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O Lobo Quebrado

last update 公開日: 2026-05-13 08:29:37

 

Um rosnado me puxa de volta pros meus pensamentos como se alguém tivesse arrancado um fone do meu ouvido no volume máximo.

Eron estava furioso.

Consigo sentir a raiva dele no ar antes mesmo de encará‑lo de verdade, aquele tipo de raiva gelada que não precisa de grito pra fazer medo. E aí meus olhos fazem o caminho óbvio: descem, percorrem meu corpo… em cima dele.

Merda.

Sigo o olhar dele e só então me dou conta de que o roupão tinha se aberto, claro, porque se tem algo que não me acompanha é dignidade em momento crítico. Solto um palavrão na mesma hora e puxo o tecido com pressa, me cobrindo como dá, sentindo meu rosto esquentar.

Tento me levantar, o que seria lindo se minhas pernas colaborassem, mas mãos firmes, grandes, quentes demais, me prendem no lugar, segurando meus quadris com força suficiente pra deixar claro que eu só saio dali se ele deixar.

A voz dele vem logo em seguida, carregada daquele sarcasmo que arranha:

"O que foi? Não veio aqui a mando do seu pai exatamente pra isso? Se oferecer como sacrifício ao lobo mal quebrado?"

Levo um segundo pra processar.

"Como é que é?", quase escapa, mas não dá tempo. Eu abro a boca pra perguntar do que diabos ele está falando, mas Eron não parece minimamente interessado na minha versão da história.

Ele continua, impiedoso, sem parar nem pra respirar:

"Vocês não me respeitam porque estou preso nessa maldita cadeira, não é mesmo? Até uma loba inútil como você, que sequer sabe controlar o poder que tem, se acha no direito de rir de mim."

A palavra inútil b**e fundo. Muito mais fundo do que eu gostaria de admitir. Todos os anos de convento, de “monstra”, de “errada”, de “possuída” começam a sussurrar junto com ele, como um coro insuportável.

Mas ele não terminou.

"Mas se enganou, lobinha. Eu posso te matar agora mesmo e nem vou suar pra fazer isso."

As mãos dele sobem, devagar, como se o mundo estivesse em câmera lenta só pra me torturar. Os dedos envolvem meu pescoço, não com força total, mas com firmeza suficiente pra deixar bem claro quem está no controle aqui.

Ele aperta de leve.

O pânico sobe na mesma hora, um reflexo antigo, enraizado, o mesmo que eu sentia toda vez que as correntes de prata fechavam em volta dos meus pulsos no porão do convento. Mas junto com o medo vem outra coisa, muito mais perigosa: aquela presença dentro de mim se ergue, atenta, como se tivesse acabado de receber um convite formal pra sair e brincar.

Eu não sei se quero gritar, morder, chorar ou rir.

“Você não tem ideia do que eu posso fazer com você, lobinha”, ele rosna, baixo, tão perto que eu sinto o ar quente bater no meu rosto.

As mãos dele deslizam mais firme ao redor do meu pescoço. Não é força suficiente pra me machucar de verdade, mas é o bastante pra minha respiração ficar presa no meio do caminho, pra minha pele arrepiar inteira e pro meu corpo entender a mensagem: se ele quiser, eu apago aqui mesmo.

O pânico me atravessa num estalo, rápido, cortante, lembrança e reflexo se misturando. Por um segundo, juro que sinto o cheiro da umidade do porão, o metal da corrente, a voz do padre mandando segurar firme porque “vai reagir”. Meu estômago vira. Minhas mãos tremem.

E, ainda assim, tem outra coisa ali, escondida debaixo do medo, algo quente e irritante que não se encolhe diante dele, que quer avançar em vez de recuar. A coisa dentro de mim se remexe, atenta, como se estivesse encarando o desafio e riscando o chão com as garras.

Tento abrir a boca pra perguntar que merda é essa, o que ele pensa que está fazendo, que história é essa de “a mando do meu pai”, mas, antes que qualquer palavra saia, um estrondo corta o ar.

A porta se escancara com tanta força que b**e na parede, e um rosnado muito mais grave que o de Eron preenche o ambiente.

O deus grego loiro do corredor entra como se tivesse sido lançado lá pra dentro, olhos escuros como a noite, o peito arfando, o corpo inteiro tenso. Nolan. Claro que é ele. E é claro que ele escolheu exatamente o momento em que estou de roupão, no colo do rei alfa quebrado, com as mãos dele no meu pescoço, pra aparecer.

Céus. Que começo de vida nova maravilhoso.

Eron não tira as mãos de onde estão. Pelo contrário, os dedos dele apertam um pouco mais, não o suficiente pra me sufocar, mas claramente o bastante pra deixar a situação ainda mais constrangedora.

Ele vira o rosto na direção da porta, devagar, sem soltar o pescoço, e encara o intruso com um desprezo que quase dá pra tocar.

“Pelo visto hoje é dia das visitas inconvenientes”, ele solta, a voz fria como gelo. “O que meu irmão mais novo e bastardo veio fazer aqui?”

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