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5-Um tempo que assusta.

Author: CaHostins
last update publish date: 2026-07-23 00:45:32

O silêncio da casa incomodava mais do que o barulho do restaurante.

Laura fechou a porta atrás de si e encostou por alguns segundos, ainda com a bolsa no ombro, como se não soubesse exatamente o que fazer a seguir.

Era estranho.

Não tinha pedidos para entregar.

Não tinha ninguém chamando seu nome.

Não tinha pressa.

Ela caminhou lentamente até a cozinha, abriu a geladeira sem muita vontade e fechou logo em seguida. Sentou no sofá, pegou o celular… largou. Levantou. Sentou de novo.

— O que eu faço agora? — murmurou, olhando ao redor.

A resposta não veio.

Porque, pela primeira vez em muito tempo, ela tinha algo que sempre quis… mas não sabia usar:

Tempo.

Depois de alguns minutos de inquietação, pegou o celular novamente e ligou para Ana.

— Amiga, você tá trabalhando ainda? — perguntou assim que a ligação foi atendida.

— Tô sim, por quê? Aconteceu alguma coisa?

Laura soltou um suspiro.

— Eu tô… perdida.

Houve um pequeno silêncio do outro lado.

— Como assim?

— Eu tô de férias — respondeu ela, como se aquilo explicasse tudo. — E eu não sei o que fazer. Parece ridículo, né?

Ana riu baixo, mas com carinho.

— Não é ridículo. É só triste.

Laura fez uma careta, mesmo sabendo que a amiga não podia ver.

— Obrigada pelo apoio.

— Ei — continuou Ana — fica tranquila. Deixa eu sair do trabalho que eu passo aí. A gente janta juntas e conversa, tá?

Laura hesitou por um segundo… e então sorriu.

— Tá bom.

Depois que desligou, ficou alguns segundos parada no meio da sala.

Então, quase por instinto, caminhou até a cozinha.

Se tinha algo que ela sabia fazer… era aquilo.

Abriu a geladeira novamente, mas dessa vez com outro olhar. Separou alguns ingredientes simples, colocou uma panela no fogo e começou.

Cortar.

Temperar.

Misturar.

Os movimentos eram naturais, quase automáticos — mas, ali, no silêncio da própria casa, havia algo diferente.

Não era pressão.

Não era correria.

Era… escolha.

O cheiro começou a se espalhar pelo ambiente, trazendo uma sensação inesperada de conforto.

Laura parou por um instante, observando o que estava preparando.

— Faz tempo que eu não cozinho pra mim — murmurou.

E aquilo, de alguma forma, doeu.

Quando a campainha tocou, ela já estava finalizando os últimos detalhes.

— Pode entrar! — gritou, limpando as mãos no pano de prato.

Ana entrou, olhando ao redor… e logo sentiu o aroma no ar.

— Meu Deus, você cozinhou?

Laura deu um leve sorriso.

— Alguma coisa eu tinha que fazer, né?

— Eu sabia que você não ia conseguir ficar parada — respondeu Ana, rindo.

Sentaram-se à mesa, e, entre uma garfada e outra, a conversa fluiu com facilidade.

Laura contou tudo.

O cansaço.

A vontade de sair.

O medo.

A sensação de estar parada enquanto o tempo passava.

Ana ouviu com atenção, apoiando o queixo na mão.

— Sabe qual é o seu problema? — disse, depois de um tempo.

— Medo de tudo?

— Também — respondeu Ana, sorrindo. — Mas principalmente… você esqueceu do que gosta.

Laura ficou em silêncio.

— Você vive tanto pros outros que nem lembra mais o que te faz feliz.

Aquilo bateu fundo.

— E o que eu faço então?

Ana se ajeitou na cadeira, animada de repente.

— Viaja.

Laura franziu a testa.

— Viajar?

— É! — continuou Ana. — Você sempre falou que amava o mar. Lembra? Que queria conhecer lugares diferentes, sentir aquela paz…

Laura deu um leve sorriso.

— Eu falava isso mesmo…

— Então pronto! — disse Ana, batendo palmas leves. — É isso. Suas férias. Uma viagem.

Laura olhou para ela, ainda meio insegura.

— Sozinha?

— Sozinha — confirmou Ana. — Às vezes é exatamente o que a gente precisa.

O silêncio que veio não era dúvida.

Era possibilidade.

— Pra onde eu iria? — perguntou Laura, quase em um sussurro.

Ana pegou o celular na mesma hora.

— Caribe.

Laura arregalou os olhos.

— Você tá louca?

— Não! — respondeu, já pesquisando. — Olha isso aqui… praias lindas, água azul, clima perfeito…

Laura se aproximou, curiosa.

Uma imagem apareceu na tela.

Mar infinito.

Céu aberto.

Paz.

Algo dentro dela se acendeu.

— É bonito… — murmurou.

— É mais do que bonito — disse Ana. — É o tipo de lugar que muda a gente.

Laura ficou alguns segundos em silêncio.

Depois respirou fundo.

— Vamos ver passagens.

As duas passaram horas ali, pesquisando, comparando preços, olhando hotéis, rindo de possibilidades que antes pareciam distantes demais.

E, pela primeira vez, Laura não pensou no trabalho.

Não pensou no cansaço.

Não pensou no medo.

Pensou no agora.

— Fechei — disse, olhando para a amiga, com um misto de surpresa e empolgação.

Ana abriu um sorriso enorme.

— Eu sabia!

Laura riu, ainda sem acreditar completamente.

— Eu vou pro Caribe.

E, naquele momento, sem saber…

Ela não estava apenas comprando uma passagem.

Estava mudando o rumo da própria história.

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