LOGINO silêncio que reinava na suíte presidencial da nossa cobertura nos Jardins era absoluto, interrompido apenas pelo som suave da chuva fina que começara a cair sobre as vidraças panorâmicas de São Paulo. A agitação do Palacete das Artes e a captura do traidor no mezanino pareciam distantes, como se pertencessem a outra vida.Ainda vestindo o robe de seda preta após um banho demorado, eu estava parada no imenso banheiro de mármore italiano, encarando com as mãos trêmulas o pequeno teste de farmácia sobre a bancada. Dois traços rosados e nítidos brilhavam contra a superfície branca.Um Herdeiro.O meu coração batia em um ritmo descompassado no peito, tomado por um turbilhão de emoções indescritíveis. Aquele não era apenas o fruto da paixão avassaladora e sem trégua que me unia a Arthur; era a fusão definitiva do nosso sangue, o selo inquebrável sobre o império que construíramos juntos.A porta do banheiro abriu-se devagar.Arthur entrou no recinto usando apenas uma calça de moletom cinza
O silêncio no corredor do mezanino era denso, cortado apenas pela respiração desregulada e arquejante de Victor Castel. Preso contra o painel de madeira pela mão colossal de Arthur, o antigo operador de Genebra parecia minúsculo diante da aura devastadora do homem que comandava o Grupo Vance. A taça de uísque escapou de seus dedos trêmulos, chocando-se contra o carpete espesso sem fazer ruído.— Por favor... Sr. Vance... — engasgou Victor, com as pupilas dilatadas pelo terror enquanto tentava inutilmente afrouxar o aperto no seu colarinho. — Eu não... eu não estava agindo sozinho. Eu fui pago para entregar essa mensagem!Arthur aproximou o rosto do dele, a centímetros de distância. Os olhos cinzentos do CEO queimavam com uma intensidade gélida e cruel, sem um pingos de misericórdia.— Pago por quem, Victor? — rosnou Arthur, a sua voz abaixando para um tom grave, vibrante e mortal. — Responda antes que eu decida que a sua vida não vale nem o esforço de manter o meu braço erguido.Ajoel
O retorno ao salão principal do Palacete das Artes não foi uma simples caminhada; foi uma procissão de poder. Ao meu lado, Arthur ostentava a compostura de um monarca inabalável, cuja simples presença fazia com que conversas paralelas cessassem e olhares respeitosos — e temerosos — se voltassem para nós. A fenda do meu vestido vermelho balançava com elegância a cada passo, refletindo a iluminação impecável do lugar, enquanto o meu interior fervia em perfeita sintonia com a fúria fria de Arthur.Segurávamos taças de cristal com champanhe vintage, trocando cumprimentos cordiais e sorrisos milimetricamente calculados com investidores, diplomatas e figuras proeminentes do cenário político. No entanto, por trás da fachada de serenidade, a nossa atenção estava totalmente focada na caçada.— Gabriel na linha de áudio discreta — o ponto eletrônico imperceptível na minha orelha emitiu o som suave e limpo do meu enteado. — Pai, Clara... cruzei o banco de dados dos convidados de honra com a list
A luz quente dos lustres de cristal francês do Palacete das Artes refletia nas taças de champanhe que o garçom carregava com destreza, mas a minha atenção permanecia cravada no envelope prateado que acabara de chegar às minhas mãos de forma misteriosa. A música clássica que ecoava pelo imenso salão parecia ter ficado em segundo plano, abafada pela onda de alerta que subiu pela minha espinha no segundo em que rompi o lacre de cera vermelha.Ao meu lado, Arthur mantinha a sua postura impecável e dominadora. A mão grande e firme dele estava espalmada na minha cintura num gesto automático de pura posse territorial, enquanto os seus olhos cinzentos varriam a multidão da elite paulistana como um predador lendário avaliando cada palmo do seu terreno de caça.— O que diz aí, Clara? — perguntou a voz grave e aveludada do CEO, roçando a minha orelha num tom baixo, calmo e terrivelmente perigoso.Deslizei os dedos pelo papel pesado de alta gramatura, desdobrando o bilhete cuidadosamente antes de
A imponente sala de gala do Palacete das Artes brilhava sob o reflexo dos lustres de cristal francês, mas a minha mente estava a quilômetros de distância daquela atmosfera de ostentação. Enquanto Arthur conversava com um grupo de embaixadores na extremidade do salão, meus pensamentos vagavam inevitavelmente para um nome que há muito tempo parecia apagado dos registros cotidianos da nossa luta pelo poder: Beatriz.A melhor amiga que desaparecera misteriosamente meses antes, deixando um rastro de silêncio e angústia que servira de estopim para eu cruzar o caminho do CEO da Vance Enterprises. No início, a busca por Beatriz fora o meu único norte; depois, a guerra contra o consórcio de Genebra e a Aegis engolira todas as nossas prioridades. Mas o título da nossa história, as lembranças daquela ausência e o vazio que ela deixara continuavam a ecoar em cada canto da minha memória.Enquanto caminhava vagarosamente pela galeria lateral do palacete, observando as obras de arte clássicas que de
O crepúsculo caía sobre São Paulo, tingindo o céu de tons avermelhados e dourados que se refletiam nas imensas torres de vidro da cidade. No interior da nossa suíte de cobertura nos Jardins, o clima era de pura preparação para o grande evento beneficente da Fundação Cultural.Eu estava em frente ao espelho de corpo inteiro do closet, observando o reflexo do vestido de alta-costura que escolhera para a ocasião. Era um modelo longo em tom de vermelho-sangue, de tecido levemente fluido que moldava as minhas curvas com perfeição, ostentando uma fenda ousada na perna e um decote nas costas estruturado com detalhes em pedraria prateada. Meus cabelos estavam soltos em ondas largas e brilhantes, e a maquiagem destacava a intensidade dos meus olhos.A porta do closet abriu-se suavemente.Arthur entrou no recinto, vestindo um smoking preto de alfaiataria impecável, feito sob medida para moldar os seus ombros largos e a sua postura imponente. Os fios grisalhos estavam perfeitamente alinhados, e







