Share

Capítulo 2

Author: A. OLIVEIRA
last update Petsa ng paglalathala: 2026-08-06 05:01:56

O elevador desceu em silêncio por alguns segundos, um silêncio que parecia mais pesado do que deveria. 

Júlia ficou de frente para o painel de botões, mas eu via, pelo reflexo do metal escovado, o jeito como os olhos dela deslizavam de Lucas para mim e voltavam para Lucas, rápido demais para ser inocente. Ele, por sua vez, olhava fixo para o número dos andares descendo, as mãos enfiadas nos bolsos, e eu senti algo estranho no ar, uma tensão que eu não sabia explicar, só sentir. 

— Angélica, que anel lindo — disse Júlia de repente, com aquela voz suave, quase infantil, os olhos grudados na minha mão esquerda. — Deve ter custado bem caro, né? O Lucas tem bom gosto. 

— Foi ele quem escolheu — respondi, sorrindo, mantendo a educação de sempre, mesmo sentindo alguma coisa por trás daquelas palavras que não me soava como elogio. Havia um desprezo fininho escondido no tom dela, do tipo que só outra mulher percebe. 

— Que sortuda você — ela sorriu de volta, um sorriso perfeito demais, e desceu no andar seguinte sem dizer mais nada, deixando atrás de si um perfume doce e enjoativo. 

Assim que as portas se fecharam, olhei para Lucas, ainda intrigada com aquele desconforto, mas ele já estava de novo no celular, alheio, como se nada tivesse acontecido. 

Chegamos ao estacionamento, e ele destravou o carro, mas parou de repente, batendo a mão na testa. 

— Ai, esqueci uma coisa lá em cima. Espera aqui, já volto. 

— Quer que eu vá com você? 

— Não precisa, é rapidinho. 

Fiquei encostada no carro por uns bons dez minutos, olhando o celular, checando e-mails do trabalho para distrair o tempo. Quando ele voltou, andando rápido, ajeitando a gola da camisa, reparei em algo estranho: a boca dele estava um pouco vermelha, um vermelho avermelhado demais para ser natural, quase como se tivesse acabado de comer alguma coisa ou passado batom sem querer em algum lugar. 

— O que aconteceu na sua boca? 

— Nada, Angel — ele riu, entrando no carro, ligando o motor. 

Eu quis insistir, quis perguntar de novo, mas alguma coisa em mim, cansada demais para brigar, cansada demais para desconfiar, deixou aquilo passar. Fiquei calada o caminho todo até em casa, olhando pela janela, sentindo um incômodo que eu não conseguia nomear. 

No dia seguinte, o escritório estava em polvorosa. 

Josué, o dono da empresa, um homem de sessenta e cinco anos, cabelos grisalhos impecavelmente penteados e um porte que impunha respeito só de entrar na sala, reuniu toda a equipe de projetos no auditório do décimo segundo andar. Ao lado dele, de terno azul-marinho, estava Antônio. 

— Bom dia a todos — começou Josué, com aquele sorriso orgulhoso de pai que eu reconheceria em qualquer lugar. — Muitos de vocês já devem ter ouvido rumores, então vou direto ao ponto. Este é meu filho, Antônio. Ele estará conosco aqui em São Paulo pelas próximas semanas, acompanhando de perto o projeto de Alphaville junto com a equipe da Angélica. 

Um murmúrio baixo tomou conta da sala. Ao meu lado, Renata cutucou meu braço, sussurrando: 

— Meu Deus, esse homem devia ser proibido por lei. 

— Concordo plenamente — sussurrou outra colega, do outro lado. 

Eu segurei o riso, lembrando do apelido que tinha dado a ele por dentro, ainda achando graça daquele encontrão do dia anterior. Trator. Ele continuava parecendo exatamente aquilo, um trator bonito demais, arrasando com tudo que encontrava pela frente sem pedir licença. 

Foi então que percebi que ele estava olhando para mim. 

Não foi um olhar rápido, casual, do tipo que se dá sem querer. Foi um olhar direto, fixo, que durou segundos demais para ser confortável, e que só se desviou quando Josué terminou a apresentação e pediu que todos voltassem ao trabalho. 

A manhã inteira, Antônio circulou pela sala de projetos, revisando plantas, questionando prazos, fazendo perguntas técnicas que pegavam alguns colegas de surpresa. Quando chegou até minha mesa, cruzou os braços, olhando para o render que eu tinha acabado de finalizar. 

— Essa inclinação do telhado verde. Você calculou o peso da estrutura de sustentação ou só achou bonito? 

— Calculei, sim — respondi, mantendo o tom firme. — E se você tivesse lido o memorial descritivo que já está anexado ao projeto, saberia disso sem precisar perguntar. 

Ele arqueou uma sobrancelha, quase surpreso, e por um segundo achei que tinha ido longe demais. Mas então ele deu um meio sorriso, o primeiro que eu via nele, e seguiu andando sem responder, como se aquilo tivesse sido, de alguma forma estranha, engraçado para ele. 

Do outro lado da sala, vi Lucas se aproximando dele com um copo de café fumegante nas mãos. 

— Antônio, trouxe um café pra você. Expresso, sem açúcar, do jeito que os executivos gostam — disse ele, com aquele sorriso ensaiado que eu conhecia bem demais. 

— Não bebo café depois das dez — respondeu Antônio, seco, sem sequer olhar para o copo. 

Lucas ficou parado ali por um segundo, sem graça, antes de forçar uma risada e recolher o copo, murmurando algo sobre "só estar sendo gentil". Eu senti o rosto esquentar de vergonha alheia, aquele tipo de constrangimento que só quem observa de fora consegue sentir com tanta clareza. Foi a primeira vez que reparei, de verdade, como ele parecia sempre em busca de uma plateia, como cada gesto dele carregava um pingo a mais de teatro do que o necessário, como se a intenção nunca fosse só ser gentil, mas ser visto sendo gentil.

Patuloy na basahin ang aklat na ito nang libre
I-scan ang code upang i-download ang App

Pinakabagong kabanata

  • O acordo perfeito   Capítulo 98

    — Terra chamando Angélica!Renata estalou os dedos na frente do meu rosto, e eu pisquei, voltando pra copa, pro cheiro de café requentado e pro sorriso enorme que ela segurava com muito custo.— Desculpa. Eu estava pensando.— Deu pra perceber. Você fez uma cara de assassina de filme. — Ela olhou pros lados, conferiu que a copa estava vazia e se aproximou de mim, falando baixinho, quase colada no meu ombro. — Mas, por falar em bofe, tem uma coisa que eu e as meninas estamos querendo saber desde cedo.— Que coisa?Ela apontou o queixo pra minha mão esquerda. Eu nem tinha reparado que segurava a xícara de um jeito que deixava o anel exposto, brilhando sob a luz branca da copa.— Esse anel que você começou a usar. Não me diga... — Renata levou as duas mãos à boca, e a voz, que tentava continuar baixa, saiu num sussurro agudo, empolgadíssima. — NÃO ME DIGA!Eu ri. Ri tanto que precisei apoiar a xícara na bancada.— Renata, eu não vou falar nada agora.— COMO NÃO? — sussurrou ela, com os o

  • O acordo perfeito   Capítulo 97

    Cheguei cedo na empresa, com os olhos pesados e um bocejo que insistia em escapar toda vez que eu relaxava o maxilar.Eu tinha dormido três horas. A culpa tinha nome, sobrenome e um sorriso safado que, naquela manhã, eu preferi não encarar sobre a mesa do café. Aquela pergunta, "o que vai ser de nós?", ficou no ar no meio da madrugada, sem resposta, repetida em silêncio por dois adultos que tinham medo demais da própria resposta. Saí de casa antes dele acordar, deixando só um bilhete no travesseiro e um beijo na testa que ele provavelmente nem sentiu.Bocejei de novo, no elevador, e pensei, rindo sozinha: "Sabia que o Antônio não ia me deixar dormir."Às dez em ponto, sentei na cabeceira da sala de reuniões, com a pasta aberta, o café na mão e a postura de quem não tinha nenhuma dúvida sobre quem mandava naquele andar. Lucas chegou primeiro, o terno meio amassado, o olhar de quem não dormiu também, mas por motivos bem diferentes. Atrás dele, Patrícia Moura, a líder de interiores, uma

  • O acordo perfeito   Capítulo 96

    A encomenda chegou no fim da tarde, num envelope pardo sem identificação: um gravador do tamanho de um pendrive, desses que parecem carregador de celular. Testei três vezes no banheiro da empresa, gravei a minha própria voz sussurrando "Lucas é um péssimo profissional", ri sozinha e escondi o aparelho no fundo da gaveta da minha sala, pronto pra funcionar. Eu não ia gastar bala à toa. Mas, quando chegasse a hora, a arma estava carregada.Jantei com o Antônio na cozinha, os dois de pé, comendo o que a Dona Rosa deixou no forno e conversando sobre trivialidades com a leveza de quem finge que o resto do mundo não existe. Ele me contou de uma reunião de acionistas, eu contei do olhar do Lucas no elevador, e rimos juntos, e foi tão bom que, por uns minutos, eu me esqueci de ter medo.À noite, eu estava me preparando pra dormir, a cara cheia de creme, o cabelo preso num coque torto, o pijama mais velho da minha mala, aquele de ursinho que a minha mãe me deu aos quinze anos, quando bateram n

  • O acordo perfeito   Capítulo 95

    Perto das 11:50h, fechei o notebook, retoquei o batom e subi pro andar da diretoria sem avisar. Queria ver a cara dele quando eu aparecesse.O andar de cima era outro mundo. Carpete grosso, silêncio de igreja, uma recepção de madeira escura onde, atrás do balcão, a assistente pessoal do Antônio digitava num computador com a elegância e uma postura que só se consegue com anos de balé. A mesma moça que eu já tinha visto diversas vezes dando em cima dele. Será que ele já tinha percebido?— Bom dia — falei, parando diante do balcão. — Eu vim falar com o Antônio.— O senhor Antônio está em ligação e pediu pra não ser interrompido — respondeu ela, sem levantar os olhos da tela. — São ordens.Ordens. Eu quase ri.— Tudo bem — respondi, doce. — Eu espero.Encostei no balcão dela, peguei uma caneta do porta-lápis e comecei a girar entre os dedos, devagar, só pra ela ver. Não tinha como não ver. O anel já brilhava sozinho, jogando pequenos arco-íris no tampo de madeira, na tela do computador, n

  • O acordo perfeito   Capítulo 94

    O elevador subiu em silêncio, com aquele zumbido baixo que deixa qualquer tensão mais audível. Antônio ao meu lado, o celular na mão, trabalhando, alheio a tudo, os olhos correndo pelas mensagens como se o elevador fosse uma sala de reunião qualquer. Lucas encostado no fundo, ainda hipnotizado, os olhos presos na minha mão como se o diamante fosse um insulto pessoal. Júlia ao lado dele, de braços cruzados, o queixo erguido, o perfume enjoativo ocupando cada centímetro de ar.O painel marcou o andar dela, e as portas se abriram.Eu achei que ela fosse sair e pronto.Achei errado.Júlia deu um passo à frente e, em vez de contornar o Antônio pelo lado livre, passou rente a ele, esfregando o corpo inteiro no braço dele num movimento tão calculado, tão lento, que ninguém naquele elevador teve dúvida do que aquilo era. Uma provocação. Nem Antônio nem eu olhamos.Ele manteve os olhos fixos na tela do celular, o rosto de pedra, o maxilar tão travado que dava pra ouvir os dentes, o polegar ro

  • O acordo perfeito   Capítulo 93

    Não houve palavra nenhuma depois disso.O primeiro beijo foi quase violento, feito de dias de silêncio, de porta trancada, de mãos que não se tocaram. Ele me colocou de pé no tapete do quarto, e eu já estava com os dedos no cabelo dele, puxando-o pra mais perto, como quem tem medo de que ele evapore. Ele riu contra a minha boca, um riso rouco, desesperado, e me beijou de novo.Nunca tinha sido assim. Antes, havia cuidado, agora era fome. Era a saudade de uma pessoa que estava a dois metros de distância, e que nenhum dos dois sabia como atravessar. Cada beijo parecia ter pressa. Cada toque, urgência. As mãos dele percorriam minhas costas como se precisassem decorar cada pedaço, e as minhas desabotoavam a camisa dele com uma pressa desajeitada, os botões escapando entre os dedos.— Calma — murmurou ele, rindo, a voz quebrada.— Não quero calma — respondi, e o beijei de novo.A roupa foi ficando pelo caminho, um vestido azul, uma camisa preta. O luar entrava pela janela e desenhava o cor

Higit pang Kabanata
Galugarin at basahin ang magagandang nobela
Libreng basahin ang magagandang nobela sa GoodNovel app. I-download ang mga librong gusto mo at basahin kahit saan at anumang oras.
Libreng basahin ang mga aklat sa app
I-scan ang code para mabasa sa App
DMCA.com Protection Status