Share

Capítulo 7 - Carla

Author: Lili Marques
last update publish date: 2026-02-24 10:46:56

Eu abri os olhos e levei alguns minutos para conseguir me situar sobre onde estava. Aquele não era o quarto em que costumava dormir nos últimos dois anos. Não eram as cortinas que eu havia escolhido, nem o tecido que costurei. O meu perfume não estava impregnado naquelas paredes.

Até que a realidade do dia anterior me atingiu. Eu não estava na minha casa e aquele não era o meu quarto. Nada era mais como antes.

Me sentei rapidamente, não querendo já começar o dia remoendo a merda em que minha vida havia se tornado. Não ia ficar por ali choramingando e perdendo tempo. Ainda estava viva, e isso era motivo de comemorar.

Mas então meus olhos se moveram para o pé da cama e dei de cara com aquele homem.

— Mas o que… — minhas palavras morreram quando me lembrei da promessa que ele havia feito na noite passada.

"Eu estou aqui. Vou ficar do lado de fora da porta do seu quarto."

John estava dormindo profundamente, com o peito subindo lentamente e atraindo meus olhos para a pele clara e descoberta. Ele parecia um deus grego com todos aqueles quadradinhos perfeitamente delineados no abdômen e o peitoral largo e imponente.

Sem camisa, ele não lembrava um modelo de passarela, mas sim homens que adoravam gastar horas na academia. Senti meus dedos coçarem com uma vontade repentina de tocá-lo, especialmente quando levei meus olhos para baixo, notando como as linhas em forma de V sumiam debaixo do cobertor, escondendo todo o resto.

— Gostando da vista? — a voz dele surgiu do completo nada, me assustando a ponto de perder o equilíbrio e cair em cima de seu corpo. — Não estava olhando de perto o suficiente?

— Você estava acordado o tempo todo? — questionei, franzindo a testa, mas por incrível que pareça não estava irritada com John dessa vez, apenas curiosa.

— Despertei há muito tempo, mas fiquei em silêncio permitindo que você dormisse mais um pouco. Estava tão relaxada enquanto dormia que não quis acordá-la.

Virei meu rosto para o lado, intrigada com como ele podia parecer tão tranquilo e confiante ao confessar essas coisas com tanta facilidade. Assim como na noite passada, ao tentar me acalmar fazendo uma promessa.

— Você é muito bom com as palavras.

Meu cabelo caiu sobre o rosto e rapidamente John ergueu a mão, o enrolando e colocando a mecha atrás da orelha.

— Não sou bom apenas com as palavras, Carla — John falou com um tom bem mais rouco do que há um segundo atrás, e aquilo me fez engolir em seco enquanto minha mente viajava sobre o que ele estaria falando. — Sou ótimo com armas, mais ainda em luta corporal, e consigo me disfarçar com precisão se for preciso.

As palavras dele me fizeram soltar um suspiro e balançar a cabeça em concordância. É claro que ele estava falando de suas habilidades no trabalho. O que eu estava pensando?

— Vocês dois não vão… — ouvi minha mãe no mesmo instante em que a porta se abriu.

Dona Rosa se calou quando seus olhos focaram em nós, antes mesmo que John conseguisse se erguer, me segurando em seus braços e me colocando de volta na cama.

— Mãe…

— Não se preocupem comigo, não vi nada — ela disse sorrindo e fingindo estar envergonhada, mas eu a conhecia bem demais para acreditar.

— Porque não há o que ver, mamãe! — protestei, mas John escolheu esse momento para soltar o lençol, revelando seu corpo coberto apenas pela cueca box preta.

Ele… oh meu Deus, eu tinha estado em cima daquilo um segundo atrás. Foi inevitável pensar nisso quando meus olhos se concentraram no volume que ele ostentava, enquanto apanhava a calça perfeitamente dobrada na poltrona.

— Tem certeza de que não há nada para ver? — minha mãe perguntou, lembrando da sua presença ali e me obrigando a desviar os olhos rapidamente. — Eu vim avisar que sua irmã já chegou e, assim que tomarem café, poderemos ir. Já estou saindo.

Fiquei ali paralisada, encarando a porta e ouvindo o farfalhar das roupas que John colocava atrás de mim, tentando controlar meus pensamentos insanos.

— Quer que eu pegue algo para você? Alguma roupa que deseje colocar antes de irmos? — ele perguntou, parando à minha frente, já completamente vestido, apenas com os sapatos nas mãos. E tudo o que eu consegui fazer foi balançar a cabeça em negação. — Ok. Vou esperá-la na cozinha para tomarmos café. A menos que precise de mim para outra coisa.

— Na… não. — pigarreei, tentando fazer minha voz voltar ao normal. — Desço em um segundo.

John deu uma última olhada no quarto antes de sair, me deixando respirar tranquilamente. O que havia de errado comigo? Estava parecendo fora de mim — e não apenas fora da realidade que eu costumava conhecer. Tudo parecia ter se revirado, até mesmo minha sanidade.

Depois do que pareceu alguns minutos, desci as escadas, já ouvindo o burburinho vindo da cozinha. Todos estavam reunidos, como era de se esperar, conversando e comendo. Mas as risadas cessaram no instante em que pisei dentro da cozinha e os olhares me encontraram.

Minha irmã se levantou, vindo me abraçar já com os olhos cheios de água. De todas nós, ela era a mais sensível, então não fiquei surpresa quando seus braços me apertaram enquanto ela chorava.

— Aquele verme! Como ele pôde fazer isso com você, Car? — falou grudada a mim, me sufocando e começando a me deixar incomodada. — Sinto tanto. Sinto muito que isso tenha acontecido.

Não era o que eu queria para o meu dia. Não queria ouvir sentimentos ou receber pena dos outros. Tudo o que desejava naquele momento era esquecer o que me aconteceu e tentar ter um dia normal.

Em algum momento teria de lidar com toda aquela merda, mas não queria fazer isso agora ou seria sugada para um buraco negro de autopiedade e tristeza.

— Aqui, senhorita — a voz de John muito próxima a nós foi o que fez minha irmã se afastar, me dando um pouco de espaço. — Tome, e podemos ir para a sua reunião.

O encarei sem entender do que ele estava falando. Não havia nenhuma reunião hoje ou essa semana, e eu sequer apareceria no trabalho enquanto meu rosto parecesse ter sido atropelado por uma manada de elefantes.

Mas ele empurrou dois comprimidos para minhas mãos e um copo de suco de laranja na outra. Não me dando escolha.

— É bom ver que tem alguém para cuidar de você, irmã. Mas, se precisar, saiba que estou aqui — ela disse, prestes a colocar as mãos sobre mim novamente, mas se deteve, lançando um sorriso para John antes de voltar para a mesa.

Então entendi. Ele havia intervido para me salvar dela. Mas como sabia exatamente do que eu precisava naquele momento?

— Obrigada. Podemos ir antes que eu me atrase para a reunião.

John me lançou uma piscadela antes de abrir espaço para que me despedisse de todos. Não demorou para estarmos no carro, ouvindo minha mãe tagarelar, enquanto meus olhos se mantinham focados no homem que dirigia para nós duas.

Havia algo que John escondia, e eu podia dizer isso pela sombra em seu olhar. Ele era bem mais sombrio do que deixava transparecer. Mas aquilo estava me deixando intrigada, formando um milhão de perguntas em minha mente.

Foi por essa sombra que ele decidiu se tornar segurança? Ou a parte sombria dele veio junto com o trabalho? O que ele escondia por trás dos olhos azuis perfeitos e do sorrisinho esperto?

— Vou conferir como seu irmão está — a voz da minha mãe me trouxe de volta, me fazendo desviar o olhar do para-brisa e perceber que estávamos na frente da casa dela. — Como será que ele e Magie passaram a noite?

Eu desci, me apressando junto a ela, mais por vontade de fugir dos pensamentos sobre John do que por curiosidade sobre Alejandro. Mas assim que alcançamos o quarto dele e não o encontramos na cama, apenas as muletas jogadas no chão, senti o medo da noite passada me atingir.

— Sequestraram meu filho! — minha mãe exclamou, enquanto eu corria até o banheiro dele apenas para comprovar que não estava ali.

— Ele não foi sequestrado, mãe.

— Onde ele pode ter ido parar? Ele não pode andar, Carla. É claro que só pode ter sido sequestrado! — voltou a gritar, andando de um lado para o outro, impaciente.

Mas me lembrei de Magie. Se ela não estivesse em seu quarto, ainda tinha a esperança de que tivessem saído juntos para dar uma volta.

— Mamãe, se acalma. Ele não foi sequestrado… — falei, abrindo a porta do quarto de Magie e me surpreendendo com a cena à minha frente. — É, acabamos de achá-lo!

— Alejandro! — nossa mãe gritou, colocando a cabeça para dentro e dando de cara com os dois juntos na cama.

A pobre garota despertou com o grito dela e pareceu mais chocada do que minha mãe, arregalando os olhos e erguendo as sobrancelhas loiras.

— Meu Deus! O que vamos fazer agora?

— Não é nada do que estão pensando — meu irmão tentou negar, se levantando mancando e esquecendo que estava apenas de cueca. — Só adormecemos juntos, inocentemente.

— Dá para ver pelas roupas que estão usando. Muito inocente — os provoquei, assim que Magie pulou para ajudá-lo, mostrando estar usando tão pouca roupa quanto ele. Mas eu saí do caminho para que pudessem passar e encontrei John no corredor com um sorrisinho no rosto. — Parece estar se divertindo com isso mais do que eu. O que sabe sobre esses dois?

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • O que você deixou para trás   Epílogo

    DOIS ANOS DEPOISMe encarei no espelho, tremendo mais do que em qualquer outro dia da minha vida. Nem mesmo quando dei à luz Ryan me senti tão nervosa assim. Meu coração batia disparado só de me olhar no reflexo, sabendo exatamente o que estava prestes a acontecer.— Me diga que essa noiva está pronta! — Magie entrou no quarto que ela selecionara especialmente pra mim, sabendo que, se me deixasse junto com todas as madrinhas, mães e tias, eu jamais me arrumaria ou pararia de chorar.— E então, o que acha? — virei-me de frente pra ela, dando uma voltinha pra que conferisse o look por completo.Magie balançou a cabeça de um lado pro outro e suspirou, me deixando ainda mais ansiosa.— Esse é, sem dúvida, o vestido mais lindo que você já fez! Está maravilhosa — como minha dama de honra impecável, ela estendeu um lencinho antes mesmo que as lágrimas rolassem. — Todos vão amar, e John definitivamente vai enlouquecer.Sorri, me sentindo ainda mais eufórica. Meu estômago se revirou, e me forc

  • O que você deixou para trás   Capítulo 55 - John

    Era a primeira vez que Carla ia conhecer meu irmão. Nossa tentativa no casamento de Alejandro, antes que eu pedisse sua mão, já tinha acontecido. Mas isso não significava que Will não a conhecia; ao menos, ele sabia quem ela era de todas as vezes que me pegou vendo imagens dela e do nosso filho.Agora, estavam ali reunidos no mesmo jardim, enquanto comíamos como se fosse um típico almoço de domingo e nós, uma família perfeita.— Dá pra acreditar que aquelas são mesmo as nossas mulheres? — Will me fez desviar os olhos da grelha por um instante, focando nas duas que conversavam animadamente, sentadas à mesa na varanda.— Não dá. Não sei como você conseguiu alguém como Emily — ele ergueu o dedo do meio, mas o sorriso ainda estava lá. — Deveria agradecer pelo milagre.— Eu digo o mesmo, Senhor Reynolds — Will revirou os olhos, odiando meu sobrenome. — Quando você vai voltar a trabalhar comigo? Não vai querer perder a chance de trabalhar pro presidente, né?Nós dois demos risada, porque as

  • O que você deixou para trás   Capítulo 54 - Carla

    Mas, em vez de baixar as calças e me tomar ali mesmo, John puxou meu vestido para baixo e me jogou sobre seus ombros, saindo do banheiro como um homem das cavernas.— Não achou que eu fosse finalmente transar com você depois de dois anos naquele banheiro, achou? — foi o que ele disse ao me colocar sentada em seu carro.— Na verdade, achei sim.— Quero ter meu tempo com você sem correr o risco de alguém atrapalhar, poder fazer minha mulher gritar tantas vezes até que esteja rouca demais — me remexi no banco com a promessa velada. — Não ache que gozar uma vez vai me saciar, oncinha. Tem porra o suficiente pra te cobrir inteira.Engoli em seco e me movi mais uma vez, sentindo minha intimidade nua pulsar. Apertei uma perna contra a outra, tentando aliviar, mas isso só aumentou a fricção, me fazendo soltar um suspiro.— Acho que é melhor devolver minha… calcinha.— Não, eu prefiro ter meu carro preenchido com o cheiro da sua excitação e o banco molhado de tanto você se esfregar contra ele.

  • O que você deixou para trás   Capítulo 53 - Carla

    Deixei escapar um arquejo de prazer ao sentir sua boca contra a minha depois de tanto tempo. John devorou meus lábios, sugou e mordiscou, me provocando, antes de finalmente deslizar a língua contra a minha.Um gemido baixo ecoou de mim, e ele grunhiu, apertando minha cintura e me puxando contra seu corpo. Nada mais à nossa volta existia; só tínhamos nós ali e aquele reencontro.Ele se afastou minimamente, me encarando com aquelas íris azuis quase nulas, tomadas por luxúria. Nossas respirações se misturavam, prolongando nossa ligação, até que o som da música voltou a nos atingir.— Por que fez isso? — minha voz saiu entrecortada pela falta de ar, e ele cobriu meus lábios mais uma vez, num beijo rápido. — Não sinto nada.Um sorriso cresceu em seus lábios, e sua mão em minha cintura desceu perigosamente até minha bunda antes de empurrar meu quadril para a frente, me deixando sentir sua ereção.— Tem certeza de que não sente nada? — perguntou depois de me beijar de novo, sem sequer se afa

  • O que você deixou para trás   Capítulo 52 - Carla

    Duas semanas inteiras era o tempo que eu estava enlouquecendo com John na minha casa todos os dias, sempre ao alcance dos meus olhos, brincando com Ryan, consertando algo ou flertando comigo. Me tirar do eixo parecia ser seu hobby favorito, mas minha resistência estava chegando ao fim— Esse, papai — meu coração ainda errava uma batida sempre que ouvia nosso filho chamá-lo assim.Ryan atravessou a sala, entregando o bloquinho escolhido, e John obedientemente o colocou no lugar, aumentando a torre deles.— E qual é a próxima… — as palavras dele morreram quando seus olhos focaram em mim descendo as escadas. — A mamãe está linda, não é, filho? Onde você vai vestida assim, baixinha?Eu tinha escolhido um vestido preto que deixava meus ombros nus e ia até o meio das coxas, revelando a renda preta da cinta-liga. A meia descia por minha perna, emoldurando-a e dando um ar ainda mais sexy.Ryan bateu palminhas enquanto John continuava a me devorar com os olhos, sem fazer nenhuma questão de esc

  • O que você deixou para trás   Capítulo 51 - John

    Vi o choque estampado no rosto da minha baixinha, e aquilo só serviu para inflar ainda mais meu peito. Como se não bastasse o pedido do meu menino para que eu fosse seu pai, a felicidade que eu sentia era tanta que eu temia acordar e descobrir que tudo não passara de um sonho bom, e que eu ainda estava no mesmo inferno.Não dei tempo para que ela pensasse demais e acabasse pedindo para voltar. Pulei para fora do carro, abri a porta de trás e peguei Ryan no colo antes de ir até ela.— Mamã? — o pequeno chamou, vendo que a mãe continuava paralisada dentro do carro, mesmo quando abri a porta e estendi a mão para ela. — Vamos, mamãe, vamos bincar!Seu pedido pareceu trazê-la de volta dos próprios pensamentos. Ela piscou duas vezes antes de sair do carro, sem aceitar minha mão.Eu podia imaginar o que estava acontecendo naquela cabecinha: Carla não estava sabendo lidar com tudo. Com toda certeza, ela acreditava que eu já teria ido embora a essa altura. Sabia que ela estava agindo assim par

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status