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32 Epílogo

last update Fecha de publicación: 2021-11-24 20:12:46

Depois de tudo o que aconteceu, precisei ficar alguns dias internada no hospital para tratar uma inflamação no estomago causada pelos socos, como estava medicada a maior parte do tempo, não sentia dor, mas a angustia em não poder ver Dylan era o pior. Ele havia passado por cirurgias por cauda das facadas, sua parceira de ação, Hanna, havia me visitado, contando sobre seu estado de saúde que era estável, mas não conseguiu me acalmar.

Mari passava a maior parte do tempo ao meu lado, tendo que ser praticamente expulsa pelos médicos, quando o horário de visita acabava, o que sempre me fazia rir de suas carinhas de cachorro sem dono dela. Meus pais eram outros que sempre estavam por perto, não queria contar para eles sobre o incidente, inicialmente, para não os preocupar, mas depois de um tempo, percebi que seria pior se descobrissem depois.

Tenho feito muito, mesmo estando presa naquele hospital, trabalhei em meu romance, usando como base o manuscrito que fiz na noite de bebedeira, e não demorei a perceber que, na verdade, aquela era a história do que aconteceu com Sharon, que estranhamente, havia ficado legível depois de algum tempo. Era algo extraordinário, sobrenatural para melhor dizer, porém, não era uma surpresa tão grande como poderia ter sido, não depois de tudo o que eu havia presenciado.

Senti comigo mesma que precisava revelar o que havia acontecido na integra, e limpar o nome dela, que infelizmente, acabou sendo mencionada no caso somente como uma das vítimas, que morreu depois de uma overdose. Pelo que os policiais me contaram, Marge – esse era o nome verdadeiro de Sophia – estava envolvida no esquema, e atuava como uma aliciadora, incentivando moças ingênuas a trabalhar transportando drogas.

Não precisei pensar muito para juntas as peças. Ela mesma havia dito que Sharon acreditou em suas mentiras, e ao julgar pela história de vício que havia me contado, pude concluir que deveria ter inventado algo parecido para fazer a moça, e ao ser descoberta, por causa do dinheiro escondido, acabou dando um fim na garota, talvez até enquanto dormia.

Enquanto digitava as ultimas páginas, fiquei me perguntando qual seria a relação dela com Mark, que diferente do que eu pensava, não havia morrido naquela noite, pelo contrário, estava vivo e bem, porém, teria que pagar por seus crimes numa penitenciaria federal, sem a possibilidade de liberdade condicional, e claro, paraplégico para o resto da vida.

Fiquei me perguntando se isso, para ele, não seria pior que a morte.

Quando finalmente sai do hospital, entrei em contato com uma editora para publicar o livro, fiz uma síntese por alto sobre os principais acontecimentos e por ser um caso recente, e ter relatos da mãe de uma das vítimas, tive a proposta aceita, por motivos ruins, mas chegava à finalidade que eu precisava.

Dona Tereza, mesmo muito triste com o luto, me ajudou muito enquanto narrava sobre sua filha e até me deu uma das fotografias de sua filha para anexar, seu rosto foi um pouco embaçado pela equipe técnica a nosso pedido, para que ela não fosse tão exposta, e dentre os matérias, anexei também a foto que havia tirado. Ela chorou muito ao ver a imagem que capturei do espirito de sua filha, pediu para ficar com ela, e aceitei, era como um presente por ter acreditado em mim no fim das contas.

Infelizmente, não pude citar os nomes daqueles homens nojentos – a editora temia ser processada juntamente comigo –, então fui obrigada a apenas deixar adendos sobre o quanto eram poderosos, fazendo questão de mencionar que seus nomes não estavam sendo citados por isso.

Quando cheguei em casa, não havia sinal algum de toda a bagunça que havia acontecido, e pensei comigo mesma que, provavelmente, minha melhor amiga havia tido o cuidado de limpar tudo para que, quando eu retornasse depois da internação, encontrasse tudo como antes. Minha irmã ainda sugeriu que ficaria comigo, mas declinei ao convite pois, ela precisava ficar com sua bebê, e eu estava bem, sem contar que estava uma verdadeira competição para cuidarem de mim.

A verdade era que eu queria ficar um pouco sozinha.

Suspirei, pegando o pacote que havia sido deixado na caixa de correio, sabendo que era uma cópia do meu livro, suspirei rasgando a embalagem e folheei rapidamente as páginas, parando exatamente na página em que havia a fotografia de Sharon, e lágrimas escorreram pelo meu rosto, pingando nas folhas, ainda me sentia triste por pensar que ela estava presa naquele lugar, sem conseguir seguir em paz.

– Por favor, fique em paz... – Murmurei baixinho enquanto o colocava na estante, ouvi um som suave, como um sopro, e olhei para trás com olhos arregalados.

E lá estava ela, tão visível que chegava a ser palpável. Havia um sorriso gentil em seu rosto e estava vestida naquelas mesmas roupas brancas que havia aparecido na fotografia, seu corpo lentamente evaporava no ar, como se estivesse apenas se despedindo, e pude ouvir bem baixinho um agradecimento. Fiquei feliz, sentindo um alivio imenso, era como uma sensação de dever cumprido, suspirei caindo no choro novamente e ainda fiquei alguns minutos apenas me libertando daquele sentimento de angústia que havia sentido por tanto tempo.

No primeiro dia do ano, uma verdadeira alegoria para o meu recomeço, me reencontrei com Dylan, conhecendo inclusive seus pais e irmã, que haviam vindo de outro estado, apenas para vê-lo, ele foi gentil em me apresentar como sua namorada, e fui bem recebida por todos eles, sendo chamada inclusive para passar um fim de semana em sua casa de campo.

Caminhamos um pouco de mãos dadas e suspirei sentindo um forte alivio, era tão bom saber que havíamos sobrevivido, poder respirar o ar puro, sentar na grama ao céu aberto – mesmo que em um pequeno parque no centro da cidade –, estar viva, depois de quase ter morrido, me fazia sentir alegria até nas pequenas coisas.

De repente, minha atenção foi roubada por duas criancinhas que brincavam há alguns metros de distância, elas estavam cantando em uníssono a música “Enquanto houver sol” dos Titãs, e pensei comigo mesma que era uma coincidência perfeita.

– Quando não houver esperança, quando não restar nem ilusão... ainda há de haver esperança... – Cantei baixinho, lembrando da letra que tanto cantávamos com as crianças nas manhãs ensolaradas. – Em cada um de nós, algo de uma criança...enquanto houver sol, enquanto houver sol, ainda haverá...

Dylan de fitou com um sorriso de canto e repousou a cabeça em meu ombro, repetindo a ultima frase, mostrando que também conhecia a mesma música e talvez, estivesse sentindo as mesmas sensações que eu.

Fui tirada dos meus devaneios quando ouvi meu nome sendo chamado, ergui os olhos, e me deparei com Mari acompanhada de seu namorado, ambos vestidos em uma camiseta da mesma cor. Havíamos marcado de nos encontrar num restaurante próximo, não somente ela, mas meus outros novos amigos também, pois, queria apresenta-los meu namorado que, no fim das contas, não era casado.

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