LOGIN— Thorne, amor, acho que estou bêbada demais para subir as escadas sozinha.
Natasha reconheceu a voz de Terry antes mesmo de se levantar do chão.
Ainda estava no quarto que dividia com Thorne, apertando contra o peito o cachecol manchado de vinho. As risadas vindas do andar inferior chegavam até ela, lembrando-a da humilhação que acabara de sofrer.
— Eu levo você — ofereceu Silas. — Deixe que eu cuide disso.
— Não! — Terry protestou, com uma risadinha manhosa. — Quero que Thorne me carregue. Por favor, querido?
Natasha ficou imóvel, esperando pela resposta do noivo.
— Eu cuido dela, Silas. Fique com os convidados.
Seu coração afundou.
Ela se levantou lentamente e caminhou até a porta, atraída por uma curiosidade que sabia que só lhe traria sofrimento.
Ao espiar pelo corredor, viu Thorne subindo as escadas com Terry nos braços.
A loira estava agarrada ao pescoço dele, a cabeça apoiada em seu ombro. Sussurrou alguma coisa ao seu ouvido, fazendo-o sorrir.
Natasha sentiu uma pontada de ciúmes.
Na noite anterior, aqueles mesmos braços a haviam envolvido com desejo. Thorne a beijara como se não existisse mais ninguém no mundo.
Mas agora era Terry quem recebia sua atenção.
E, ao contrário do que acontecia com Natasha, a ex-namorada não precisava esperar que a porta do quarto se fechasse para receber carinho.
Thorne ergueu os olhos e a encontrou parada no corredor.
— Natasha, preciso que pegue o jogo de cama azul no armário. Terry vai descansar no quarto de hóspedes.
Ela demorou alguns segundos para responder.
— Os lençóis azuis?
— Sim. Os de linho.
Natasha conhecia aquele conjunto. Ela mesma o comprara quando completaram um ano de noivado, imaginando uma noite romântica que jamais acontecera como esperava.
Agora, os lençóis que escolhera para compartilhar com Thorne seriam usados pela mulher que ele nunca conseguira esquecer.
— Natasha? — ele insistiu, impaciente.
— Vou pegar.
Ela voltou ao quarto, deixou o cachecol manchado sobre a cama e limpou discretamente o rosto antes de sair.
Não queria que Thorne percebesse que estivera chorando.
Pegou os lençóis no armário do corredor e seguiu até o quarto de hóspedes.
A porta estava entreaberta.
Thorne acabara de acomodar Terry na cama. A loira mantinha os olhos semicerrados e um sorriso satisfeito nos lábios.
— Você continua sendo um cavalheiro — murmurou Terry.
Thorne ajeitou o travesseiro atrás da cabeça dela.
— Descanse. Amanhã conversamos.
Natasha permaneceu à porta, segurando os lençóis contra o peito.
Aquela atenção tão natural era o que mais a machucava.
Thorne nunca fora incapaz de demonstrar cuidado.
Apenas parecia incapaz de oferecê-lo a ela fora da intimidade do quarto.
— Thorne... — chamou, antes que pudesse se conter.
Ele se virou.
— O que foi?
Natasha hesitou.
— Silas poderia ter trazido Terry. Ele é irmão dela.
Thorne franziu a testa.
— E daí?
— Nada. Só pensei que...
— Terry é minha amiga, Natasha. Não vou deixar de ajudá-la só porque você está incomodada.
Ela sentiu o rosto esquentar.
— Não estou incomodada.
— Então por que está questionando uma coisa tão simples?
Natasha apertou os lençóis.
Como explicar que não era apenas o fato de ele carregar Terry?
Era o sorriso. A delicadeza. A maneira como parecia esquecer completamente que Natasha existia quando a outra mulher estava por perto.
— Esqueça — murmurou. — Não devia ter falado.
Ela se virou para sair, mas sentiu a mão de Thorne tocar seu braço.
— Natasha.
O toque fez seu coração acelerar, apesar de tudo.
— O quê?
Ele a fez virar-se delicadamente e examinou seu rosto.
— Você está com ciúmes.
Não era uma pergunta.
Natasha desviou os olhos.
— Tenho algum direito de estar?
Thorne pareceu surpreendido.
— O que isso significa?
Ela soltou uma risada sem humor.
— Nada. Esqueça.
— Natasha, olhe para mim.
Ela ergueu o rosto.
Por um instante, ficaram tão próximos que Natasha sentiu o perfume familiar dele. O mesmo perfume que impregnava os travesseiros da cama que compartilhavam.
Thorne deslizou a mão até sua cintura e se inclinou.
Seus lábios tocaram os dela.
Foi um beijo breve, firme, mas diferente dos beijos apaixonados que trocavam quando estavam sozinhos.
Não havia urgência nem desejo.
Parecia apenas uma tentativa de encerrar aquela conversa desagradável.
Quando ele se afastou, Natasha continuou imóvel.
— Melhor? — perguntou Thorne.
Ela piscou, confusa.
— O quê?
— Você estava chateada. Achei que isso ajudaria.
Natasha sentiu o peito apertar.
— Você realmente acha que um beijo resolve tudo?
Thorne franziu a testa.
— Não é isso que você quer? Minha atenção?
A pergunta doeu mais do que ela esperava.
Durante três anos, Natasha havia aceitado os momentos de paixão entre eles como pequenas migalhas de um amor que nunca chegava.
Mas, naquela noite, depois de tudo o que acontecera, aquele beijo parecia uma forma de silenciá-la.
— Não, Thorne — respondeu, com a voz embargada. — Não é isso que eu quero.
Ele a observou, sem compreender.
— Então o que você quer?
Natasha abriu a boca, mas as palavras não saíram.
Queria dizer que o amava.
Que desejava ser sua noiva de verdade.
Que estava cansada de receber seus beijos durante a noite e sua indiferença quando o sol nascia.
Mas conhecia o acordo que havia assinado.
E sabia que Thorne nunca lhe prometera nada além daquilo.
— Eu só queria que você me tratasse com um pouco mais de consideração — conseguiu dizer.
Ele suspirou.
— Natasha, Terry acabou de chegar. Não quero transformar isso em uma discussão.
— Eu também não.
— Ótimo.
Thorne soltou sua cintura e se afastou.
Natasha sentiu imediatamente a falta do calor de suas mãos.
Era sempre assim.
Ele se aproximava quando queria, tocava-a quando desejava e depois se afastava como se nada tivesse acontecido.
— Thorne...
Ele parou junto à porta.
— O que foi agora?
Ela respirou fundo.
— Você não pode me beijar como se estivesse cumprindo uma obrigação e depois esperar que eu fique feliz.
Por um instante, Thorne permaneceu em silêncio.
— Eu só estava tentando fazer você se sentir melhor.
— Eu sei — respondeu ela, contendo as lágrimas. — Esse é o problema. Você realmente acredita que isso basta.
Ele passou a mão pelos cabelos, visivelmente impaciente.
— Não sei o que você espera de mim, Natasha.
Ela baixou os olhos.
Talvez essa fosse a resposta que precisava ouvir.
Ele não sabia.
Depois de três anos dividindo a mesma casa, a mesma cama e tantos momentos de intimidade, Thorne ainda não fazia ideia do que ela desejava.
— Não importa — sussurrou.
Thorne a observou por mais alguns segundos.
— Boa noite, Natasha.
Ele saiu, fechando a porta atrás de si.
No quarto, Terry ainda dormia, um sorriso sonolento nos lábios. Natasha olhou para ela, para a beleza perfeita, para a forma como até dormindo, ela parecia vencer.
Natasha se abaixou, pegou os lençóis do chão. Colocou-os sobre a cadeira ao lado da cama, arrumou-os com cuidado. Depois, caminhou até a janela e olhou para o jardim iluminado pela lua.
O beijo ainda queimava em seus lábios. Mas em seu coração, Natasha sabia.
Aquele beijo não significava amor. Era apenas o pagamento de uma dívida.
Olá querida leitura. Me diga se você gostando dessa historia até aqui.
Thorne observava Phillip conversar com os trigêmeos, distribuindo sorrisos e elogios como se fosse um velho conhecido da família. A facilidade com que aquele homem se comportava dentro de sua casa o irritava profundamente. Não bastava ter aparecido sem avisar; agora agia como se tivesse todo o direito de participar da intimidade deles.“Phillip, acho que já ficou tempo suficiente”, disse, interrompendo a conversa.O primo ergueu os olhos, ainda agachado diante de Tomas, e abriu um sorriso.“Já? Mas acabamos de começar a nos conhecer melhor.”“Não quero que continue aparecendo aqui sem ser convidado.”Natasha lançou um olhar discreto para Thorne, mas permaneceu em silêncio. Conhecia o temperamento do noivo e sabia que aquela conversa poderia terminar mal.Phillip se levantou tranquilamente, ajeitando o paletó.“Não preci
“Natasha! Você está ainda mais bonita do que da última vez que nos vimos.”Phillip entrou na mansão Sullivan com um sorriso encantador, segurando um buquê de flores em uma das mãos e uma garrafa de vinho na outra. Aproximou-se de Natasha com a naturalidade de quem visitava velhos amigos, ignorando deliberadamente a expressão fechada de Thorne.“Trouxe estas flores para você. Espero que goste.”“São lindas, Phillip. Obrigada.” Natasha aceitou o buquê, um pouco surpresa com a visita. “Não precisava se incomodar.”“Não é incômodo algum presentear uma mulher bonita.” Ele lhe lançou uma piscadela antes de voltar a atenção para o primo. “E trouxe um vinho para nós dois. Não sei se a marca é boa o suficiente para o seu paladar refinado, Thorne, mas o vendedor garan
Natasha continuava olhando para a intimação quando Thorne entrou no escritório. Ele havia passado a manhã resolvendo assuntos da empresa e parecia disposto a aproveitar alguns minutos com ela antes do almoço, mas seu sorriso desapareceu assim que percebeu a expressão preocupada da noiva.“Aconteceu alguma coisa?”“Recebi uma notícia do Brasil.” Natasha girou o computador em sua direção. “Meu advogado encaminhou uma intimação. Preciso prestar depoimento no processo contra Dante.”Thorne se aproximou e examinou o documento. A simples menção ao nome daquele homem foi suficiente para endurecer sua expressão.“Você vai precisar comparecer pessoalmente?”“Pelo que entendi, sim. Ainda vou conversar com meu advogado para confirmar os detalhes, mas parece que terei de viajar.”“Ent&a
Natasha encontrou Sarah na cozinha, pouco depois do café da manhã. A babá estava organizando algumas frutas para levar ao jardim, onde os trigêmeos brincariam naquela manhã, mas havia algo diferente em seu comportamento. Ela parecia nervosa, distraída, e olhava constantemente para a porta, como se temesse ser surpreendida.“Bom dia, Sarah.”A jovem se sobressaltou, deixando uma maçã escapar de suas mãos. A fruta rolou pelo balcão antes que Natasha conseguisse segurá-la.“Desculpe, senhora Natasha! Eu não ouvi a senhora chegar.”“Está tudo bem. Não precisa ficar tão assustada.” Natasha colocou a maçã novamente na fruteira. “Aconteceu alguma coisa?”“Não, senhora. Está tudo bem.”A resposta veio depressa demais. Natasha observou a jovem com mais aten&cced
O sol parecia decidido a matá-la.Terry caminhava havia horas por uma extensão de terra árida, cercada por elevações rochosas e uma vegetação tão escassa que mal oferecia sombra. O horizonte se estendia diante dela sem qualquer sinal de civilização, e a cada passo compreendia melhor por que seus perseguidores não haviam demonstrado tanto desespero quando ela conseguira escapar.Não precisavam correr atrás dela. A própria região se encarregaria de impedir sua fuga.Eram quilômetros e quilômetros de absolutamente nada.Quando avistou uma árvore solitária, quase chorou de alívio. Arrastou-se até ela e desabou sobre a terra, protegendo o rosto do sol com os braços. Sua garganta estava seca, os lábios rachados e a cabeça latejava de maneira insuportável. Não sabia quanto tempo conseg
Natasha fechou cuidadosamente a porta do quarto das crianças e permaneceu alguns segundos no corredor, em silêncio.Estava exausta.Sarah estava de folga e, embora houvesse outros funcionários na mansão dispostos a ajudá-la, Natasha passara praticamente o dia inteiro cuidando dos três. Sofia parecia ter acordado decidida a testar todos os limites possíveis, Tomas derramara suco no tapete da sala e Theo tivera uma crise de choro porque não encontrava um brinquedo que, no fim, estava embaixo da própria cama.Thorne ajudara quando chegara do trabalho e, antes de se recolher, fizera questão de entrar no quarto das crianças para dar um beijo de boa-noite em cada uma delas.Agora, finalmente, os três dormiam.Natasha só queria um banho e a cama.Ao entrar no quarto, porém, percebeu que não encontraria imediatamente nenhum dos dois.Eleanor