LOGINDesde o dia em que descobri que Henrique Martins estava me traindo, todos os dias, assim que ele entrava em casa, eu o imobilizava no hall de entrada, arrancava suas calças e borrifava álcool de alta concentração em suas partes íntimas para desinfetá-las. Consumido pela culpa, Henrique sempre se submetia em silêncio, com os olhos avermelhados, tentando me acalmar pacientemente e pedindo que eu parasse com aquilo. Mas, hoje, ele chegou duas horas mais tarde do que de costume. Assim que senti o perfume que vinha do corpo dele, perdi completamente o controle e comecei a puxar seu cinto com toda a força. — Da última vez que você chegou meia hora atrasado, foi porque dormiu com outra mulher! Hoje você atrasou duas horas inteiras. Fala! Quantas foram desta vez? Quatro? Depois de me pedir desculpas pela vigésima nona vez e ser empurrado para longe mais uma vez, ele finalmente ergueu a mão ainda marcada pela agulha da injeção intravenosa, por onde o sangue havia refluído pelo cateter, e explodiu, gritando comigo em completo desespero. — Chega! Eu estou com uma febre altíssima, quase morrendo, e você nem sequer perguntou como eu estou! Todos os dias é a mesma crise. Isso nunca vai acabar? Eu só dormi com outra pessoa uma única vez porque estava bêbado! E você? Acha mesmo que é tão inocente assim? Não foi por acaso que, aos dezesseis anos, arrastaram você para um beco e a despiram para humilhá-la! Amanda Rocha, uma mulher paranoica e desequilibrada como você merece exatamente isso! O borrifador caiu no chão e se despedaçou aos meus pés. O cheiro forte do álcool queimou minha garganta, impedindo que eu conseguisse dizer qualquer palavra. Ao encarar o olhar carregado de impaciência e desprezo dele, senti apenas um cansaço profundo. Talvez fosse melhor assim. Eu já não queria mais insistir em um relacionamento que há muito tempo estava completamente destruído.
View MoreVirei a cabeça. Era Henrique. Depois de tantos anos sem vê-lo, ele parecia ter envelhecido muito. Havia rugas profundas nos cantos dos olhos, e boa parte dos cabelos já estava grisalha. Ele se apoiava em uma bengala de metal, e a perna direita parecia um pouco rígida.Parado ali, ele me olhava com uma inquietação evidente e uma amargura que não conseguia disfarçar.— Há quanto tempo.Eu não desviei o olhar. Apenas assenti, com calma.— Há quanto tempo.O ar pareceu ficar pesado. Os dedos dele, cerrados em torno da bengala, estavam brancos de tanta força.— Eu... Fui transferido para cá, para assumir um cargo administrativo. — Disse ele, com a voz levemente trêmula. — Você... Você está bem?— Estou. — Respondi.Ele mexeu os lábios, como se ainda quisesse perguntar alguma coisa.— Mamãe!Uma figurinha pequena saiu correndo da área de brinquedos e se jogou nos meus braços.Minha filha ergueu o rosto, segurando um ursinho que havia conseguido em uma máquina de pegar pelúcias. Seus olhos br
Era Juliana. Usava um casaco velho, desbotado de tanto lavar. Os cabelos estavam desgrenhados, e o rosto pálido. Não havia mais sinal da mulher refinada e ostentosa de seis meses antes.Ao me ver, ela simplesmente caiu de joelhos diante de mim, no meio da rua, na frente de todos.Colegas que saíam do trabalho e pedestres ao redor pararam, curiosos, voltando os olhos para nós.— Amanda! Eu imploro, me salve!Ela chorava aos gritos e estendeu a mão para agarrar a barra da minha calça, mas eu dei um passo para trás e me esquivei.— Henrique nos abandonou. Ele entregou todo o dinheiro a você! A insuficiência renal da Sra. Helena piorou, ela está na UTI agora, e cada dia lá custa uma fortuna! — Ela soluçava, com o rosto coberto de lágrimas e muco, parecendo absolutamente miserável. — Carlos também está doente. Amanda, eu sei que esse dinheiro está com você. Você é tão bondosa... Nem que seja pelo fato de a Sra. Helena ter cuidado de você no passado, me dê uma esmola! Caso contrário, nós rea
Ele parou a três passos de mim, sem coragem de se aproximar mais.Eu o encarei com uma expressão serena.— Você já leu o acordo de divórcio? Se não houver nenhum problema, assine. Se tiver alguma exigência, trate com o meu advogado.— Eu não vou assinar! — Ele me olhou, aflito. — Amanda, não me abandone. Eu admito que, nesses últimos seis meses, errei em muitas coisas. Mas aquelas palavras que a Juliana disse que eu falei... Eu nunca disse nada daquilo! Eu conferi as imagens das câmeras. Na noite em que aquilo aconteceu entre nós, foi porque ela me drogou...Ele me encarava, com a voz carregada de súplica.— Amanda, eu fui enganado. Do começo ao fim, só existe você no meu coração.Uma rajada de vento passou, levantando as folhas secas do chão.Escutei sua confissão em silêncio, sentindo apenas uma vontade amarga de rir.— Você terminou?Ele ficou atordoado por um instante e assentiu, perdido.— Henrique. — Minha voz se dispersou um pouco no vento frio. — Você acha mesmo que, se provar
A porta se fechou, e Henrique voltou para perto da minha cama.— Amanda, me desculpe. Eu não sabia que minha mãe diria uma coisa dessas. Não vou deixar que elas venham incomodar você de novo. Vamos recomeçar do zero. Daqui para a frente, eu vou fazer tudo do seu jeito, está bem?Havia quase uma súplica em sua voz.Baixei os olhos com indiferença e não voltei a encará-lo.— Henrique, assine o acordo de divórcio.Atrás de mim, ouvi sua respiração travar.— Eu não vou assinar. — A voz dele tremia. — Não aceito o divórcio. Pelo que aconteceu com o nosso filho, eu devo isso a você. Vou passar o resto da vida compensando. Você não está bem agora, precisa de alguém que cuide de você.— Eu não preciso de você.Tateei debaixo do travesseiro, peguei o celular e liguei para uma agência de cuidadores. Contratei uma cuidadora para ficar comigo em tempo integral.Henrique permaneceu ali o tempo todo, observando. Quando desliguei, só então ele falou, com a voz rouca:— Está bem. Não vou deixar você i












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