Share

Capítulo 76

Author: A. OLIVEIRA
last update publish date: 2026-09-27 22:56:21

Acordei antes do despertador, o corpo ainda acostumado ao calor que costumava me esperar do outro lado da cama, mas encontrando só o lençol frio, intacto, sem nenhum vinco além do meu próprio. Fiquei ali um instante, encarando o teto, antes de me forçar a levantar e seguir a rotina como se aquilo fosse normal.

Encontrei Antônio na cozinha, já vestido, o café pronto, dois pães na chapa, tudo exatamente como sempre. Ele me deu um beijo na testa quando passei por perto, um "bom dia" carinhoso, os
Continue to read this book for free
Scan code to download App
Locked Chapter

Latest chapter

  • O acordo perfeito   Capítulo 99

    Voltei pro quarto sem lembrar de ter atravessado o corredor. Só percebi que estava lá quando as costas bateram na porta fechada, e o coração, a mil, foi escorregando junto comigo até eu ficar sentada no chão, os sapatos ainda na mão.Beatriz. Dentro do escritório dele. Às nove da noite.A voz dela continuava na minha cabeça, aveludada e autoritária, de quem estava acostumada a ser obedecida. "Não antes de você olhar pra mim e dizer isso de novo."Dizer o quê? Dizer o quê, Antônio?Fiquei ali um tempo, tentando respirar de um jeito que parecesse normal. E o que eu podia fazer? Bater na porta? Entrar de repente, exigindo explicação? Eu não era namorada, era signatária de um contrato na qual ele nunca tinha me prometido nada, pelo contrário, naquela noite no carro ele disse com todas as letras que não quer um relacionamento mesmo me amando. Se eu invadisse aquela sala cobrando satisfação, ia só dar mais motivos para ele me manter afastada.Levantei. Sentei na cama. Levantei de novo. Fui

  • O acordo perfeito   Capítulo 98

    — Terra chamando Angélica!Renata estalou os dedos na frente do meu rosto, e eu pisquei, voltando pra copa, pro cheiro de café requentado e pro sorriso enorme que ela segurava com muito custo.— Desculpa. Eu estava pensando.— Deu pra perceber. Você fez uma cara de assassina de filme. — Ela olhou pros lados, conferiu que a copa estava vazia e se aproximou de mim, falando baixinho, quase colada no meu ombro. — Mas, por falar em bofe, tem uma coisa que eu e as meninas estamos querendo saber desde cedo.— Que coisa?Ela apontou o queixo pra minha mão esquerda. Eu nem tinha reparado que segurava a xícara de um jeito que deixava o anel exposto, brilhando sob a luz branca da copa.— Esse anel que você começou a usar. Não me diga... — Renata levou as duas mãos à boca, e a voz, que tentava continuar baixa, saiu num sussurro agudo, empolgadíssima. — NÃO ME DIGA!Eu ri. Ri tanto que precisei apoiar a xícara na bancada.— Renata, eu não vou falar nada agora.— COMO NÃO? — sussurrou ela, com os o

  • O acordo perfeito   Capítulo 97

    Cheguei cedo na empresa, com os olhos pesados e um bocejo que insistia em escapar toda vez que eu relaxava o maxilar.Eu tinha dormido três horas. A culpa tinha nome, sobrenome e um sorriso safado que, naquela manhã, eu preferi não encarar sobre a mesa do café. Aquela pergunta, "o que vai ser de nós?", ficou no ar no meio da madrugada, sem resposta, repetida em silêncio por dois adultos que tinham medo demais da própria resposta. Saí de casa antes dele acordar, deixando só um bilhete no travesseiro e um beijo na testa que ele provavelmente nem sentiu.Bocejei de novo, no elevador, e pensei, rindo sozinha: "Sabia que o Antônio não ia me deixar dormir."Às dez em ponto, sentei na cabeceira da sala de reuniões, com a pasta aberta, o café na mão e a postura de quem não tinha nenhuma dúvida sobre quem mandava naquele andar. Lucas chegou primeiro, o terno meio amassado, o olhar de quem não dormiu também, mas por motivos bem diferentes. Atrás dele, Patrícia Moura, a líder de interiores, uma

  • O acordo perfeito   Capítulo 96

    A encomenda chegou no fim da tarde, num envelope pardo sem identificação: um gravador do tamanho de um pendrive, desses que parecem carregador de celular. Testei três vezes no banheiro da empresa, gravei a minha própria voz sussurrando "Lucas é um péssimo profissional", ri sozinha e escondi o aparelho no fundo da gaveta da minha sala, pronto pra funcionar. Eu não ia gastar bala à toa. Mas, quando chegasse a hora, a arma estava carregada.Jantei com o Antônio na cozinha, os dois de pé, comendo o que a Dona Rosa deixou no forno e conversando sobre trivialidades com a leveza de quem finge que o resto do mundo não existe. Ele me contou de uma reunião de acionistas, eu contei do olhar do Lucas no elevador, e rimos juntos, e foi tão bom que, por uns minutos, eu me esqueci de ter medo.À noite, eu estava me preparando pra dormir, a cara cheia de creme, o cabelo preso num coque torto, o pijama mais velho da minha mala, aquele de ursinho que a minha mãe me deu aos quinze anos, quando bateram n

  • O acordo perfeito   Capítulo 95

    Perto das 11:50h, fechei o notebook, retoquei o batom e subi pro andar da diretoria sem avisar. Queria ver a cara dele quando eu aparecesse.O andar de cima era outro mundo. Carpete grosso, silêncio de igreja, uma recepção de madeira escura onde, atrás do balcão, a assistente pessoal do Antônio digitava num computador com a elegância e uma postura que só se consegue com anos de balé. A mesma moça que eu já tinha visto diversas vezes dando em cima dele. Será que ele já tinha percebido?— Bom dia — falei, parando diante do balcão. — Eu vim falar com o Antônio.— O senhor Antônio está em ligação e pediu pra não ser interrompido — respondeu ela, sem levantar os olhos da tela. — São ordens.Ordens. Eu quase ri.— Tudo bem — respondi, doce. — Eu espero.Encostei no balcão dela, peguei uma caneta do porta-lápis e comecei a girar entre os dedos, devagar, só pra ela ver. Não tinha como não ver. O anel já brilhava sozinho, jogando pequenos arco-íris no tampo de madeira, na tela do computador, n

  • O acordo perfeito   Capítulo 94

    O elevador subiu em silêncio, com aquele zumbido baixo que deixa qualquer tensão mais audível. Antônio ao meu lado, o celular na mão, trabalhando, alheio a tudo, os olhos correndo pelas mensagens como se o elevador fosse uma sala de reunião qualquer. Lucas encostado no fundo, ainda hipnotizado, os olhos presos na minha mão como se o diamante fosse um insulto pessoal. Júlia ao lado dele, de braços cruzados, o queixo erguido, o perfume enjoativo ocupando cada centímetro de ar.O painel marcou o andar dela, e as portas se abriram.Eu achei que ela fosse sair e pronto.Achei errado.Júlia deu um passo à frente e, em vez de contornar o Antônio pelo lado livre, passou rente a ele, esfregando o corpo inteiro no braço dele num movimento tão calculado, tão lento, que ninguém naquele elevador teve dúvida do que aquilo era. Uma provocação. Nem Antônio nem eu olhamos.Ele manteve os olhos fixos na tela do celular, o rosto de pedra, o maxilar tão travado que dava pra ouvir os dentes, o polegar ro

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status