os dedos dele pudessem encostar na minha pele, o mundo girou.
Gabriel se moveu com uma velocidade assustadora. Em um segundo, ele estava ao meu lado; no outro, ele havia interceptado o pulso de Rogério no ar. O som de ossos estalando sob a pressão do aperto de Gabriel foi audível.
— Aii! Me solta, seu… — Rogério tentou gritar, mas Gabriel torceu o braço dele para trás, forçando-o a se curvar de dor.
A expressão de Gabriel era terrível. Não havia raiva quente em seus olhos; havia um gelo mortal. Ele parecia um executor prestes a dar a sentença.
— Você tem três segundos para me dizer quem você é e por que está incomodando minha esposa — Gabriel disse, a voz baixa e letal, mas perfeitamente audível no silêncio chocado que se formou ao nosso redor.
— Eu… eu sou um credor! — Rogério ganiu, tentando se soltar. — Ela me deve dinheiro! Ela é uma caloteira!
Gabriel soltou o braço dele com um empurrão brusco, fazendo Rogério tropeçar. O agiota recuperou o equilíbrio e, num momento de estupidez, tentou avançar novamente, com o punho fechado.
Foi o último erro dele naquela noite.
Gabriel não recuou. Ele desferiu um soco preciso, cirúrgico, direto no maxilar de Rogério. O impacto foi seco e brutal. Rogério caiu no chão de mármore como um saco de batatas, sangue escorrendo pelo canto da boca.
O salão inteiro arfou. Mulheres cobriram a boca. Os seguranças do hotel finalmente correram em nossa direção, mas Gabriel ergueu uma mão, parando-os.
Ele ajeitou as abotoaduras do paletó, como se tivesse apenas espantado uma mosca, e tirou um talão de cheques do bolso interno. Com a caneta de ouro — a mesma que eu usei para assinar minha vida —, ele preencheu uma folha rapidamente, arrancou-a e a deixou cair sobre o peito do homem gemendo no chão.
— Isso cobre a dívida dela. E o triplo pelo incômodo — Gabriel disse, olhando para Rogério com nojo absoluto. — Agora, ouça bem. Se você chegar a menos de quinhentos metros da minha esposa, ou se pronunciar o nome dela novamente, eu não vou apenas quebrar seu maxilar. Eu vou enterrar você tão fundo que nem o diabo vai te encontrar. Fui claro?
Rogério olhou para o cheque, depois para os olhos assassinos de Gabriel, e assentiu freneticamente, limpando o sangue.
Gabriel se virou para mim. A fúria em seus olhos ainda não tinha se dissipado. Ele segurou meu braço com força — não para machucar, mas para possuir — e me arrastou em direção à saída.
— Vamos. Agora.
Ninguém ousou nos parar. O valet trouxe o carro em tempo recorde. Gabriel me empurrou para dentro do banco do passageiro e assumiu o volante, dispensando o motorista. Ele arrancou com o carro cantando pneus, deixando o Copacabana Palace para trás.
O silêncio dentro do carro era sufocante. Gabriel dirigia com os nós dos dedos brancos de tanto apertar o volante. Eu estava tremendo, o choque da violência e do medo se misturando em um coquetel de adrenalina.
— Gabriel… — tentei começar, minha voz falhando.
— Cale a boca — ele rosnou, sem olhar para mim. — Nem uma palavra até chegarmos em casa.
Ele acelerou, cortando o trânsito da orla. Eu olhei para o perfil dele, iluminado pelas luzes da cidade. Ele tinha acabado de bater em um homem por mim. Ele tinha pago minha dívida sem nem perguntar o valor.
Eu deveria estar com medo dele. Ele era violento, controlador e perigoso. Mas enquanto eu olhava para a mão dele no câmbio, a mesma mão que tinha derrubado meu pesadelo com um único golpe, eu não senti medo.
Senti uma gratidão distorcida e sombria. E, pior ainda, senti meu coração acelerar não por pânico, mas por algo muito mais perigoso.
Ele era um monstro. Mas, naquela noite, ele foi o meu monstro.
(Salto temporal: 10 anos depois - O Aniversário de 50 anos da Regenera)O terraço do novo Centro Cultural Montiel oferecia a melhor vista do Rio de Janeiro. O Cristo Redentor de um lado, a Baía de Guanabara do outro, e a cidade pulsando abaixo. A festa de 50 anos da Regenera estava no auge. Helena, agora com 40 anos e no auge de sua carreira como CEO global, conversava com o Ministro da Economia. Ela exalava poder. Mas eu notava, com meu olho de mãe, que ela verificava o celular com uma frequência ansiosa. Alguma coisa em Singapura não estava cheirando bem.Theo, com 25 anos, tinha vindo de Viena para a festa. Ele estava mais maduro, vestindo um smoking desalinhado de propósito. Ele conversava com uma jovem violoncelista que eu nunca tinha visto antes, mas a forma como ele protegia o copo dela sugeria que não era apenas uma colega de orquestra. Havia um segredo ali.Eu e Gabriel estávamos sentados em uma mesa reservada, longe do barulho. Gabriel, aos 70 anos, ainda era o homem mais bo
A mesa de café da manhã parecia um campo de pouso deserto. Onde antes havia cadeirões, brinquedos, mochilas e discussões sobre o mercado de ações, agora havia apenas dois lugares postos, um vaso de orquídeas e o silêncio. Theo estava em Viena. Helena estava em Singapura fechando um acordo. Éramos só nós.Gabriel dobrou o jornal (de papel, um hábito antigo que ele retomou). — Está quieto demais — ele comentou. — Está — concordei, tomando meu chá. — Sinto falta da gritaria. Sinto falta até das brigas.— O que vamos fazer hoje? — ele perguntou. — Não tenho reuniões. Não tenho que buscar ninguém na escola. Não tenho que salvar a empresa. — Podemos… não fazer nada? — sugeri. Gabriel riu. — Nós não sabemos fazer "nada", Elisa. Vamos enlouquecer até o meio-dia.— Tem razão. — Levantei-me. — Vamos ao Centro. Quero ver a inauguração da biblioteca do Projeto Renascença.Centro do Rio. Rua do Ouvidor.Caminhamos de mãos dadas pelas ruas de paralelepípedo. O prédio que Gabriel tinha comprado como
O escritório de Gabriel cheirava a couro antigo e tabaco (embora ele não fumasse há anos). Helena estava de pé, os braços cruzados, defensiva. — Você me desautorizou na frente dele, pai. Como vou liderar essa família se você me trata como uma criança?Gabriel serviu dois copos de água. Ele não ofereceu álcool. A conversa exigia sobriedade. — Sente-se, Helena.— Eu prefiro ficar de pé.— Sente-se. — A voz dele não foi um grito, mas um comando. O mesmo tom que ele usava para parar negociações hostis. Helena sentou-se, contrariada.Gabriel sentou-se à frente dela. — Você sabe por que eu me tornei CEO da Montiel Mining aos vinte e dois anos? — Porque o vovô morreu. — Não. Porque ele matou o arquiteto dentro de mim antes de morrer. — Gabriel olhou para as mãos. — Eu desenhava, Helena. Como o Theo toca piano. Eu tinha sonhos. Mas Roberto Montiel achava que arte era fraqueza. Ele me forçou, me moldou, me quebrou até eu caber no terno dele.Helena desviou o olhar. — E você se tornou um grande
(Salto temporal: 5 anos depois - Theo com 15 anos, Helena com 30)O jantar de domingo na mansão era sagrado. Eu e Gabriel tínhamos voltado de uma temporada de seis meses na Europa, e a casa estava cheia novamente. Mas o ar estava pesado. Helena, sentada na cabeceira (o lugar que costumava ser de Gabriel), digitava no celular entre uma garfada e outra. Theo, agora um adolescente alto e desengonçado, com cabelos cacheados caindo sobre os olhos, empurrava a comida no prato, evitando contato visual.— Theo — Helena disse, sem largar o celular. — Marquei uma reunião para você com o Diretor de Branding amanhã às 14h. Corte o cabelo e vista uma camisa decente.Theo suspirou, soltando o garfo com um barulho metálico. — Eu não posso amanhã. Tenho ensaio da orquestra.Helena bloqueou a tela e olhou para ele com aquele olhar de "CEO lidando com funcionário insubordinado". — Cancele o ensaio. O estágio de verão começa na segunda-feira. Você vai rodar pelas áreas de Marketing e Design. Preciso que
(Salto temporal: 3 anos depois - Helena com 25 anos)Minha sala na sede da Regenera estava estranhamente vazia. As estantes, antes cheias de prêmios e relatórios, estavam limpas. Apenas uma caixa de papelão repousava sobre a mesa de vidro. Dentro dela: uma foto de Gabriel e eu jovens, o primeiro desenho de Theo e a caneta Montblanc que usei para assinar a compra da Montiel Mining décadas atrás.Helena entrou. Aos 25 anos, ela era uma força da natureza. Vestia um terninho branco impecável (uma escolha ousada, que dizia "eu não tenho medo de me sujar porque eu mando em quem limpa"). Ela parou na porta, olhando para a sala vazia. — Parece menor sem as suas coisas — ela disse.— A sala é a mesma. A ocupante é que vai mudar. — Sentei-me na cadeira pela última vez. — Está pronta?— Os relatórios trimestrais estão prontos. O discurso para os acionistas está revisado. A equipe de transição está alinhada. — Ela listou, eficiente. — Tecnicamente, estou pronta.— Não perguntei tecnicamente. Perg
(Salto temporal: 7 anos depois - Theo com 7 anos, Helena com 22)A festa de formatura de Helena em Engenharia Ambiental foi, previsivelmente, um evento corporativo disfarçado. Metade do PIB brasileiro estava no salão de festas do Copacabana Palace. Helena, deslumbrante em um vestido verde esmeralda, navegava pelo salão como um tubarão em águas calmas. Ela apertava mãos, lembrava nomes de esposas de investidores e discutia tendências de mercado com a facilidade de quem foi treinada para isso desde o útero.Eu e Gabriel observávamos de longe, orgulhosos, mas cansados. — Ela é melhor do que nós éramos nessa idade — Gabriel comentou, tomando um gole de uísque. — Ela é mais técnica. Menos emocional. — Concordei. — O estágio no sertão tirou o romantismo dela, mas deixou a eficiência. Ela está pronta para a Diretoria de Operações.Senti um puxão no meu vestido. Era Theo. Aos sete anos, ele era a cópia física de Gabriel, mas com uma alma completamente diferente. Enquanto Gabriel era aço, Theo







