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Capítulo 93

Author: A. OLIVEIRA
last update publish date: 2026-10-14 23:21:40

Não houve palavra nenhuma depois disso.

O primeiro beijo foi quase violento, feito de dias de silêncio, de porta trancada, de mãos que não se tocaram. Ele me colocou de pé no tapete do quarto, e eu já estava com os dedos no cabelo dele, puxando-o pra mais perto, como quem tem medo de que ele evapore. Ele riu contra a minha boca, um riso rouco, desesperado, e me beijou de novo.

Nunca tinha sido assim. Antes, havia cuidado, agora era fome. Era a saudade de uma pessoa que estava a dois metros de d
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  • O acordo perfeito   Capítulo 97

    Cheguei cedo na empresa, com os olhos pesados e um bocejo que insistia em escapar toda vez que eu relaxava o maxilar.Eu tinha dormido três horas. A culpa tinha nome, sobrenome e um sorriso safado que, naquela manhã, eu preferi não encarar sobre a mesa do café. Aquela pergunta, "o que vai ser de nós?", ficou no ar no meio da madrugada, sem resposta, repetida em silêncio por dois adultos que tinham medo demais da própria resposta. Saí de casa antes dele acordar, deixando só um bilhete no travesseiro e um beijo na testa que ele provavelmente nem sentiu.Bocejei de novo, no elevador, e pensei, rindo sozinha: "Sabia que o Antônio não ia me deixar dormir."Às dez em ponto, sentei na cabeceira da sala de reuniões, com a pasta aberta, o café na mão e a postura de quem não tinha nenhuma dúvida sobre quem mandava naquele andar. Lucas chegou primeiro, o terno meio amassado, o olhar de quem não dormiu também, mas por motivos bem diferentes. Atrás dele, Patrícia Moura, a líder de interiores, uma

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    A encomenda chegou no fim da tarde, num envelope pardo sem identificação: um gravador do tamanho de um pendrive, desses que parecem carregador de celular. Testei três vezes no banheiro da empresa, gravei a minha própria voz sussurrando "Lucas é um péssimo profissional", ri sozinha e escondi o aparelho no fundo da gaveta da minha sala, pronto pra funcionar. Eu não ia gastar bala à toa. Mas, quando chegasse a hora, a arma estava carregada.Jantei com o Antônio na cozinha, os dois de pé, comendo o que a Dona Rosa deixou no forno e conversando sobre trivialidades com a leveza de quem finge que o resto do mundo não existe. Ele me contou de uma reunião de acionistas, eu contei do olhar do Lucas no elevador, e rimos juntos, e foi tão bom que, por uns minutos, eu me esqueci de ter medo.À noite, eu estava me preparando pra dormir, a cara cheia de creme, o cabelo preso num coque torto, o pijama mais velho da minha mala, aquele de ursinho que a minha mãe me deu aos quinze anos, quando bateram n

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    Perto das 11:50h, fechei o notebook, retoquei o batom e subi pro andar da diretoria sem avisar. Queria ver a cara dele quando eu aparecesse.O andar de cima era outro mundo. Carpete grosso, silêncio de igreja, uma recepção de madeira escura onde, atrás do balcão, a assistente pessoal do Antônio digitava num computador com a elegância e uma postura que só se consegue com anos de balé. A mesma moça que eu já tinha visto diversas vezes dando em cima dele. Será que ele já tinha percebido?— Bom dia — falei, parando diante do balcão. — Eu vim falar com o Antônio.— O senhor Antônio está em ligação e pediu pra não ser interrompido — respondeu ela, sem levantar os olhos da tela. — São ordens.Ordens. Eu quase ri.— Tudo bem — respondi, doce. — Eu espero.Encostei no balcão dela, peguei uma caneta do porta-lápis e comecei a girar entre os dedos, devagar, só pra ela ver. Não tinha como não ver. O anel já brilhava sozinho, jogando pequenos arco-íris no tampo de madeira, na tela do computador, n

  • O acordo perfeito   Capítulo 94

    O elevador subiu em silêncio, com aquele zumbido baixo que deixa qualquer tensão mais audível. Antônio ao meu lado, o celular na mão, trabalhando, alheio a tudo, os olhos correndo pelas mensagens como se o elevador fosse uma sala de reunião qualquer. Lucas encostado no fundo, ainda hipnotizado, os olhos presos na minha mão como se o diamante fosse um insulto pessoal. Júlia ao lado dele, de braços cruzados, o queixo erguido, o perfume enjoativo ocupando cada centímetro de ar.O painel marcou o andar dela, e as portas se abriram.Eu achei que ela fosse sair e pronto.Achei errado.Júlia deu um passo à frente e, em vez de contornar o Antônio pelo lado livre, passou rente a ele, esfregando o corpo inteiro no braço dele num movimento tão calculado, tão lento, que ninguém naquele elevador teve dúvida do que aquilo era. Uma provocação. Nem Antônio nem eu olhamos.Ele manteve os olhos fixos na tela do celular, o rosto de pedra, o maxilar tão travado que dava pra ouvir os dentes, o polegar ro

  • O acordo perfeito   Capítulo 93

    Não houve palavra nenhuma depois disso.O primeiro beijo foi quase violento, feito de dias de silêncio, de porta trancada, de mãos que não se tocaram. Ele me colocou de pé no tapete do quarto, e eu já estava com os dedos no cabelo dele, puxando-o pra mais perto, como quem tem medo de que ele evapore. Ele riu contra a minha boca, um riso rouco, desesperado, e me beijou de novo.Nunca tinha sido assim. Antes, havia cuidado, agora era fome. Era a saudade de uma pessoa que estava a dois metros de distância, e que nenhum dos dois sabia como atravessar. Cada beijo parecia ter pressa. Cada toque, urgência. As mãos dele percorriam minhas costas como se precisassem decorar cada pedaço, e as minhas desabotoavam a camisa dele com uma pressa desajeitada, os botões escapando entre os dedos.— Calma — murmurou ele, rindo, a voz quebrada.— Não quero calma — respondi, e o beijei de novo.A roupa foi ficando pelo caminho, um vestido azul, uma camisa preta. O luar entrava pela janela e desenhava o cor

  • O acordo perfeito   Capítulo 92

    Pensei que ele fosse começar pelas palavras fáceis. Não começou.— Eu amo você — disse, olhando pro volante, como quem confessa um crime. — Mais do que eu devia. Mais do que eu achava que ainda conseguia amar alguém.Meu coração bateu tão forte que eu senti no pescoço.— Mas eu não consigo me imaginar num relacionamento, Angélica. — As mãos dele apertaram o volante até os nós dos dedos ficarem brancos. — Cada vez que eu tento, eu vejo tudo desmoronar antes de começar. Eu sou quebrado. Sempre fui, e quando tentei dar uma chance pro amor, me quebrei ainda mais. Desde então eu só sei fazer uma coisa: me proteger. Eu fujo. Me escondo atrás de reunião, de treino, de silêncio. E você não merece isso. Você merece um homem inteiro, que chegue em casa e te abrace sem pensar duas vezes.Eu podia ter chorado. Podia ter gritado. Mas respirei fundo e fiz o que sempre fiz quando o chão tremia: segurei firme.— Antônio, olha pra mim.Ele olhou.— Eu também te amo.As palavras saíram simples, sem enf

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