MasukOito anos.É.Eu já havia desperdiçado oito anos da minha vida com ele.E quantos períodos de oito anos alguém tinha para desperdiçar?Gabriel continuava batendo a testa contra o chão, cada vez com mais força, como se machucar a si mesmo pudesse compensar tudo o que havia me feito sofrer.A cena logo começou a chamar atenção.Os pedestres diminuíam o passo, paravam e cochichavam entre si, tentando entender o que estava acontecendo.Gabriel, que sempre se importara tanto com a opinião dos outros, parecia não enxergar ninguém ao redor.Continuava ajoelhado, completamente alheio à multidão.— Levanta.Ele não se mexeu.Pelo contrário, bateu a testa no chão outra vez, ainda mais forte.— Gabriel, isso muda alguma coisa?Minha voz continuou fria.— Já aconteceu. Minha mãe já foi enterrada. De que adianta fazer isso agora?— Carol...Ele finalmente ergueu a voz, trêmula.— Eu sei que não devia ter vindo.Engoliu em seco.— Sei que você não queria me ver. Sei também que fiz coisas imperdoávei
Gabriel só conseguiu descobrir meu paradeiro mais de um mês depois.Nesse tempo, pediu ajuda a todos que pôde e procurou cada conhecido que talvez soubesse alguma coisa sobre mim.Até que um amigo com quem nunca tivera muita intimidade lhe contou:— Eu vi a Carol em Santa Aurora.Gabriel comprou uma passagem no mesmo dia.Quando o avião pousou e ele saiu do aeroporto, parou diante daquela cidade desconhecida e olhou ao redor.Só então percebeu que não fazia ideia de por onde começar.Santa Aurora era enorme.Havia empresas demais, gente demais, lugares demais onde eu poderia estar. Mesmo assim, começou pelo que tinha.Passou a ligar para empresas uma por uma, perguntando por mim em todos os lugares que encontrava.Algumas diziam que não havia ninguém com aquele nome.Outras desligavam antes mesmo que ele terminasse de explicar.Gabriel passou a tarde inteira ao telefone e só parou à noite, quando a bateria do celular acabou e sua garganta já ardia de tanto falar.No dia seguinte, deci
Gabriel percorreu funerárias e cemitérios por toda a cidade.Foi de um lugar a outro, perguntando, procurando, insistindo sem descanso.Até que finalmente encontrou o nome da minha mãe em um cemitério cercado de flores.A lápide ainda era nova.Na fotografia, ela sorria.Era o mesmo sorriso que sempre surgia em seu rosto quando via Gabriel.Ele se lembrou de como minha mãe costumava segurar sua mão com carinho, os olhos cheios de alegria.— Gabriel, estou entregando a Carol aos seus cuidados. Cuida bem dela, viu?Gabriel caiu de joelhos diante da lápide.O impacto contra o chão foi forte.Devia ter doído.Mas ele não sentiu nada.— Tia...Tentou continuar, mas a voz saiu rouca, quase irreconhecível.Nenhuma outra palavra veio.E o que ele poderia dizer?Que, enquanto Carol levava dezessete pontos nas costas, ele estava cuidando de Juliana e colocando gelo em seu ferimento?Que, enquanto ela esperava sozinha diante da sala de cirurgia, rezando desesperadamente para que a mãe sobrevivess
Sem querer, Gabriel se lembrou do que havia desencadeado a crise da minha mãe.A imagem voltou inteira à sua cabeça.Quando entrara no quarto, encontrara minha mãe deitada na cama, extremamente debilitada, com os olhos perdidos no teto.Eu segurava Juliana com toda a força, transtornada, gritando com ela.Então era isso.Eu não estava fazendo cena.Não tinha simplesmente perdido a cabeça.Juliana havia provocado minha mãe a ponto de fazê-la passar mal.E, mesmo assim, Gabriel escolhera ficar contra mim.Tinha me afastado com um empurrão.Depois, mesmo vendo minhas costas feridas e cobertas de sangue, fora embora sem hesitar.As últimas forças de Gabriel se esvaíram.Ele desabou no chão, ainda segurando o celular com a mão trêmula.— Me desculpa, Carol. Eu errei. Eu errei.Sua voz mal saía.— Por favor... Atende. Eu te imploro.Ligou uma vez.Depois outra.E outra.A cada tentativa, repetia a mesma súplica, agarrando-se à esperança absurda de que, em algum momento, eu atenderia.Até que
Na manhã seguinte, Gabriel despertou com o sol forte batendo em seu rosto.Por instinto, ergueu a mão para proteger os olhos e só então percebeu que Juliana ainda dormia profundamente, com a cabeça apoiada em seu braço.Ficou alguns segundos olhando para ela, mas a tranquilidade daquela cena não foi suficiente para afastar a estranha sensação de vazio que carregava no peito.Desde o dia anterior, eu não havia mandado uma única mensagem.Em qualquer outra ocasião, a essa altura eu já teria perguntado onde ele estava, exigido explicações e insistido para que voltasse para casa.Dessa vez, porém, seu celular permanecia em silêncio.E, por algum motivo, aquilo começou a incomodá-lo.A lembrança da última vez que me vira surgiu sem aviso.Eu estava caída no chão, em péssimo estado, com as costas ensanguentadas. Mesmo assim, tentava me arrastar até a porta, implorando por um médico.A cena lhe apertara o peito.Por um instante, Gabriel realmente pensara em se aproximar e me ajudar a levantar
No dia em que minha mãe receberia alta, desci por alguns minutos.Quando voltei, ouvi gritos vindos do quarto antes mesmo de chegar à porta.Acelerei o passo.Juliana estava ajoelhada ao lado da cama, curvada, pedindo perdão sem parar.— Me desculpa, tia. Fui eu que machuquei a Carol e destruí o relacionamento dos dois.Ela chorava tanto que mal conseguia respirar.— Eu não tenho vergonha na cara. Fui eu que seduzi o Gabriel. Pode me bater, pode me xingar. Eu mereço!Entre soluços, continuou:— Mas não se preocupa. Eu vou embora por conta própria. Vou devolver a felicidade da Carol para ela!Minha mãe mal tinha se recuperado e já precisava lidar com mais aquele choque.Tomada pela raiva, apontou para Juliana e tentou se levantar.— Cala a boca! Eu nunca vou deixar a Carol ficar com um canalha desses!Mas, assim que tentou dar um passo, suas pernas cederam.Ela caiu no chão, levando a mão ao peito e lutando para respirar.— Tia! Tia, o que aconteceu?!Juliana correu para ajudá-la, mas e







