FAZER LOGINO dia foi corrido, entre reuniões e ajustes urgentes no cronograma do projeto de Alphaville, que tinha ganhado prazos ainda mais apertados desde a chegada de Antônio.
Às dezoito horas, Lucas apareceu na porta da minha sala, já de blazer no braço.
— Vai demorar muito, amor? — perguntou ele.
— Vou, ainda tenho que revisar os ajustes que o Antônio pediu hoje. Acho que levo mais um tempinho.
— Então deixa que eu vou na frente. Preparo aquele risoto de camarão que você adora, deixo tudo pronto, aí você chega só pra comer e descansar.
— Ai, que fofo — sorri, sentindo um carinho genuíno por aquele gesto, mesmo depois de tudo.
— Eu te amo, sabia? — ele se aproximou, beijou minha testa. — Não demora muito, viu.
Ele saiu, e eu voltei aos meus rascunhos, tentando concentrar toda a energia que sobrava do dia naquele projeto. O escritório foi esvaziando aos poucos, as luzes de várias salas se apagando, até restar só o som baixo do ar-condicionado e o clique constante do meu mouse.
Foi quando percebi que não estava sozinha.
Antônio estava encostado no batente da porta da minha sala, os braços cruzados, me observando havia sabe-se lá quanto tempo.
— Precisa de alguma coisa? — perguntei, sem desviar os olhos da tela.
— Só estava vendo até que ponto você ia continuar discutindo sozinha com essa planta baixa. Já contei três "não acredito" e um "isso não vai caber aí de jeito nenhum".
Senti o rosto esquentar na hora. Eu realmente tinha o hábito de resmungar sozinha quando estava concentrada, e não fazia ideia de que ele estava ali ouvindo tudo.
— Eu não tava falando sozinha, eu tava... organizando os pensamentos em voz alta, é diferente — menti, mal disfarçando o constrangimento. — E de qualquer forma, trat... Antônio, não sabia que você estava aqui.
Ele arqueou uma sobrancelha, um sorriso de canto se formando devagar.
— Trat o quê?
— Nada — respondi rápido demais, voltando os olhos pra tela, torcendo pra ele deixar aquilo pra lá.
Ele não deixou. Entrou na sala, sentou na cadeira em frente à minha mesa, sem ser convidado, com aquele meio sorriso enigmático de quem sabia perfeitamente que tinha me pego em alguma coisa, mas resolveu, por algum motivo, não insistir. Ficou ali, observando enquanto eu ajustava as medidas da varanda gourmet, fingindo estar concentrada de novo.
— Você fica tensa quando trabalha — comentou, depois de um tempo. — Franze a testa desse jeito.
— E você fica bem observador pra alguém que devia estar trabalhando também — retruquei, ainda sem tirar os olhos da tela, mas com um meio sorriso escapando.
Ele riu, um risinho curto, quase contra a vontade, como se não esperasse a resposta. Aquilo, de alguma forma, só me deixou mais à vontade também, o clima entre nós ficando mais leve do que eu esperava.
Quando finalmente terminei os ajustes, já passava das vinte e uma horas. Guardei minhas coisas, desliguei o computador e peguei a bolsa. No caminho para a saída, passei pela sala que tinham reservado para Antônio e bati de leve na porta entreaberta para avisar que estava indo embora.
— Terminei — falei, passando por ele. — E olha, ainda sobrevivi ao expediente sem perder o bom humor.
— Vou levar isso em consideração — respondeu, já se levantando, ajeitando o paletó e pegando a própria pasta, como se tivesse decidido, ali mesmo, que também já era hora de ir embora. Seguiu ao meu lado pelo corredor vazio, em direção aos elevadores.
Apertei o botão do térreo, e ele notou, franzindo a testa.
— Você não vai de carro?
— Não hoje. Vou de condução mesmo.
— A essa hora? Sozinha?
— Já fiz esse trajeto muitas vezes, Antônio. Vou ficar bem — respondi, num tom mais leve, ainda tentando entender por que aquela pergunta tinha vindo justamente dele.
— Só perguntei — ele deu de ombros, o rosto voltando àquela expressão fechada de sempre, quando o elevador chegou ao térreo. — Se cuida.
Ele seguiu para a garagem, e eu para a saída, sem trocarmos mais nenhuma palavra. Fiquei parada ali por um segundo, sem saber muito bem o que fazer com aquela frase tão simples e, ainda assim, tão diferente de tudo que eu tinha ouvido de Lucas nos últimos tempos.
Como Lucas tinha ido embora com o carro, peguei o metrô e depois um ônibus até em casa, o trajeto que eu evitava fazer há meses, mas que naquela noite não tive escolha. Fiquei olhando pela janela suja do ônibus, vendo a cidade passar em luzes borradas, pensando no risoto de camarão que ele tinha prometido, imaginando o cheiro que já devia estar tomando conta do apartamento.
Quando abri a porta, encontrei tudo escuro.
Nenhum cheiro de comida. Nenhum som. Só o silêncio de um apartamento vazio.
Fui até o quarto e encontrei a toalha dele jogada em cima da cama, ainda úmida, sinal de que ele tinha tomado banho e saído correndo. Nenhum bilhete. Nenhuma mensagem no celular.
Liguei para ele. Uma vez. Duas vezes. Na terceira, caiu direto na caixa postal.
Sentei na beira da cama, olhando para aquela toalha molhada, sentindo um aperto estranho no peito que eu tentava, mais uma vez, justificar. Devia ter surgido alguma coisa urgente no trabalho. Devia ter esquecido o celular em algum lugar.
Só uma horas depois, quando eu já tinha desistido de esperar acordada, o celular vibrou em cima da cama.
Amor, desculpa, um amigo me chamou de última hora pra resolver uma parada, vou chegar tarde. Dorme, não me espera. Te amo.
Fiquei olhando para aquela mensagem por um bom tempo, sentindo algo que não era exatamente raiva, mas também não era mais aquela confiança cega de sempre. Guardei o celular, apaguei a luz e me deitei, tentando dormir, mas só conseguindo fingir.
Às duas da manhã, ouvi a porta do apartamento se abrir devagar, os passos dele tentando ser silenciosos pelo corredor, o barulho baixo da roupa sendo tirada no escuro.
Fingi estar dormindo.
Senti o colchão afundar quando ele se deitou ao meu lado, o cheiro dele diferente, misturado com um perfume que eu não reconhecia.
E foi ali, deitada no escuro, de olhos fechados, respiração calma demais para ser verdadeira, que uma pergunta começou a se formar dentro de mim, pequena ainda, mas já impossível de ignorar.
Quem é você, Lucas? E onde foi que você esteve essa noite?
Encarei aquele homem que um dia jurou me amar até a morte, e quase cumpriu a promessa ao pé da letra, e senti, pela primeira vez desde que voltei dos mortos, que era eu quem segurava as rédeas daquela história. Não era mais a noiva ingênua que ele afogou num lago. Era a mulher que ressuscitou pra vê-lo se afogar na própria culpa.— Precisamos conversar — repetiu, dessa vez sem nenhuma interrupção pra impedir.— Já disse que não temos nada pra conversar — respondi, tentando passar por ele, mas ele deu um passo lateral, bloqueando parcialmente minha passagem.— Angel, por favor — a voz dele quebrou de um jeito que, meses atrás, teria me derrubado. Agora, só me deixou mais irritada. — Eu sei que fiz coisas erradas, mas você precisa entender que eu também sofri com tudo isso.Ri, uma risada seca, sem nenhum humor por trás, sentindo o sangue começar a ferver dentro de mim.— Você sofreu?! — repeti, incrédula, a voz subindo mais do que eu pretendia. — Você me traiu durante meses, mentiu na
Andei até a frente do salão com passos firmes, cada um deles calculado pra parecer mais seguro do que eu realmente estava por dentro. Cumprimentei Josué primeiro, um abraço rápido e caloroso, que me entregou o microfone antes de dar um passo pro lado. Antônio, que tinha descido do palco minutos antes e ficado discretamente ao meu lado desde então, se aproximou também, o aperto de mão dele profissional demais pra combinar com o jeito como os olhos brilhavam de orgulho disfarçado, e ficou parado ali perto, um apoio silencioso bem na minha frente enquanto eu me virava pra encarar a plateia.Virei de frente pra plateia.O salão inteiro me observava, um silêncio expectante pairando no ar, e foi então que comecei a reconhecer os rostos ali na frente. Renata, boquiaberta, a taça esquecida na mão. Colegas antigos de arquitetura, cochichando entre si, tentando entender como eu tinha ressuscitado bem debaixo do nariz deles sem que ninguém soubesse. E, mais ao fundo, perto do bar, Júlia.Pálida.
Assim que o carro entrou na garagem da empresa, mandei mensagem pro Antônio, o coração acelerando de novo, mas por um motivo bem diferente do de mais cedo.Ele já estava me esperando perto do elevador quando desci, e assim que me viu, parou completamente no meio do próprio movimento, os olhos percorrendo cada detalhe, devagar, sem nenhuma pressa de disfarçar.— Fecha a boca — provoquei, sentindo o efeito que estava causando e adorando cada segundo disso.— Que convencida — ele retrucou, se recompondo rápido demais pra ser convincente, os olhos ainda presos em mim. — Só estou tentando entender como a mulher de pijama e cabelo bagunçado de hoje de manhã virou isso aqui em poucas horas. Começo a pensar que talvez valesse a pena te apresentar como noiva logo hoje, só pra garantir que ninguém mais tenha a louca ideia de se aproximar de você depois dessa entrada.— Exagerado.— Realista — ele corrigiu, se aproximando mais do que o necessário, a voz baixando um tom. — Você está perigosa hoje
Acordei antes mesmo do despertador tocar, o coração já disparado como se meu corpo tivesse decidido, sozinho, que aquele não era um dia como os outros.Fiquei deitada por um bom tempo, olhando pro teto, repassando cada detalhe do que ia acontecer horas depois. O happy hour era só às seis da tarde, mas meu corpo parecia não ter recebido esse recado, porque já estava ali, alerta, tenso, como se o relógio tivesse pulado direto pra hora do confronto sem me avisar.Desci pra cozinha ainda de pijama, o cabelo preso de qualquer jeito, sem nenhuma vontade de fingir que estava tudo bem. Antônio já estava sentado à mesa, terno impecável de sempre, lendo alguma coisa no celular, e assim que ergueu os olhos pra mim, percebeu na hora que aquele não era um dia de brincadeiras fáceis.— Bom dia — falei, baixo, sentando de frente pra ele e puxando a xícara de café que Dona Rosa já tinha deixado pronta.— Bom dia — respondeu, observando meu rosto com atenção, aquele jeito dele de decifrar as coisas se
Assim que chegamos ao prédio da cliente, as recepcionistas se atropelaram educadamente na hora de cumprimentar Antônio, sorrisos largos demais, elogios sobre o terno, uma delas até se oferecendo pra buscar café "especialmente pra ele". Fiquei parada ali, sentindo um ciúme quente e irracional subir pela espinha, encarando cada uma delas com um olhar que definitivamente não era nem um pouco discreto.Antônio, claro, percebeu tudo, e não fez absolutamente nada pra disfarçar o quanto estava adorando aquela situação, um meio sorriso convencido brincando nos lábios o tempo inteiro que durou aquele desfile de gentilezas.— Tadinhas — sussurrei pra ele, assim que as recepcionistas se afastaram. — Mal sabem a personalidade ruim que você tem.— Que foi, amorzinho? — sussurrou, a boca perigosamente perto do meu ouvido, a voz rouca o suficiente pra me arrepiar inteira. — Tá com ciúmes?Ele riu de novo, satisfeito com o próprio efeito, e eu, revoltada com a própria reação corporal, não consegui ar
Terça-feira, dia da entrega oficial do Alphaville. Tínhamos cadastrado os arquivos no Autodoc ainda na noite anterior, mas hoje era o dia da apresentação de verdade, cara a cara com a cliente. Só que, em vez de estar pensando no projeto, ali estava eu, sentada no estacionamento da empresa, o mesmo prédio onde eu trabalhava até pouco tempo atrás, com um medo besta de que alguém conhecido passasse ali por perto e me reconhecesse antes da hora, esperando Antônio descer com Bruna, sentindo um frio esquisito na barriga só de estar tão perto daquele prédio de novo, mesmo protegida pelos vidros escuros do carro.Fiquei pensando no que o Lucas e a Júlia iriam fazer depois de me verem, na quinta-feira, viva, de volta, de mãos dadas com o poder no cargo que o Lucas sempre sonhou em ter. Medo, com certeza iam sentir. Mas o que eles fariam a partir desse medo, isso eu não fazia a menor ideia, e aquilo me apertava o peito de um jeito que eu preferia não examinar demais.Outro pensamento, esse eu t







