ログインTentei me virar, mas fui impedida pela minha perna que estava imobilizada por um gesso que vinha desde a minha coxa até meu tornozelo.
Jack apertou um botão que fez com que minha cama se levantasse.
— Melhor.
— Sim.
Comecei a olhar melhor o quarto. Havia flores, mais uma cama, poltrona e a TV estava ligada.
Mesmo me sentindo bem, eu queria fechar os olhos porque assim era muito mais confortável. Segui o conselho de minha mãe e tentei descansar mais uma pouco.
Sentia que a cada vez que eu piscava, o processo demorava muito e quando eu voltava a abrir meus olhos eu via que minha mãe e Jack se entreolhavam. A fisionomia de ambos demonstrava o cansaço evidente, porém o olhar de Jack dizia muito mais do que o seu sorriso forçado.
Esse sorriso de Jack me dizia que algo de muito mais sério aconteceu. Sei que pelo fato de eu estar em uma cama de hospital ajuda, e muito, mas pelo que eu consigo me lembrar, ele me deu o sorriso que mais amava nele.
Minha mãe estava mais serena, isso me deixou calma, na realidade eu não conseguia decifrar nenhum dos dois. Como um poderia estar a ponto de explodir e o outro estava em estado de Buda? Isso era algo que martelava minha cabeça o tempo todo. Como estava difícil falar, eu optei pelo silencio e pelo jeito Jack e minha mãe também. Por fim acabei adormecendo.
Acordei, acho que já era de noite, com Jack comendo alguma coisa e digitando no PC. Ele sorriu quando me viu acordada. Eu comecei a chorar. Ele se levantou e deitou ao meu lado. Beijou minha testa e depois minha boca.
— Como você se sente?
— Bem, eu acho. Quero saber o que aconteceu.
— Eu sei. Tenta dormir um pouco mais.
— Quanto tempo eu estou aqui?
— Isso não importa agora.
A realidade me acerta. Eu começo a entrar em um redemoinho gigante onde eu consigo sentir a minha dor novamente. Por instinto eu coloco a minha mão em meu ventre, que já estava aparecendo, e percebo-o reto. A dor me rasga ao meio.
— E nosso filho, Jack?
Sinto sua respiração se acelerar e ele engole as palavras. Beija minha testa.
— Saiba que eu te amo e te amarei para todo o sempre.
— Eu sei, Jack. Quero saber como está nosso filho.
— Vida.
Ele me encara e engole em seco. Seus olhos se enchem de lagrimas. Já traduzi o que seus olhos queriam me dizer desde que acordei naquela manhã. Eu comecei a chorar. Ele me abraçou e senti que ele também chorou. Acho que adormeci de tanto chorar, porque quando acordei meus olhos estavam muito inchados e doloridos.
Jack não estava ao meu lado quando acordei. Ao passar a mão pela minha barriga eu chorei. Ele não estava mais ali, meu filho não estava mais ali. Jack não precisou dizer, ele precisou somente chorar para eu poder entender. Jack entrou no quarto com um copo de café na mão e o PC debaixo do braço e parou onde estava quando me viu chorando. Ele largou tudo o que estava segurando e veio em meu auxilio. Quando deitou ao meu lado, senti seu coração bater tão forte e rápido que eu sabia que ele estava segurando suas emoções para demonstrar o quanto estava sendo forte por nós dois. Depois de um tempo eu me afastei.
— Como você está, Amor?
— Isso não importa agora, Vida. Preocupo-me somente com você.
— Mas eu me preocupo com você.
Ele sorri.
— Ainda bem que a prioridade aqui é você.
— O que aconteceu, Jack?
— Sua voz está bem melhor.
— Você está fugindo da pergunta.
Mais uma vez ele sorri.
— Vamos ter essa conversa, mas não agora.
Eu confirmei com a cabeça porque sabia que por hora eu não saberia de nada.
Minha vida está se resumindo em curtas conversas e a dormir. Toda vez que eu acordava me sentia melhor. Não sonhei mais com aquela pessoa que conversava comigo, na realidade, eu sempre caia no velho abismo de antes, sem sonhos, sem pesadelos, sem nada. Era estranho porque aquilo foi tão real que tenho vontade de perguntar, mas tenho medo da reação dos outros.
Fiquei sabendo que entrei em coma por um mês; quando acordei eu não me lembrava de nada, somente da minha mãe. Fiquei assim por dois dias e os médicos acharam um hematoma que explicava minha falta de memória. Por fim, fiquei mais dois meses indo e voltando. Indo e voltando.
Hoje está se completando quatro meses que estou aqui. Por mais que eu pergunte, ainda ninguém me contou o que ocorreu naquele dia. Por mais que eu diga que estou bem, por mais que eu diga que eu tenho um curativo na garganta dizendo que algo de muito sério me aconteceu, mesmo assim, eles não falam nada.
Fleches do que ocorreu acontecem, mas se confundem com conversas que tive em meus sonhos. Não sei o que é real, se eu vivi aquilo ou somente me contaram. Isso as vezes me sufoca. Como hoje.
— Eu não sou de vidro, eu aguento. Eu preciso saber como foi que perdi meu filho. Eu preciso encerrar esta parte da minha vida, você teve tempo para sarar suas feridas, eu ainda não tive.
Jack me olha tão assustado que penso em recuar, mas eu não quero mais isso. Quero a verdade mesmo que ela doe, porque sei que irá doer.
— Eu não consigo reviver tudo aquilo.
Eu me aproximo e seguro seu rosto. Eu preciso que ele encerre está parte junto comigo.
— Eu estou bem, estou viva. – Pego suas mãos e passo em meu rosto e corpo. – Está vendo? Eu estou viva.
Jack segura meu rosto e junta nossas testas.
— Eu perdi você mais de uma vez. Não quero sentir aquilo novamente.
Eu o havia perdido também.
— Eu também te perdi. – Eu estava chorando e por isso eu precisei respirar. Jack me encarrou e eu vi em seus olhos que me perder foi a pior sensação que ele experimentou. – Eu estou viva.
Jack engole em seco e respira fundo e toca o curativo que tenho na garganta.
— Isso salvou sua vida. Você estava se afogando em seu próprio sangue. – Jack parou de falar e fechou os olhos. — Quando levaram você para o hospital, pensei que o pior tivesse passado. Eu realmente pensei. Mas, então, você parou de respirar. Seu coração parou de bater. — Ele engole em seco, e seus olhos se enchem de lágrimas. — Eu perdi você três vezes em um único mês. Três vezes. E, em todas elas, tive que ficar ali, esperando alguém me dizer se você ainda estava viva.
Meu peito aperta. Não consigo imaginar o que ele passou, muito menos o que deve ter sentido ao me ver naquela situação. Eu queria falar alguma coisa, mas eu não disse nada. Deixei que somente ele falasse.
— Quando finalmente conseguiram estabilizar você, descobriram o hematoma. Você não se lembrava de algumas coisas, não reconhecia outras... e eu não sabia se algum dia voltaria a olhar para mim e me reconhecer. Eu tinha medo de que você nunca mais fosse a mesma. Medo de que, mesmo sobrevivendo, eu tivesse perdido alguma parte de você para sempre.
Eu respiro fundo e ele passa as mãos pelo rosto, tentando conter seu choro. Eu continuava calada, com medo – realidade – de falar qualquer coisa e Jack desistir de contar o restante. Eu não tenho nem flashs do que me aconteceu nesse período. É tudo uma tela preta, sem memorias. Isso me assustava...
— E nosso filho... — Sua voz falha. Ele respira fundo, mas não consegue esconder a dor. — Ele ainda estava vivo, mas a situação também estava ficando cada vez mais complicada. Os médicos precisavam controlar o que estava acontecendo com você e avaliar o que ainda podiam fazer para salvá-lo. Eu ouvi tantas explicações, fiz tantas perguntas... queria que alguém me dissesse que existia outra saída. – Jack balança a cabeça, como se ainda não conseguisse aceitar o que aconteceu. — Eu chorei, briguei, implorei. Pedi que tentassem qualquer coisa. Não queria escolher entre vocês dois. Não queria sequer pensar nessa possibilidade. Mas eu estava vendo você morrer na minha frente e não conseguia suportar a ideia de perder você também. – Ele se cala por alguns segundos. Quando volta a falar, sua voz sai mais baixa, quase um sussurro. — Eu precisava de você. Ainda preciso. Você sabe disso.
Não sei o que dizer.
Como poderia responder a uma dor que também é minha, mas da qual não me lembro? Como poderia consolá-lo por algo que aconteceu comigo, quando nem sequer consigo recuperar as lembranças daquele momento?
Jack soluça, e eu o abraço. Choro com ele, sentindo que, de alguma forma, estamos atravessando aquela tragédia juntos, mesmo que as minhas lembranças não me permitam compreender tudo o que ele viveu.
Eu estava de quatro meses quando perdi nosso filho.
A constatação me atravessa. Quatro meses.
Por quatro meses ele existiu, cresceu dentro de mim e, em algum momento, deixou de existir.
Então, entre todas as perguntas que poderia fazer, escolho a mais dolorosa.
— Onde você o enterrou?
Jack para de chorar por um instante. Ele se afasta devagar, limpa o rosto e se levanta da cama. Jack vai até a janela e enfia as mãos no bolso. Posso ouvi-lo soltando a respiração. Eu engulo as minhas emoções porque entendi que ele não me falaria. Mas ele falou.
— Os médicos precisaram fazer o possível para salvar você. Eu fiquei lá fora, esperando notícias. Quando me disseram que nosso filho não tinha sobrevivido, eu... – Sua voz desaparece. Ele baixa a cabeça e permanece imóvel. Suas costas se contraem e sei que ele está novamente naquele corredor, esperando por uma notícia que pudesse mudar tudo. — Eu não consegui salvá-lo.
Aquelas palavras me fazem chorar ainda mais. Jack respira fundo e volta para a cama.
Choramos juntos novamente. Eu não me sentia completa, mas eu sentia que uma parte de mim estava completa.
Jack segurou meu rosto e beijou cada lagrima que caia. Seus olhos ainda carregam a dor daquele dia, mas sinto que agora ele conseguirá superar assim como eu.
— Eu cuidei de tudo, Vida. Providenciei o sepultamento. Não queria que ele fosse tratado como se nunca tivesse existido. Nosso filho existiu. E eu não ia deixar que o mundo se esquecesse dele.
Sua voz estava tão carregada de sentimentos que não viveríamos com nosso filho que o choro que veio a seguir foi acompanhado de uma dor nova.
A dor que eu estava sentindo era uma mistura de desespero com uma vontade louca de sair correndo; sair gritando; sair brigando, tudo junto. Era uma dor que me resgava em pedaços.
Senti os braços de Jack me sustentando e isso aliviou porque ele também estava nesse barco comigo. Depois de um bom tempo em seus braços eu me afasto.
— Obrigada por tudo.
Ele beija minha testa. Seu sorriso ilumina minha alma que estava escura naquele momento.
— Eu sei que nunca seremos inteiros depois do que passamos, então mandei fazer isso. – Jack vai até o armário que estão suas roupas e quando volta, uma caixinha está em suas mãos.
Eu ainda não sabia como conseguia produzir tantas lagrimas, mas de alguma forma elas estava aparecendo quando eu vi o conteúdo daquela caixa.
— Jack, é lindo.
— Esse pingente é para simbolizar nosso primeiro filho. Você pode colocar na sua pulseira ou colocar em um colar igual ao meu. – Jack tira de dentro da camiseta o seu colar com o mesmo sapatinho rosa que estava dentro da caixinha. — Podemos escolher um nome se você quiser.
Foi ali que reparei que o nosso primeiro filho seria uma menina.
Não havíamos chegado ao um consenso sobre o nome, mas o que eu estava sentindo naquele momento era paz.
Um dos nomes que escolhemos era Olivia. A paz que eu estava sentindo.
— Olivia.
Jack me ajeitou em seus braços e eu repousei minha cabeça em seu peito. Seu coração estava calmo.
— Te amaremos para sempre, nossa pequena Olivia.
Eu olho para cima e ele me beija.
Eu descobri ali que era isso que eu precisava para voltar de vez para este mundo.
Caminhando pelo espaço que se abria para mim, notei que a área de descanso estava exatamente como pedi. Havia uma cobertura de madeira onde as vigas serviam para fixar as redes que eu havia comprado em nossa viagem ao Brasil. De lá poderíamos ficar admirando nossas árvores que o antigo morador cultivou por quase cinquenta anos. Fiquei surpresa quando vi as árvores. Mandei uma mensagem para Jack.“Você manteve as árvores! A resposta dele foi quase imediata.“Lembro-me muito bem do seu argumento. “Os passarinhos estão acostumados com estas árvores, se retirarmos para onde eles irão?” Sor
Assim que Fred entrou no carro eu me pus a sentar na ponta do banco e bati em seu ombro. Vejo que ele me olha pelo espelho retrovisor.— Desculpa por mais cedo.— Ok. Eu entorto a boca.— Você só tem isso para me falar? Ok. E o seu: “desculpa, Rebeca, por ter ligado para o Sr. Foster igual a um fofoqueiro e ter contato que você queria ir ao escritório.” Ele levanta as sobrancelhas.— Quem disse que liguei? Aquilo me pegou de surpresa. Eu começo a tatear meu corpo em busca de alguma escuta.— Jack me grampeou? Vejo confuso nos olhos de Fred.— O quê?— Vamos para a casa da minha mãe, preciso pegar meu celular, mas antes me empresta o seu que preciso ligar para o Jack.
Pedi que Fred me levasse até o escritório. — Não posso levar a senhora lá.— Se não pode, vou de taxi. Passei por Fred feito um foguete. Para a minha sorte um taxi estava encostando ao meio fio e fiz sinal para que ele me esperasse, sabe o que ele fez? Não me esperou. Senti mãos fortes segurar meu braço.— Por favor, senhora. Tentei puxar meu braço, mas ele estava muito bem preso nas mãos de Fred. Se ele acha que a ameaça de mais cedo era da boca para fora, ele estava enganado.— Lembra que falei para você ter mais medo de mim do que do Jack? Então, ou você me leva para o escritório agora ou eu falo para o meu noivo que você tentou me agarrar. – Sinto meu sangue voltar a circular na região onde Fred estava segurando. Eu ajeito meu casaco. – Você vai me levar para o escritório ou não? Sem jeito e quase gaguejando respondeu que sim. Pela postura de Fred, ele devia estar com muita raiva. Peguei pesado? Sim, mas quem ele pensava que e
Um barulho de porta sendo esmurrada podia ser ouvido. Nick entrou em nosso quarto segurando um celular e tampando os olhos.— Espero que vocês estejam vestidos. Walter precisa falar com você urgente. Ele olha para o relógio que estava na cabeceira da cama e solta um palavrão. Ele corre para o chuveiro e de lá grita para Nick.— Avisa que em dez minutos estarei no escritório. Ela transmite o recado.— Ele não gostou muito.- Imaginei. Vai indo na frente e enrola o quanto puder até eu chegar. Ela me mandou um beijou e saiu do quarto. Fiquei sentada na cama vendo Jack correr para se trocar. Achei a cena hilária, porque Jack nunca se atrasava para nada. Olhei para o relógio e vi que eram sete e meia da manhã.— Eu tinha uma reunião às sete horas. Você pode me ajudar com esta gravata? Eu me levanto e o ajudo.— Terminei.— Ok. – Ele me beija rápido. – Juro por Deus que queria ficar e te beijar como você merece, mas estou muito atrasado.
— Quando você tinha esses breves despertares, você não o reconhecia. Só depois que você estabilizou foi que lembrou. Ele ficou sem chão. Achava que isso tudo era culpa dele. Não aguento e o interrompo.— Eu me lembro de ter acordado com ele dormindo ao meu lado. Eu me lembro disso.— Seu quadro se estabilizou naquela noite. – Ele coça a cabeça e olha para a escada, acredito que esperando Jack aparecer e facilitar sua vida. Mas isso não ocorreu. Ele respira fundo e continua. – A verdade é que ensaiamos o que diríamos a você. Como dizer a uma pessoa viva que ela morreu e que foi atestado seu óbito?Uau. Jack falou que eu havia morrido. Como assim? Tudo ficou tão confuso.— Pelo amor de Deus, Kevin. Explica isso direito. Eu não queria entrar em pânico, mas era isso que estava acontecendo. Haviam atestado minha morte?Ele respira fundo e despeja tudo de uma vez.— Você sofreu um ferimento muito sério na cabeça. Os médicos disseram que você teve morte cerebral. Iniciou-se
Eu estava me sentindo em casa, mesmo estando aqui a menos de duas horas. Entendi que minha casa é onde Jack e Nick estão. Vendo a sincronia dos dois em preparar o nosso jantar, constato que era disso que eu estava sentindo falta. Sorrio e isso não passou despercebido.— Gosta do que vê? Nick foi logo quebrando o clima.— Nem comecem com as sacanagens de vocês. Eu tive que gargalhar. Fazíamos isso para provoca-la.— Como você acha que os seus sobrinhos virão?— Pelo correio. Jack estava sério.— Espero que os meus sobrinhos venham pelo correio mesmo. Eu tive que gargalhar. Jack falava sério.— Pelo amor de Deus, Vida. O clima ficou leve e nossa refeição foi regada em provocações e risadas. Mesmo o clima estando leve, percebo que Jack sempre me encara de forma preocupada. Pensei em perguntar, mas imaginei algumas respostas e elas não me agradariam, então resolvi deixar de lado e não estragar nosso







