Mag-log inO sábado finalmente chegou, e com ele a visita ao salão de festas de Itu, dessa vez com Roberto e Marisa, os pais de Lucas, que tinham feito questão de nos acompanhar. Lucas até que deu uma animada para conhecer o local, disse que "ia ser um dia perfeito", e eu, ainda tentando afastar os pensamentos estranhos que vinham me perseguindo desde a noite do sumiço dele, me agarrei àquela expectativa como quem se agarra a um salva-vidas.
Fiquei feliz por ter os sogros ali, mas por um segundo, enquanto arrumava a bolsa naquela manhã, senti uma pontinha de saudade dos meus próprios pais, lá no interior de Minas, longe demais pra participar desses momentos comigo. Queria muito que eles também pudessem estar presentes em cada passo até o dia do casamento, e não só por ligação de vídeo ou fotos que eu mandava depois.
Chegamos ao local por volta do meio-dia, o sol forte demais pra um dia de outono, o jardim ainda mais bonito do que eu lembrava das fotos. Fomos recebidos por uma mulher chamada Vânia, dona do espaço, que nos levou pelo tour completo enquanto Marisa comentava, encantada, sobre cada detalhe, e Roberto seguia mais quieto, com aquele jeito discreto que eu sempre gostei nele.
Lucas, por outro lado, parecia ter decidido que aquele era o momento de se apresentar ao mundo.
— Sabe, Vânia, eu trabalho como coordenador numa das maiores incorporadoras de alto padrão do Brasil — ele comentou, ajeitando a gola da camisa, com aquele tom de quem estava concedendo uma entrevista. — Estamos fechando um contrato internacional gigantesco agora, o próprio filho do dono veio pessoalmente acompanhar de perto, por conta da minha equipe.
Não era bem assim que as coisas tinham acontecido, mas resolvi não corrigir, sorrindo educadamente enquanto Vânia assentia, impressionada.
— Nossa, que demais! Deve ser um trabalho e tanto.
— Nem imagina — ele riu, se ajeitando ainda mais, como um pavão estufando as penas. — Ontem mesmo resolvi um problema que ninguém mais na empresa conseguia resolver. Às vezes acho que sou o único ali que realmente entende do negócio.
Marisa trocou um olhar orgulhoso com Roberto, e eu apertei os lábios, engolindo o comentário que insistia em subir pela garganta. Aquele projeto de Alphaville, na verdade, era meu, da minha equipe, mas puxar aquele fio ali, na frente de todo mundo, ia soar como ciúme profissional, então preferi deixar quieto, mais uma vez.
No meio da visita à área externa, o celular de Lucas vibrou no bolso. Ele olhou o número, franziu a testa, e se afastou alguns passos.
— Já volto, é do trabalho — disse, andando na direção do jardim mais afastado, perto do lago.
Esperei alguns segundos, fingindo interesse na explicação de Vânia sobre o cardápio de bebidas, e então, sob o pretexto de ir ao banheiro, me afastei devagar em direção ao mesmo caminho que ele tinha seguido, escondendo-me atrás de uma cerca viva alta o suficiente pra me cobrir.
A voz dele chegava alterada, tensa, diferente de qualquer coisa que eu já tivesse escutado antes.
— E você quer que eu faça o quê?? — ele praticamente gritou no telefone, a mão livre batendo no ar, como se a pessoa do outro lado pudesse ver o gesto. — Sair no meio disso agora, sem dar satisfação nenhuma pra ninguém? Não dá, já expliquei minha posição, você tem que entender isso!
Fez uma pausa, ouvindo o que quer que a outra pessoa estivesse dizendo, o rosto vermelho de raiva.
— Não, escuta aqui...
A ligação, pelo visto, caiu, ou a pessoa desligou na cara dele, porque ele ficou parado ali, olhando pro celular por um segundo, respirando fundo antes de guardar o aparelho no bolso com um gesto brusco.
Voltei correndo, o coração disparado, fingindo que vinha do banheiro, e cheguei perto do grupo bem na hora em que ele também retornava, o rosto ainda tenso, tentando disfarçar com um sorriso que não enganava ninguém que prestasse atenção de verdade.
— Tudo bem, filho? — perguntou Marisa, notando a mudança.
— Tudo ótimo, mãe. Só um probleminha bobo do trabalho — respondeu, mas o resto do tour foi diferente. Ele ficou calado, respondendo com monossílabos, o brilho de antes completamente apagado.
Eu não perguntei nada. Fiquei ali, guardando aquela cena por dentro, mais uma peça de um quebra-cabeça que eu ainda não sabia montar.
Depois do tour, fomos todos almoçar num restaurante perto do centro da cidade, uma cantina italiana que Roberto tinha escolhido. O clima foi melhorando aos poucos, ajudado pelo vinho que o garçom trouxe logo no início, e que Lucas foi bebendo taça atrás de taça, num ritmo que me deixou de olho, já que ele que tinha dirigido até ali.
— Amor, você vai dirigir de volta assim? — sussurrei, baixinho, no meio do segundo prato, quando ele já pedia a quarta taça.
— Relaxa, Angel, eu seguro bem — ele riu, passando o braço pelo meu ombro. — E se não der, você dirige, não é? Você é a chefe agora.
Os pais dele riram do comentário, achando graça, e eu ri também, mesmo sentindo que aquilo não era exatamente uma piada, era um plano B disfarçado de brincadeira. Guardei as chaves na bolsa quando ele não estava olhando, já resignada com o meu papel na volta pra casa.
A sobremesa veio, e com ela mais uma taça de vinho, e Lucas foi ficando cada vez mais solto, contando histórias exageradas sobre o trabalho, rindo alto demais das próprias piadas, o tipo de comportamento que eu reconhecia bem quando ele bebia mais do que devia. Marisa contava, orgulhosa, sobre quando ele era criança e já demonstrava ser "o mais inteligente da turma", e Roberto só observava, silencioso, de vez em quando balançando a cabeça de um jeito que eu não sabia se era concordância ou cansaço de décadas ouvindo a mesma história.
Foi no meio de uma dessas histórias, já perto do fim do almoço, que ele se virou pra mim, os olhos meio vidrados pelo álcool, e disse, num tom carinhoso, quase bobo:
— Ju, passa o guardanapo aí pra mim?
A mesa inteira ficou em silêncio por um segundo. Marisa parou de falar no meio da frase. Roberto ergueu os olhos do prato.
Meu corpo travou.
— Como? — perguntei, tentando manter a voz calma, mesmo sentindo o chão se mexer debaixo de mim.
Lucas piscou, confuso, olhando pra mim como se tentasse entender o que tinha acabado de sair da própria boca.
— O quê? Eu não... — ele riu, sem graça, esfregando o rosto com a mão. — Desculpa, amor, confundi com o Juliano, um fornecedor que tenho falado a semana inteira sobre uns acabamentos. Deve ter ficado grudado na cabeça. Esse vinho tá mais forte do que parece.
— Ah, sim... — respondi, forçando um sorriso, passando o guardanapo pra ele, enquanto por dentro alguma coisa gelava devagar, centímetro por centímetro. Não acreditei em uma palavra sequer daquela desculpa, mas não era ali, na frente dos sogros, no meio de um restaurante lotado, que eu ia fazer a cena que aquilo merecia.
Marisa riu, aliviando o clima, comentando algo sobre como o vinho da casa realmente era traiçoeiro, e a conversa voltou ao normal, como se nada tivesse acontecido. Mas eu fiquei ali, sorrindo no automático, sentindo aquele nome martelando dentro da minha cabeça.
Ju.
Não fazia sentido. "Ju" de Juliano seria "Juba", talvez, algo masculino, ríspido, sem afeto nenhum. Mas o jeito como ele tinha falado, aquele carinho automático na voz, era o tipo de apelido que só sai assim, sem pensar, de quem já chamou alguém assim centenas de vezes antes. E definitivamente não parecia carinho reservado pra um fornecedor de acabamentos.
Dirigi de volta pra São Paulo em silêncio, Lucas cochilando no banco do carona, a cabeça encostada no vidro, e eu com as duas mãos firmes no volante, encarando a estrada, tentando não deixar meus pensamentos me tirarem da pista.
Não era mais intuição, nem paranoia, como eu tinha dito pro Antônio dias atrás, tentando amenizar o que já sentia por dentro. Era certeza. A certeza incômoda de quem finalmente parou de se enganar.
Pela primeira vez em semanas, eu não empurrei aquela sensação de volta pra gaveta.
Eu confiei nela.
— Terra chamando Angélica!Renata estalou os dedos na frente do meu rosto, e eu pisquei, voltando pra copa, pro cheiro de café requentado e pro sorriso enorme que ela segurava com muito custo.— Desculpa. Eu estava pensando.— Deu pra perceber. Você fez uma cara de assassina de filme. — Ela olhou pros lados, conferiu que a copa estava vazia e se aproximou de mim, falando baixinho, quase colada no meu ombro. — Mas, por falar em bofe, tem uma coisa que eu e as meninas estamos querendo saber desde cedo.— Que coisa?Ela apontou o queixo pra minha mão esquerda. Eu nem tinha reparado que segurava a xícara de um jeito que deixava o anel exposto, brilhando sob a luz branca da copa.— Esse anel que você começou a usar. Não me diga... — Renata levou as duas mãos à boca, e a voz, que tentava continuar baixa, saiu num sussurro agudo, empolgadíssima. — NÃO ME DIGA!Eu ri. Ri tanto que precisei apoiar a xícara na bancada.— Renata, eu não vou falar nada agora.— COMO NÃO? — sussurrou ela, com os o
Cheguei cedo na empresa, com os olhos pesados e um bocejo que insistia em escapar toda vez que eu relaxava o maxilar.Eu tinha dormido três horas. A culpa tinha nome, sobrenome e um sorriso safado que, naquela manhã, eu preferi não encarar sobre a mesa do café. Aquela pergunta, "o que vai ser de nós?", ficou no ar no meio da madrugada, sem resposta, repetida em silêncio por dois adultos que tinham medo demais da própria resposta. Saí de casa antes dele acordar, deixando só um bilhete no travesseiro e um beijo na testa que ele provavelmente nem sentiu.Bocejei de novo, no elevador, e pensei, rindo sozinha: "Sabia que o Antônio não ia me deixar dormir."Às dez em ponto, sentei na cabeceira da sala de reuniões, com a pasta aberta, o café na mão e a postura de quem não tinha nenhuma dúvida sobre quem mandava naquele andar. Lucas chegou primeiro, o terno meio amassado, o olhar de quem não dormiu também, mas por motivos bem diferentes. Atrás dele, Patrícia Moura, a líder de interiores, uma
A encomenda chegou no fim da tarde, num envelope pardo sem identificação: um gravador do tamanho de um pendrive, desses que parecem carregador de celular. Testei três vezes no banheiro da empresa, gravei a minha própria voz sussurrando "Lucas é um péssimo profissional", ri sozinha e escondi o aparelho no fundo da gaveta da minha sala, pronto pra funcionar. Eu não ia gastar bala à toa. Mas, quando chegasse a hora, a arma estava carregada.Jantei com o Antônio na cozinha, os dois de pé, comendo o que a Dona Rosa deixou no forno e conversando sobre trivialidades com a leveza de quem finge que o resto do mundo não existe. Ele me contou de uma reunião de acionistas, eu contei do olhar do Lucas no elevador, e rimos juntos, e foi tão bom que, por uns minutos, eu me esqueci de ter medo.À noite, eu estava me preparando pra dormir, a cara cheia de creme, o cabelo preso num coque torto, o pijama mais velho da minha mala, aquele de ursinho que a minha mãe me deu aos quinze anos, quando bateram n
Perto das 11:50h, fechei o notebook, retoquei o batom e subi pro andar da diretoria sem avisar. Queria ver a cara dele quando eu aparecesse.O andar de cima era outro mundo. Carpete grosso, silêncio de igreja, uma recepção de madeira escura onde, atrás do balcão, a assistente pessoal do Antônio digitava num computador com a elegância e uma postura que só se consegue com anos de balé. A mesma moça que eu já tinha visto diversas vezes dando em cima dele. Será que ele já tinha percebido?— Bom dia — falei, parando diante do balcão. — Eu vim falar com o Antônio.— O senhor Antônio está em ligação e pediu pra não ser interrompido — respondeu ela, sem levantar os olhos da tela. — São ordens.Ordens. Eu quase ri.— Tudo bem — respondi, doce. — Eu espero.Encostei no balcão dela, peguei uma caneta do porta-lápis e comecei a girar entre os dedos, devagar, só pra ela ver. Não tinha como não ver. O anel já brilhava sozinho, jogando pequenos arco-íris no tampo de madeira, na tela do computador, n
O elevador subiu em silêncio, com aquele zumbido baixo que deixa qualquer tensão mais audível. Antônio ao meu lado, o celular na mão, trabalhando, alheio a tudo, os olhos correndo pelas mensagens como se o elevador fosse uma sala de reunião qualquer. Lucas encostado no fundo, ainda hipnotizado, os olhos presos na minha mão como se o diamante fosse um insulto pessoal. Júlia ao lado dele, de braços cruzados, o queixo erguido, o perfume enjoativo ocupando cada centímetro de ar.O painel marcou o andar dela, e as portas se abriram.Eu achei que ela fosse sair e pronto.Achei errado.Júlia deu um passo à frente e, em vez de contornar o Antônio pelo lado livre, passou rente a ele, esfregando o corpo inteiro no braço dele num movimento tão calculado, tão lento, que ninguém naquele elevador teve dúvida do que aquilo era. Uma provocação. Nem Antônio nem eu olhamos.Ele manteve os olhos fixos na tela do celular, o rosto de pedra, o maxilar tão travado que dava pra ouvir os dentes, o polegar ro
Não houve palavra nenhuma depois disso.O primeiro beijo foi quase violento, feito de dias de silêncio, de porta trancada, de mãos que não se tocaram. Ele me colocou de pé no tapete do quarto, e eu já estava com os dedos no cabelo dele, puxando-o pra mais perto, como quem tem medo de que ele evapore. Ele riu contra a minha boca, um riso rouco, desesperado, e me beijou de novo.Nunca tinha sido assim. Antes, havia cuidado, agora era fome. Era a saudade de uma pessoa que estava a dois metros de distância, e que nenhum dos dois sabia como atravessar. Cada beijo parecia ter pressa. Cada toque, urgência. As mãos dele percorriam minhas costas como se precisassem decorar cada pedaço, e as minhas desabotoavam a camisa dele com uma pressa desajeitada, os botões escapando entre os dedos.— Calma — murmurou ele, rindo, a voz quebrada.— Não quero calma — respondi, e o beijei de novo.A roupa foi ficando pelo caminho, um vestido azul, uma camisa preta. O luar entrava pela janela e desenhava o cor







