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27 Família...

last update publish date: 2021-11-02 23:22:10

Estar com a família de Christopher fez com que eu pensasse cada dia mais sobre a minha, quando eu cheguei em casa naquele dia, depois de ir para o trabalho, sentei-me no sofá pensando se Noah dormiria na casa do namorado aquela noite. Não conversamos muito, fazemos as tarefas domésticas que separados para cada um, e organizamos as contas, mas tirando isso, quase nunca temos contato.

Fiquei meu celular, tomando coragem para m****r mensagem novamente para o meu irmão, e depois de algum tempo, finalmente mandei uma mensagem para Matteo, perguntando como ele estava, e para a minha surpresa, a resposta foi imediata novamente, dessa vez, fazendo uma ligação.

De repente, como uma epifania, percebi o quanto fui imaturo e cruel, tomando coragem para atenção a chamada, afim de me desculpar corretamente, mas antes, desatei em lágrimas como um idiota.

– Eu percebi que você apagou as fotos com Thomas, vocês brigaram? Matteo questionou sua voz tomando um tom sério, mas percebi que não havia sinal algum de sua voz. – Precisa que eu vá te buscar?

Nesse momento, arregalei meus olhos, percebendo que ele estava associando os meus contatos a exclusão das fotos, que mesmo tendo sido apagadas dias antes, ele só deveria ter visto recentemente já que não costumava usar o f******k, e agora achava que eu precisava de ajuda.

– Nós terminamos... – Respondi, percebendo que caso não contasse, a situação somente ficaria mais cheia de mal-entendidos. – Faz dois meses na verdade, estou morando com um colega da faculdade, então não precisa se preocupar.

– E você só me conta isso agora? Matteo questionou, agora parecendo irritado. – Está precisando de dinheiro? Espera, vou fazer um depósito...

– Não precisa... eu ‘tô’ trabalhando! Quase gritei alarmado, não queria dar mais prejuízo para ele, ainda mais financeiro. – Por favor, acalme-se, eu ‘tô’ bem... tanto que finalmente me senti seguro para falar com você.

Ele ficou em silencio quando ouviu minhas palavras, então, decidi continuar.

– Desculpe-me por ter sido um babaca... – Pedi tentando não chorar novamente pois, sentia que precisava tratar aquela situação da forma mais madura possível, para mostrar a ele que enfim, eu me encontrei na vida. – Fui muito imaturo e deveria ter te ouvido quando tentou me dar conselhos.

– Posso dizer que avisei, ou ainda ‘tá’ cedo? Matteo questionou em tom de brincadeira, parecia estar tentando quebrar o clima tenso que estava se formando entre a gente. – É. Eu sei, mas isso está no passado agora, aliás, você disse que está fazendo faculdade?

– Sim, eu prestei vestibular para Arte Moderna... – Expliquei.

– Parabéns! Matteo exclamou, parecendo sincero e sua voz tomou um tom de animação. – E pode me parabenizar também pois, serei o futuro médico da família...

– Medicina? Questionei surpreso, nunca havia imaginado que fosse essa a área que ele queria, sendo que sempre pareceu tão relapso nos estudos, mais interessado em tocar guitarra e entrar numa banda.

– Porque a surpresa? Ele retrucou em tom de reclamação. – Até a mãe concorda que tenho mãos de cirurgião...

– Tem razão, você tem a precisão cirúrgica... – Concordei enfim, deixando de lado meus preconceitos, e sorri feliz por ele. – Parabéns!

– Lembra da Mariana? Matteo questionou, e mesmo sem que eu concordasse, continuou seu relato, narrando o que acontecia com seus antigos colegas de sala, mesmo que eu não soubesse exatamente quem eram. – Ela também prestou para medicina, ficou em segundo lugar, e conseguiu uma bolsa muito boa.

– E o Antony? Perguntei, lembrando que eles sempre andavam juntos.

– Ele ‘tá’ cursando administração, disse que vai herdar a empresa da família porque dá menos trabalho... – Ele explicou rindo, como se lembrasse de alguma situação engraçada, a qual não me contou pois, parecia mais interessado em tagarelar sobre a namorada. – A Mona, sem nenhuma surpresa, ‘tá’ cursando psicologia, quer tratar a loucura da prima.

Ri com seus comentários, percebendo que no fim, todos estavam seguindo seus próprios objetivos, tomando suas decisões, e pensar nisso, me incentivou a me esforçar também.

– Em que você ‘tá’ trabalhando? Ele questionou de repente, mudando de assunto.

– Em um estúdio de desenho, tipo webtoons... – Expliquei lembrando-me que na infância, eu até havia pensado em seguir essa área, mas desanimei por não me achar bom o suficiente.

– Você voltou a desenhar? Matteo perguntou, sua voz tomando uma expressividade diferente, algo que não consegui identificar, mas que parecia nostalgia. – Faz tempo que não vejo um desenho seu, podemos nos encontrar e você me mostra teu portfólio, o que acha?

E então, chegamos aquele ponto da conversa. Era óbvio que em algum momento, ele iria sugerir isso novamente, porém, dessa vez, sentindo-me mais confiante, percebi que já não sentia mais ansiedade em responder.

– Quando você terá tempo? Perguntei fitando meus pés descalços, gostando da sensação de tocar o chão frio.

– Posso te buscar agora, ‘tô’ indo para casa... – Matteo sugeriu e pude ouvir o som característico de chaves balançando, mostrando que ele estava se preparando para sair.

Engasguei com a pergunta, surpreso com o rumo da conversa, porém, respirei fundo, dizendo a mim mesmo que conseguia fazer aquilo, e então, voltei minha atenção a Matteo.

– Sim, eu agradeço... – Murmurei, dizendo a mim mesmo que precisava fazer aquilo, em seguida, me levantei para ir tomar um banho.

– Pronto, manda o endereço por mensagem de texto então... – Matteo respondeu gentilmente, e depois de alguns minutos em silencio, disse algo que me surpreendeu. – Estou orgulhoso de você, Michel.

Agradeci e quando a ligação foi encerrada, chorei novamente, libertando todos os sentimentos presos em meu âmago, sendo que o mais expressivo deles era o alívio.

Quando ele chegou, quase meia hora depois, recebi um abraço tão caloroso que senti minhas costelas estalando, sorri tentando retribuir e então, lhe mostrei o pequeno apartamento, explicando que morava com um violoncelista. E somente quando ele se certificou de que o lugar era seguro, entramos em seu carro, para seguir o plano anterior.

Na sala de entrada, nosso pai nos esperava, sentado em sua poltrona, lendo um livro com seus costumeiros óculos de grau, e ao me ver, arregalou seus olhos escuros, erguendo-se para vir em minha direção, foi o abraço mais carinhoso que trocamos desde a minha infância.

– Barbara, Michel está aqui! Exclamou afastando-se um pouco para me fitar melhor, e sorriu como sempre fazia quando eu era criança. – Sentimos muito a sua falta.

Minha mãe surgiu na porta da cozinha secando as mãos em um pano de prato, seus olhos marejando e logo, correu em minha direção, dando-me mais um abraço. Em seguida, olhou para Matteo como se agradecesse por ele ter me trazido, e rapidamente, aquilo virou um abraço coletivo que me fez chorar ainda mais pois, nunca pensei que seria recepcionado daquela forma.

– Podem me ajudar a preparar a mesa? Minha mãe questionou secando as lágrimas, seus olhos ainda presos em mim como se estivesse se certificando que não fosse uma alucinação. – Melhor não deixar o jantar esfriar, fiz ensopado e é melhor quentinho.

Matteo e eu concordamos, e a seguimos, seguindo seus comandos como fazíamos quando éramos crianças. Fui encarregado de colocar a louça sobre a mesa enquanto meu irmão iria ajudar com as travessas, e lembrei que, na infância, eu não pegava nada pesado ou acabaria derrubando porque era muito estabanado.

Quando me sentei à mesa, ao lado de Matteo, e com meus pais sentados em cada extremidade, percebi que estávamos na mesma posição em que sempre nos dispomos, passávamos pratos e talheres uns para os outros enquanto comentávamos sobre o cheiro dos alimentos, tão naturalmente que não parecia ter acontecido nada, e aquele sentimento de conforto e acolhimento somente aumentou quando meu pai voltou sua atenção a mim.

– E então, o que tem feito?

Era uma pergunta simples, mas dizia muito pois, estava me dando espaço para escolher o que falaria sobre mim, podendo omitir o que não me sentisse confortável para contar. Dentre os meus pais, ele era o mais centrado, o que melhor reagiu à minha sexualidade, e talvez, por ser professor, tinha uma mente mais aberta, até mesmo quando precisava nos punir.

– Estou estudando Arte Moderna, e trabalhando num estúdio de desenho... – Contei, começando pela melhor parte, sorri fraquinho esperando por sua opinião.

– Parabéns! Ele elogiou sorrindo e estendeu a mão, pedindo meu prato para colocar o purê de batata que estava mais perto dele. – Conheço alguns professores da área, posso pegar alguns livros emprestado para você...

– Obrigado... – Murmurei sorrindo também, e meus olhos voltaram a marejar. – E, por favor, me desculpem por ter sido um filho tão ruim.

– Não guardamos magoa alguma de você... – Minha mãe revelou me surpreendendo, e meu pai balançou a cabeça, concordando com ela. – Mas se te preocupa tanto se redimir, pode começar voltando para casa pelo menos de vez em quando.

– Sim, senhora! Respondi sério, prometendo a mim mesmo que ajudaria de todo modo que pudesse, nem que fosse ajudando nossa funcionária a fazer faxina.

Ela concordou satisfeita e me sorriu, colocando suco em meu copo, fazendo o mesmo com Matteo, como se quisesse evitar que sentíssemos ciúmes um do outro.

Enquanto comíamos a sobremesa, continuei sendo bombardeado de perguntas, contei sobre meus novos amigos, de como estava morando com um colega violoncelista, o relacionamento que estava se desenvolvendo, tentando mostrar que eu finalmente havia me encontrado, com a ajuda não só profissional da psicóloga, mas também de amigos verdadeiros que estavam me fazendo muito bem.

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