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CAPÍTULO 7: AS REGRAS DO JOGO

Author: Juh Oliveira
last update publish date: 2026-10-21 20:46:14

A claridade da manhã paulistana cortou as cortinas do quarto de Letícia antes mesmo de o despertador tocar. Ela passara a noite inteira rolando de um lado para o outro na cama, com o coração acelerado e a mente revivendo cada detalhe da noite anterior. O hálito quente de Arthur, o perfume amadeirado que parecia ter ficado impregnado em sua pele e, principalmente, a quase colisão de seus lábios no corredor escuro. Era um erro. Tinha que ser um erro. Letícia levantou-se, jogou uma água fria no rosto e olhou-se no espelho, forçando-se a lembrar quem era: uma garota de dezoito anos que, até poucas semanas atrás, não sabia se teria onde dormir. Arthur Montenegro era seu patrão, um homem poderoso e inalcançável. Ela precisava restabelecer as barreiras profissionais antes que fosse tarde demais.

Quando desceu as escadas em direção à copa, encontrou a mansão imersa em sua habitual calmaria matinal. No entanto, ao entrar na cozinha, o impacto foi inevitável. Arthur estava lá, sentado à mesa de mármore, vestindo uma camisa social branca perfeitamente alinhada, mas com a gravata ainda frouxa e as mangas dobradas até os antebraços. Ele lia alguns relatórios no tablet enquanto tomava café preto. Léo estava ao seu lado, concentrado em esmagar um pedaço de mamão com a colher de plástico.

Ao notar a presença dela, Arthur ergueu os olhos cinzentos. Houve um segundo de silêncio absoluto, onde o ar pareceu sumir do ambiente. A tensão da madrugada passada ainda flutuava entre os dois como uma linha invisível e esticada.

— Bom dia, Letícia — Arthur disse, sua voz grave quebrando o transe. Não havia a frieza de antes, mas sim uma intensidade contida que fez as pernas dela fraquejarem de leve.

— Bom dia, Sr. Montenegro. Bom dia, meu lindo — Letícia respondeu, aproximando-se rapidamente de Léo para focar sua atenção no menino e evitar encarar o patrão. Ela limpou a bochecha do garotinho com um guardanapo, ganhando um sorriso banguela em troca. — Vou preparar o leite dele.

— Deixe que a Olga cuida disso por um instante — Arthur interveio, pousando o tablet na mesa e pegando uma pasta de couro preta que estava na cadeira ao lado. — Preciso que venha até o meu escritório. Os diretores da agência e o meu setor jurídico finalizaram a minuta do seu contrato formal. Precisamos assinar os termos antes que eu saia para a holding.

Letícia engoliu em seco, mas assentiu. Era exatamente disso que ela precisava: um lembrete em papel e tinta de que aquela relação era estritamente profissional e comercial. Uma barreira legal para protegê-la de si mesma.

Ela o seguiu pelos corredores silenciosos até o imenso escritório de madeira escura. Arthur fechou a porta atrás de si, restabelecendo a bolha de isolamento que os cercava. Ele contornou a mesa de vidro maciço e deslizou o documento impresso na direção dela, junto com uma caneta de metal pesada.

— Como havíamos acordado no seu primeiro dia, este é um contrato de dedicação exclusiva para a governança infantil e cuidados integrais do Léo — Arthur explicou, adotando uma postura formal, embora seus olhos continuassem fixos nela com uma atenção cirúrgica. — O salário estipulado é exatamente o dobro do padrão de mercado que as agências praticam. Inclui assistência médica completa, moradia e alimentação integral custeadas por mim.

Letícia correu os olhos pelas páginas, lendo os termos jurídicos complexos. Seus olhos se detiveram em uma cláusula específica, destacada em negrito: Cláusula de Confidencialidade Absoluta e Exclusividade de Vínculo. O texto deixava claro que qualquer quebra de sigilo sobre a rotina da família Montenegro ou envolvimento com terceiros resultaria em rescisão imediata e penalidades legais severas.

— É um contrato rígido — Letícia comentou em voz baixa, sentindo o peso da realidade bater em seu peito. — O senhor realmente não confia em ninguém, não é?

Arthur suspirou, recostando-se na cadeira de couro. Por um instante, a armadura do CEO bilionário pareceu vacilar.

— O mundo em que eu vivo é cercado por pessoas que tentam arrancar vantagens de cada fresta, Letícia. A mídia, os concorrentes... todos usariam qualquer detalhe da minha vida pessoal ou do Léo para me atingir. O contrato protege o meu filho. Protege nós dois.

Ele se inclinou para frente, apoiando os antebraços na mesa de vidro e diminuindo a distância entre eles. Seus olhos cinzentos faiscaram com uma honestidade brutal.

— Em termos jurídicos, este papel dita como devemos nos comportar diante do mundo. Mas você sabe, tão bem quanto eu, que nenhum papel impresso neste escritório vai conseguir controlar o que acontece quando as luzes desta casa se apagam e ficamos sozinhos naquele corredor.

Letícia sentiu um calafrio percorrer seu corpo. A caneta parecia pesar quilos em sua mão trêmula. Ela olhou para as cláusulas, para os valores que garantiam que ela nunca mais passaria fome ou moraria na rua, e depois para os olhos cinzentos e enigmáticos do homem à sua frente. Assinar aquele documento significava aceitar as regras do jogo dele. Significava blindar sua vida sob o teto da mansão Montenegro, sabendo perfeitamente que o perigo de se apaixonar pelo seu patrão estava impresso em cada linha implícita daquele acordo. Sem dizer mais nada, ela pressionou a ponta da caneta contra o papel e assinou seu nome na última linha.

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