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9 Abrindo os olhos...

Penulis: Srta. Arthemis
last update Tanggal publikasi: 2021-08-11 05:34:11

Michel...

Apertei os joelhos contra o peito e deitei a cabeça sobre eles, era claro que algo estava errado e por mais que eu teimasse em não querer reconhecer, meu subconsciente me lembrava isso. Principalmente, desde ontem à noite, quando Thomas cancelou nossos planos de ir ao cinema, mal consigo me comunicar com ele.

– Quer pizza? Mari questionou irrompendo pela porta da cozinha e vindo em minha direção, em uma de suas mãos, segurando um prato com fatias de pizza requentadas no micro-ondas.

– Não. Obrigada! Murmurei voltando minha atenção novamente ao meu celular, me questionando porque ele não respondia.

Suspirei mandando uma interrogação e fiquei ainda mais ansioso ao perceber que as barrinhas azuis de visualização estavam desativadas, minha garganta se apertou e senti meus olhos ardendo enquanto pensava que pelo menos para mim, ele poderia visível.

– Ele ainda não respondeu? Ela questionou fazendo uma expressão incomoda, claramente com pena de mim. – Eu sei que você gosta de dele, mas...

Mari fez uma longa pausa, mordendo o lábio inferior parecendo estar decidindo entre continuar ou não aquela conversa, e como eu não disse mais nada, ela respirou fundo, sentindo-se obrigada a me contar a verdade, pegou seu próprio celular, abrindo o I*******m e sentou-se ao meu lado.

– Não posso mentir para você! Exclamou ficando mais séria.

Em seguida, abriu os status de seus amigos, mostrando-me que entre eles, estava uma postagem de Thomas, sorrindo enquanto ostentava uma garrafa longneck de cerveja. A foto havia sido postada poucos minutos antes, depois que eu havia mandado a primeira mensagem, e ele disse estar trabalhando.

– Por que isso não aparece no meu? Questionei baixinho, mesmo que já soubesse a resposta, e sem conseguir tirar meus olhos daquela imagem.

– Porque ele nos bloqueou, Michel... – Ela explicou soltando um longo suspiro, fechou a tela, colocando o celular no sofá e voltou seus olhos em minha direção, fitando-me com aquele mesmo semblante angustiado. – Esse é o meu perfil fake que uso para stalkear...

            Senti um nó se formando em minha garganta enquanto os olhos marejavam, tentei não chorar, mesmo parecendo impossível, e senti os braços de Mari rodeando meus ombros, tentando me consolar, mas apenas me senti mais miserável. Chorei alto agarrado à blusa dela, e soluçando como se o mundo estivesse se despedaçando à minha volta.

            De repente, toda a melancolia se transformou em ódio, senti raiva de mim mesmo por ter sido tão idiota e por ter acreditado em suas palavras tão facilmente. Lembrei-me de todas as vezes que tentaram me advertir, das discussões com a minha família, com meu irmão, e a raiva apenas aumentou.

            Soltei a blusa de Mari – a moça que facilmente havia se tornado minha melhor amiga –, e ergui os olhos fitando-a com seriedade enquanto secava as lágrimas que ainda molhavam meu rosto. Agradeci por seu carinho na tentativa de me consolar, e me ergui, enfiando o celular e a carteira no bolso da calça.

– Eu vou comprar uma cerveja... – Murmurei sem conseguir olha-la, e tentei evitar que a minha voz soasse muito fanha. – Preciso esfriar minha cabeça.

– Não vá fazer uma besteira! Mari exclamou puxando-me pelo braço, e me fitou com suas sobrancelhas franzidas. – Nem sabemos onde é essa festa!

– Não se preocupe, eu não vou fazer um barraco! Respondi tentando lhe sorrir, e acariciei a mão que me segurava, soltando seu leve aperto. – Só preciso andar um pouco.

Ela não concordou, assim como eu já esperava.

Então praticamente tive que fugir de sua casa, caminhando pelas ruas um tanto sem rumo. Eu não bebia, então foi óbvio para ela que minha intensão não era aquela, porém, fico feliz por acreditar em mim e não tentar me impedir. Olhei ao redor, procurando por algum lugar que vendesse algo forte o suficiente para tomar um “porre” e como o bairro era pequeno, logo avistei uma loja de conveniência que ficava próximo da casa de Mari.

Não ficava muito longe, por isso fui andando mesmo, usando aquele tempo para refletir sobre o que estava acontecendo em minha vida e imaginei quais eram as minhas opções do que seria mais sensato a se fazer na situação.

Entrei na pequena loja, ouvindo as músicas ambiente que tocavam ao fundo, percebendo que se tratava de Céu Azul de Charles Brown Jr. E antes que percebesse, fiquei com um trecho especifico na cabeça, mesmo depois que a faixa acabou e começou outra canção sertaneja de algum autor que desconheço.

– “Alguém te perguntou como é que foi seu dia?” Cantei baixinho, acompanhando o ritmo lento e melancólico assim como a minha vida. – “Uma palavra amiga, uma notícia boa, isso faz falta no dia a dia... a gente nunca sabe quem são essas pessoas.”

Suspirei levando as mãos aos bolsos enquanto caminhava pelos corredores, olhei ao redor, procurando por um frízer, e o encontrei próximo à parede que ficava depois da última prateleira. Aproximei o rosto, franzindo as sobrancelhas ao perceber que só tinha cerveja puro malte – que não gosto –, e torci o nariz, desistindo da ideia.

Ergui os olhos em direção às prateleiras onde ficavam as bebidas destiladas e procurei por alguma forte o suficiente para me causar um “porre”, notei uma garrafa chamativa de vodca, e xinguei mentalmente o maldito funcionário que colocou as mercadorias tão alto enquanto saltitava como uma gazela, e depois de algumas tentativas frustradas, acabei desistindo.

            No fim das contas, ainda reclamando aos quatro ventos, peguei duas barras de chocolate, e me encaminhei para o caixa. No momento de pagar, percebi que tinha apenas uma nota de valor alto, e enquanto esperava a moça “lenta” do caixa conferir a veracidade, arregalei os olhos ao lembrar do ambiente em que Thomas postou os stories.

            Eu conhecia aquele lugar, e sabia mais ou menos onde ficava. Agradeci rapidamente, pegando o restante do dinheiro e praticamente corri para fora da loja, tentando ligar para alguém que pudesse me dar uma carona, mas como não consegui, acabei seguindo a pé mesmo.

            Quando finalmente cheguei em frente ao condomínio, estava exausto, a respiração ofegante e os joelhos trêmulos. Eu conhecia aquele lugar porque ele havia sugerido para virmos alguns dias antes, na área comum havia uma grande piscina onde faziam eventos de verão com música ao vivo e open bar, um lugar perfeito para se divertir em casais ou grupos de amigos.

Parado em frente aos portões de madeira pintada de branco, por um momento, meu corpo estagnou no lugar, e fiquei com medo do que veria a seguir.

– Não podem ficar saindo o tempo inteiro só porque querem... – Um homem musculoso e de voz grave, que parecia um segurança privado, questionou surgindo de repente com um semblante irritado. – Cadê a sua pulseira?

Era óbvio que ele estava me confundindo com algum cliente, e percebi rapidamente que poderia ser a minha única chance quando o vi abrindo os portões, me deixando entrar indiscriminadamente. Fiquei um tempo ainda indeciso, pensando no que veria caso o fizesse, porém, depois de ver a expressão de poucos amigos do homem, decidi entrar antes que perdesse a oportunidade.

Caminhei pelo gramado fresco e úmido, sentido meus joelhos tremendo ao passo em que me aproximava do que parecia ser uma área de piscina. Quando me aproximei o suficiente para ver de perto a situação, minha garganta se apertou e quase tive outra crise de choro ao ver o rapaz – que deveria ser meu namorado – sentado na borda da piscina, bebendo e rindo com seus amigos.

Em seu colo, havia um rapaz de pele bronzeada, era jovem e tinha cabelos escuros, o total oposto da minha aparência, ele parecia estar bêbado, mas seguia bebendo com aquele irresponsável que, ao invés de cuidar dele, estava mais interessado em encher a cara.

Agora que eu já não via Thomas com os “olhos do amor”, percebia o quanto poderia ser podre por dentro, apesar de sua bela aparência, assim como uma verdadeira víbora. Era assustador pensar que, em momento algum, eu pude visualizar isso.

            De onde eu estava, perto das churrasqueiras, eu sabia que eles não poderiam me ver. Peguei meu celular e disquei seu número, observando como ele parecia irritado com aquilo, depois de algumas tentativas, resmungando, erguendo-se e caminhou em direção as cadeiras de madeira onde estava uma toalha com o brasão do curso de medicina – que eu havia dado a ele –, secou as mãos e começou a responder minha ligação com mensagens de texto.

Claro que não poderia atender por causa da música alta.

“– Desculpe-me por não responder, estou no trabalho ainda, meu chefe ‘tá’ pegando no meu pé.” – Ele digitava sem o menor resquício de carinho em seu rosto, havia apenas irritação e parecia estar me respondendo somente porque não queria receber mais ligações.

            Não respondi suas mensagens, não tinha estômago para isso. O fitei coçar a nuca parecendo confuso, mas esse gesto não durou muito tempo pois, logo, deu de ombros, tornando a pegar sua garrafa de cerveja, bebendo-a despreocupado.

Senti uma vontade absurda de quebrar algo nele, de gritar que era um imbecil incapaz de sentir ao menos a consciência pesada depois de mentir tão descaradamente. Meus olhos voltaram a marejar, e me vi fazendo um grande barraco, estapeando-o enquanto gritava pouco me importando com os outros convidados, mas não tive coragem. Na verdade, a única coisa que conseguia fazer naquele momento era chorar.

– Michel? Uma voz desconhecida chamou meu nome.

 Virei-me tentando limpar as lágrimas que teimavam em escorrer e quase gritei ao me deparar com o mesmo rapaz que estava sentado sobre o colo de Thomas minutos antes, abri a boca surpreso, mas não consegui pronunciar nenhuma palavra.

Muitas coisas passavam pela minha cabeça, vários questionamentos, porém, o mais importante naquele momento e que me fez ferve de raiva, foi saber que ele me conhecia, um óbvio sinal do quanto Thomas não me respeitava, me tratando como se eu fosse apenas mais um de seus amantes.

– Você me conhece? Perguntei, sentindo vontade de perder toda a compostura e agarrar seus cabelos escuros, bater sem me importar com mais nada.

 Apertei as mãos com força, trincando os dentes e o encarei engolindo o choro por puro ódio. Estava prestes a questionar que tipo de desculpa ele daria para seu relacionamento com meu namorado – ou quem achei que fosse –, mas tive minha linha de raciocino interrompida quando o moreno abriu um sorriso que dizia o quanto estava animado em me conhecer, e o motivo certamente não era bom.

– Nas fotos você parece mais bonito! Ele desdenhou rindo histericamente enquanto virava mais um gole de sua cerveja, depois disso calou-se parecendo pensar um pouco e como eu fiquei em silencio, ele continuou seu monologo.

– Deixa eu me apresentar... – Murmurou tropeçando nas próprias pernas enquanto tentava estender a mão esquerda em minha direção, em um cumprimento forçado. – O meu nome é Théo!

            Pode ser prepotência minha, ele poderia ter feito aquele gesto por ser destro, porém, vê-lo trocar a cerveja de mão apenas para me cumprimentar com a esquerda, me fez pensar que seu proposito era me mostrar a aliança idêntica a minha, para esfregar na minha cara o quanto era “especial” para Thomas.

Aquele filho da put* havia comprado um trio de alianças, e com certeza havia dado as outras duas para nós fazendo as mesmas juras de amor. Para piorar, esse tal de Théo sabia da minha existência, o que deixava tudo mais complicado, fazendo com que eu não conseguisse arrumar a bagunça d e pensamentos que se formava em minha mente.

“– Quantos mais amantes ele tem?” Questionei para mim mesmo, sentindo meu ego inflar de tanta raiva, minha vontade era de esganá-lo.

– Acha mesmo que isso tem alguma importância? Questionei arrancando a aliança que estava em meu dedo anelar e o fitei fixamente enquanto a segurava. – Isso, é apenas um objeto fútil que não significa mais nada, espero que faça bom proveito dele.

Em seguida, sorri com tristeza, jogando a aliança no chão enquanto sentia as lágrimas escorrendo livremente em um misto de raiva, rancor e libertação.

Théo me fitou sem reação por alguns minutos, com os lábios entreabertos como se não soubesse mais o que iria dizer, e antes que pudesse me dizer qualquer coisa, seus olhos recaíram às minhas costas de onde podíamos ouvir uma voz conhecida.

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