MasukGabriela
Alguns anos se passaram. Hoje eu completo quinze anos. Meu pai decidiu fazer a maior festa que nossa família já organizou. A casa está cheia de flores, luzes e convidados. Meus amigos já começaram a chegar, mas, entre todas as pessoas que estarão aqui, existe apenas uma que faz meu coração disparar. Ruan. Ele prometeu que viria e disse que tinha um grande segredo para me contar pessoalmente. Nas últimas semanas, quase não respondeu às minhas cartas. Quem mais escrevia era Raquel. Segundo ele, ela estava apaixonada... e era correspondida. Quando perguntei quem era o sortudo, ele apenas respondeu que me contaria hoje. Curiosa como sempre, fiz questão de pedir que ele a trouxesse também. Ele não pareceu muito animado com a ideia, mas acabou aceitando. Afinal, era meu aniversário. Paro diante do espelho e sorrio. Estou linda. Meu vestido caiu perfeitamente, meus cabelos estão presos apenas de um lado, deixando alguns fios moldarem meu rosto, e, pela primeira vez, sinto que pareço uma mulher, não mais uma menina. Hoje será diferente. Hoje vou dizer ao Ruan tudo o que escondi durante anos. Ninguém sabe desse amor. Nem Sabrina, minha melhor amiga. Guardei esse sentimento só para mim, esperando o momento certo. E, se Deus quiser, hoje será o dia em que tudo vai mudar. Talvez esse seja o maior presente que eu poderia ganhar. A porta do quarto se abre de repente. — Gabi! — Sabrina entra praticamente pulando. — Está todo mundo lá embaixo... e tem um rapaz... Meu Deus do céu... ele é lindo demais! Rio da animação dela. — É mesmo? Como ele é? — Loiro, alto, olhos muito azuis... Sério, parece que saiu de um filme! Meu coração sorri antes mesmo de eu responder. — Acho que sei quem é. Ela arregala os olhos. — Você conhece? — Conheço... e talvez hoje eu também apresente meu namorado. Ela leva a mão à boca. — Como assim? Gabriela, que história é essa? Dou uma piscadinha. — Depois eu conto. Respirando fundo, começo a descer a enorme escadaria. Assim que meus olhos encontram Ruan, meu coração acelera. Ele está ainda mais bonito do que nas minhas lembranças. Mais alto, os cabelos loiros um pouco maiores e aqueles olhos azuis continuam sendo capazes de iluminar qualquer lugar. Ao lado dele está Raquel. Ela também mudou. Está linda. Os dois me veem ao mesmo tempo e sorriem. Dou mais alguns passos, pronta para correr até eles, mas alguém surge na minha frente. Diego. Ele caminha lentamente em minha direção. Há algo diferente em seu olhar. Seus olhos verdes brilham de um jeito que nunca percebi antes, e aquele sorriso... Meu Deus... Nunca o vi sorrir assim. Por alguns segundos, esqueço completamente que existem outras pessoas ao nosso redor. Ele estende a mão. Sem pensar, seguro a sua. É como se o tempo simplesmente parasse. Como se existíssemos apenas nós dois. Delicadamente, ele leva minha mão aos lábios. — Você está linda, Gabi... tão linda. Meu coração dispara. O que está acontecendo comigo? Me perco dentro daqueles olhos verdes intensos. Meu rosto esquenta. Minha respiração fica curta. Meu coração b**e tão rápido que tenho certeza de que qualquer pessoa ao redor consegue ouvi-lo. Diego se aproxima lentamente, como se fosse me cumprimentar com um beijo no rosto. Antes que isso aconteça, uma voz firme ecoa atrás de nós. — Gabi... você está espetacular hoje. Meu corpo inteiro estremece. Eu conheço essa voz. Viro-me imediatamente. Ruan. Ele caminha até nós com um sorriso divertido. Olha para Diego e diz, em tom de brincadeira: — Obrigado, nobre cavaleiro... mas daqui eu assumo. Passei tempo demais longe dessa bela dama. Meu coração praticamente salta do peito. Será... Será que ele está com ciúmes? Diego me olha confuso. Dou um pequeno sorriso. — Pode deixar, Di. Sem pensar duas vezes, corro até Ruan. Ele me envolve em um abraço tão apertado que parece sentir a mesma saudade que me consumiu durante todos esses anos. Fecho os olhos por um instante. Era exatamente ali que eu queria estar. — Oi... Você veio... Ele ri baixinho. — Claro que eu viria. Você é minha melhor amiga. As palavras acertam meu peito como uma flecha. Melhor amiga. Sorrio, mas sinto meu coração afundar. Antes que eu consiga responder, uma voz feminina interrompe o momento. — Chega, né? Eu também quero matar a saudade da minha amiga! Raquel. Solto Ruan e a abraço com carinho. Depois das apresentações, apresento Diego e Sabrina aos dois. Percebo, porém, que Sabrina não consegue tirar os olhos de Ruan. Aquilo me incomoda mais do que deveria. Talvez ela só esteja impressionada com a beleza dele. Ou talvez eu esteja vendo coisas por puro ciúme. Ruan segura minha mão. Seu semblante muda completamente. — Gabi... podemos conversar? Preciso te contar uma coisa. Engulo em seco. — Claro. Ele respira fundo antes de completar: — É algo que vai mudar a sua vida. Meu coração dispara. Cada batida parece ecoar dentro do meu peito. Sem dizer mais nada, conduzo Ruan até o terraço, onde o barulho da festa desaparece e ninguém poderá nos interromper. Enquanto caminhamos, uma única pergunta ocupa todos os meus pensamentos. Meu Deus... será que finalmente ele vai dizer que também me ama?Gabriela narrandoEu acordei em uma cama de hospital.Por alguns segundos, não consegui entender onde estava. O teto branco, o cheiro forte de remédio, os aparelhos ao meu lado... tudo parecia distante.Até que uma única coisa veio à minha cabeça.Meu bebê.Levei imediatamente a mão até a minha barriga, ainda plana, e meu coração disparou.Foi quando ouvi a voz preocupada do meu pai.— Filha... você finalmente acordou.Virei o rosto para ele.— Pai... meu bebê?Meu pai me olhou com os olhos cheios de lágrimas.Ele demorou alguns segundos para responder.E naquele silêncio eu senti que alguma coisa estava errada.— Pai, onde está meu bebê?Ele se aproximou da cama, segurou minha mão e respirou fundo.— Filha... você precisa ser forte.Meu coração começou a acelerar.— O que aconteceu?Ele abaixou os olhos.— O bebê não resistiu à queda.Por alguns segundos, eu não consegui reagir.Era como se meu cérebro tivesse se recusado a entender aquelas palavras.— Não...Minha voz saiu quase com
Gabriela narrandoOs dias passaram como um borrão.Eu não conseguia sair de casa. Não conseguia acreditar que minha vida tinha desmoronado daquela maneira. Eu não queria aquele casamento. Tentei explicar isso ao meu pai, tentei dizer que não queria me casar daquela forma, mas ele não me deu ouvidos.Para ele, eu precisava me casar para minimizar os danos que aquela gravidez estava causando.Eu chorava todos os dias.Chorava porque tinha perdido meus sonhos, porque minha vida estava sendo decidida por outras pessoas e, principalmente, porque o homem que eu amava acreditava que eu havia destruído a felicidade dele.Eu amava o Ruan.Talvez fosse justamente isso que tornasse tudo ainda mais doloroso.Eu queria ter escolhido outro caminho. Queria ter feito faculdade, construído minha própria vida e, quem sabe, um dia vivido aquele amor sem precisar esconder nada de ninguém.Mas eu havia cometido um erro.Um único momento tinha mudado tudo.E agora eu teria que arcar com as consequências.S
1Ruan narrando Saí daquela sala destruído. Como isso podia ter acontecido? Como a Gabriela poderia ter deixado tudo chegar àquele ponto? Eu estava com tanto ódio dela que nem sabia o que fazer com aquele sentimento. Mas, acima de tudo, eu não sabia como contaria tudo aquilo para Raquel. Peguei a estrada rumo à cidadezinha onde ela estava. Minha mente era um turbilhão. Como eu poderia me casar com alguém que não amava? Como eu conseguiria olhar para aquela criança e não pensar em tudo o que estava acontecendo? As perguntas se multiplicavam dentro da minha cabeça enquanto eu dirigia. O tempo passou tão rápido que, quando percebi, estava parado em frente à casa de Raquel. Fiquei alguns minutos dentro do carro, encarando aquela porta. Eu sabia que, a partir do momento em que entrasse ali, nada mais seria como antes. Respirei fundo. Criei coragem e apertei a campainha. A porta se abriu. E lá estava ela. Linda como eu jamais conseguiria explicar. O sorriso que surgiu
Ruan narrando Nesse mês, aconteceu muita coisa comigo também. Eu reencontrei Raquel. Quando finalmente ficamos frente a frente, contei que já sabia de tudo. Ela chorou bastante. Disse que estava com medo de que alguma coisa acontecesse com a família dela, principalmente depois de tudo que meu pai havia feito e das ameaças que ele deixou tão claras quando mandou que ela se afastasse de mim. E, pela primeira vez, eu me senti culpado por tudo aquilo que estava causando a ela. Foi por isso que tomei uma decisão. Mandei Raquel para uma cidade onde meu pai jamais conseguiria encontrá-la. Um lugar distante o suficiente para que pudéssemos ficar juntos sem que ele descobrisse. Eu não tive coragem de contar a ela o que aconteceu entre mim e Gabriela. Acho que nunca terei. E talvez Raquel nunca descubra. Gabriela estava indo estudar em outro país e, com toda certeza, também não teria coragem de contar. Afinal, ela e Raquel eram amigas. Então, talvez fosse melhor assim. Bo
Ruan narrando Depois da conversa que ouvi entre o meu pai e o pai da Gabriela, nunca mais procurei por ela. Se ela tinha participado daquela armação para me separar da Raquel, então merecia sentir o meu desprezo. Na minha cabeça, não existia outra explicação. Ela tinha ajudado a planejar tudo, sabia exatamente o que estava acontecendo e, ainda assim, permaneceu ao lado do pai dela. Eu não conseguia aceitar aquilo. Durante dias esperei que o pai dela aparecesse na minha casa para finalmente firmar aquele noivado ridículo que tanto insistiam em empurrar para nós. Achei que chegaria o momento em que eu teria que enfrentar os dois e deixar claro que nunca aceitaria aquilo. Mas os dias passaram... E nada aconteceu. Ouvi uma discussão entre o meu pai e o pai da Gabriela. As vozes eram altas, carregadas de irritação, e depois daquela conversa ele nunca mais voltou à nossa casa. Melhor assim. Talvez finalmente tivessem desistido daquele plano absurdo. Mesmo tentando seguir
Guilherme narrando Desde que perdi a mãe da Gabriela, eu me joguei no trabalho. Perder a mulher da minha vida quase me destruiu. A única coisa que me manteve de pé foi a minha filha. Foi por ela que continuei respirando, por ela que levantei todos os dias e transformei a dor em ambição. Enquanto o luto me consumia por dentro, eu construía um império por fora. Hoje, minha família é uma das mais poderosas do país. Em qualquer lugar que eu chegue, todos sabem quem é Guilherme Albuquerque. Meu nome impõe respeito, mas nenhuma fortuna foi capaz de preencher o vazio que a Jaqueline deixou. Tenho um melhor amigo, Ricardo. Crescemos juntos e, desde muito pequenos, já sabíamos o peso do legado que carregaríamos. Diferente de mim, Ricardo sempre foi um homem frio, fechado e autoritário. Na juventude houve apenas um momento em que ele baixou a guarda. Apaixonou-se por uma camponesa e acreditou que viveria aquele amor. Mas a realidade foi cruel. O pai dele ofereceu uma pequena fortun







