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Capítulo 4

Author: A. OLIVEIRA
last update Petsa ng paglalathala: 2026-08-06 05:02:54

Na manhã seguinte, acordei antes do despertador tocar, o corpo ainda tenso da noite anterior. Lucas dormia ao meu lado como se nada tivesse acontecido, a respiração pesada e regular de quem não carrega culpa nenhuma nos ombros. 

Levantei devagar, fui até a cozinha e liguei a cafeteira, mas não fiquei ali. Voltei na ponta dos pés até perto do quarto, o coração batendo forte, e encostei de leve na porta entreaberta do banheiro, onde ele já tinha entrado para tomar banho. O barulho da água caindo era alto demais, abafando qualquer coisa que eu tentasse escutar. Fiquei ali por um minuto inteiro, quase sem respirar, tentando captar alguma palavra, algum nome, qualquer coisa que me desse uma resposta. 

Nada. Só o som da água, e o do meu próprio coração martelando no peito. 

Voltei pra cozinha antes que ele notasse minha presença, servi o café, e quando ele saiu do banho, de toalha na cintura, cantarolando uma música qualquer, me perguntei se eu não estava, de fato, enlouquecendo. Talvez fosse tudo imaginação minha. Talvez eu estivesse tão cansada, tão carente de atenção, que estava inventando fantasmas onde não havia nada. 

O resto da manhã seguiu normal, ao menos por fora. Café, bom dia, e então fomos para o trabalho juntos, no mesmo carro de sempre, mas o trajeto inteiro em silêncio, cada um olhando pela sua janela, sem o papo fácil que normalmente preenchia aqueles vinte minutos de trânsito. Eu não sabia dizer se o silêncio era culpa minha, carregada de suspeitas que eu mesma não conseguia provar, ou se havia alguma coisa pesando nele também. 

Na hora do almoço, decidi sair com as meninas em vez de esperar Lucas, que tinha avisado, num tom qualquer, que ia almoçar com um fornecedor. Escolhemos um restaurante japonês perto do escritório, e mal sentamos, Renata já estava com a boca cheia de assunto. 

— Gente, vocês viram o que aconteceu com a Carol? — ela abaixou a voz, se inclinando pra frente. — Ela descobriu que o namorado tinha um perfil fake no I*******m só pra ficar curtindo foto de outras mulheres. Só descobriu porque instalou um aplicativo espião no celular dele.

— Eu juro que às vezes penso em fazer isso com o meu — comentou a outra colega, mexendo no hashi. — Não que eu desconfie de nada, mas só pra ter certeza, sabe? Tem até uns rastreadores de localização que a gente pode colocar sem o cara nem saber. 

Fiquei ouvindo aquilo em silêncio, mexendo o macarrão no prato, minha mente correndo mais rápido do que eu gostaria de admitir. Pensei na noite do perfume estranho. Pensei na toalha molhada em cima da cama. Fiquei tão perdida em pensamentos que nem percebi o tempo passar. 

— Angel, você tá bem? — Renata acenou a mão na minha frente. — Ficou toda dispersa agora. 

— Tô, desculpa — sorri, sacudindo a cabeça. — Só cansada. 

— Aliás, você nem precisa se preocupar com esse tipo de coisa — disse a colega, sorrindo pra mim. — Você tem sorte, viu? O Lucas é apaixonado por você, dá pra ver de longe. Nem todo mundo tem um homem que ama de verdade desse jeito. 

Sorri de volta, sem saber muito bem o que responder, engolindo aquela informação como quem engole um caroço atravessado na garganta. 

A conversa, então, mudou de rumo, como sempre mudava quando um certo nome entrava em cena. 

— Vocês souberam que a Bianca chamou o Antônio pra sair? — perguntou Renata, já rindo antes de terminar a frase. 

— Não! E aí? 

— Levou um fora educadíssimo. Ele disse que "não misturava as coisas" e saiu andando. A coitada tá evitando o refeitório agora. 

— Personalidade de pedra, viu — falei, rindo, sem me segurar. — Sério, bonito desse jeito e com o carisma de uma porta de geladeira. Um dia desses ele vai sorrir sem querer e vai quebrar o próprio rosto de tão destreinado que deve estar. 

As meninas caíram na gargalhada, e eu ri junto, orgulhosa da piada, até perceber que Renata tinha parado de rir de repente, os olhos arregalados, fazendo um sinal discreto com a cabeça pra trás de mim. 

Virei devagar. 

Antônio estava sentado três mesas atrás, sozinho, um prato de comida japonesa intacto na frente dele, os olhos fixos no celular, mas o corpo virado o suficiente na minha direção pra deixar claro que tinha ouvido cada palavra. 

— Ai, meu Deus — sussurrei, virando de volta rápido demais, sentindo o rosto pegar fogo. 

— Eu avisei, mas você tava muito inspirada pra parar — sussurrou a outra colega, mordendo o lábio pra não rir. 

Terminamos o almoço tentando mudar de assunto, e na saída, ao passarmos pela mesa dele, cumprimentamos Antônio com um aceno meio sem graça, quase rindo, e saímos quase correndo pra rua, feito adolescentes flagradas fazendo alguma travessura. O clima de constrangimento não saiu de perto de mim pelo resto da tarde. 

Fiquei no escritório até mais tarde naquela noite, sozinha na sala de projetos, tentando adiantar o cronograma de Alphaville. Mas em algum momento, entre uma planta e outra, abri uma nova aba no navegador e digitei, quase sem pensar, sem nem admitir pra mim mesma o que estava fazendo: 

"aplicativo para ver mensagens do W******p de outra pessoa".

A tela se encheu de resultados, vídeos, tutoriais, propagandas de aplicativos com nomes suspeitos prometendo acesso total a conversas alheias sem que a outra pessoa soubesse. Fiquei ali, olhando aquilo, o cursor piscando sobre o primeiro link, o dedo pairando sobre o mouse. 

E então me senti péssima. 

Encostei a cabeça nas mãos, sentindo uma vergonha esquisita, misturada com raiva de mim mesma. Eu não devia estar ali, pesquisando aquele tipo de coisa. Eu devia confiar no meu noivo. Era assim que relacionamento saudável funcionava, não era? 

Foi então que percebi um reflexo na tela do notebook, uma silhueta parada bem atrás de mim, alta demais, quieta demais pra ser só impressão minha. 

Levantei os olhos rápido. Antônio estava ali, a gravata já afrouxada, uma pasta debaixo do braço, os olhos fixos na tela, na mesma aba cheia de resultados que eu não tinha tido tempo de fechar. 

— Pesquisando o quê? — perguntou, sem se mexer, sem nenhuma surpresa na voz, como se já soubesse a resposta. 

— Nada — fechei o notebook rápido demais, o que só deixou tudo mais óbvio, o rosto pegando fogo por ter sido flagrada daquele jeito. — Trabalho. 

Ele deu a volta na mesa, sem pressa, e sentou na cadeira de sempre, do outro lado, como se aquilo já fosse um hábito instalado entre nós dois. 

Ele não disse nada. Só ficou ali, me encarando, com aquela atenção quieta que parecia enxergar mais do que eu tinha coragem de admitir em voz alta. 

— Eu confio nele — falei, mais pra mim mesma do que pra ele, quebrando o silêncio que já estava ficando incômodo demais. — É só complicado, sabe? Às vezes a gente sente que alguma coisa não b**e, e não sabe se é intuição ou só paranoia.

Ele continuou calado, só arqueando uma sobrancelha de leve, o que me deixou ainda mais sem graça. 

— Você deve ser confiante desse jeito com tudo na vida — provoquei, tentando fugir do próprio desconforto. — Aposto que nem sabe o que é esse tipo de sentimento. 

— E você deve achar que quem não tem carisma também não tem sentimento — ele retrucou na hora, o canto da boca se levantando devagar. — Foi assim que você me descreveu no almoço, não foi? Porta de geladeira, eu acho que foi essa a expressão. 

Senti o rosto pegar fogo de novo, dessa vez de vergonha e riso ao mesmo tempo. 

— Ai, para — ri, escondendo o rosto atrás das mãos por um segundo. — Desculpa mesmo por aquilo, foi sem noção da minha parte. 

— Relaxa — ele riu também, baixo, quase contra a vontade. — Já fui chamado de coisa pior. 

Ri, sem conseguir evitar, sentindo o clima esquisito da sala se desfazer um pouco. 

— Da próxima vez eu capricho mais — falei, ainda sorrindo. 

— Fico no aguardo — ele se levantou, ajeitando a pasta debaixo do braço, e parou na porta antes de sair, olhando pra trás. — E, Angélica... se um dia essa sensação de que algo não b**e não for embora, confia nela. Intuição raramente erra tanto quanto a gente gostaria que errasse.

Fiquei ali, parada, repetindo aquela frase por dentro, e por mais que doesse admitir, ele tinha razão. Eu vinha ignorando aquele aperto no peito havia semanas, tentando me convencer de que era exagero, de que eu estava sendo injusta com Lucas. Talvez já fosse hora de parar de duvidar de mim mesma.

— Vou indo — ele completou, me tirando dos pensamentos, o tom voltando ao normal. — Já tá tarde, se ajeita aí também, viu?

Ele saiu, deixando aquela frase pendurada no ar da sala vazia, e eu fiquei ali, guardando minhas coisas mais rápido do que faria normalmente, com uma inquietação nova crescendo dentro do peito, diferente de tudo que eu tinha sentido até então.

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