Share

O Vínculo de Sangue que Rompemos
O Vínculo de Sangue que Rompemos
Author: Seven Seas

Capítulo 1

Author: Seven Seas
Em sete dias, o vínculo de sangue entre Caelan e mim finalmente seria rompido.

Quando esse dia chegasse, eu poderia enfim deixar o castelo que me manteve prisioneira por cinco anos.

Assim que empurrei as portas do salão de banquetes, todos se calaram por um instante. Logo depois, os olhares se voltaram para mim, carregados de piedade, deboche e diversão.

Baixei os olhos para minhas roupas. Eu havia concluído meu estágio no hospital poucos minutos antes, e o leve cheiro de desinfetante ainda estava impregnado no tecido.

Na outra ponta da longa mesa, Isolde Voss estava sentada ao lado de Caelan.

Cabelos prateados, lábios vermelhos e um vestido de veludo preto. Bastava vê-la sentada ali para saber que ela pertencia totalmente àquele mundo.

Desde que entrei, Caelan não desviou os olhos dela nem uma única vez.

— Então o Príncipe finalmente trouxe sua verdadeira noiva de volta.

— Essa Claire não passava de uma fonte de sangue humana. Será que ela realmente achou que era a dona do castelo?

— Ouvi dizer que ela era apenas uma estudante pobre de uma faculdade de Medicina do mundo humano.

Risadas abafadas se espalharam pelo salão, mas permaneci em silêncio.

Ela era a noiva. E eu? O que eu era, afinal?

Nada além da fonte de sangue à qual ele recorria sempre que queria se alimentar.

Isolde girou delicadamente a taça, fazendo o líquido carmesim ondular lentamente em seu interior. No instante seguinte, ergueu-a diretamente até os lábios de Caelan.

O salão mergulhou em silêncio. Até minha respiração parou por um momento.

Durante aqueles cinco anos, Caelan jamais permitiu que outra pessoa tocasse no sangue que ele consumia. Ele detestava até mesmo beber em taças.

Sempre que se alimentava, fazia questão de cravar as presas diretamente no meu pulso. Quando elas perfuravam minha pele, um formigamento se espalhava pelo meu braço. E toda vez que ele abaixava a cabeça para sugar o sangue da ferida, meu corpo tremia sem que eu conseguisse controlar.

Mas agora, aquele homem que sempre se mostrava quase obsessivo com esses detalhes abaixou a cabeça e bebeu o sangue oferecido pela mão de outra mulher.

O gesto pareceu natural e espontâneo, como se aquilo já fosse um hábito entre os dois.

Então aquilo nunca foi obsessão. Eu só era conveniente.

— Claire, venha até aqui. — Caelan finalmente olhou para mim, mantendo a voz indiferente.

Como se chamasse o animal de estimação que criava havia anos.

Caminhei até ele, e Caelan pousou a taça sobre a mesa.

— Afinal, o que era aquele documento que você me pediu para assinar ontem?

Meu coração se apertou imediatamente.

— Era uma autorização de viagem para um programa de intercâmbio na área médica.

Seu olhar ficou preso ao meu por um breve instante.

— Quero ver.

Meus dedos se fecharam devagar enquanto eu levava a mão à bolsa. Naquele momento, porém, Isolde soltou uma leve tosse.

A atenção de Caelan se afastou de mim na mesma hora.

— O que houve? — Ele se virou imediatamente para ela e abaixou o tom de voz.

— Não foi nada. — Isolde balançou a cabeça com delicadeza.

Caelan franziu a testa e murmurou mais algumas palavras para ela antes de finalmente voltar a me encarar. Sua expressão, no entanto, já tinha recuperado a indiferença habitual.

— Não volte a me interromper durante um banquete por causa de uma coisa tão insignificante.

Alguém próximo a nós sussurrou:

— Bastou Isolde tossir uma vez para o Príncipe ficar preocupado.

— Ela é só uma humana. O Príncipe já estava sendo generoso demais com a própria fonte de sangue.

Caelan não desmentiu nenhum deles.

Bastou Isolde demonstrar o menor desconforto para que ele perdesse até mesmo a vontade de confirmar se eu realmente pretendia deixá-lo.

Cinco anos antes, eu era apenas uma caloura em uma faculdade de Medicina do mundo humano.

Naquela noite, faltou energia no campus. Eu descia as escadas carregando uma pilha de papéis quando alguns vampiros de baixo escalão me encurralaram no corredor.

Achei que morreria ali.

De repente, todo o corredor ficou em silêncio. Os vampiros pareceram sentir a presença de algo aterrorizante e se ajoelharam, um após o outro, tomados pelo medo.

No fim do corredor escuro, Caelan avançou lentamente, mantendo os olhos fixos em mim.

Foi naquela noite que ele sentiu o cheiro do meu sangue pela primeira vez.

Mais tarde, descobri que meu sangue era de um tipo extremamente raro, quase irresistível para um príncipe puro-sangue tão exigente quanto ele.

Na primeira vez em que Caelan mordeu minha pele, até sua respiração perdeu o ritmo. E, por algum motivo, bastou senti-lo tão perto para que todas as forças abandonassem meu corpo.

Durante muito tempo, acreditei cegamente que, sempre que Caelan se aproximava de mim, queria algo além do meu sangue.

Só quando Isolde voltou eu finalmente compreendi a verdade: ele não precisava de mim, e sim do que corria em minhas veias.

Uma coisa não tinha nada a ver com a outra, mas passei cinco anos fingindo que tinha.

— Caelan. O castelo já começou os preparativos para a cerimônia de noivado. — Isolde se encostou delicadamente nele.

As pessoas ao redor se apressaram em concordar.

— As famílias Vale e Voss sempre estiveram destinadas a se unir.

Caelan abaixou a cabeça e ajeitou a alça que escorregava do ombro de Isolde. Seus dedos deslizaram suavemente pela pele dela.

Vi o discreto movimento em sua garganta quando ela engoliu em seco.

Meu peito ficou pesado, e tudo o que eu poderia ter dito simplesmente se desfez dentro de mim.

— E aquele programa de intercâmbio que você mencionou? Quando seria a viagem? — Caelan perguntou de repente, voltando os olhos para mim.

Antes que eu pudesse responder, Isolde colocou a mão sobre a dele.

— É só um programinha. Não me diga que você estava mesmo preocupado com a possibilidade de ela deixar você. — Disse ela com suavidade.

Caelan soltou uma risada baixa e não voltou a perguntar.

"Claro. Para ele, eu sempre seria a humana que esperava pacientemente que ele abaixasse a cabeça e bebesse diretamente de minhas veias."

Mas Caelan não sabia que, em sete dias, eu iria embora para sempre.

Deixaria o Castelo Vale, voltaria ao mundo humano e seria Claire Hartwell outra vez, em vez de continuar existindo apenas como a fonte de sangue de Caelan Vale.
Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • O Vínculo de Sangue que Rompemos   Capítulo 10

    Voltei para o Castelo Vale.Enquanto percorria o corredor, os criados baixavam a cabeça, um após o outro.— Minha Senhora.— Minha Senhora.— Minha Senhora.A saudação se espalhou pelo corredor.Cinco anos atrás, quando caminhei por ali pela primeira vez, eles me chamavam de outras coisas.Humana. Fonte de sangue. A humana que seguia o Príncipe.Agora, o castelo inteiro sabia que eu carregava no ventre o único filho do Príncipe.A ironia daquilo não me escapava.Caelan estava parado no fim do corredor.— Esta criança é a única herdeira da família Vale. Puro-sangue ou meio-sangue, não faz diferença.Olhei para ele estranhamente calma.Ele só dizia aquilo porque aquela criança era dele. Mas e se não fosse? Se eu não estivesse grávida, ele teria ido ao Rio me procurar? Teria cancelado a cerimônia de noivado?Teria dormido no chão? Teria aprendido a pedir desculpas pela primeira vez na vida?Eu não sabia. E não tinha coragem de apostar outra vez.Naquela noite, eu me senti

  • O Vínculo de Sangue que Rompemos   Capítulo 9

    O sol começava a se pôr. Caelan estava parado no corredor, observando-me.— Claire... — Ele hesitou.— Acha mesmo que, para mim, você não passava de uma fonte de sangue?Baixei a cabeça e organizei os papéis dentro da bolsa.— Isso já não importa.— Para mim, importa.Não respondi.Virei-me e subi as escadas. Porque agora, qualquer que fosse a resposta, ela não seria capaz de mudar aqueles cinco anos.Naquela noite, a campainha tocou.Abri a porta.Caelan estava do lado de fora, com uma mala na mão.— Claire, posso ficar aqui?— Não.Comecei a fechar a porta, mas uma mão me impediu.Então, de repente, os donos do apartamento surgiram atrás de mim.— Claire. — A proprietária estava com uma expressão extremamente séria. — Gestações de meio-sangue são instáveis. É melhor que o pai fique por perto.Olhei para os dois.— Ele é um Príncipe vampiro, não um obstetra.O marido dela assentiu solenemente.— Mesmo assim, pode servir de motorista. Você deveria pensar no bebê.

  • O Vínculo de Sangue que Rompemos   Capítulo 8

    De manhã cedo diante do meu prédio, o mesmo carro preto estava estacionado ali havia três dias.Saí do prédio e então o vidro baixou.— Entre.— Não.— A faculdade de medicina fica a quarenta minutos daqui.— Eu sei.— Vai chover.— Trouxe um guarda-chuva.Silêncio.Ele me encarou. Depois saiu do carro e abriu a porta do passageiro.— Claire. Entre.— Não.No segundo seguinte, ele me ergueu nos braços.— Caelan!— Você vai se atrasar.— Me ponha no chão!— Não.A porta bateu e a trava eletrônica se fechou com um clique.Bati no vidro com a palma da mão, frustrada.— Abra a porta!Caelan ligou o motor com a maior calma do mundo.— O Rio não é seguro.— Uma mulher grávida não deveria andar de táxi sozinha.— Isso não é da sua conta!Caelan me encarou.Por um segundo, pareceu prestes a retrucar, mas então se conteve.— Antes, você nunca me dizia não.— Isso foi antes.Dez minutos depois.— Encoste.Ele pisou no freio na mesma hora.— O que houve?Levei uma

  • O Vínculo de Sangue que Rompemos   Capítulo 7

    — O que você acabou de dizer?Caelan ergueu os olhos bruscamente.Isolde estava sentada diante dele, visivelmente nervosa. Não ousava dizer nada.Caelan a encarou.— Por que Claire achava que seu filho era meu?O ar pareceu congelar.Isolde começou a puxar nervosamente a barra da manga.Depois de um longo silêncio, finalmente reuniu coragem para responder:— Caelan, todo mundo pensava isso.— Pare de fazer rodeios. Estou perguntando a você. — Ele não desviou os olhos dela.O ambiente ficou ainda mais tenso.Por fim, Isolde baixou os olhos.— É verdade. Nunca a corrigi.Ela hesitou.— E, às vezes... eu a deixava entender isso de propósito.A expressão de Caelan foi escurecendo pouco a pouco.— Por quê?Isolde permaneceu em silêncio por um longo tempo antes de responder:— Porque eu não queria perder você.Sua mão pousou delicadamente sobre o ventre.— Quando Ethan morreu, você fez uma promessa a ele.Sua voz não passava de um sussurro.— Prometeu que cuidaria de mi

  • O Vínculo de Sangue que Rompemos   Capítulo 6

    Caelan cancelou a cerimônia de noivado. No mesmo dia, o mundo vampírico inteiro foi tomado por rumores.Membros da família Voss foram ao castelo três vezes antes do pôr do sol, os corredores fervilhavam de conversas em voz baixa.Caelan não recebeu ninguém. Disse apenas uma frase:— Continuem procurando.Caelan foi até meu quarto, mas já estava vazio.Minhas roupas haviam desaparecido, e os meus livros também.Até as fotografias tinham sumido. Era como se eu jamais tivesse existido naquele lugar.Parado no centro do quarto, Caelan sentiu uma inquietação que nunca havia experimentado.Ele abriu o guarda-roupa, e uma caixa de papelão coberta de poeira despencou lá de dentro. Havia pilhas de documentos amarelados pelo tempo.A primeira coisa que viu foi um diploma.Claire Hartwell. Formanda de destaque.Caelan continuou folheando os documentos.Convites para congressos acadêmicos. Ofertas de bolsas de pesquisa. Cartas de admissão em programas de intercâmbio.Paris. Zurique. T

  • O Vínculo de Sangue que Rompemos   Capítulo 5

    O embarque do meu voo para o Rio havia começado.Olhei para o celular uma última vez mas não havia nenhuma mensagem ou ligação. E, como era de esperar, nada de Caelan.O anúncio ecoou pelo terminal:— Passageiros do voo 742 com destino ao Rio de Janeiro, o embarque está aberto.Levantei-me. Mas, de repente, uma onda de náusea revirou meu estômago. Levei a mão à boca e corri para o banheiro.Dentro de uma das cabines, as ânsias violentas quase me impediram de continuar em pé.A mulher refletida no espelho mal se parecia comigo.Ainda assim, minha mão pousou instintivamente sobre o ventre.— Me desculpe. A mamãe ainda está se acostumando com tudo isso. — Fechei os olhos devagar.Era a primeira vez que eu me chamava daquela forma, e também a primeira vez que realmente percebia que meu futuro já não pertencia apenas a mim.Enquanto isso, no Castelo Vale, uma atmosfera glacial tomava conta do salão principal. Todos os criados estavam ajoelhados, sem ousar erguer a cabeça. De repen

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status