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Havia desejo no olhar dele.
Fúria também.
Paixão.
Arrependimento.
E, escondido sob tudo aquilo, algo perigosamente parecido com amor.
Mas amor da parte de quem?
Laissa deixou o olhar deslizar do rosto de Mason para o corpo alto que avançava alguns passos para dentro do quarto. A luz da lua atravessava as janelas e recortava a silhueta dele contra a escuridão. Ele estava ali. Depois de tudo, estava ali.
Ela tinha dezenas de coisas para dizer. Talvez centenas. Nenhuma parecia adequada.
Ou talvez, pela primeira vez, fosse sua vez de ficar em silêncio e ouvir.
O último encontro dos dois havia terminado da pior maneira possível: sexo, palavras cruéis, uma discussão que se transformara em briga, um tapa, uma porta batida e Mason jurando que nunca mais pisaria no mesmo chão que ela.
Ainda assim, bastara uma mensagem.
Uma ordem curta. Direta. Inconfundível.
E ele voltara.
Mason talvez ainda não entendesse a dimensão daquela ligação, mas já fazia tempo que Laissa também não sabia onde terminava o jogo de domínio e começava alguma coisa muito mais difícil de controlar.
Ela pousou a taça sobre a mesa e se levantou devagar. Pela primeira vez em muito tempo, aproximar-se de alguém lhe pareceu mais arriscado do que dar uma ordem.
— O que trouxe você aqui? — perguntou, a voz baixa demais para combinar com a mulher que fazia salas inteiras se calarem.
Mason soltou uma risada curta, sem humor.
— Pode ter certeza de que não foi a minha moral.
Laissa ergueu o queixo e jogou os cabelos para trás. A arrogância voltou ao lugar como uma armadura perfeitamente ajustada. Era aquilo que o atraía e, ao mesmo tempo, o enlouquecia: a dominadora mimada, autoritária, sensual e imprevisível. Mas ele já tinha visto o suficiente para desconfiar que, atrás de toda aquela força, existia uma mulher que nunca aprendera a pedir para ser amada.
— Não dei permissão para ninguém subir ao meu quarto. Posso chamar os seguranças e mandar colocarem você para fora.
— Então chama. — Mason cruzou os braços. — Me coloca lá fora sem usar aquilo que acha que tem sobre mim.
Os olhos dela se estreitaram.
— Isso é um desafio? Não tenho pena de um submisso qualquer. Posso colocar outro na minha cama quando quiser.
— Ótimo. Então perdi meu tempo vindo até aqui sem ser convocado.
Ele virou. Deu um passo.
— Fique parado.
A voz de Laissa cortou o quarto. Não era súplica. Não era pedido. Era comando.
Mason podia rir. Podia abrir a porta. Podia finalmente provar que nenhuma palavra dela tinha poder sobre ele.
Mas não conseguiu.
Porque queria ficar. E essa era a verdade mais irritante de todas.
Laissa se aproximou até as mãos alcançarem o corpo dele. Tocou-o apenas o suficiente para lembrar aos dois do que existia entre eles, então contornou Mason e parou à sua frente.
— Você não tem permissão para seguir sua vida sem mim, Mason.
Ele descruzou os braços, tentando sustentar uma firmeza que já começava a ruir.
Céus. Quem ele queria enganar? Aquela CEO mimada, alta, gostosa e completamente louca tinha se enfiado na vida dele de um jeito que dinheiro nenhum explicava.
— E para quê eu tenho permissão, então?
O sorriso dela foi lento. Perigoso.
— Para se ajoelhar aos meus pés.
Mason sustentou o olhar por um segundo. Dois. Depois se ajoelhou. Não porque não pudesse ir embora, mas porque, naquele instante, escolheu ficar.
Laissa inclinou-se e encarou o rosto bonito que, contra todas as regras que havia criado para si mesma, começara a despertar nela desejos que não eram apenas sexuais.
— Agora me faça relaxar. Isso é um comando.
Mason respirou fundo.
— Sim… minha mestra.
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A pasta negra deslizou pela mesa e parou diante de Laissa.
A xícara que ela levava aos lábios não chegou a tocar sua boca. Com um movimento lento, afastou uma mecha de cabelo, abriu a pasta e folheou os documentos duas vezes antes de erguer os olhos para o homem sentado à sua esquerda.
Já passava das nove da manhã. Seu estômago reclamava por comida e o corpo inteiro carregava as consequências agradáveis de uma noite intensa. As pernas pesadas e as olheiras discretas denunciavam que ela havia dormido pouco. Para Laissa, aquilo teria sido o início perfeito de semana.
Para James, aparentemente não.
— O que significa isso? — perguntou, a voz baixa, rouca e perigosamente calma.
Ela não estava acostumada a receber decisões. Muito menos de um homem que, durante quatro anos, vivera sob regras escritas por ela.
— Você entende de contratos melhor do que eu. Então imagino que saiba exatamente o que significa.
James apoiou a xícara com força sobre a mesa. Laissa deixou o olhar correr pelo peito nu, marcado pelas unhas dela, pelos braços fortes e, por fim, pelos pulsos feridos. As algemas tinham deixado sinais.
— Ah. Entendi. — Ela fechou a pasta. — Não poderia haver marcas. Passe na sala de Mariane mais tarde. Ela providencia o pagamento.
Levantou-se como se quatro anos pudessem ser encerrados com uma assinatura e um cheque.
— Espere.
Laissa parou. O maxilar endureceu. Ela odiava receber ordens.
Virou-se devagar, ainda segurando a xícara, enquanto a brisa que entrava pela casa movimentava o robe ao redor de suas pernas.
— É só isso que você tem para dizer? — James perguntou.
— Você ainda está na minha casa e eu não admito que me dê ordens. E, não, não tenho mais nada a dizer.
— Foram quatro anos, Laissa. Quatro anos. E você simplesmente me manda para a sua assistente? O que eu fui para você?
Por um segundo, alguma coisa passou pelo rosto dela. Sumiu antes que James pudesse identificar.
— Você não tem permissão para me chamar assim. Eu sou a sua mestra. — Laissa deu um passo, obrigando-o a recuar. — E acabou de assinar o encerramento do nosso contrato. Vai receber muito bem pelos quatro anos de serviço.
James abaixou os olhos.
— Serviço…
— Era um funcionário como qualquer outro. Substituível. Descartável. Conseguiu o que queria. Agora saia da minha frente. Amanhã haverá outro no seu lugar.
Laissa se virou antes que o silêncio entregasse qualquer rachadura. Subiu as escadas com a elegância treinada em anos de etiqueta, postura e disciplina. Nenhuma daquelas aulas, porém, a ensinara a continuar elegante quando uma porta se fechava e ela finalmente ficava sozinha.
A xícara de porcelana — uma peça antiga, herdada por gerações — atravessou o quarto e explodiu contra a parede.
O grito veio logo depois.
Fúria. Humilhação. E uma dor que ela jamais admitiria ter sentido.
— Senhorita Chase — Parou no quarto outra vez quando sua empregada ergueu-se medrosa. — Está muito elegante.
Laissa a olhou dos pés à cabeça antes de deixar o quarto. Outra vez desceu aquelas escadas com elegância e cruzou a saída já encontrando a porta do carro aberta. O motorista sequer disse uma palavra, depois de anos e anos trabalhando para aquela mulher, dias que usava roupas pretas era como um luto interno e quanto menos falasse, mais tempo ficaria empregado.
Seant era uma cidade muito bonita, e com a chegada do inverno, o frio se intensificava com mais intensidade, entretanto, o sol continuava queimando mesmo na frieza qualquer pele que ousasse se expor.
Foi calmo prestando atenção no trânsito e deixando que a mulher admirasse a beleza da cidade, sabia que ela gostava disso. Tudo que podia fazer para o dia dela começar bem, ele fez a deixando prontamente na entrada do seu prédio e seguindo para o mais longe possível. Agora a responsabilidade era de outras pessoas.
Seguiu firme por aquele andar e subiu para sua sala. O corredor até ela era extenso, mas o suficiente para se ver longe de todas as outras pessoas presentes naquele lugar. Ter um andar apenas para sua sala foi sua única exigência quando assumiu os negócios da família. Quanto menos gente pudesse ver, melhor para sua mente criativa e elegante.
Passou por sua sala encontrando a assistente diante da mesa.
— Eu preparei seu café — Laissa olhou para uma mesa posta no meio da sala. Isso era bom, pois foi durante o café da manhã que teve sua semana inteira fracassada com poucas palavras e muitos papéis.
Virou em direção à mesa e Mariane correu para aparar a bolsa que a outra carregava junto ao chapéu que foi apenas largado no ar.
— Cancelei toda sua agenda hoje com os clientes menos importantes, mas não consegui desmarcar o jantar com sua amiga. Ela deixou claro que viajará amanhã ao meio-dia. — Parou do outro lado apenas para assistir Laissa.
A elegância em sentar de lado e arrumar seus cabelos antes de buscar pela xícara e uma pitada de açúcar. Em cada pulso uma pulseira que custava no mínimo a sua casa e o carro que comprou após três anos economizando, em seus dedos apenas um anel com uma esmeralda maior que os olhos da dona e nas orelhas esmeraldas em três tamanhos formando uma corrente de cima para baixo, tão elegante e luxuosa para uma manhã escura na vida dela.
E claro, o usual conjunto negro tal como sua alma.
O treinador entrou no vestiário com dois homens.— Silêncio!Ninguém calou.— CALEM A BOCA!Aos poucos.— Temos representantes universitários aqui.Mason congelou.Um deles chamou seu nome.— Mason Price.Levantou.— Seu desempenho esportivo é excelente.— Obrigado.— Suas notas não.Todos riram.Mason fechou os olhos.— Eu sei.— Mas melhoraram.Silêncio.— Queremos oferecer uma vaga condicional. Se concluir o ano mantendo a melhora acadêmica, haverá bolsa esportiva.Mason ficou parado.— Está falando sério?— Muito.O vestiário explodiu.Jason provavelmente ouviria o grito do outro lado da cidade.Depois outro representante chamou:— Yuri Vicente.Yuri arregalou os olhos.Mason sorriu.— Vai lá, capitão.Yuri deu um soco leve no ombro dele. Os dois haviam conseguido. Nenhuma coleira. Nenhum cheque. Nenhum pai. Nenhuma mulher rica. Eles.--Laissa esperou Mason do lado de fora. Ele apareceu ainda molhado, mochila no ombro e sorriso enorme. Ela tentou manter a elegância. Falhou. Mason
Yuri chegou ao treino disposto a destruir Mason.Não literalmente.Talvez um pouco.O pai passara a semana lembrando-o de que havia perdido a braçadeira.Comparando-o com o irmão.Perguntando quando voltaria a ser alguém importante.Yuri tinha o segredo perfeito.Laissa.Mason.A coleira.O patrocínio.Bastava falar.Uma fotografia.Um comentário.Uma mensagem anônima para o diretor.Mas, antes de entrar no campo, encontrou Mason sozinho no vestiário.— Preciso falar com você.Mason nem levantou.— Se for Laissa, não.— Não é.— Milagre.Yuri sentou.— Vou contar.Mason olhou.— O quê?— Tudo que sei.A expressão dele mudou.— Para quem?— Diretor. Treinador. Talvez meus pais.Mason levantou.— Você é um filho da—— Senta.— Não me manda sentar.— Então fica em pé e escuta.Mason ficou.Yuri respirou.— Eu preciso da braçadeira.— Então j**a melhor.— Não é tão simples.— Pra mim também não.— Meu pai disse que eu fui uma vergonha.Mason se calou.Yuri contou.O irmão perfeito.As bols
Jonathan abriu a porta e encontrou Mariane chorando.— O que aconteceu?Ele entrou.Tentou falar.Não conseguiu.Ele a abraçou.— Foi a Laissa?Mariane chorou ainda mais.— Dessa vez fui eu.Sentaram.Ela contou tudo.Mason.Jason.Terreno.Mentiras.Jonathan escutou até o fim.— Ele tem razão — ela disse.— Em estar bravo?— Em tudo.Jonathan suspirou.— Você passou anos tentando não perder esse emprego.— E comecei a perder todo o resto.Ele ficou em silêncio.— Eu te amo, Mari. — Ela olhou. — Mas não quero viver esperando sua chefe ligar.Mariane fechou os olhos.— Eu sei.— Não quero que deixe sua carreira. Só quero que exista uma parte da sua vida onde ela não manda.Mariane pensou em Laissa.Depois em Mariane Price.Duas mulheres completamente diferentes.Uma mandava.Outra obedecia.E, entre elas, Mariane passara anos fazendo as duas coisas.Obedecendo Laissa.Mandando em si mesma que precisava aceitar.Levantou.— Onde vai?— Trabalhar.Jonathan fez uma cara incrédula.— Sério?
— Está fazendo o quê?— Nada.— Então faça nada mais longe.Ele riu.— Bom dia, mestra.Laissa fechou os olhos outra vez.— Melhor.Mason olhou para o teto.Pela primeira vez desde que entrara naquele mundo, não se sentia comprado.E isso tornava tudo muito mais perigoso.Porque agora tinha alguma coisa de verdade a perder.Jason não acreditava em coincidências.Talvez porque a vida tivesse lhe ensinado cedo demais que quando coisas estranhas começavam a se encaixar, normalmente havia uma desgraça escondida atrás.Mason tinha dinheiro.Muito mais do que deveria.Mason dormia fora.Mariane buscava Mason.Laissa patrocinara a escola.Laissa comprara o terreno.E, acima de tudo, Mason tinha marcas.Jason conhecia marcas.Conhecia dinheiro.Conhecia homens e mulheres pagando para possuir horas da vida de outra pessoa.Conhecia aquela sensação de ter dinheiro no bolso e nenhuma vontade de explicar de onde veio.Por isso, quando Mason entrou no bar perto do meio-dia usando uma camisa larga d
— Sente.— Prefiro ficar em pé.— Não foi um pedido.Mason ficou olhando para ela. Depois sorriu de canto. — Hoje não, Laissa.O sorriso de Laissa desapareceu. Não porque tivesse sido desobedecida. Mas porque não havia agressividade na recusa. Apenas firmeza.— Interessante.— Quero conversar primeiro.— Está começando a ficar muito exigente para alguém que apareceu sem convite.Mason caminhou até a mesa. Tirou um envelope do bolso. Colocou diante dela. Laissa reconheceu. Dinheiro. O último pagamento.— O que é isso?— Tudo que sobrou.— Não pedi devolução.— Eu sei.— Então leve.— Não.Ela levantou.— Mason.— Não quero mais.Silêncio.— Dinheiro?— Por sexo.Laissa ficou completamente parada.Ele respirou fundo.— Vou continuar pagando minhas coisas com o que já tenho. Vou trabalhar no bar, jogar, tentar melhorar minhas notas e conseguir uma bolsa.— E acha que vai conseguir fazer tudo isso sozinho?— Preciso tentar.— Orgulho idiota.— Talvez.Mason aproximou-se.— Mas se eu contin
— Eu estou falando sério. Você não vai dormir com ele.Silêncio. Laissa ficou completamente imóvel.— Repita, se tiver coragem.Mason engoliu em seco.— Não dorme com Yuri.— Você está me proibindo?— Estou pedindo.— Não parece um pedido.Mason respirou. Tentou novamente.— Por favor.Aquilo pareceu atingir Laissa de maneira diferente. Mason nunca pedia. Brigava. Reclamava. Desafiava. Fugia. Mas não pedia daquele jeito.— Por que eu deveria aceitar?— Porque eu não quero outro cara com você.— Isso ainda não responde.— Responde sim.— Não.Laissa aproximou-se ainda mais.— Quando começamos isso, não estabelecemos exclusividade. Você recebia para estar comigo. — Mason desviou os olhos. — Nunca me pediu namoro. Nunca disse que queria ser o único. Então não apareça agora querendo colocar uma coleira em mim, Mason Price. — Ele tornou a encará-la. A frase acertou em cheio. — Você pode usar uma porque escolhe usar. Eu não. Eu não pertenço a você. Não pertenço à sua vontade. Então entenda







