FAZER LOGINO elevador desceu em silêncio por alguns segundos, um silêncio que parecia mais pesado do que deveria.
Júlia ficou de frente para o painel de botões, mas eu via, pelo reflexo do metal escovado, o jeito como os olhos dela deslizavam de Lucas para mim e voltavam para Lucas, rápido demais para ser inocente. Ele, por sua vez, olhava fixo para o número dos andares descendo, as mãos enfiadas nos bolsos, e eu senti algo estranho no ar, uma tensão que eu não sabia explicar, só sentir.
— Angélica, que anel lindo — disse Júlia de repente, com aquela voz suave, quase infantil, os olhos grudados na minha mão esquerda. — Deve ter custado bem caro, né? O Lucas tem bom gosto.
— Foi ele quem escolheu — respondi, sorrindo, mantendo a educação de sempre, mesmo sentindo alguma coisa por trás daquelas palavras que não me soava como elogio. Havia um desprezo fininho escondido no tom dela, do tipo que só outra mulher percebe.
— Que sortuda você — ela sorriu de volta, um sorriso perfeito demais, e desceu no andar seguinte sem dizer mais nada, deixando atrás de si um perfume doce e enjoativo.
Assim que as portas se fecharam, olhei para Lucas, ainda intrigada com aquele desconforto, mas ele já estava de novo no celular, alheio, como se nada tivesse acontecido.
Chegamos ao estacionamento, e ele destravou o carro, mas parou de repente, batendo a mão na testa.
— Ai, esqueci uma coisa lá em cima. Espera aqui, já volto.
— Quer que eu vá com você?
— Não precisa, é rapidinho.
Fiquei encostada no carro por uns bons dez minutos, olhando o celular, checando e-mails do trabalho para distrair o tempo. Quando ele voltou, andando rápido, ajeitando a gola da camisa, reparei em algo estranho: a boca dele estava um pouco vermelha, um vermelho avermelhado demais para ser natural, quase como se tivesse acabado de comer alguma coisa ou passado batom sem querer em algum lugar.
— O que aconteceu na sua boca?
— Nada, Angel — ele riu, entrando no carro, ligando o motor.
Eu quis insistir, quis perguntar de novo, mas alguma coisa em mim, cansada demais para brigar, cansada demais para desconfiar, deixou aquilo passar. Fiquei calada o caminho todo até em casa, olhando pela janela, sentindo um incômodo que eu não conseguia nomear.
No dia seguinte, o escritório estava em polvorosa.
Josué, o dono da empresa, um homem de sessenta e cinco anos, cabelos grisalhos impecavelmente penteados e um porte que impunha respeito só de entrar na sala, reuniu toda a equipe de projetos no auditório do décimo segundo andar. Ao lado dele, de terno azul-marinho, estava Antônio.
— Bom dia a todos — começou Josué, com aquele sorriso orgulhoso de pai que eu reconheceria em qualquer lugar. — Muitos de vocês já devem ter ouvido rumores, então vou direto ao ponto. Este é meu filho, Antônio. Ele estará conosco aqui em São Paulo pelas próximas semanas, acompanhando de perto o projeto de Alphaville junto com a equipe da Angélica.
Um murmúrio baixo tomou conta da sala. Ao meu lado, Renata cutucou meu braço, sussurrando:
— Meu Deus, esse homem devia ser proibido por lei.
— Concordo plenamente — sussurrou outra colega, do outro lado.
Eu segurei o riso, lembrando do apelido que tinha dado a ele por dentro, ainda achando graça daquele encontrão do dia anterior. Trator. Ele continuava parecendo exatamente aquilo, um trator bonito demais, arrasando com tudo que encontrava pela frente sem pedir licença.
Foi então que percebi que ele estava olhando para mim.
Não foi um olhar rápido, casual, do tipo que se dá sem querer. Foi um olhar direto, fixo, que durou segundos demais para ser confortável, e que só se desviou quando Josué terminou a apresentação e pediu que todos voltassem ao trabalho.
A manhã inteira, Antônio circulou pela sala de projetos, revisando plantas, questionando prazos, fazendo perguntas técnicas que pegavam alguns colegas de surpresa. Quando chegou até minha mesa, cruzou os braços, olhando para o render que eu tinha acabado de finalizar.
— Essa inclinação do telhado verde. Você calculou o peso da estrutura de sustentação ou só achou bonito?
— Calculei, sim — respondi, mantendo o tom firme. — E se você tivesse lido o memorial descritivo que já está anexado ao projeto, saberia disso sem precisar perguntar.
Ele arqueou uma sobrancelha, quase surpreso, e por um segundo achei que tinha ido longe demais. Mas então ele deu um meio sorriso, o primeiro que eu via nele, e seguiu andando sem responder, como se aquilo tivesse sido, de alguma forma estranha, engraçado para ele.
Do outro lado da sala, vi Lucas se aproximando dele com um copo de café fumegante nas mãos.
— Antônio, trouxe um café pra você. Expresso, sem açúcar, do jeito que os executivos gostam — disse ele, com aquele sorriso ensaiado que eu conhecia bem demais.
— Não bebo café depois das dez — respondeu Antônio, seco, sem sequer olhar para o copo.
Lucas ficou parado ali por um segundo, sem graça, antes de forçar uma risada e recolher o copo, murmurando algo sobre "só estar sendo gentil". Eu senti o rosto esquentar de vergonha alheia, aquele tipo de constrangimento que só quem observa de fora consegue sentir com tanta clareza. Foi a primeira vez que reparei, de verdade, como ele parecia sempre em busca de uma plateia, como cada gesto dele carregava um pingo a mais de teatro do que o necessário, como se a intenção nunca fosse só ser gentil, mas ser visto sendo gentil.
Encarei aquele homem que um dia jurou me amar até a morte, e quase cumpriu a promessa ao pé da letra, e senti, pela primeira vez desde que voltei dos mortos, que era eu quem segurava as rédeas daquela história. Não era mais a noiva ingênua que ele afogou num lago. Era a mulher que ressuscitou pra vê-lo se afogar na própria culpa.— Precisamos conversar — repetiu, dessa vez sem nenhuma interrupção pra impedir.— Já disse que não temos nada pra conversar — respondi, tentando passar por ele, mas ele deu um passo lateral, bloqueando parcialmente minha passagem.— Angel, por favor — a voz dele quebrou de um jeito que, meses atrás, teria me derrubado. Agora, só me deixou mais irritada. — Eu sei que fiz coisas erradas, mas você precisa entender que eu também sofri com tudo isso.Ri, uma risada seca, sem nenhum humor por trás, sentindo o sangue começar a ferver dentro de mim.— Você sofreu?! — repeti, incrédula, a voz subindo mais do que eu pretendia. — Você me traiu durante meses, mentiu na
Andei até a frente do salão com passos firmes, cada um deles calculado pra parecer mais seguro do que eu realmente estava por dentro. Cumprimentei Josué primeiro, um abraço rápido e caloroso, que me entregou o microfone antes de dar um passo pro lado. Antônio, que tinha descido do palco minutos antes e ficado discretamente ao meu lado desde então, se aproximou também, o aperto de mão dele profissional demais pra combinar com o jeito como os olhos brilhavam de orgulho disfarçado, e ficou parado ali perto, um apoio silencioso bem na minha frente enquanto eu me virava pra encarar a plateia.Virei de frente pra plateia.O salão inteiro me observava, um silêncio expectante pairando no ar, e foi então que comecei a reconhecer os rostos ali na frente. Renata, boquiaberta, a taça esquecida na mão. Colegas antigos de arquitetura, cochichando entre si, tentando entender como eu tinha ressuscitado bem debaixo do nariz deles sem que ninguém soubesse. E, mais ao fundo, perto do bar, Júlia.Pálida.
Assim que o carro entrou na garagem da empresa, mandei mensagem pro Antônio, o coração acelerando de novo, mas por um motivo bem diferente do de mais cedo.Ele já estava me esperando perto do elevador quando desci, e assim que me viu, parou completamente no meio do próprio movimento, os olhos percorrendo cada detalhe, devagar, sem nenhuma pressa de disfarçar.— Fecha a boca — provoquei, sentindo o efeito que estava causando e adorando cada segundo disso.— Que convencida — ele retrucou, se recompondo rápido demais pra ser convincente, os olhos ainda presos em mim. — Só estou tentando entender como a mulher de pijama e cabelo bagunçado de hoje de manhã virou isso aqui em poucas horas. Começo a pensar que talvez valesse a pena te apresentar como noiva logo hoje, só pra garantir que ninguém mais tenha a louca ideia de se aproximar de você depois dessa entrada.— Exagerado.— Realista — ele corrigiu, se aproximando mais do que o necessário, a voz baixando um tom. — Você está perigosa hoje
Acordei antes mesmo do despertador tocar, o coração já disparado como se meu corpo tivesse decidido, sozinho, que aquele não era um dia como os outros.Fiquei deitada por um bom tempo, olhando pro teto, repassando cada detalhe do que ia acontecer horas depois. O happy hour era só às seis da tarde, mas meu corpo parecia não ter recebido esse recado, porque já estava ali, alerta, tenso, como se o relógio tivesse pulado direto pra hora do confronto sem me avisar.Desci pra cozinha ainda de pijama, o cabelo preso de qualquer jeito, sem nenhuma vontade de fingir que estava tudo bem. Antônio já estava sentado à mesa, terno impecável de sempre, lendo alguma coisa no celular, e assim que ergueu os olhos pra mim, percebeu na hora que aquele não era um dia de brincadeiras fáceis.— Bom dia — falei, baixo, sentando de frente pra ele e puxando a xícara de café que Dona Rosa já tinha deixado pronta.— Bom dia — respondeu, observando meu rosto com atenção, aquele jeito dele de decifrar as coisas se
Assim que chegamos ao prédio da cliente, as recepcionistas se atropelaram educadamente na hora de cumprimentar Antônio, sorrisos largos demais, elogios sobre o terno, uma delas até se oferecendo pra buscar café "especialmente pra ele". Fiquei parada ali, sentindo um ciúme quente e irracional subir pela espinha, encarando cada uma delas com um olhar que definitivamente não era nem um pouco discreto.Antônio, claro, percebeu tudo, e não fez absolutamente nada pra disfarçar o quanto estava adorando aquela situação, um meio sorriso convencido brincando nos lábios o tempo inteiro que durou aquele desfile de gentilezas.— Tadinhas — sussurrei pra ele, assim que as recepcionistas se afastaram. — Mal sabem a personalidade ruim que você tem.— Que foi, amorzinho? — sussurrou, a boca perigosamente perto do meu ouvido, a voz rouca o suficiente pra me arrepiar inteira. — Tá com ciúmes?Ele riu de novo, satisfeito com o próprio efeito, e eu, revoltada com a própria reação corporal, não consegui ar
Terça-feira, dia da entrega oficial do Alphaville. Tínhamos cadastrado os arquivos no Autodoc ainda na noite anterior, mas hoje era o dia da apresentação de verdade, cara a cara com a cliente. Só que, em vez de estar pensando no projeto, ali estava eu, sentada no estacionamento da empresa, o mesmo prédio onde eu trabalhava até pouco tempo atrás, com um medo besta de que alguém conhecido passasse ali por perto e me reconhecesse antes da hora, esperando Antônio descer com Bruna, sentindo um frio esquisito na barriga só de estar tão perto daquele prédio de novo, mesmo protegida pelos vidros escuros do carro.Fiquei pensando no que o Lucas e a Júlia iriam fazer depois de me verem, na quinta-feira, viva, de volta, de mãos dadas com o poder no cargo que o Lucas sempre sonhou em ter. Medo, com certeza iam sentir. Mas o que eles fariam a partir desse medo, isso eu não fazia a menor ideia, e aquilo me apertava o peito de um jeito que eu preferia não examinar demais.Outro pensamento, esse eu t







