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Capítulo 4

Author: Suely
Assim que aquelas palavras saíram da boca de Gabriel, o quarto mergulhou num silêncio sufocante.

E, junto com aquele silêncio, alguma coisa dentro de mim também morreu.

Então era isso.

No dia em que meu pai morreu, Gabriel disse que estava viajando a trabalho.

Juliana disse que estava doente.

Mas os dois estavam juntos.

Enquanto eu chorava até perder as forças, afundada numa dor que parecia não ter fim, o meu sofrimento não passava de pano de fundo para o prazer deles.

Gabriel nem sequer apareceu na homenagem que fizemos uma semana depois da morte do meu pai.

Depois, passei dias e noites sufocada pela saudade.

E foi ele quem me abraçou incontáveis vezes, repetindo com toda a paciência do mundo:

— Está tudo bem. Seu pai vai virar uma estrela no céu e continuar cuidando de você.

— E eu também vou cuidar de você no lugar dele.

Mas a verdade era muito mais suja do que qualquer coisa que eu pudesse ter imaginado.

A dor me atingiu com tanta força que por pouco não me partiu ao meio.

Quando Gabriel finalmente percebeu o que acabara de revelar, perdeu a cor.

Deu um passo na minha direção e estendeu a mão.

— Desculpa, Carol, eu...

A voz falhou.

— Eu fiquei nervoso. Falei sem pensar.

Mordi o lábio com tanta força que senti o gosto metálico do sangue se espalhar pela boca.

Então perdi o controle.

Comecei a destruir tudo o que encontrava pela frente.

Objetos.

Enfeites.

Lembranças.

Até a foto do casamento que tínhamos acabado de tirar foi parar no chão.

— Saiam daqui!

O porta-retrato se espatifou.

Uma rachadura atravessou o vidro exatamente entre nós dois, dividindo a imagem ao meio.

Juliana tentou se aproximar.

Arremessei outro objeto, que acertou seu rosto.

— Ah!

Ela levou as mãos à testa e se curvou de dor.

Qualquer vestígio de culpa que ainda restasse em Gabriel desapareceu na mesma hora.

Ele avançou, agarrou meu pulso e arrancou da minha mão o que eu ainda segurava.

O álbum caiu com força no chão.

Dezenas de fotografias se espalharam pelo piso.

Ali estavam tantos pedaços da nossa vida.

O dia em que Gabriel se declarou para mim.

O dia em que apresentei Juliana a ele.

E também meu aniversário, quando os dois sorriram enquanto me observavam fechar os olhos e fazer um pedido antes de apagar as velas.

— Carol, o que você pediu?

— Quero que nós três fiquemos juntos para sempre.

Os dedos de Gabriel afrouxaram em torno do meu pulso.

Por alguns segundos, ele ficou parado, olhando para as fotografias espalhadas pelo chão.

Parecia prestes a dizer alguma coisa.

Mas Juliana falou primeiro.

— Gabi, minha testa está doendo muito.

Ela tocou o ferimento e arregalou os olhos.

— Sangue... Está sangrando!

Gabriel levantou a cabeça na mesma hora.

Sem hesitar, passou por cima das fotografias e correu até ela.

Minha caixa de joias tinha aberto um corte considerável na testa de Juliana, e o sangue escorria sem parar.

Gabriel a pegou no colo e saiu sem olhar para trás.

Quando chegou à porta, parou por um instante.

Mas não se virou.

— Não importa o que aconteceu. Ela continua sendo sua melhor amiga.

Sua voz saiu fria.

— Você não devia ter feito isso com ela. A Ju já sofreu demais.

E foi embora.

Sofreu demais?

Nós crescemos juntas.

Eu sabia que a família dela passava dificuldades e, por isso, sempre dividia com Juliana o melhor que eu tinha.

No jantar, o pedaço de frango que todo mundo queria acabava no prato dela.

Quando minha mãe comprava material escolar novo para mim, eu dividia tudo com Juliana.

Se eu tinha alguma coisa boa, ela também tinha.

E agora até o homem que eu havia amado por oito anos parecia ser algo que eu deveria entregar a ela.

Deslizei devagar até o chão.

Já não parecia haver lágrima alguma dentro de mim.

Fiquei ali, olhando para o nada, vazia.

Naquela noite, Juliana me ligou.

Sua voz estava arrastada pelo álcool.

— Carol, eu juro que não fiz por mal.

Ela começou a chorar.

— Me perdoa, por favor. Eu não quero perder você...

A respiração falhou entre os soluços.

— A gente cresceu juntas. Eu não quero que nossa amizade acabe por causa de um homem.

Ela chorava tanto que mal conseguia falar.

Pouco depois, outra voz surgiu do outro lado da linha.

Era um funcionário do bar.

— Moça, a gente já está fechando.

Ele hesitou antes de continuar:

— Se você não vier buscar sua amiga, vou ter que deixar ela do lado de fora.

Fiquei em silêncio por um longo tempo.

No fim, ainda peguei meu casaco e saí.

Antes de morrerem, os pais de Juliana tinham me feito prometer que cuidaria dela.

Então aquela seria a última vez.

Quando cheguei ao bar, encontrei Juliana prensada contra a parede por Gabriel.

Ele a beijava com força, quase com raiva.

Quando se afastou, falou num tom carregado de frustração:

— Juliana, quantas vezes mais você vai me afastar?!

Ela tentou virar o rosto, mas Gabriel não deixou.

— Você sabe muito bem que é você quem eu amo! Então por que continua me rejeitando?

Com os olhos vermelhos, Juliana o empurrou para longe.

As lágrimas escorriam por seu rosto.

— Porque ela é minha melhor amiga! Eu não posso roubar a felicidade dela!

— E você?! — Gabriel segurou os ombros dela, indignado. — E a sua felicidade, Juliana?!

Foi o bastante para romper a última barreira entre os dois.

Juliana se jogou nos braços dele e o abraçou com força.

— Eu também amo você... — Sua voz saiu entrecortada. — Mas e a Carol?

Escondida atrás de uma coluna, ouvi a resposta de Gabriel.

Clara.

Sem hesitação.

— Se ela não aceitar, eu vou embora com você.

Deixei escapar uma risada baixa.

Minha visão estava turva pelas lágrimas, e lembranças antigas começaram a voltar.

Juliana havia gastado três meses de salário para me levar a um resort de águas termais.

Gabriel ficava ao meu lado, cortando frutas e levando os pedaços até a minha boca.

Os dois competiam para ver quem cuidava melhor de mim, numa disputa infantil que, naquela época, sempre me fazia rir.

Por um instante, aquelas cenas pareceram tão próximas que quase consegui tocá-las.

Então desapareceram.

Como bolhas de sabão.

O amor que um dia existira entre nós, assim como as pessoas que eles tinham sido para mim, pertencia apenas ao passado.

Peguei o celular e procurei um e-mail que estava esquecido havia muito tempo na minha caixa de entrada.

A oferta de trabalho ainda estava lá.

Fiquei olhando para a tela por alguns segundos.

"Gabriel, um dia, por sua causa, eu escolhi ficar.

Agora, escolho ir embora."

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