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Gaiola Dourada

Penulis: Lêh Magalhães
last update Tanggal publikasi: 2026-05-12 10:53:56

Fiquei no meu quarto por um tempo, deitada na cama macia demais, esperando que alguma coisa simplesmente… saísse de dentro de mim. Não sei, que eu começasse a tremer, a sentir meus ossos estalando, a pele se rasgando e, em questão de segundos, me transformasse em uma linda loba preta, elegante, poderosa, daquelas que parecem capa de livro.

Depois de alguns minutos olhando pro teto e não virando absolutamente nada, começo a rir de mim mesma.

Claro, Lira, claro. Com a sorte que você tem, no máximo ia virar uma lobinha fraquinha, de pelos castanhos desbotados, meio perdida, tropeçando nas próprias patas, oferecendo o pescoço pro primeiro lobo mal-humorado que passasse.

O tempo foi passando, o silêncio do quarto foi ficando mais pesado, e uma sensação incômoda começou a se instalar. A cama era confortável, o quarto era lindo, tudo cheiroso, limpo, luxuoso, cheio de coisa que eu nunca tive, mas, quanto mais eu ficava ali, mais clara ficava uma verdade: se eu não fizesse nada, aquele quarto ia virar minha gaiola dourada.

E não. Eu não ia permitir isso.

Chega de ser a estranha no canto. Chega de ser a menina trancada no porão, a que ninguém explica nada, a que todo mundo tem medo de encostar. Se eu ia ficar aqui, eu ia dar uma chance de verdade pra esse lugar. E, se não desse certo, se tudo isso fosse só outra prisão com verniz caro, ia ficar só o suficiente pra aprender tudo que eu precisava sobre ser uma loba e depois dar o fora. Simples.

Com isso em mente, eu decido explorar. Que se dane. Ninguém falou que era proibido andar por aí. Não tinha placa de “não saia do quarto ou será devorada pelo rei alfa azedo da cadeira de rodas”. E mesmo se tivesse, talvez eu fosse só pra ver qual era.

Me levanto, esfrego os pés descalços no tapete macio, quase rindo sozinha com a sensação, e vou até a primeira porta que encontro. Abro.

E, caralho.

Dou de cara com um banheiro que era maior do que toda a sala do convento. Tô falando sério. Piso brilhando, pia enorme, espelho que provavelmente custava mais do que tudo que eu já vesti na vida, e, no meio, uma daquelas banheiras gigantes de filme, que eu só tinha visto em revista velha e novela da irmã Teresa. Uma banheira que eu, obviamente, não fazia a menor ideia de como ligar, mas que, naquele momento, decido que vou aprender. Nem que eu alague a casa inteira no processo.

Uma ideia atravessa minha cabeça do nada, rápida, atrevida: se meu pai é rico desse jeito, ele podia muito bem me dar um celular. Não que eu tivesse com quem falar, porque amizades não costumam florescer em porões de convento, mas eu queria internet, queria navegar, queria ver o mundo que me negaram enquanto eu ficava trancada ouvindo sermão e latim.

Guardo a ideia pra depois, com um meio sorriso bobo, e volto a focar na banheira. Começo a testar alguns botões, torneiras, alavancas, girando tudo que parece girável, até que, de repente, bum: a água quente começa a cair, enchendo a banheira.

Eu praticamente bato palmas pra mim mesma.

Coloco dentro da água tudo que encontro por perto: sabonete líquido, sais, sei lá o que era aquilo em potinhos chiques, mas se fazia espuma, eu jogava. Em poucos minutos, tinha tanta espuma que parecia que a banheira ia transbordar para outro universo. E aí, sem pensar muito, eu tiro aquelas roupas velhas do convento — que já deviam ter pedido aposentadoria há anos — e entro.

Ah.

Que delícia.

É como se anos de sujeira, cansaço, cheiro de mofo e incenso finalmente começassem a soltar da minha pele. A água quente abraça cada pedacinho de mim, e eu quase suspiro alto. Lavo o cabelo, esfrego o couro cabeludo com a força de quem quer arrancar junto todas as lembranças do porão, esfrego os braços, as pernas, cada centímetro, como se estivesse tentando garantir que nada daquele mundo antigo tivesse ficado grudado em mim.

Quando me dou por satisfeita, saio da banheira me sentindo uma outra pessoa — ainda ferrada, ainda confusa, ainda com uma loba histérica morando dentro de mim, mas limpa. Me enrolo numa toalha enorme e macia, tão macia que dá vontade de morar dentro dela, e olho ao redor procurando algo pra vestir.

A constatação cai como pedra: eu nunca mais vou vestir aquelas roupas do convento. Nunca. Não importa se me deixarem pelada no meio do rebanho. Aquilo ficou pra trás. Só que, até o momento, ninguém teve a brilhante ideia de me trazer roupas novas.

Ótimo.

Fuço um pouco os armários do banheiro até achar um roupão atoalhado gigante. Visto. Ele fica enorme em mim, cobrindo tudo dos ombros até quase o tornozelo, as mangas passando da mão, mas é isso ou voltar pros trapos. E eu prefiro morrer de pano do que de humilhação.

De volta pro quarto, paro diante do espelho.

Meus cabelos castanhos escuros caem úmidos pelos ombros, rebelados como sempre. O nariz pequeno e levemente arrebitado, salpicado de sardas que eu sempre odiei, olhando de perto como se cada pontinho fosse um lembrete de que eu nunca encaixei em lugar nenhum. Os olhos castanhos dourados, ainda um pouco vermelhos nas bordas por causa de tudo que aconteceu.

Meus olhos se enchem de lágrimas quando lembro de Ines dizendo que eu parecia com a minha mãe.

Luara.

Suspiro, tentando segurar tudo ali, no lugar. Que tipo de mulher ela teria sido? A guerreira que meu pai descreveu, a que enfrentou ataque, traição, guerra? A que correu comigo nos braços, me levou até um convento e me deixou lá pra eu viver achando que era possuída? As duas? Nenhuma?

Não sei. E isso dói mais do que gostaria de admitir.

Decidida a não ficar mais presa ali ruminando perguntas sem resposta, abro a porta do quarto e saio. Vou descalça mesmo, porque aparentemente ninguém aqui conhece o conceito de chinelo, e sigo pelo corredor, determinada a explorar ou, no mínimo, encontrar Theron e exigir roupas — já que ele me trouxe pra esse lugar louco, o mínimo que pode fazer é me dar algo decente pra usar.

Mais uma vez, sou obrigada a engolir meu espanto com a grandeza do lugar. Os corredores são enormes, o piso impecável, paredes cheias de quadros, detalhes em madeira trabalhada, vasos que, só de olhar, eu tenho certeza que custam mais do que a igreja inteira do convento. Tudo grita dinheiro, poder, história. E, no meio disso, eu, de roupão e pé descalço, parecendo uma fugitiva do spa dos ricos.

O lógico seria eu descer. Humanos normais — ou lobos normais, tanto faz — provavelmente iriam em direção ao andar de baixo, onde estão as pessoas, a saída, sei lá. Mas, por algum motivo, meus olhos são puxados pra uma escada menor, discreta, que leva pro andar de cima.

Então é claro que eu subo.

A escada termina em uma única porta. Eu devia ter voltado. Ser esperta. Lembrar que ninguém me chamou pra andar por aí, e que geralmente as coisas que ficam em andares “escondidos” não são pra curiosas de primeira viagem.

Mas eu não volto.

Abro a porta e entro.

Aquele andar é diferente. Ainda é luxuoso, ainda tem cara de “vivo num catálogo caro”, mas também é mais sombrio, mais fechado. A decoração é mais masculina, mais sóbria, cores escuras, madeira mais pesada, poucos enfeites, tudo organizado com uma precisão que beira o obsessivo. O ar é outro, mais denso, com um cheiro misturado de livro, madeira, algo metálico e… ele.

Caminho pelo corredor, cada passo ecoando suave, até que um retrato grande na parede chama minha atenção. Duas mulheres. Paro na hora.

Me aproximo devagar.

Uma delas se parece… comigo.

Meu coração dispara de um jeito desconfortável. Meus dedos se levantam quase sem eu mandar, se estendendo em direção à pintura, como se eu pudesse tocar através da tela. Os olhos dela, o formato do rosto, até o jeito de segurar o queixo… tem tanta coisa ali que ressoa que, por um segundo, esqueço de respirar.

A emoção de poder estar diante da minha mãe pela primeira vez — ou de alguém que, pelo menos, parece com ela — vem como uma onda, me tomando inteira. Sinto tudo: saudade de algo que nunca tive, raiva de tudo que me foi negado, e uma pontada de carinho por um rosto que eu nem tenho certeza que é real.

Meus dedos quase encostam na tela quando eu escuto um pigarro irritado atrás de mim.

Viro rápido demais, assustada, e o pé escorrega no próprio chão. Tropeço no meu próprio corpo, no roupão gigantesco, nos pés descalços, em mim mesma, enfim. Não chego a beijar o chão, o que seria ótimo e humilhante. É pior.

Eu caio em cima de Eron.

O mal-humorado da cadeira de rodas.

Meu corpo praticamente despenca no colo dele, o impacto arrancando o ar dos meus pulmões por um segundo. Sinto o cheiro dele de perto, forte, marcante, misturado com algo que arrepia a coisa dentro de mim de um jeito que eu não tô pronta pra analisar.

Ele segura meus braços por reflexo, firme demais, quente demais, e eu fico um milésimo de segundo presa naquele olhar verde tão profundo que parece um oceano onde ninguém sai vivo.

Perfeito.

Porque se tem uma coisa que eu precisava hoje, além de banho, revelações traumáticas e madrasta loira carinhosa demais, era cair literalmente em cima do supremo rei alfa azedo e deixar claro, de uma vez por todas, que elegância não faz parte da minha habilidade básica.

Ótimo começo, Lira. Ótimo começo.

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